• Percival Puggina
  • 17/04/2021
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A INCINERAÇÃO ELETRÔNICA DOS VOTOS

 

Percival Puggina

 

A forma como se desenvolve uma eleição não é questão instrumental, meramente técnica. É parte essencial do rito democrático.

No final dos anos 80 e início dos 90, fiscalizei locais de votação e mesas de apuração de votos. Mobilizavam-se milhões de pessoas em todo o país para operarem as sessões eleitorais e a contagem. Outro tanto era indicado pelos partidos para as tarefas de fiscalização. Aquela trabalheira chancelava o pleito, criava um ambiente de transparência e responsabilidade, envolvia partidos e seus filiados. Dava visibilidade ao valor de cada sufrágio.

Hoje o ato eleitoral é estéril. A votação é blindada. O eleitor sabe o que votou, mas não sabe se o que votou foi parar dentro da urna. A fiscalização ficou impossível e as auditorias são meramente simbólicas. Pasteurizaram nosso voto. Jogaram-no numa batedeira eletrônica.

O aprimoramento desse quadro tem encontrado barreira na atitude dos ministros do STF. Como se fosse dever de ofício, protegem o sistema como é, irretocável porque supostamente perfeito. Ao tratarem do assunto, valem-se de argumentos de autoridade. Conduta comum, aliás, a muitos ministros da Corte, que julgam ter com a verdade e o saber uma insuperável relação de intimidade.

O ministro Roberto Barroso, numa entrevista ao UOL sobre voto impresso, afirmou, irônico, que “tem gente que tem horror a coisas que dão certo”.  Fico tentado a dizer que tem gente com horror a ser contestado. Parcela imensa dos eleitores não confia num sistema em que não pode verificar se o digitado é o que vai para a urna. Quando a maquineta emite o sinal de votação concluída, o voto do eleitor se desmaterializa. É virtualmente incinerado! O produto final do aparelho incinerador é uma lista com a soma aritmética dos votos obtidos por candidatos na sessão eleitoral – o chamado Boletim de Urna.

Alemanha, Holanda e Índia  rejeitaram esse tipo de urna pelo motivo óbvio de não permitir recontagem de votos. A Bélgica usa urnas com impressora do voto individual. A resposta à objeção passa, mais uma vez, pelo argumento de autoridade. Por que recontar se a máquina contou e ela conta certo? Se jamais se comprovou fraude? Com esse argumento vaporoso, damos como “coisa que deu certo” um sistema rejeitado por democracias mais sólidas e estáveis do que a nossa.

Nossa urna é dita perfeita porque não há um único erro comprovado desde sua primeira utilização em 1997. Mas como comprovar erro se não é possível contar voto?

Na mesma entrevista ao UOL, o ministro Roberto Barroso afirmou que o sistema é auditável do primeiro ao último passo e argumentou que cada BU pode ser examinado por qualquer cidadão para conferir se a lista que a urna imprimiu confere com os números de seu output para totalização. Que espécie de conferência é essa? Quase uma comparação de algo consigo mesmo. Não, ministro! A conferência dos votos continua sendo valiosa para eleitores e para quem disputa o pleito. Os que exercem o direito de votar e os candidatos querem a certeza de ter bem contados os votos dados e recebidos.

Secreto é só o voto do eleitor. Todo o resto deveria ser público, ainda que possa demorar um pouco mais. A agilidade nunca foi uma virtude das democracias.

* Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

 

 


Zergui Pfleger -   27/04/2021 09:10:08

Digamos que, em uma fábrica de parafusos, vários desses artefatos, de aço, sejam ilegalmente jogados em uma esteira, que os levarão para dentro de uma caixa fechada, destinada a coletar apenas parafusos de latão. O sistema eletrônico de contagem de parafusos não distingue o tipo de material; cada peça que atravessa os sensores provoca o incremento quantitativo em seus registros. Por ser automatizado, apenas poucos funcionários têm acesso ao processo produtivo. Os parafusos de aço, misturados aos de latão, serão então embalados em caixa a ser lacrada, para ser comercializada. Pagamento efetuado, venda concluída, produto entregue. E então o consumidor final abre a caixa e percebe que foi LUDIBRIADO, que foi ROUBADO, pois os parafusos de aço, de MENOR PREÇO e QUALIDADE INFERIOR, não servem para a finalidade desejada. Mesmo que ele reclame do comerciante, que levará a queixa ao fabricante, esse alegará que o sistema é infalível, não permitindo que o processo de fabricação seja inspecionado. E o consumidor arcará com os PREJUÍZOS, tendo que aceitar os parafusos que ele não comprou e que não quer. Como resolver problemas desse tipo? Fácil! Basta colocar imãs ao longo da linha de produção, os quais atrairão os materiais ferrosos, que são magnéticos, separando-os plenamente dos demais, formados pela liga de cobre e zinco, ou seja, de latão, que são diamagnéticos, imunes à ação dos imãs. Se houver fraudes desse tipo, subtrai-se a quantidade de parafusos de aço encontrados, da contagem final de parafusos de latão, o que coincidirá com a sua real produção. O voto auditável requer, impreterivelmente, que se acople uma impressora, para que registre no papel cada voto digitado na urna. Se isso não ocorrer, continuaremos a ser LUDIBRIADOS, ROUBADOS, sem a menor possibilidade de fiscalizar e reagir.

Ivaldo de Holanda Cunha -   24/04/2021 12:00:47

Já se tornou uma constante, ler os artigos do Puggina é verificar que são muito bons. Muitos são mesmo espetaculares. Sou fã.

EDISON BECKER FILHO -   22/04/2021 13:22:32

Já tem mais de ano que defendo que o voto eletrônico seja feito no celular de cada eleitor, com exceção da miséria ou da falta de infraestrutura para tal. Existe a App e-Titulo, lá você tem todos os seus dados inclusive sua biometria. Se for para burlar tanto faz a forma tecnológica. Mas fazendo-se desta forma o eleitor pode ficar com a comprovação de quem votou, inclusive pode receber por e-mail ou salvar em seu smartphone. Já imaginou a redução de custos que teríamos se fossem pouco os locais onde tivéssemos que permanecer na estrutura atual, urnas eletrônicas, mesários, transporte, aglomerações, etc. O quanto o contribuinte economizaria! As questões de ZONA/SEÇÃO interessam ao partido e não ao eleitor. Quem trata o eleitor como gado é o partido. Assim não teríamos mais voto em transito, seriamos tipo Austrália onde você é um eleitor responsável e não precisa da tutela do estado e do partido para lidar com suas responsabilidades. Você vota de qualquer lugar onde tenha acesso a internet. Imagina a velocidade deste tipo de apuração!

Carlos Edison Fernandes Domingues -   20/04/2021 10:07:41

PUGGINA. Um acontecimento simples, mas que vale à pena relatar e que vem ao encontro deste assunto. Os Distritos que compunham um Município tinham peso eleitoral. Um pecuarista, com grande prestigio, de nome Pedro Fernandes da Silveira e que sempre votava no Dr. Armando Valandro, ambos do mesmo partido, o Partido Libertador, foi exigido a este fazendeiro que também concorresse ao Legislativo de Santa Maria. Com muita relutância e sempre afirmando que já tinha candidato a vereador, acabou se curvando à ordem do partido. Na contagem dos votos, daquela urna, quase a totalidade foi para Pedro Fernandes das Silveira. Ainda que, envolvido pelo entusiasmo das pessoas que o cercavam a abraçavam, ele foi examinar o mapa de constatou que a contagem estava errada. Pediu: "contém e novo porque faltou o meu voto" Os escrutinadores fizeram a recontagem e encontraram um voto para o Dr. Armando Valandro. Este fato ocorreu há mais de sessenta anos. Carlos Edison Domingues

POSTO BARUK -   19/04/2021 18:15:54

As evidencias de fraude são enormes, a demora no resultado da divulgação das apurações é uma prova inconteste da manipulação. O voto IMPRENSO não é retrocesso e avanço na TRANSPARÊNCIA É A GARANTIA DA DEMOCRACIA. quem pensa e quer diferente são vermes vermelhos esquerdopatas que na primeira oportunidade com toda certeza fraudarão o resultados das urnas.

LARRY DE CAMARGO VIANNA NASCIMENTO -   19/04/2021 17:23:55

O País não merece as "otoridades" que se acham donas do Brasil. Saudades dos militares.

FRANCISCO -   19/04/2021 11:40:00

Este ministro do STF, juntamente com os outros 9, conspiram o tempo todo contra a democracia, porque então eles aceitariam deixar de controlar os votos. Isso só pode ser feito na marra.

Ana Maria Guterres -   19/04/2021 05:02:50

Já cansaram de PROVAR que as urnas podem ser adulteradas. Tanta resistência ao voto adorável é no mínimo suspeita.

CARLOS SOARES -   18/04/2021 18:08:48

Será que o Ministro Barroso se contentaria com a informação do saldo da sua conta bancária sem ter poder acesso ao extrato?

Beno Arno Laube -   18/04/2021 10:35:27

Concordo com sua análise sobre a urna eletrônica. Sugiro: junto a cada urna urna deve ser conectado uma impressora que imprimira uma cédula a qual após conferida pelo eleitor o mesmo a depositar a numa urna inviolável. Posteriormente em local adequado com a presença de autoridades eleitorais e fiscais de partidos as urnas físicas poderá ser contabilizadas e comparados os resultados com a urna eletrônica. E simples , prático e incontestável. Análise de BENO ARNO LAUBE.

Fábio Ronnie Winkelmann -   18/04/2021 00:19:17

Voto que não pode ser auditado/recontado não merece crédito. Só querem manter a atual maneira de votação porque os resultados podem ser manipulados. Qualquer pessoa com um pouco de pensamento crítico e lógico sabe que os resultados podem ser facilmente fraudados. Voto impresso já. Quem defende o contrário ou é mal intencionado ou não percebeu que a atual forma de votação não dá garantia para ninguém, seja de que posição partidária for.

Daniel Harada -   17/04/2021 23:08:14

Excelente análise.

Marcelo -   17/04/2021 17:16:22

A grande verdade q o pais vive um descrédito tão grande nas instituições,que o que não e visível e auditavel,cai na vala comum de desconfiança e de incertezas que aliás são plausíveis dado os exemplos vistos em algumas decisões e atitudes dos três poderes