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BENEFÍCIOS DA EDUCAÇÃO CLÁSSICA (5): HERANÇA GRECO-ROMANA

por Géssica Hellmann. Artigo publicado em


Já mencionamos de passagem em diversos artigos desta série sobre os oito benefícios fundamentais da Educação Clássica, a importância do reconhecimento da herança cultural greco-romana sobre o desenvolvimento da inteligência e do pertencimento a uma civilização. A influência greco-romana sobre o modo como vivemos em nosso país e nossa civilização é assunto para muitos milhares de páginas, estendendo-se, por exemplo, a Tecnologia (odômetro, a roda d’água e o relógio despertador), à Política (república, democracia, senado, eleições periódicas, voto), ao Direito (leis, procedimentos judiciais, terminologia jurídica), à Arte (conceitos de teoria musical, escultura, pintura), à Arquitetura e Engenharia (arcos, colunas, anfiteatros, estádios), à Literatura (poesia, narrativas, teatro), aos costumes (feriados, esportes e competições, jogos olímpicos, procissões religiosas, festas públicas, carnaval), à Ciência e à Filosofia (por herança direta), entre muitos outros.

Pela óbvia limitação de espaço e tempo, enfatizaremos neste artigo apenas um aspecto fundamental da Educação Clássica que, por si, já representa um inarredável compromisso com nossas origens: o estudo do latim.

Estudo do Latim e a formação da inteligência

O historiador argentino Rúben Calderón Bouchet (1918-2012) expôs de forma muito clara o modo como o latim é um elemento definidor de nossa civilização:

“O idioma latino, cunhado com justeza nas exigências da expressão jurídica, tem o privilégio de se adequar com precisão ao intercâmbio das ideias mais universais. É, provavelmente, a melhor língua feita para dizer tudo aquilo que os homens necessitam dizer quando se tratam de assuntos de interesse geral. Léxico de juristas, se converteu facilmente em veículo idôneo da filosofia grega e de tudo o que havia de radicalmente essencial nos helênicos. Ao ser expressado em fórmulas latinas, o pensamento grego ganhou em concisão e segurança denotativa o que perdeu, talvez, em riqueza expressiva”.

É fato que, sem conhecer a origem histórica das palavras que pronunciamos, é impossibilitada a compreensão mais profunda de seu sentido e, consequentemente, esteriliza-se toda a discussão em torno delas num oceano de confusões, ambiguidades, enganos e, no limite, engodos. Alceu Garcia, em elucidativo artigo, apresenta-nos alguns exemplos:

“JUSTIÇA SOCIAL – Justiça deriva do latim justitia, exprimindo conformidade com o Direito, não necessariamente o Direito Positivo, legislado, que pode ser, e frequentemente é, injusto (…), mas os princípios gerais derivados dos valores que formam a Ética de um determinado grupo, que antecedem e informam as leis objetivas e sua interpretação, consubstanciado no mister de dar a cada um aquilo que é seu, como diziam os juristas romanos. (…). Social vem de sociale, relativo à sociedade (do lat. societate), ou seja, uma coletividade humana. Ora, se justiça é dar a cada um o que é seu, infere-se necessariamente que a existência de mais de um indivíduo é sua condição sine qua non. (…) O adjetivo “social” é, pois, redundante e dispensável”.

O autor multiplica os exemplos, demonstrando como, a partir da origem grego-romana das palavras, expressões tão em voga nos debates públicos como “justiça social”, “política pública”, “direitos humanos”, “desigualdade social”, “lógica do capitalismo” e “direitos das minorias”, não passam de redundâncias destinadas a induzir o raciocínio a conclusões equivocadas.

Olavo de Carvalho observa que a degradação da herança linguística de um povo pode conduzir, no limite, ao seu desaparecimento:

“Mas o fato é que as nações nascem das línguas, e não estas daquelas. Por isto mesmo é impossível conservar um senso de identidade nacional quando, à força de conformar-nos a uma atualidade sociológica criada pela mídia e pelo imperialismo cultural, abdicamos de conservar o senso de unidade histórica da língua, o qual só pode ser sustentado com base na tradição literária perpetuamente revivificada pelo ensino. (…) Ora, se o ensino da gramática rompe com a tradição literária, adaptando-se ao fato consumado sociológico determinado por fatores extranacionais e antinacionais, a tradição mesma acaba sendo rompida, o gosto literário cai, a língua se torna confusa e tosca, os debates públicos caem para o nível dos slogans brutais, o próprio nacionalismo assume o sentido de uma revolta suicida”.

George Orwell, em seu célebre artigo “Politics and the English language” (A Política e a Língua Inglesa) explica como esse uso “ligeiro” da linguagem sem o domínio do real alcance e significado das palavras representa uma solução cômoda para quem deseja apenas escrever sem realmente pensar:

“Com o uso de metáforas, símiles e expressões idiomáticas requentadas, você poupa muito esforço mental ao custo de deixar vago o seu significado, não somente para seu leitor, como para si mesmo. (…) O único objetivo de uma metáfora é conjurar uma imagem. Quando essas imagens colidem – tal como em ‘O polvo fascista emitiu seu canto de cisne…’ – dê-se por certo de que o escritor não contempla uma imagem mental dos objetos que nomeia; em outras palavras, que, de fato, não está pensando”.

O Professor mestre Ricardo Santos David, em resumo bibliográfico simples e didático, reconhece o quanto o estudo do latim é necessário para um autêntico estudo da Gramática de nosso idioma. Um trecho de significado inequívoco:

“O latim é necessário nos estudos de gramática da língua portuguesa, uma vez que é necessário compreender o significado das palavras em sua origem e terminologia, e a partir disto melhor compreende também os significados do sistema linguístico cultural brasileiro”.

Para além do estudo da Gramática, Napoleão Mendes de Almeida1, no prefácio à sua “Gramática latina”, após afirmar enfaticamente e demonstrar com fatos que é totalmente falsa ideia de que o principal benefício do estudo do Latim seria a facilitação do aprendizado da Língua Portuguesa, explica porque é um desastroso equívoco uma concepção de Educação que exclua o estudo do Latim:

“Não encontra o pobre estudante brasileiro quem lhe prove ser o latim, dentre todas as disciplinas, a que mais favorece o desenvolvimento da inteligência. Talvez nem mesmo compreenda o significado de ‘desenvolver a inteligência’, tal a rudeza de sua mente, preocupada com outras coisas que não estudos.

O hábito da análise, o espírito de observação, a educação do raciocínio dificilmente podemos, pobres professores, conseguir de um estudante preocupado tão só com médias, com férias, com bolas, com revistas.

Muita gente há, alheia a assuntos de Educação, que se admira com ver o latim pleiteado no curso secundário, mal sabendo que ensinar não é ditar e educar não é ensinar. É ensinar dar independência de pensamento ao aluno, fazendo com que de per si progrida: o professor é guia. É educar incutir no estudante o espírito de análise, de observação, de raciocínio, capacitando-o a ir além da simples letra do texto”.

Sobre o papel do estudo do Latim no desenvolvimento da inteligência, Cheryl Lowe (1945-2017), fundadora da editora Memoria Press e da Highland Latin School, observa que os objetivos de uma disciplina estão muito além do seu conteúdo informativo, imprimindo seus princípios, métodos e fundamentos ao próprio funcionamento da mente do estudante:

“As disciplinas escolares fazem mais do que prover informação. Elas são formativas. As disciplinas formam a mente do estudante quando nela imprimem suas próprias qualidades. (…) Por exemplo, a disciplina de Literatura ensina a compreender, perceber e a compadecer-se da condição humana. A disciplina de História desenvolve o julgamento, o discernimento, o acume e a sabedoria; a disciplina de Matemática ensina a precisão e a Lógica. Analogamente, a mente do estudante educado em Latim assume as qualidades do Latim: lógica, ordem, disciplina, estrutura. O Latim exige e ensina a atenção aos detalhes, a acurácia, a paciência, a precisão e o trabalho completo e honesto”.

Esse ponto de vista é partilhado pelo Padre Milton Luís Valente, S.J.2, na introdução da obra “Ludus Primus”, onde disserta sobre o latim como requisito imperativo para estudo de uma Ciência:

“A Ciência jurídica baseia-se no Direito Romano. Estudar o Direito Romano sem conhecer o latim é absurdo.

A maioria dos termos da Medicina e de todas as Ciências Naturais é de origem latina, e decorar esses termos sem lhes penetrar a força íntima não é digno de um ser racional, muito menos de um cientista.

Por isso, costumava dizer Carlos de Laet: ‘Admitindo aos cursos superiores moços não devidamente preparados em Letras Clássicas, seria criar não médicos, mas curandeiros, ainda que peritos; não jurisconsultos, mas rábulas; não engenheiros ou arquitetos, mas simples mestres de obras’.

Mas o maior bem que vos ministra o Latim é a sólida formação preparatória para a Ciência. O que o ensino do Latim pretende em nosso ginásio é ainda aguçar a vossa inteligência, é fortalecer a vossa vontade, é desenvolver vosso espírito para, quando chegardes aos complexos problemas da Ciência, poderdes observar, raciocinar, discutir, julgar com critério e emitir com clareza vossa opinião. Assim formados, estareis aptos para seguir nas universidades os professores de qualquer Ciência em suas pesquisas e lucubrações”.

Observações finais

O estado de absoluta confusão que podemos testemunhar em todas as discussões públicas no Brasil de hoje e, especialmente, o baixíssimo nível das conversas entabuladas por brasileiros portadores de diploma de cursos superiores sobre todos os assuntos imagináveis nas redes sociais são um indício bastante claro da degradação coletiva, em massa, da inteligência em nosso país, como resultado do abandono dos estudos clássicos e do idioma Latim por nosso sistema educacional, indício ainda mais eloquente quando os comparamos com a situação de 50-60 anos atrás, quando nosso país ainda contava com excelentes escritores e oradores. A ausência das ferramentas essenciais do raciocínio impede a definição apropriada dos problemas nacionais; a ausência de definições precisas dos problemas impossibilita seu equacionamento; a falta de equacionamento reduz a uma quimera as expectativas de que um dia esses problemas verão a luz de uma solução. A esperança de melhorias efetivas em nosso país não deve recair neste ou naquele governante ou partido, cujo poder é sempre transitório, mas numa nova geração de homens e mulheres formados nos princípios da Educação Clássica, com raciocínio e inteligência refinadas, movidos por interesses muito mais elevados do que, no amargo dizer de Napoleão Mendes de Almeida, “médias, férias, bolas e revistas”. As crianças homeschoolers, educadas no amor do lar, com o coração enternecido pela fé cristã e com a inteligência forjada pela Educação Clássica representam uma grande fonte de esperança para que nosso país recupere a trilha da Verdade, da Beleza e da Justiça, com todas as consequências benéficas dela resultantes.


• Por Géssica Hellmann em Educação Clássica, Valorizando o conhecimento
1ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina. São Paulo: Saraiva, 2000, 29ª edição, p. 8.
2VALENTE, Pe. Milton Luís. Ludus Primus: 1ª série ginasial. Porto Alegre: Livraria Selbach, 1949, pp. 12-13.

 

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