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CABEÇAS-DURAS

por Fernando Fabbrini. Artigo publicado em

 

No Império Romano surgiu aquela maneira nem um pouco gentil de se bater à porta de uma fortaleza: o aríete.

Olhem a ideia de um excêntrico padrinho fazendeiro: deu ao afilhado, como animal de estimação, um carneirinho – vivinho e saltitante. Detalhe: a família do garoto morava num apartamento térreo no bairro São Lucas. Como era de se esperar, não funcionou. Além de despejar centenas de bolinhas de cocô pela área útil, o bicho metia a cabeça onde cismava. Armários, criados-mudos, utensílios domésticos, cristaleiras e seus frágeis recheios – incluindo bibelôs e porta-retratos – jaziam por terra, em cacos, ao final do dia. Após uma semana, antes que derrubasse também um casamento, o carneirinho foi levado de volta à roça.

No Império Romano surgiu aquela maneira nem um pouco gentil de se bater à porta de uma fortaleza: o aríete. A turma arrumava um tronco de árvore bem duro; cortava-o na medida e pendurava-o numa armação sobre rodas. Nas batalhas, arrastavam a trapizonga até o castelo inimigo. Lá os soldados iam socando a porta e os muros com o peso do tronco, até rompê-los.

Um talentoso guerreiro com pendores artísticos – talvez para sair do tédio enquanto a guerra não começava – talhou a dianteira de uma tora, esculpindo ali uma cabeçona de carneiro. Boa inspiração. Como sabemos e também foi reforçado no episódio acima, carneiro tem a testa dura pra caramba e adora testá-la (ops!) contra árvores, objetos e cabeças de outros carneiros.

Num papo ameno com um amigo versado em astrologia, lembrou-me ele que o primeiro signo do zodíaco é Áries – representado por um carneiro robusto. Por isso, Áries é, simbolicamente, o signo dos começos, do impulso inicial para se obter algo, companheiro ideal para ir longe partindo do zero. É a arrancada, o rompimento da situação anterior, a força necessária para vencer a inércia e pôr-se em movimento.

O amigo astrólogo de horas vagas citou-me algumas analogias divertidas que circulam por aí ligando o recente cenário político brasileiro ao tal aríete. Pode ser apenas fruto da imaginação exacerbada dos eleitores do presidente, ponderou. O fato é que seus entusiastas afirmam ter sido Bolsonaro a opção perfeita no dramático momento de transição que o país viveu. Segundo o raciocínio da turma, ele agiu como um aríete, derrubando o portão e rachando a muralha protegida anos a fio por governos similares. Tinha de ser desse jeito, afirmam. E completam: ele abriu caminho à força para mudanças profundas e urgentes. Feito isto, a seguir virão outros presidentes menos brigões, menos cabeças-duras. Assim também espero.

O papo gerou minha pauta desta quinta. Com o bom-humor possível que prezo para não me afogar na insana polarização vigente, fiz exercícios criativos imaginando como se comportariam os últimos candidatos à Presidência – metaforicamente – na luta para conquistar a fortaleza do poder.

Amoêdo, no pragmatismo dos executivos, exibiria uma fantástica apresentação digital em telão. Provaria aos inimigos que os gráficos do “break even point” indicavam a inevitável rendição aos modelos capitalistas modernos. Funcionou? Naninha.

Alckmin, elegante, solicitaria repetidamente que lhe abrissem o portão, por favor, prometendo as alianças estapafúrdias e os acordos esquisitos de sempre. Fracassou.

Ciro Gomes dirigiria palavrões e gestos obscenos aos adversários, sem resultados. Terminada a batalha, ficaria ali ainda por um ano, discursando, batendo no peito e salpicando a parca audiência com uma chuva de perdigotos.

Havia ainda o Haddad. Para ele, seria mole: já tinha a cópia da chave, bem escondida. Entraria no castelo ouvindo aplausos da minoria de dentro e as vaias da maioria de fora.

É tudo brincadeira, claro; cronista também se diverte enquanto escreve. Finalizando, fui conferir a biografia do Bolsonaro. Coincidência danada: ele é do signo de Áries.

 

* Publicado originalmente em https://www.otempo.com.br/opiniao/fernando-fabbrini/cabecas-duras-1.2264223
 

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