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EMMANUEL MACRON É DE ESQUERDA?

por Jorge Schwerz. Artigo publicado em

 

“Essa inverdade do Macron ganhou força porque ele é de esquerda e eu sou de centro-direita. Deixo bem claro isso aí para vocês” - disse o Presidente Bolsonaro durante entrevista realizada a jornalistas que acompanhavam a recepção ao Presidente do Chile, Sebastián Piñera, no dia 28 de agosto de 2019.

De imediato, a frase colocada pelo Presidente do Brasil chamou a atenção de vários comentaristas políticos, que correram para afirmar que Macron era considerado, pelos franceses, como de centro-direita. Será mesmo?

O Presidente francês Emmanuel Macron, eleito em 7 de maio de 2017, é economista de formação. Teve o seu início político na Esquerda, unindo-se ao Partido Socialista de François Hollande, o qual o levou ao Palácio Eliseu como Ministro da Economia, em 2012.

Um pouco mais de um ano antes das eleições presidenciais francesas de 2017, Emmanuel Macron abandonou o Governo de Hollande e criou o seu próprio Movimento Político, o “En Marche” (alguns dizem fazer alusão às suas iniciais: EM) apresentando-se como uma alternativa ao que existia à época, dizendo não ser nem de direita e nem de esquerda.

Mas então porque os franceses o veem como de centro-direita?

Esta foi a pergunta feita pela Professora-pesquisadora Speranta Dumitru, da Universidade Paris-Descartes, em artigo ao periódico The Conversation, ao analisar o livro lançado por dois dos ex-conselheiros de Macron - David Amiel e Ismael Emelien. Nessa obra, os ex-conselheiros de Macron defendem a agenda do “Progressismo” do seu governo, em oposição a agendas “Populistas”, cujos líderes mais destacados dizem ser Trump (EUA), Mateo Renzi (Itália)1 e, naturalmente, Bolsonaro.

De acordo com a Professora Dumitru, “Este livro, Le Progrés ne tombe du ciel (O Progresso não cai do Céu), é claramente de esquerda. Como explicar que um pensamento de esquerda é percebido na França como sendo de direita?” 2. “Uma das hipóteses está na oferta do pensamento político existente na França”, explica a Professora Dumitru. “Enquanto a esquerda conhece uma multiplicidade de tendências, a direita enfrenta um empobrecimento ideológico. As doutrinas clássicas da direita - democracia cristã, conservadorismo, liberalismo - não são debatidas pelos intelectuais nem assumidas pelos partidos. Esse desequilíbrio apresenta o risco de distorcer a avaliação de toda a visão política” 2.

[...] “A democracia cristã, cujos representantes contribuíram para a fundação do projeto europeu, desapareceu no início da Quinta República (com o fim do Movimento Popular Republicano). Quanto ao "conservadorismo" e "liberalismo", os políticos adotaram o uso pejorativo dessas palavras, privando seu eleitorado de uma pluralidade de visões de mundo” 2 .

Assim sendo, apesar de Macron adotar programas claramente de esquerda, não levou muito tempo para a Mídia francesa colar nele a pecha de “Pai dos Ricos”, após a implementação de reformas impopulares na área econômica.

Uma das agendas de Macron, vindas da esquerda, foi implementada logo no início do seu governo, por intermédio do igualitarismo entre homens e mulheres, pois metade dos 22 membros do primeiro escalão foram preenchidos por mulheres. Ou, como começa o artigo do jornal La Tribune, de 18 de maio de 2017, “Um feminista no (Palácio) Eliseu” 3 . Macron dizia que a igualdade entre homens e mulheres era uma “causa nacional”.

A verdade é que Macron sempre usou a camisa do “diferente de tudo que está aí”, para poder se utilizar de programas já apresentados por ambos os lados do espectro político, sem ficar rotulado por eles.

A ironia é que, uma das maiores derrotas políticas da era Macron, o Movimento dos Coletes Amarelos, teve como gatilho a continuação de uma política de meio ambiente do Partido Socialista, na qual o Governo Francês aumentou o preço do diesel procurando desestimular os proprietários de veículos automotores a utilizarem este tipo de combustível. (O colete amarelo faz alusão a quem tem posse de automóvel na França, visto que todos os veículos devem ter, no mínimo, dois coletes amarelos).

Da mesma forma, de acordo com o artigo do Editorialista do jornal francês Le Figaro, Ivan Rioufol, em artigo de 28 de agosto de 2019, Emmanuel Macron não deixou de lado a principal ferramenta das esquerdas: a mentira. “Quando Emmanuel Macron acusa o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, de ter mentido, não lhe causa estranheza o lugar ocupado pela mentira na política francesa e fora dela. [...] Sua recente escolha de ilustrar incêndios na Amazônia com uma foto espetacular tirada há, pelo menos, quinze anos atrás é uma prática que antes era deixada para pequenos publicitários” 4 .

Macron continuou a oscilar entre a esquerda e a direita, tentando fugir de estereótipos, o que levou ao confronto com Bolsonaro: a agenda ambientalista.

Apesar de toda verve do dignitário francês sobre o meio-ambiente, sabese que é apenas desinformação, pois já ficou claro que o objetivo final de Macron é cancelar o Acordo entre a União Europeia e o Mercosul para defender o mercado francês.

Finalmente, a definição da posição no espectro político depende muito da posição do próprio observador neste espectro. Ou seja, da mesma forma que a mídia e o meio acadêmico brasileiro é, na sua maioria, grandemente influenciada pela esquerda e, a partir daí, define o Governo de Bolsonaro como “extrema direita”. Na França, igualmente, a mídia e o meio acadêmico, fortemente influenciada pela esquerda, não conseguem “ver” as ações esquerdistas de Macron, definindo-o como Centro-direita.

Bolsonaro acabou pegando Macron numa dessas visitas as suas origens esquerdistas: usando a mídia internacional para repercutir uma agenda ambientalista esquerdista e, por tabela, lembrando do seu passado colonialista ao propor a internacionalização da Amazônia.

O Presidente brasileiro não deve esperar as desculpas do Presidente francês, ele está muito ocupado procurando o seu caminho enquanto oscila entre a esquerda e a direita.

* O autor, Jorge Schwerz, é Coronel da Reserva da Aeronáutica, MsC pelo ITA e ex-Adido de Defesa e Aeronáutica na França e Bélgica.

Referências:
1 FRANCE INTER. Ismaël Emelien: C'est plus difficile pour les progressistes d'exercer le pouvoir. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VKbJMpXUb9M&list=WL&index=5&t=958s. Acesso em: 30 ago 2019;
2 DUMITRU, Speranta. Si Macron pense à gauche, pourquoi le voit-on à droite? Disponível em: https://theconversation.com/si-macron-pense-a-gauchepourquoi-le-voit-on-a-droite-116149. Acesso em: 29 ago 2019;
3 GAMBERINI, Giulietta. Les femmes du président Macron. Disponível em: https://www.latribune.fr/economie/france/les-femmes-du-president-macron715760.html. Acesso em: 30 ago 2019; e
4 RIOUFOL, Ivan. Comment le mensonge est devenu anodin. Disponível em: blog.lefigaro.fr/rioufol/2019/08/comment-le-mensonge-est-devenu.html.
 

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