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O NOVO ANORMAL

por Fernando Fabbrini. Artigo publicado em

 

Na faixa dos 60 anos, meu amigo pertence à geração do grupo de risco, mas não parece. Boa-pinta e com saúde de sobra, participa de maratonas, escala cachoeiras, voa de parapente, essas doideiras. Divorciado, filhos criados, permite-se uma vida social animada em companhia de colegas do mesmo perfil atlético. Frequentando barzinhos, festas e clubes, mantém seus relacionamentos – sempre presenciais – em dia. No seu currículo de idoso tão moderno, registra-se apenas uma falha anacrônica: tem pavor de informática, computadores, celulares, aplicativos e congêneres eletrônicos.

Aí veio a pandemia e meu amigo, privado dos convívios humanos essenciais à saúde, entrou na fossa. A máscara o sufocava em três sentidos: no respiratório, no circulatório e no falatório, já que adorava bater pernas e conversar com a turma. Em abril, preso em casa, me ligou, disposto a se render finalmente às redes sociais – território onde jamais tinha se aventurado – para tentar mitigar a solidão.

- Como é esses troços de Facebook, Instagram? – perguntou, desanimado.

Expliquei que esse troço de Facebook já andava decadente, sobrou para os coroas como nós. Os jovens preferem o Instagram. Contei que, no meu caso, comecei a usar o Facebook para replicar minhas crônicas e acabei ganhando uma porção de leitores e novos amigos.

- Amigos, amigos, mesmo? – ironizou.

- São pessoas como nós, talvez meio sozinhas ou com tempo livre. Trocamos comentários, mostramos fotos da família, compartilhamos piadas... E assim vamos levando a pandemia. Quem sabe você até não arruma umas paqueras?

Relutante, ele criou um perfil, vi algumas postagens. Parecia que a coisa andava bem. De repente, sumiu. Ontem ligou-me de novo.

- Cheio de amigos via internet? – provoquei-o.

- Que nada. Uma chatice, isso sim.
- ??
- Ué, fiz tudo direitinho, escolhi uma foto minha mais jovem, na praia. Depois percebi que todo mundo põe foto mais jovem no perfil; não se pode confiar nas aparências. E surgiu muita bobagem, piadinhas idiotas, testes ridículos como “com qual pedra preciosa você se parece” ...

- Nem arrumou uma paquera?

- Tem até umas moças bonitas, mas só ficam fazendo pose, segurando o celular na frente do espelho, exibindo roupas e decotes, tipo “olhem como sou linda” ...

- Puxou conversa?

- Xi! Você pergunta um negócio e elas só respondem daí a uma semana. Outras, no primeiro papo, já escarafuncham se a gente é casado, solteiro, disponível. Sem falar nos assédios e merchandisings das profissionais, tá cheio.

Eu o compreendo. O “novo normal” permanece repleto das anormalidades de sempre. Como na vida real, a virtual é palco para algumas personalidades meio espaçosas, vaidosas, superficiais. Mas há também nas redes uma turma ótima e divertida, pena que meu amigo não teve sorte. Entretanto, uma coisa valeu na sua breve experiência:

- Pouco antes de largar o Facebook, conheci uma mulher muito interessante. Inteligente, gosta de cinema, de livros, de vinho. Fazia natação lá no meu clube e nunca tinha reparado nela, acredita? Já fizemos até umas “lives”; um sorriso lindo! Depois descobrimos que somos vizinhos; mora no prédio aqui ao lado! O melhor de tudo: me cumprimenta todo dia pela janela!

O futuro – caso seja tão chato como alertam os pessimistas - continuará intragável para quem não se contenta com a fantasia colorida de telas digitais. Já vou avisando: nós, anormais, adeptos dos cinco sentidos, do calor humano, das emoções sinceras e do contato à flor da pele, resistiremos.


*    Publicado originalmente em O Tempo de Belo Horizonte

**   https://www.otempo.com.br/opiniao/fernando-fabbrini/o-novo-anormal

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