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A ECONOMIA E A POLÍTICA NUMA MESA DE BAR

por Percival Puggina. Artigo publicado em

 

 A Economia e a Política vinham, há bom tempo, combinando encontro. Quando acontecia de estarem simultaneamente no mesmo lugar, diziam “Temos que marcar aquela conversa”, ao que a outra respondia “Pois é, temos mesmo...”. E ninguém abria a agenda para viabilizar a intenção.

Entende-se a dificuldade. Havia, entre elas, uma disputa por primazia. Ambas se tinham como credoras da maior atenção, percebiam-se assoberbadas pelas decisões mais relevantes. Cada qual nutria a convicção de que a outra lhe atrapalhava a vida, lhe roubava horas de sono, e essa era a razão daquela desejada conversa ocasional: “Temos que conversar, temos que conversar!”.

 Eis que agora estavam sentadas as duas, frente a frente, no lobby do mesmo hotel e tempo livre até o próximo compromisso oficial. A política inicia as “hostilidades”.

Política: – Não há como aprovar todas as reformas que tua turma propõe.

Economia: – Interessante que digas isso e, ao mesmo tempo, teu pessoal fique pedindo recursos para um sem número de programas e projetos cuja principal finalidade é favorecer reeleições parlamentares, contemplando interesses locais. Na tua opinião, é para isso que serve o dinheiro dos pagadores de impostos? É assim, comprando votos, que o Presidente deve governar?

Política – (sentindo-se pressionada, devolve) Interessante é que penses assim e venhas pedir votos aos congressistas para aprovarem o que individualmente, dentro do teu gabinete, defines como interesse público. Quem quiser impor conceitos de interesse público ao parlamento é junto ao público que deve iniciar pedindo votos. A democracia funciona assim, no voto, amiga.

Economia – Se entendi bem, estás dizendo que os 57 milhões de votos do Presidente não conferem legitimidade ao governo. Lembra-te de que foi no meu posto de gasolina que ele buscou ideias que a eleição consagrou e que boa parte do teu pessoal abraçou para se eleger.

Política – As coisas não são tão simples assim...

Economia – (rindo) Eu sei, o Centrão...

Política – Vocês falam mal do Centrão, mas correm atrás dele.

Economia – Enquanto muitos, ali, correm da polícia. Tu sabes que há no Centrão um sistema de proteção recíproca e um permanente ânimo vingativo contra o Moro. Mas essa não é a minha pauta.

Política – Pois deveria ser! É a política que comanda tudo. O Congresso está trabalhando e não é fácil aprovar medidas restritivas, impopulares, enquanto vocês não entregam o que prometem. Onde estão os investidores? Dólares saem e não voltam. Em vez de cobrar desempenho nosso, olhem e cuidem do de vocês.

A Economia, olhando à volta, estica o braço e chama um garçom, que se aproxima solícito.

Economia – (falando ao garçom) Você confia no Congresso Nacional? Confia no STF? Confia na política como é feita no Brasil? Você acha que o Brasil dá motivos para que gente de fora invista aqui? Se você ganhasse na loto aplicaria no Brasil o dinheiro ganho? O Brasil lhe parece um país de instituições confiáveis?

O garçom respondeu negativamente a tudo e o ambiente foi ficando mais tenso. Quando concluiu, as duas interlocutoras estavam com os dedos indicadores esticados para o lado oposto da mesa. “Taí, é a Economia que não entrega o que promete” exclamou a Política alteando a voz. “É a Política, estúpido!”, contestou a Economia citando James Carville. E continuou: se as instituições de Estado não têm confiança da população brasileira, como pretender que investidores estrangeiros tenham?

Lido o artigo, só não me digam que o errado é o garçom.

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* Percival Puggina (75), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.


  

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Comentários

Luiz R. Vilela .

No filme Lawrence da Árabia, estrelado magnificamente pelo ator inglês Peter O´Toole, quando da guerra entre turcos e árabes, o governo de sua majestade, a princípio apoiou os árabes, mas no decorrer do conflito, mudou de lado inexplicavelmente, e como oficiais da reserva do exército britânico haviam sidos contratados como mercenários pelos árabes, foram até o embaixador britânico tirar satisfações. No filme mostra o diálogo entre os oficiais e embaixador, que diz com todas as letras um fato que é a verdade a mais absoluta de todas: " Até na cadeia entre ladrões, existe ética, só na política é que não", Ou seja, a política é uma atividade sem qualquer escrúpulos ou ética. O autor do filme, ao ensejar este diálogo, estava já naquela época fazendo uma crítica aos critérios da política, que perduram até hoje e que parecem serão eternos. Será mesmo a política uma atividade desprovida de ética? Serão todos ou quase todos seus partícipes desprovidos de idoneidade moral? Não sobra ninguém neste pântano, para que a atividade seja comparada as bíblicas Sodoma e Gomorra? Que digam os políticos. Já a economia é o motor da humanidade. Por cá, tudo gira em torno do dinheiro e do lucro, quando um governo mexe na economia do seu pais, todos nós sabemos os resultados, é mais dinheiro nos "cofres públicos", e menos nos bolsos dos contribuintes, assim deve ter falado Zaratrusta, ou se não falou, mas deve ter pensado. toda reforma na economia ou na previdência, já se sabe antecipadamente quem vai perder, porque quem vai ganhar, é alardeado pelos políticos de plantão e pela mídia, só que o perdedor, não é divulgado e talvez nem precise. Parece que a humanidade ainda esta na infância e aprendendo a caminhar, pois em nenhum pais do mundo, os governos se assumem na condição de "empregados do povo", se acham todos eles seus patrões ou tutores. Como dizia um personagem televisivo antigo: " O povo é só um detalhe".
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