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DISCURSO NA SESSÃO SOLENE DE OUTORGA DO TÍTULO DE CIDADÃO DE PORTO ALEGRE

por Percival Puggina. Artigo publicado em

 

Resumo, aqui o pronunciamento que fiz dia 21 de maio, na sessão solene em que recebi o título de Cidadão de Porto Alegre, concedido por Lei Municipal, proposta pelo vereador Ricardo Gomes (PP) e unanimemente aprovada pela Câmara de Vereadores.

Num primeiro momento do discurso afirmei que recebia o título exatamente no ano em que completava seis décadas como morador da Capital gaúcha. Pensar nas razões que a ela me prendem é pensar em pessoas reais, em memórias também reais que eram a maior alegria, maior graça e maior bem que a cidade me proporcionava. Eram as pessoas que ali estavam, seja compondo a solene Mesa diretora dos trabalhos, ornada com a presença de autoridades, seja no plenário e nas galerias. Eram todos amigos, amigos queridos, novos e antigos, mas todos participantes daquela contagiante unidade que aproxima os bons. A mesa era presidida pelo vereador João Carlos Nedel e dela faziam parte, além de mim e minha mulher Mariza, o prefeito em exercício Gustavo Paim, o ex-prefeito Guilherme Socias Villela, o vice-presidente da Federasul César Leite, o desembargador aposentado Vladimir Giacomuzzi e o deputado estadual Mateus Wesp.

Falei do grande bem que é viver numa cidade onde se construíram afetos, onde se constituiu família, e onde o passar dos anos formou verdadeira multidão de relações. São pessoas que vejo onde quer que vá e me proporcionam a alegria de reencontros e abraços que agasalham vidas inteiras. Agradeci a todos, realmente emocionado pelas palavras gentis que me dirigiram e, como expressão disso que relato, todos os vereadores que se manifestaram trouxeram testemunhos de convivência comigo. Nem tudo é ruim em ser idoso. Emocionaram-me os vereadores Ricardo Gomes (proponente), João Carlos Nedel, Reginaldo Pujol, Wambert Di Lorenzo, Nelcir Tessaro, Fernanda Jardim, Felipe Camozzato, Rafão Oliveira, Comandante Nadia e Ramiro Rosário.

O vereador Ricardo Gomes é um amigo recente. Desde que o conheci, porém, identifiquei nele virtudes que me levaram do respeito à admiração. E daí à amizade. Foi meu candidato a vereador e, cumprindo a meta, desempenha frutífero e exemplar mandato. Tem visão de história e de futuro que fazem dele o que qualifico como um “clássico moderno”, que conjuga a hoje invulgar erudição, o conhecimento da cultura de que é herdeiro e da civilização a que integra, com a compreensão sobre o que fazer e o que não fazer, na política, para a colheita, ali adiante, de uma vida social, política e econômica em padrões superiores.

O discurso propriamente dito


Queridos amigos!

Seria impossível para mim, e certamente incompreensível para vocês, se desenvolvesse este discurso sem falar em política, principalmente num momento em que a economia estertora em ambiente de descrédito e de más expectativas. Ambiente que significa uma possível nova recessão, novos desempregados, novos desabrigados, velhas e novas empresas fechando as portas.

É um momento de ter a cabeça no lugar para perceber que esse descrédito não se deve às medidas propostas pelo governo, das quais, ao contrário, se esperam soluções. Sabidamente, quando forem aprovadas, os gráficos e as curvas das tendências começarão a se inverter.

Os problemas principais são dois:

1º) a irracionalidade do sistema político que primeiro elege o governante e, depois, o incumbe de virar-se para compor maioria. É como se dissesse: “Dê um jeito aí e consiga 308 votos na Câmara e 48 no Senado!”. O meio comum de fazer isso é o pior possível e termina em delação premiada.

2º) o sistema conduz o parlamento à irresponsabilidade em relação aos problemas do país. Ontem (20/05) , diante da reação das redes sociais, parece que a Câmara dos Deputados pegou no tranco. E hoje o dia transcorre como se a ideia de recriar os dois ministérios mais gastadores e perigosos da antiga estrutura não tivesse dono conhecido. Ninguém os quis e ninguém os quer. Ótimo! Mas a crise poderia aprofundar-se e o jogo das negociações chegar ao impasse. No impasse, nos tantos impasses que já tivemos, nada acontece no governo, nada acontece no parlamento, mas a conta vem para a sociedade. E tem-se a crise.

***
Aos meus 74 anos, onde posso contar mais de meio século, portanto, de cidadania responsavelmente exercida, eu não lembro de ter vivido algum período sem crise. A crise é companheira cotidiana da vida dos brasileiros. Escrevi outro dia, que cada dia tem, necessariamente, sua crise e sua cueca.

A crise é econômica, é social, é cambial, é criminal, é inflacionária, é recessiva, é política, é juspolítica, e, enquanto isso, seja numa, seja noutra, seja em várias simultaneamente, o país naufraga socialmente nos porões, valões e escorregadias encostas da miséria. E nos dois paradigmas nacionais: o da ordem e o do progresso.

Eu me consideraria um vitorioso se, um dia, a sociedade despertasse para a irracionalidade de um sistema político que tão levianamente irresponsabiliza os parlamentos. E faz isso:

• seja não permitindo ao governo fazer o que deve,
• seja não o impedindo de fazer o que não deve,
• seja obrigando o governo a fazer o que não deve.
Em todos os casos, nenhum ônus vai à conta do Parlamento! Todos vão à conta financeira da sociedade e à conta política do governante, como se ele pudesse tudo, inclusive operar milagres.

Só isso bastaria para a reprovação moral do sistema político brasileiro. E vejam que eu sequer mencionei a imposição dos negocistas que, em cada proposta, olham para o governo com a cupidez de quem percebe a oportunidade de obter alguma vantagem.

***
As instituições têm um papel pedagógico diante da sociedade. Se racionais, elas educam politicamente os cidadãos. Se irracionais, elas os deseducam e as consequências costumam ser desastrosas.

Levam o Estado a tornar-se gastador (para atender as demandas sociais e políticas). A endividar-se para continuar gastando além da conta, até que a dívida se torna impagável. Essa é a hora em que as marmotas saem da toca para exigir a aplicação do calote aos credores, em nome de uma estranha justiça social, para que o Estado continue gastando. Nossas marmotas já saíram da toca. E o Congresso dá sinais de querer que o governo continue gastando...

***
Outro dia, ouvi de um taxista:” É, o Brasil não tem jeito. Está sempre sendo roubado pelos estrangeiros. Sobreveio-me uma tristeza infinita ao ouvir aquela arenga das Veias abertas na América Latina. Segundo ela, somos pobres por culpa dos outros. Porque os portugueses vieram nos explorar e levaram nosso pau brasil. É verdade, está fazendo uma falta! Não dizem, porém, ter sido a coroa portuguesa que criou as primeiras leis preservacionistas, designando as “madeiras de lei”, ainda hoje tidas e descritas como tal.

“Levaram nosso ouro!”, como se a mineração não fosse um negócio privado sobre o qual a coroa cobrava imposto de um quinto, difícil de arrecadar porque a turma criava novos e novos desvios para chegar aos centros urbanos sem passar pelos postos fiscais. O ciclo do ouro do Brasil fez a riqueza do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, de São Paulo, de Cuiabá.

Portugal não veio levar nossas riquezas Tivesse vindo, teria construído barracas, em vez de igrejas, cidades, palácios, modestos, mas dignos como os do reino. Veio nos trazer a Europa, sua civilização e sua cultura que, para nós chegou com as bênçãos da fé e do idioma que aprendemos da voz nos nossos país. E disso e de muito mais somos herdeiros.

***
Aprendi a amar o Brasil estudando História e ouvi, mais tarde, para jamais esquecer, que ninguém ama o que desconhece nem esquece do que ama. Assim como isto vale para o amor a Deus e para o amor aos amigos, vale, também, para nosso país.

Entre nós, porém, tudo é feito para que o Brasil seja apresentado aos estudantes, aos jovens, como palco de mazelas, deplorável e reprovável. Quanta perversidade nessa história ensinada por catadores de lixo, que põem o lixo na vitrina enquanto ocultam todo bem de que somos herdeiros! Dão-se bem nas trevas. São como insetos de caverna que fogem da luz. Escondem os heróis da pátria, seus fundadores, a beleza e grandeza de um passado que começa muito antes de Cabral e do qual Cabral foi apenas portador!

Dói no coração perceber que tantos jovens brasileiros são levados, assim, a não amar o Brasil. Não sabem de o quanto são herdeiros! Isso lhes é ocultado! Nem o hino nacional lhes é conveniente e suficientemente ensinado.

Dói no coração! Vale o mesmo para Porto Alegre, numa forma muito bem posta pelo nosso saudoso historiador Francisco Riopardense de Macedo, meu professor na Faculdade de Arquitetura e citado pelo AA Mayer dos Santos em seu livro sobre os prefeitos de Porto Alegre.

“Quem não conhece a história de sua cidade, que é parte de sua própria, não é cidadão. É hóspede.”

 

 

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Comentários

william cunha pupe .

Grande Amigo,Colega,Mestre e Escritor Percival Oliveira Puggina Recebi vosso convite,com uma alegria imensa,sem dúvida és ,a longo tempo,um cidadão ilustre da Cidade de Porto Alegre.A homenagem a ti concebida,já estava escrita,apenas aguardando,no passar dos tempos,que a conferissem a ti,com justa causa e sabedoria,pois cada letra,palavra,de tua escrita,tem a marca desta "mui valerosa",beira de rio.O rio que ainda está parcialmente,escondido a espera de uma atitude.Convivemos,trabalhamos juntos,conversamos,volta e meia nos cruzamos no shopping,mas sigo seus passos no "BLOG".É fundamental.Nos permite ver com teus olhos atentos a nossa realidade,sem as sombras da mídia.Recebeste uma honraria merecida.Os que de ti se aproximam,levam uma lembrança positiva,de educação respeito e inteligência.Confiro a ti,a mesma honraria recebida,por tua amizade.Siga á frente.Abraço Fraterno.Arquiteto William C.Pupe.

Carlos Edison Fernandes Domingues .

PUGGINA . Sentimo-nos homenageados com o reconhecimento do Legislativo de Porto Alegre a tua pessoa. Todo o bom brasileiro sente-se honrado e agradecido com esta decisão. Carlos Edison Domingues

Paulo Roberto Albieri Nery .

Professor, meus sinceros parabéns! Descobri seus artigos e livros há pouco menos de um ano e tornei-me seu fiel leitor! Fiel mas não menos crítico, e dessa crítica só tenho a dizer o quanto tenho aprendido sobre a realidade. Obrigado e passo a ser um devedor!

FLAVIO AUGUSTO SALLABERRY PEREIRA .

Parabéns pelo discurso e pelo merecido título.

Odilon Rocha .

Caro Professor Palavras mais do que sábias! Meus parabéns! Título merecido. Um forte abraço
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