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FREI BETTO E A UTOPIA

por Percival Puggina. Artigo publicado em

 

Frei Betto é o autor popular que melhor representa o pensamento utópico da esquerda no Brasil. Aliás, quem quiser conhecer a papinha servida aos bebês da utopia comunista deve procurar na cozinha do dominicano. Há jovens esquerdistas que nada têm de idealistas. Esses estão no PT, no PCdoB e na UNE e se servem direto das tetas públicas. Mas há jovens esquerdistas idealistas. E o que frei Betto escreve cai no gosto desses bem intencionados, seduzindo-os para o lado errado da pauta filosófica e política.

 O próprio dominicano o confessa lisamente. Em artigo de setembro de 2007, ele afirma: “Muito cedo gravou-se em mim o sentimento do mundo. Meus olhos, dilatados pela fé, polidos pelo pós-hegelianismo de Marx, enxergaram a pirâmide social invertida. Consumiu-se minha juventude na embriaguez da utopia. (...) Lutávamos atentos aos clamores da Revolução de Outubro, à Longa Marcha de Mao ao cruzar as pontes de nossos corações, aos barbudos de Sierra Maestra que arrancavam baforadas de nosso alento juvenil, à vitória vietnamita selando-nos a certeza de que arrebataríamos o futuro. A lua seria o nosso troféu. Haveríamos de escalar suas montanhas e, lá em cima, desfraldar as bandeiras da socialização compulsória”. A essas e outras catástrofes sociais e políticas, a respeito de cada um desses genocídios monstruosos, ele reservou odes e hosanas.

O Leste Europeu, para ele, era imagem viva das virtudes em que foi concebido. Obra dos mais elevados ideais humanos. Com Muro e tudo. São palavras suas: “Os condenados da Terra arranchavam-se sob o caravansará de nossos ideais e, em breve, saberíamos conduzi-los aos mananciais onde correm leite e mel...”. Em nome desse “em breve”, a famigerada Stasi da República Democrática da Alemanha chegou a ter 80 mil agentes. Somando-lhes os delatores não-oficiais havia um dedo-duro para cada seis alemães orientais. Em nome desse “em breve”, os cubanos já carregam no lombo meio século de totalitarismo. Em nome desse “em breve”, o frei, agorinha mesmo, no dia 25 do mês passado, se tocou para Havana, a visitar Fidel, seu “amigo íntimo”, com quem trocou impressões sobre o progresso dos movimentos sociais no Brasil.

E o Brasil, frei? E o Brasil? Prossegue ele, então, descrevendo o aviãozinho que levou colheradas de sua papinha aos bebês do comunismo verde-amarelo: “Na oficina dos sonhos, forjamos ferramentas apropriadas ao parto do novo Brasil. A luta sindical consubstanciou-se em projeto partidário, a crença pastoral multiplicou-se em células comunitárias, os movimentos sociais emergiram como atores no palco dominado pelas sinistras máscaras dos que jamais conjugaram o verbo partilhar. Cuba, Nicarágua, El Salvador... o olhar impávido do Che... a irredutível teimosia de Gandhi... a sede de justiça dessedentada nas fontes límpidas da ética. Jamais seríamos como eles”.

Não é uma figura, esse Frei Betto? Reúne Ghandi e Fidel Castro numa única frase e tudo parece caber na mesma confraria. E ele, sempre do lado errado, levando outros para o lado errado, mas flanando nas asas da maldita utopia que nem por acaso consegue cravar um prego no lugar certo. É o que ele torna a reconhecer em relação ao encontro de seu desvario com a cena política nacional: “Por que não se aventurar pelas mesmas sendas trilhadas pelo inimigo, já que ele se perpetua com tanta força? Qual o segredo dos cabelos de Sansão? Os pobres caíram no olvido, a sedução do poder fez a lua arder em chamas. Ícaros impenitentes, não se deram conta de que as asas eram de barro”.

Digam-me os leitores se ele não é um sedutor! Lutou a vida inteira com caneta, pistola e água benta em favor das instituições políticas mais sórdidas, desalmadas e perversas que a humanidade conheceu. Assumiu como seus e reservou palavras de louvação para regimes que escolhiam como principais inimigos os portadores da cruz que ele leva pendurada no pescoço. E depois, ao contemplar os estragos, reserva-se fugazes encontros com o mundo dos fatos. Como se lê aqui: “A sofreguidão esvaziou projetos, a gula cobiçosa devorou quimeras. O pragmatismo acelerou a epifania dos avatares do poder. O conluio enlaçou históricos oponentes, adversários coligaram-se, e aliados foram defenestrados nessa massa informe que, destemperada de ética, alicerça o Leviatã”. São palavras de quem, depois de se internar nos porões, tratou de se erguer, como fumaça, sobre os telhados desse mesmo poder, travestido de juiz do estrago que fez.

E agora? Agora, depois de ter vendido como coisa boa, ou envasilhado com a rolha do silêncio obsequioso, o Muro de Berlim, o paredón de La Cabaña, a Revolução de Outubro, os massacres que acabaram com o Levante da Hungria e a Primavera de Praga, a Grande Marcha de Mao, a “vitória” do Vietnã e por aí vai, ele conclui seu ato de contrição com uma nova pirueta em direção ao mundo da lua: “Dói em mim tanto desacerto. Os sonhos de uma geração trocados por um prato de lentilha. Aguardo, agora, a lua nova”.

O dominicano é, portanto, um tipo simbólico. Uma espécie de Muro de Berlim, vivo. Um irredutível habitante da utopia. E um semeador de desastres que, graças ao muro que o separa da realidade, não perde nunca. Qualquer adolescente com ideais nobres e pés no chão dos fatos é capaz de prever o lamentável destino para onde levam suas pegadas. Mas ele sobrevoa o precipício onde os seus seguidores fazem tombar multidões e volta a se revestir com a túnica da razão. Tipos assim são os mais perigosos e merecem ser lidos exatamente por isso. Constroem muros e se instalam, sempre, do lado errado.

Há quem creia estar informado sobre política lendo, nos jornais, o que os políticos dizem uns sobre os outros. Coisa vã, sem serventia. A mais instrutiva leitura política é a que se ocupa em conhecer o que escrevem os intelectuais, os condutores dos construtores. E entre estes, em particular, os condutores dos construtores de muros. Eles continuam ativos.

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Nota do autor: Este artigo foi escrito em 08/11/2009, tomando como eixo o artigo “As fases da lua”, da autoria de frei Betto, publicado no site www.adital.com.br, em 12/09/2007.

* Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões, e a Tomada do Brasil (no prelo).

 

 

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Comentários

Anderson Dalcin dos Santos .

O freizinho é o grande articulador da teologia da libertação junto ao PT e aos castristas de plantão no Brasil. Estar ligado ao cristianismo, mesmo que de forma particular como a dele, e ao mesmo tempo à Marx é incompreensível. Seria como um quadrado redondo. Materialismo dialético X Deus. É isso que é, ou seja não há concordância. Deve-se tomar muito cuidado com sujeitinho como esses. Qualquer coisa deve ser esperada. Não há a mínima possibilidade de o Frei estar no PT por mera inocência. Ele já fez dezoito anos faz muito tempo... é engodo mesmo...

Gustavo Pereira dos Santos .

O senhor está muito rigoroso com o freio e a famosa UTOPIA, Dr. Percival. Os antigos deturparam MARX, mataram, diretamente, mais de 100 milhões. A coisa tá melhorando, agora matam, indiretamente, milhares, mais de 50 mil por ano no Brasil, p. ex. O comunismo faz 365 bilionários por ano, em mil anos o planeta estará igual, rico e feliz. Isso parece a dieta do TIM MAIA: perdeu 30 dias em um mês.

Genaro Faria .

Carlos Alberto Libânio Christo, codinome Frei Betto, é um exemplo perfeito e acabado de loucura raciocinante. (La folie raisonnante - ?Jacques-Joseph Moreau, 1840) Faz profecias de um paraíso imaginário onde os homens são anjos de uma corte socialista, possível de se realizar com o extermínio dos demônios humanos liberais e conservadores. Comparado ao delírio dele, a Inquisição foi um pecado venial.

Ismael de Oliveira Façanha .

O estilo desse frei Beto é de um GONGORISMO irritante; o sujeito é um pernóstico incurável e insuportável.

RICARDO MORIYA SOARES .

Caro Puggina, o seu ótimo texto sobre uma das figuras mais pútridas do Brasil moderno me levou de volta à adolescência no Colégio Marista N.S. de Nazaré (anos 80!). Antes mesmo de ingressar no Marista, cursei o primário inteiro em uma escola pequena e modesta, mas que primava pelo respeito aos mais velhos e ênfase nos estudos essenciais à formação de uma criança (Educação Moral e Cívica, Matemática, Português e demais ciências) - sendo que toda quinta-feira, íamos ao pátio da escola cantar o hino nacional, para depois jurarmos nossa bandeira! Por incrível que pareça, quando iniciei meus estudos ginasianos no Colégio Nazaré, a disciplina não chegava nem perto da minha antiga escola (Poranga Jucá), inclusive já não davam tanta importância para o traje dos professores (e o que dizer do dia cívico?), nem aos excessos cometidos por alunos mais exaltados... na minha cabeça eu esperava o oposto. A educação era boa, nada mais (estou falando da metade dos anos 80!), todavia o fator mais chocante de meu novo colégio era a mentalidade de alguns Padres que lá lecionavam; principalmente um certo Padre Raul, que lecionava Religião e ficava conversando com os alunos o dia inteiro. Era uma pessoa até agradável, muito querida por sua simplicidade, só que no fundo era um lobo em pele de ovelha, um autêntico marxista doutrinando os filhos abastados da sociedade local. Eu nunca gostei do sujeito, sempre o achei falso e com olhar de peixe morto (olhar típico daqueles esquerdistas com mais de 60 anos de idade, contendo algo de nefasto e obscuro... lembrando os olhos de tubarão, desprovidos de vida e cheios de sangue!), mas reunia ao seu redor uma multidão de alunos-devotos, numa espécie de messianismo calculado - ele mesmo presenteava os jovens com literatura perigosa: livros do Leonardo Boff, textos sobre as ligas campesinas, uma coleção de livros do Darcy Ribeiro. Isso tudo eu presenciei em primeira mão, pois já tinha meus 14 e poucos anos e tinha aprendido desde cedo a farejar salafrários; o que não podia dizer de todos meus amigos daquela idílica época. Por volta de 1989, véspera da eleição presidencial, estava conversando com um amigo de meu pai, que era advogado trabalhista e comunista sem vergonha. Ele gostava de coisas caras, de vinhos caros e carros importados (o que era uma exclusividade em 1989, pois quase ninguém tinha acesso a tais luxos), e neste domingo ensolarado me olhou e disse: estudas no Nazaré ainda, Ricardo? respondi que sim, que completaria o segundo grau em 1991. Então me confidenciou que fora graças ao Padre Raul que ele, e por tabela sua geração inteira, haviam se tornado socialistas vitalícios (ele era da geração que se formara na faculdade antes de 1975!). Quem diria, nosso velho e nefasto Padre Raul já fazia a cabeça da juventude desde o começo dos anos 60! Quando ingressei na faculdade, um de meus professores de microeconomia também tinha estudado no Marista, e numa dessas cervejadas pós-aula que ele estava presente, me confidenciou algo que eu já desconfiava; que o nosso velho Padre Raul era um agente comunista, que tinha passado pelo Leste Europeu nos anos 50, e até "estudado" na Romênia e Tchecoslováquia antes de se estabelecer no Brasil - por isso ele tinha aquele sotaque engraçado! Então volto ao advogado comunista amigo de meu pai, que me dissera também outra pérola naquela tarde: que se houvessem no Brasil vinte (20!) padres como o Raul, o Brasil já seria socialista (1991). Finalizando, o Brasil é um país socialista sim senhor! Se deixarmos o povão de lado por um instante, a classe média fez sua escolha em 2002 (tudo bem, havíamos votado num Socialista Fabiano em 1994-1998 por necessidade, assim como no sujeito que tinha aquilo roxo em 1989!), e ordenando tudo que havia presenciado ao longo dos anos de forma mais linear, chego a conclusão que o velho Raul está rindo de todos nós, seja onde estiver. Veja só o efeito devastador que um só clérigo comunista-agente infiltrado produziu no seio de uma grande cidade brasileira!

João D'Oliveira .

Este falso frei, a muito tempo escolheu o lado da espada e do fim da liberdade individual, coroando a sí próprio como senhor da verdade, e ditador das ações sociais. Se posta rei dos direitos dos outros,menosprezando a inteligência da sociedade, como se ninguém, além dele soubesse o que quer. É somente mais um estúpido oportunista que se diz frei,as acende vela para o ódio. O pai da mentira é o demônio.

Dalton Catunda Rocha .

No site http://socserv2.socsci.mcmaster.ca/econ/ugcm/3ll3/lebon/socialism.pdf tem para leitura gratuita, o livro " The Psychology of Socialism". Escrito já em 1899, pelo filósofo francês Gustave Le Bom, lá tem escrito coisas que traduzindo dão: "Fracassos sociais, gênios supostamente incompreendidos, advogados sem clientes, escritores sem leitores, médicos sem pacientes, professores que se acham mal pagos, graduados sem empregos públicos e empregados ,cujos patrões desdenham deles, por sua incompetência — estes são os primeiros adeptos do socialismo. Em realidade, eles não ligam a mínima para doutrinas. O que lhes interessa de fato é em estabelecer, através da violência, uma sociedade na qual, eles sejam os senhores. Ver minha revisão do livro neste site: http://www.amazon.com/Psychology-Socialism-Social-Science-Classics/dp/0878557032

Sérgio Alcântara, Canguçu RS .

Parabéns, Professor, por mais um artigo esclarecedor, repleto de inteligência, inteligibilidade, compromisso com a boa política e, acima de tudo, de sua inegável honestidade intelectual. Vou compartilhar este texto em minha página no facebook e imprimi-lo para compartilhar com amigos inteligentes, que ainda não tenham internet.
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