Puggina.org by Percival PugginaConservadores e Liberais

Artigos do Puggina

Voltar para listagem

QUEM QUER PAGAR ESSA CONTA?

por Percival Puggina. Artigo publicado em

 

 Cláudio Humberto, em recente coluna no Diário do Poder, informou que os veículos oficiais federais custaram aos cofres públicos R$ 1,6 bilhão em 2016. O montante inclui viaturas de serviço e representação e envolve renovação da frota, manutenção e pagamento de impostos.

 Quem acha que deve pagar essa conta toda, especialmente a parcela que envolve os carros de representação, levante a mão. Tais viaturas são resíduos das carruagens do Paço Real no século XIX e das liteiras conduzidas por escravos nos séculos anteriores. Afinal, ninguém realmente importante está aí para sujar sapato na poeira das ruas, misturar-se à plebe ou rodar no próprio automóvel, como se fosse, digamos assim, uma pessoa ... normal, não é mesmo? De que valeria o poder sem aparatos e mordomias que o tornem objeto de cobiça? No século XXI, nós somos os cavalos da carruagem e os escravos da liteira.

 Essa mentalidade é parte do problema brasileiro. É como se o chefe de família, bêbado e jogador, cobrasse à mulher e aos filhos que cortassem as próprias despesas. Falta autoridade moral. Falta autoridade moral para justificar medidas efetivamente necessárias e realmente significativas ao quadro fiscal do país quando o Congresso Nacional negocia uma boca livre de R$ 3,5 bilhões para os gastos de campanha eleitoral no ano que vem. Ou quando o Senado da República renova o contrato de locação de veículos zero quilômetro para os senadores ao custo de R$ 8,3 milhões, por 30 meses. Fazem parte do contrato duas liteiras turbinadas, com motor de 250 CC, cujo peso é sustentado pelos nossos braços.
 As regalias do poder são evidências da distância que o separa do cotidiano em que se vira e contorce a nação. Basta listar alguns que a memória socorre: jatinhos da FAB, helicópteros, cartões corporativos, verbas de ostentação (eufemisticamente designadas como de "representação"), voos em 1ª classe, auxílios moradia e alimentação, adicionais (ah, os tão bem-vindos adicionais!) de vários tipos e motivos. E quanto mais distante dos olhos estiver a realidade social, maior sua distância do coração.

Enquanto isso acontece por aqui, em meio às nossas reconhecidas dificuldades, na Holanda parlamentares não têm direito a carro oficial e o prefeito vai de casa ao trabalho usando sua bicicleta. Na Suécia, nem o primeiro-ministro tem carro oficial; autoridades podem, no máximo, pedir reembolso para viagens oficiais ou se residirem a mais de 70 km de Estocolmo. Parlamentares suecos têm direito a reembolso do combustível. Na Noruega, há 20 carros para atender o governo e só o primeiro-ministro tem direito a veículo exclusivo. Em Londres, o prefeito anda de metrô ou bicicleta; ele e os vereadores recebem um vale-transporte anual para o metrô. Prefeito e vereadores da maior cidade da Europa têm compromisso de usar o transporte público. (Maiores detalhes a respeito estão disponíveis em www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/47253)

O de que estamos falando aqui é sobre o "animus" do poder, ou seja, de sua alma, ou, ainda mais precisamente, dos sentimentos que a inspiram. Se e quando aquilo que move a alma do poder político for o indispensável espírito de serviço, estas ostentações e demasias são sumariamente rejeitadas, por aversão e coerência.

________________________________
* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

 

 

 

Compartilhar

Comentários

Antonio Augusto d´Avila .

Não cabe citar países parlamentaristas. Lá o Congresso deve andar na linha e pode ser dissolvido. No presidencialismo, o Congresso é um órgão absolutamente irresponsável, não pode ser dissolvido em hipótese alguma (aliás, essa a razão das centenas de golpes militares nos países presidencialistas), Pior, o presidente precisa submeter de qualquer forma o Congresso, do contrário, seu governo fica completamente inviabilizado ou é ele que vai para a "forca".

Ismael de Oliveira Façanha .

O Brasil é um imenso cupinzeiro burocrático, onde vive uma horda inextinguível de barnabés, a entravar cuidadosamente, zelosamente, o caminhar do cidadão produtivo. Criam-se cargos à torto e à direito, gerando uma malha kafkiana de prebostes "tranca-ruas" a nos assombrar a vida.

susana .

E então, caro amigo, vamos de alíquota de 35% no IRPF? Chega, Temer, não dá mais.

Claudio José Cavalcante .

Os políticos são sustentados por nós trabalhadores pagadores de impostos, chega de mordomias, mudança já.

Roberto Antonio Becker .

Dom Pedro II era infinitamente mais austero com o dinheiro do cidadão do que qualquer republicano. Se consideram mais reais que o Rei!
1/1
DEIXE SEU COMENTÁRIO

Artigos do Puggina