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FERNANDA MONTENEGRO E A “ZONA ARTÍSTICA”

por Percival Puggina. Artigo publicado em

 

“Eu nunca vi, mesmo no período militar, um momento em que a zona artística tenha tão pouco prestígio quanto agora” (Fernanda Montenegro, em coletiva virtual da série Amor & Sorte).

Pois é. Fernanda Montenegro tem inteiro direito de emitir opinião, queixar-se do governo, silenciar sobre a roubalheira que se instalou no Brasil, concordar com os privilégios e com a política de companheirismo que vigeu durante os governos de esquerda. Os devaneios de cada um integram o conjunto de seus direitos naturais. São como bens pessoais. Fernanda tem os seus. Ela sonha com um Brasil como aquele que o petismo jura que criou e legou a quem o sucedeu. Aquilo ali, com corretor ortográfico e gramatical, deve ser seu sonho de cidadã e atriz. Se eu não reconhecesse o direito dela, não poderia invocar igual direito a meus próprios devaneios.

Fernanda fala de uma “zona artística”. A expressão me fez lembrar de outra zona. Durante seus 28 anos de existência, o muro de Berlim marcava a zonengrenze (fronteira interna) alemã, atrás da qual ficou aprisionada a população da Alemanha Oriental. Daquele lado, só havia recursos públicos para a prestigiadíssima produção cultural comunista.

Enquanto a Alemanha Oriental arfava sob os governos títeres de Moscou, a Alemanha Ocidental, em regime de liberdades democráticas, abrigava, inclusive, o coração do pensamento marxista no século XX, a celebérrima Escola de Frankfurt. Ou seja, era um ambiente democrático e plural, economicamente próspero e culturalmente evoluído.

Imagino o quanto esteja difícil, mesmo, a vida na zona de Fernanda Montenegro. Eventos culturais envolvem público. Em tempos de covid-19. nossos governadores e prefeitos, atentos aos apelos da esquerda, de pirraça com Bolsonaro, fecharam e mantêm fechada toda e qualquer bilheteria que dê acesso ao distinto público para qualquer tipo de evento.

Prestígio? Prestígio é algo que se conquista, que se moureja para obter e ainda mais para preservar. O que Fernanda Montenegro pode estar observando é a substancial redução da capacidade de influência da tal “zona artística”, habituada a orientar o país por via remota. Ao longo de muitos anos, suas manifestações políticas eram destacadas e ganhavam relevo por parte da parceira (digamos assim) “zona da mídia”. Há também a possibilidade de que Fernanda esteja confundindo prestígio com acesso a recursos públicos. Mas, sinceramente, não penso que ela incorra nesse erro.