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DOIS DISCURSOS SOBRE O MÉRITO

 

Notas do Editor

1. O primeiro discurso é da juíza Fernanda Orsomarzo, ligada à Associação Juízes para a Democracia (que abraça todas as teses esquerdistas). Segundo a magistrada paranaense, a meritocracia é injusta porque desconhece desigualdades de condições. Para alguns, diz ela, “os entraves são meras pedras no caminho, enquanto para outros a vida em si é uma pedra no caminho”.

2. O segundo discurso, cuja íntegra transcrevo a seguir, é da juíza Ludmila Lins Grilo, do TJ/MG. Ela tomou conhecimento do artigo da colega e o contestou apresentando sua própria história de vida para formular uma eloquente convocação ao esforço pessoal em contraposição ao vitimismo do texto precedente. O esperar pelo Estado para tomar decisões e assumir atitudes individuais nunca foi bom aconselhamento.

3. A imagem que ilustra este texto viralizou na Internet em 2015. Registra a atitude de uma criança estudando à noite, na rua, aproveitando-se da iluminação externa projetada por uma lancheria MacDonalds. Há depoimentos de que essa imagem modificou a vida de muita gente.

 

A Dra. Ludmila Lins Grilo diz:

 

“Minha resposta ao POST da juíza Fernanda Orsomarzo, integrante da AJD (Associação Juízes para a Democracia), associação de magistrados de viés marxista que frequentemente fala ao público como se representasse todos os juízes, quando, na verdade, é repudiada pela grande maioria dos magistrados.

Fernanda disse que ralou duro para ser juíza de direito. Entretanto, ressaltou que essa vitória não deve ser imputada somente a ela e aos seus méritos, mas sim, a uma conjunção de fatores positivos que, desde sua tenra infância, pôde desfrutar: casa, escola particular, comida na mesa, aulas de inglês, informática. Diz que, graças a todas essas circunstâncias, ela foi alçada a um patamar de maior comodidade, e, privilegiada, teve mais chances de conseguir chegar onde chegou. Invoca questões raciais: “nasci branca”.

Fernanda é contra a meritocracia. Acha injusto desresponsabilizar o Estado e jogar “nos ombros do indivíduo todo o peso de sua omissão e falta de políticas públicas”. Diz que “quem defende essa falácia não se recorda que contou com inúmeros auxílios para chegar onde chegou”.

Fernanda se esforça em mostrar para o público como é difícil para o pobre vencer na vida. Milhares de pessoas compraram a sua ideia. Fernanda estimulou a revolta nesses milhares de pessoas.

Pois eu não farei isso. Jamais estimularei a sua revolta contra um ente abstrato e sem rosto, como o “Estado”. Estimularei a sua coragem sua força de vontade e, principalmente: sua FÉ. Vem comigo!

Assim como Fernanda, eu ralei duro (duríssimo!) para ser juíza de direito. Era um verdadeiro sonho a ser perseguido dia após dia. Mas, ao contrário de Fernanda, não tive tantas facilidades assim. Morava no subúrbio do Rio de Janeiro, no bairro de Olaria. Não tinha vista para o Cristo Redentor, mas sim, para o Complexo do Alemão. Conservo até hoje uma pequena cicatriz na perna de um TIRO tomado dentro da escola, aos 11 anos, em Ramos. Minha mesinha de estudo ficava à beira da janela: quando começavam os tiroteios, eu precisava sair dali da linha de tiro. Pegava o livro e ia ler na cama, toda torta e com baixa visibilidade. Os olhos e a coluna sofriam, mas o espírito sempre estava em FESTA.

Muito tempo de estudo foi tomado durante minhas viagens no 621 (Penha-S.Peña), ônibus que eu pegava para a ida ao trabalho administrativo em um hospital ao pé do morro da Mangueira. Nem sempre conseguia ir sentada, muitas vezes eram 40 minutos, uma hora em pé, desconfortável, suando, sendo empurrada, com os braços doendo por ficar segurando naquele ferro acima da cabeça. Mas minhas “folhinhas” de estudo estavam à mão: não havia tempo perdido. Não havia espaço para vitimismo: minha alma estava em FESTA.

O retorno da faculdade era feito na linha 313 (Pça. Tiradentes-Olaria): altas horas da noite eu voltava sozinha naquele ônibus vazio, cheio de perigos, transpassando a Central do Brasil, Leopoldina, São Cristõvão, Jacaré…ah como eu tremia quando entravam no ônibus aquelas pessoas sinistras no Jacaré! Cheguei a presenciar assalto com fuzis na estação de Bonsucesso. Mas meu livrinho estava sempre à mão, e meu coração estava em FESTA. Fazia uma breve oração, pedia a Deus por minha vida. E Ele me conservou.

Sabe por que estou te contando toda essa história? Pra mostrar ao mundo o quanto sou fera e incrível? Nada disso. Estou te contando essa história para que você não acredite em pessoas como a Fernanda.

Enquanto a Fernanda diz que só é juíza porque também recebeu um “empurrãozinho” da vida, eu te digo que esse empurrãozinho não é necessário: você pode começar do zero. Não temos castas no Brasil. Um rico pode ficar pobre e um pobre pode ficar rico.

Enquanto a Fernanda te diz que você deve esperar tudo do Estado, eu te digo que você não deve esperar NADA do Estado. Levante-se! Faça você mesmo! Come on!

Enquanto Fernanda invoca questões raciais para dizer que esta circunstância a ajudou na vida, eu te digo: deixe o racismo com eles. Independentemente da sua cor, você PODE.

Enquanto a Fernanda te conta que você deve ter revolta, eu te digo: você deve ter otimismo, força de vontade e FÉ.

Enquanto a Fernanda te estimula a permanecer onde está, por não ter condições financeiras, eu te digo: ignore sua condição financeira. Não fique onde está, se não te agrada. Saia daí. É possível e viável. Você pode sim.

Isso é a meritocracia que tanto irrita a Fernanda. E claro que existem desigualdades sociais – e, lamento informar: sempre existirão. Por isso, parta para o abraço: não deixe que pessoas como Fernanda digam que você não pode. Não acredite nisso. Não se vitimize. VOCÊ PODE SIM.”