Percival Puggina
08/06/2025
Percival Puggina
Numerosas forças malignas, estruturadas, agem à custa da sociedade brasileira mediante atividades criminosas que contam com retaguarda jurídica e vanguarda política. Em dezembro do ano passado, dados de 2022, divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública estimaram em R$ 146 bilhões os ganhos anuais do crime com a exploração de vários produtos.
No período de julho 2023 a julho 2024, o faturamento com celulares roubados chegou a R$ 22,7 bilhões. Numa investida que causa quase cinco mil vítimas por hora, os golpes virtuais arrecadaram R$ 46 bilhões. A venda de drogas ilícitas chega a R$ 30 bilhões. É dessa magnitude a atividade das muitas facções nascidas no Brasil e já disseminadas em países vizinhos na América do Sul, Estados Unidos e Europa. A força armada efetiva das duas maiores entre as 72 organizações criminosas existentes é estimada em quarenta mil homens no PCC (Primeiro Comando da Capital) e em 15 mil no CV (Comando Vermelho).
No mês passado, esteve em Brasília uma delegação dos EUA com o intuito de conseguir que nosso país mudasse de atitude e classificasse como terroristas as duas facções. Os visitantes não foram bem sucedidos junto ao nosso governo e o Consórcio Goebbels não deu bola para o assunto porque os visitantes eram americanos e você sabe que quem autoriza pagamentos não quer ouvir quem fale inglês. Em reuniões com uma equipe do Ministério da Justiça ficaram sabendo que a Lei nº13.260/2016 não permite essa classificação. Ela define como terroristas os atos motivados por “xenofobia e discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião”, executados “com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública”.
Observe o leitor que, pela lei brasileira, atos que causem terror, exponham a sociedade e afetem a paz, se tiverem objetivo político (!), não são atos terroristas... Mesmo assim, tanto os baderneiros do dia 8 de janeiro quanto os simples manifestantes, por serem supostamente de direita, foram ditos “terroristas” por todos aqueles a quem cabe guardar a Constituição e as leis.
O interesse norte-americano se explica. PCC e CV já operam em uma dúzia de seus 51 estados. Para destruí-los, é necessário combater suas organizações também aqui, no país que emite seus passaportes. Não seria totalmente impróprio dizer que no senso mais comum, são vistas como membros naturais das comunidades. E aí está a diferença: os EUA promovem ações internas e externas para combatê-las com o vigor com que combate mundialmente o terrorismo.
Também nosso desinteresse se explica. Nós normalizamos a situação! Somos receptivos, incorporamos as facções ao nosso convívio, transformadas em províncias autônomas, entregamos a elas partes de nosso território, testemunhamos sua atividade política e sua inserção nos poderes de Estado. Mencionamos suas siglas sem efetivamente pensar na malignidade dos monstros criados. Mesmo assim, especialistas em humanidades, de coração mole e cabeça dura, nos falam, desde o mundo da lua, para propor políticas fofas de acolhida e proteção humanitária das “províncias autônomas” capturadas pelo mundo do crime em todo o país.
Então, as facções queimam ônibus e outros bens públicos e privados, periodicamente bombardeiam delegacias de polícia, usam da violência para impor domínio territorial, tomam avenidas de assalto em movimentos de protesto, causam pânico, mas não... não são terroristas.
Para esse grupo que, por motivos diferentes, comanda os três poderes de Estado, terrorista pinta estátua com batom.
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
07/06/2025
Percival Puggina
Desde o final do século passado, até 2011, fui mobilizado por uma intensa curiosidade sobre o comunismo cubano. Das mãos de Lula e Fidel Castro surgira o Foro de São Paulo, que eu chamava Organização Comunistas Sem Fronteiras e o protagonismo da esquerda radical se ampliava em ritmo acelerado. Para uso externo, o petismo é contra a meritocracia, mas não no âmbito do serviço ao partido; naquela época, viagens a Cuba e cursos de Medicina em Havana reconheciam e premiavam a militância mais aguerrida e efetiva. Camisetas do Che Guevara integravam o fardamento oficial em ações do MST, manifestações sindicais e movimentos estudantis.
Se o conhecimento da história do comunismo como regime tornava insanidade descolá-lo de suas consequências, os defensores da revolução cubana dispunham de uma “narrativa” que convertia a miséria da ilha em paraíso na terra, laranja de amostra que só não era mais do que perfeita por causa do “bloqueio ianque” (como se Cuba produzisse valor a exportar e tivesse recursos para importar).
Então, fui a Havana.
E voltei a ir. Escrevi o livro “Cuba a tragédia da utopia”, sobre a revolução e sobre a ilha. Estabeleci conexões que até hoje me mantêm informado. Fui novamente em 2011. Aos 60 anos da revolução, publiquei “A tragédia da utopia” (2019), obra distinguida com prefácio do amigo Ives Gandra da Silva Martins.
Depois disso, nunca mais voltei. Nem preciso. Pude observar na nossa própria história o passo a passo no rumo de uma tirania esquerdista. A tirania cubana iniciou com uma revolução, com sangue, e se firmou pelo cerceamento da liberdade e pela miséria que levou o povo à dependência total submissão ao Estado. A nossa começou pelo controle dos meios culturais. Com uma das mãos causa miséria, com a outra atira pequenas esmolas periódicas que criam a dependência. São o substituto da “libreta” que limita os gastos dos cidadãos da ilha.
Em Cuba, há um CDR (Comitê de Defesa da Revolução) em cada quarteirão do país controlando a vida de toda as famílias. Aqui, a tecnologia viabiliza algo bem mais eficiente no controle das redes sociais. A democracia de picadeiro, moda da esquerda, quer agora, olhos postos em 2026, ampliar sua abrangência pela submissão das plataformas. O medo do Estado e a desproteção dos cidadãos são os mesmos, aqui e em Cuba. Na Venezuela e no Irã. Na Nicarágua e na Coréia do Norte.
Tenho até hoje gravada na retina a expressão fisionômica de duas pessoas que encontrei na rua em Havana e com quem conversei enquanto tomávamos um cafezinho na cafeteria do Hotel Inglaterra. A primeira era uma guia de turismo a quem apresentei uma lista com nomes de periodistas independentes que queria entrevistar. Ela fez uma expressão de horror, olhou à volta e foi embora. A segunda, poucas horas depois, era um professor de medicina, católico, que me confessou suas dificuldades com o regime por que “ellos saben que solo el Señor es mi señor”. Quando lhe disse que havia telefonado para Oswaldo Payá, o principal dissidente cubano, meu entrevistado se levantou advertindo que eu certamente estava sendo seguido e implorou que não revelasse seu nome.
De fato, eu estava sendo seguido. No dia seguinte, enquanto almoçava no Il Gentiluomo com três dissidentes, dois policiais enormes, carregando uma imensa filmadora do tamanho deles, entraram no restaurante, instalaram-na, apontaram-na para nós e nos filmaram durante alguns minutos. Então, senti em mim, o medo que transfigurou a fisionomia dos dois infelizes cidadãos da véspera, o medo de quem não tem defesa perante a mão pesada e o comportamento implacável, inquisitorial, do Estado. Experimentei o suor escorrendo frio. Saí dali e fui à embaixada pedir socorro. Para quantos brasileiros não é mais novidade saber que tudo em sua vida depende do arbítrio de alguém que lhe quer fazer mal?
O que descrevo não é um perigo iminente. É um dado da realidade.
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
04/06/2025
Percival Puggina
Sim, felicidade é uma convocação natural a todo ser humano. Todo mundo quer. É a mercadoria com maior clientela. Por felicidade, entra-se em fila de espera, se preciso for. No entanto, o maior equívoco daqueles que a buscam consiste em confundir felicidade com satisfação. Tenho certeza de que colocados, assim, lado a lado, os dois vocábulos – “satisfação” e “felicidade” –, salta aos olhos que seus conceitos são diferentes. Na vida prática, contudo, a confusão é permanente, é regra geral, com raras exceções.
Então, vejamos. “Satisfação” é o estado de espírito de quem desfruta de algo atraente aos sentidos: a música que nos agrada, o perfume certo, um pôr-do-sol sobre as águas, o prato predileto, o toque da pessoa amada. Há uma clara relação, pois, entre “satisfação” e um ou outro de nossos cinco sentidos, de modo que tal estado de espírito se relaciona diretamente com nossos instintos e gostos pessoais.
“Felicidade”, por seu turno, é o estado de espírito de quem encontrou o Bem. Não apenas uma “coisa boa”, mas “o” Bem. Refere-se a algo muito mais permanente do que a satisfação, que esta vale tanto quanto dura. O Bem, assim, com maiúscula, é substantivo ao passo que a palavra “bom” é usada, habitualmente, como adjetivo atribuído a algo.
Ora, todos somos igualmente vocacionados para a felicidade e para a felicidade eterna. Felicidade que não se projeta para a eternidade, felicidade que admite um horizonte final logo ali, não é felicidade verdadeira. Portanto, a felicidade só pode estar na eternidade de Deus ou, mais precisamente, no próprio Deus. Nas coisas que passam, se gastam ou são roídas pelas traças, jamais estará a felicidade, mas a mera satisfação; onde estiver a felicidade a satisfação perde muito de seu relevo.
O que torna especialmente difícil, na vida prática, perceber os desvios a que nos conduz a confusão entre felicidade e satisfação é a carga publicitária imposta pela natureza comercial dos meios de comunicação. Toda essa carga está empenhada em nos convencer de que seremos felizes consumindo ou fazendo “coisas boas”. E nunca interessada em indicar o Bem. Não raro, como se identificassem, nele, uma concorrência invisível, certos meios de comunicação tratam de firmar a confusão conceitual ridicularizando o Bem em suas manifestações. As conseqüências vitais a que ficamos expostos criam verdadeiro desvio de vocação (ou de função) pela vida afora, empurrando-nos a só buscar coisas boas, não raro em detrimento, aqui e agora, do eterno Bem.
Por isso, é importante que tenhamos vida além dos muros da comunicação social, com tempo para atividades que elevem o espírito, para convívio afetivo e cultivo das virtudes – fé, esperança e caridade – que estas conduzem ao Bem e, portanto, à felicidade. Ao menos, é assim que penso e sinto.
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
31/05/2025
Percival Puggina
Tenho acompanhado com interesse as informações que vão chegando sobre a possível aplicação da Lei Magnitsky a autoridades brasileiras. A declaração do Secretário de Estado Marco Rubio, segundo quem “há grande possibilidade” de que isso aconteça, agita o noticiário. Animam-se quantos anseiam por algo que refreie a agressividade punitiva do tribunal penal instalado em Brasília, transparente, apenas, quanto às intenções. Ativaram-se, também, profissionais do jornalismo de delivery, dedicados a distribuir recadinhos públicos de ministros do Supremo.
Tem sido intenso o trabalho desses motoboys e motogirls da informação. Sim, há quem se preste aos zigue-zagues da vida na atividade de mensageria oficial e, depois, se poste diante das câmeras e microfones a papagaiar acriticamente recados anônimos jamais desmentidos. Quem os envia não poderia, por dever de ofício, dizer o que disse; quem os transmite não deveria, por dever de ofício, impor-se um ritual em que silenciar é consentir.
No caso da aplicação da Lei Magnitsky, considero haver exagero nas duas posições. Minha leitura da frase de Marco Rubio não é tão otimista. A expressão “grande possibilidade” não é o mesmo, por exemplo, que “logo estará na mesa do presidente” ou “discutem-se pequenos detalhes”, etc. Afinal, penso que o secretário foi prudente diante das expectativas. O ato não é automático e depende da avaliação de Trump.
Por outro lado, o caso não é adequado a alegações sobre soberania brasileira. Não se trata de uma questão judicial nem diplomática, mas estritamente política. Essa configuração do STF – surpresa! – se declarou uma corte política e passou a fazer política. Ora, a ninguém é dado, numa democracia, fazer política exigindo, de quem se lhe opõe, o tratamento devido a magistrado. Ninguém pode assumir protagonismo político e se proteger sob a toga, quando conveniente, nem usar dela em favor de objetivo político.
O que pode advir da Lei Magnitsky é consequência também política dessa atuação, inteiramente na esfera da soberania dos Estados Unidos, sem nenhuma interferência na nossa soberania. O Brasil poderia e deveria fazer algo assim em relação a Nicolás Maduro, por exemplo, como ato soberano nosso, proibindo-o de entrar no Brasil, em vez de o acolher com tapete vermelho e lhe dar conselhos sobre boas narrativas, como fez Lula. Pelas mãos do Poder Executivo (relações com Irã, China, Hamas, Hezbollah, Cuba, Venezuela, Nicarágua) e de decisões do STF em relação a empresas e cidadãos norte-americanos, o Brasil entrou em rota de conflito com os Estados Unidos.
O regime instalado aqui se tipifica pelo parlamento comandado por fantoches, pelos sigilos impostos ao que não convém tornar público ainda que a lei mande publicizar, pelas pesadas penas de multa e prisão e pela censura sobre o que o poder imperante não deseja ver propagado. Assim, a soberania brasileira controla as coisas aqui. Mas não pode impor controles além fronteiras.
* Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
24/05/2025
Percival Puggina
Em recente encontro casual com pequeno grupo de cidadãos interessados em questões nacionais, falávamos sobre a educação no Brasil. Ao ser mencionado o modelo das escolas cívico-militares, alguém perguntou, provocativamente: “São aquelas escolas que preparam militarezinhos para o Brasil?”. Aceitei a provocação e transcrevo aqui o que disse então.
Durante toda a minha vida ouvi ser repetida uma frase atribuída a Rui Barbosa, segundo a qual a pior das ditaturas seria a do judiciário porque dela não haveria a quem apelar. Mas onde – raios – já houve uma ditadura assim, sem voto nem legitimidade, nem força armada, nem patrocínio econômico interno ou de potência estrangeira?
Pouca sorte a nossa, pois acabamos por conhecer essa bizarrice na atualidade brasileira. O Brasil vive uma ditadura imposta pela Suprema Corte ao se tornar não apenas um poder político, mas o poder que determina os rumos da política nacional. Ela se manifesta em mostruário de arbitrariedades que partem de um pressuposto típico de política estudantil: a vitória da direita em 2018 teria colocado a democracia brasileira sob risco de um golpe de estado (risos na plateia).
Por meios próprios, o STF se ergueu à condição de poder político dominante, passando a supervisionar e a conter a expressão da opinião pública. Daí a censura, a censura prévia, o bloqueio de contas nas redes sociais, o controle dessas redes e das plataformas, a intimidação e submissão do parlamento, os casuísmos, as ameaças e o cerceamento de políticas aprovadas na eleição de 2018. Surgiram, até mesmo, três dogmas de fé: dogma da vacina que não vacina, dogma das sagradas urnas sem impressora (urnas com impressoras é uma ambição satânica) e dogma da imaculada vida pública de Lula.
Isso acontece em virtude do domínio exercido pela esquerda nos ambientes culturais, notadamente nas salas de aula, onde, afirma com razão José Dirceu, estão os corações e as mentes. Elas, de fato, não proporcionam bons cidadãos ao Brasil! Não proporcionam cidadãos responsáveis e que usem a liberdade com responsabilidade. Não proporciona estudantes que estudem porque disponibiliza professores que não estudaram e estão mais preocupados com preparar militantes políticos. Quanto mais burros melhor. Quanto menos amarem o país, melhor. Quanto menores e mais frágeis forem seus critérios morais, melhor.
Toda rejeição às escolas cívico-militares está em que elas operam no contrafluxo dessa atividade. Não formam militantezinhos, mas preparam melhores cidadãos, recurso humano de que a nação hoje é carente. Por isso, comprovado em tantas e tantas votações dentro das comunidades, é o modelo preferido e desejado pela imensa maioria dos pais. É isso que as escolas cívico-militares fazem e é por isso que a esquerda quer acabar com elas.
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
19/05/2025
Percival Puggina
Se você quer vingança em serviço expresso, para começar a punir antes mesmo de julgar, a realidade nacional é uma sala de aula.
Cancelados na caneta os escândalos do petrolão, a nação descrê de si mesma a cada notícia sobre as fraudes do desconto em folha dos aposentados. Os valores, expressos em números astronômicos, impressionam as almas mais apáticas. A briga de cada idoso contra a miséria crescente suscita a solidariedade das pessoas de bem. É natural que o desejo de justiça clame por punição.
É igualmente comum que a corrupção em governos petistas, quando ocorra, seja qualificada pelo aumentativo: mensalão, petrolão e agora, a grande fraude, o fraudão dos descontos no INSS! A coisa sempre tem super tamanhos. Eventuais condenações, sempre brandas, habilitam alguns autores do crime à galeria dos “heróis do povo brasileiro”. Seus seguidores e eleitores riem sardonicamente dos condenados a desmedidas penas face à narrativa oficial do 8 de janeiro. Os mesmos cidadãos, perante criminosos reais, afirmam que prender não resolve e que no Brasil se prende demais...
Por isso, se conta que o senador Collor, ao entrar recentemente na Papuda, condenado pela Lava Jato, teria perguntado: “Cadê os outros?”. Ficou por ali algumas horas e foi para casa cuidar da saúde porque só a dos presos do dia 8 de janeiro é de ferro e deve aguentar quaisquer maus tratos.
Não é esse o Brasil que a gente quer! Não é mesmo! Esse é o Brasil das instituições clamando por reforma. Esse é o Brasil da conversa fiada, da rotulagem, das etiquetas pejorativas cujos poderes de Estado estão envoltos por uma bolha onde os mandachuvas e seus devotos perderam o contato com a realidade e onde, com ódio, se prega contra o discurso de ódio.
O assunto deste artigo é a importância da palavra. Tendo entendido que algumas, repetidas em refrão, adquirem a gravidade necessária para imposição de penas pesadas, eu tomo a liberdade de disponibilizar sugestões para esse específico refrão acusatório contra os réus do fraudão dos descontos no INSS.
Sugiro, para este caso, penas cumulativas, bem ao gosto da casa (e já vou antecipando: é sem anistia). Assim, teríamos quatro crimes: 1º) o crime de “golpe do Estado”, posto que foram agentes do Estado que possibilitaram o golpe por atacado aplicado pelos vigaristas no varejo; 2º) o crime de “abolição violenta” dos direitos dos aposentados, posto que perpetrado de forma traiçoeira, às costas das vítimas; 3º) o crime de “dano qualificado” ao patrimônio moral da nação; e 4º) o “crime de associação criminosa” armada das piores intenções.
Isso aí, bem repetidinho, deve dar cadeia com penas entre 14 e 17 anos. Pode chamar de Expresso da vingança dos idosos.
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
10/05/2025
Percival Puggina
Fascista, nazista, racista, xenofóbico, homofóbico, misógino, genocida, lavajatista, gado, bolsominion, terraplanista, golpista, terrorista, populista, extremista. Só que não.
Os vocábulos acima são algumas etiquetas, gastas por repetição, que me vieram de memória. É provável que um passeio pela Internet encontre mais algumas evidências (melhor seria dizer sintomas) do mal que afeta a esquerda brasileira. Como alguém mentalmente sadio pode dizer tudo isso de uma só mesma pessoa ou grupo de pessoas e se considerar convencido e convincente no uso que faz desse besteirol?
Embora a maioria dessas palavras, gramaticalmente, sejam substantivos, no dicionário esquerdista funcionam como adjetivos “desqualificativos”, depreciativos, aplicáveis a toda divergência. Esse não é, porém, seu único objetivo. No pequeno mundo intelectual em que veem sendo gastas, etiquetas cumprem outra função: operam como conceitos. Sim, poupam toda a exaustiva elaboração intelectual que seria necessária para definir aquilo de que se fala. Quem profere o xingatório se convence de manter com a sabedoria uma intimidade conjugal e se motiva para ir em busca do único objetivo permanente da esquerda brasileira: gerar animosidade e desentendimento. Por isso, não tendo o que dizer sobre o próprio governo, têm, como assunto único, o governo anterior.
Está longe de ser um privilégio esse caminho estreito e rápido da mente à motivação. Na vida social, mentes de trânsito rápido são perigosas, como perigosos eram, em sua habilidade, os pistoleiros do faroeste norte-americano. Gatilhos mentais céleres como os que acionam o percurso referido acima, são sintomas de pelo menos dois graves problemas. O primeiro é observável naqueles que o jornalista Augusto Nunes costuma designar como “bestas quadradas”. Sua ignorância é o expoente que potencializa sua ação.
O segundo, bem mais complicado, se caracteriza pelo complexo de superioridade e narcisismo. Na política, diferentes graus de psicopatia são identificados pelo desejo de encurralar a humanidade num cercado mental, campo de concentração sob rigoroso controle onde tudo será conforme quer o portador da enfermidade. “Isso é distópico!”, exclamará o leitor atento. Ora se é! É totalmente distópico, mas é a corrente verborrágica dominante nos níveis mais altos do poder político brasileiro.
É incrível a quebradeira de ovos que essas pessoas promovem para fazer sua hipótese de omelete em proporções nacionais.
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
06/05/2025
Percival Puggina
O governador da Bahia (dizê-lo petista seria redundância) quis motivar seu distinto público sugerindo um remédio nada santo aos problemas nacionais: colocar Bolsonaro e seus eleitores numa “enchedeira” e levar tudo para a vala.
Não se deu conta o enfezado baiano de que outros já fizeram isso por ele. Com palavras rebuscadas e por obra de suas canetas, definiram a vala como lugar adequado a quem não é de esquerda, a quem prefere urna com voto impresso, a quem defende a liberdade de expressão, a quem entende que todos são iguais perante a lei e, por senso natural de justiça, intui que quem investiga ou acusa não julga.
Ao ouvir as palavras do governador, me vi na multidão cativa pela caçamba da enchedeira. Senti-me erguido no ar e observei o giro do braço mecânico em direção à vala onde fomos jogados. Até aqui nada de novo, pensei; isto é uma metáfora da vida real sob um governo da pior esquerda que este país já teve. Uma esquerda que não se renova e não aprende; apenas fica mais velha e mais velhaca. Isto é, também, metáfora do que o STF vem fazendo já há vários anos com quem tem a audácia de considerar imprópria, excessiva e inconstitucional a ingerência da Corte na definição dos rumos políticos do país.
Nenhum poder arbitrário, nenhum ditador ou tirano deixou de aclamar as próprias ações como o mais elevado serviço de sua dedicação ao bem do povo. O fato de que o país vá de mal a pior e de que as aves de rapina tenham agigantado as asas na proporção da voracidade não altera a devoção à narrativa que repetem nem ao produto de suas mãos.
Expoente do Consórcio Goebbels de Comunicação, o jornalista Josias de Souza, quando soube do discurso do companheiro governador, descreveu a fala como ato de burrice política, que reforçava a pobreza que assola a política brasileira. Você entendeu, não é leitor? Com uma frase, em cima do lance, antes mesmo que o governador pedisse desculpas, Josias declarou o empate e encerrou o jogo e o assunto. Afinal, esse seria o nível do jogo, certo?
Só que não! A imensa parcela da sociedade brasileira que está na vala, pensando, sabe que os interesses envolvidos no jogo do poder deformaram importantes instituições e manda mais quem não tem voto. Este período de nossa história será conhecido como a “República do rabo preso”, onde é evidente a perda da noção de ridículo e de limites e onde, “só por uns dias”, tudo ficou como o diabo gosta.
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
30/04/2025
Percival Puggina
O país é maravilhoso. O território, uma dádiva que evidencia a nacionalidade do Criador. Aqui, o trabalhador trabalha e o empreendedor empreende, mas a superestrutura estatal é uma vergonha. De cima para baixo, a Política é um desastre moral e operacional e a Justiça se politiza a olhos vistos; se houver para a palavra “politização” um sentido bom, não se aplica ao caso. O Estado empobrece a sociedade comendo a galinha nos almoços e os ovos de ouro nos jantares; suga e engessa o empreendedorismo, inibe a empregabilidade, instrumentaliza ideologicamente a pedagogia; a Educação é um fiasco, a cultura se degrada e a ignorância tem futuro. A dívida gerada pela falsa prodigalidade estatal não perdoa nem o nascituro. Ao berçário, o brasileirinho já chega endividado. Por essas e tantas outras, em 2023, cinco milhões de conterrâneos viviam no exterior e em 2024 outros 400 mil foram construir suas vidas fora daqui.
Penso que essa breve e ríspida introdução deixa claro o quanto é tenebroso por conta própria o território da política, onde a cúpula do Poder Judiciário foi buscar espaço e protagonismo, com intervenções que marcam de modo controverso a história desta última década. Eventos, aliás, que seus ministros mais falantes descrevem como se fossem observadores neutros, aparentando ignorar o peso determinante de sua própria atuação.
Nem mesmo os préstimos do Consórcio Goebbels de Comunicação, recitando a narrativa oficial como mantra, ao longo de mais de dois anos, conseguiu impedir que a sociedade desenrolasse o pacote acusatório e percebesse a distância que separa o muito dito do pouco realmente feito antes e durante o 8 de janeiro. Recentíssimo levantamento de opiniões elaborado por Paraná Pesquisas mostra que apenas três em cada dez brasileiros consideram ter ocorrido um golpe de estado no início de 2023, sendo conveniente prender essas pessoas por muitos anos. Ou seja, o mantra oficial levou um “capote” e a ninguém mais convence!
Quando a Política e o Direito se entreveram num formato híbrido, para não dizer promíscuo, ambos ficam lesados! Reiterei essa convicção assistindo a sessão da 1ª Turma do STF que tornou réus os acusados correspondentes ao Núcleo I do inquérito relativo aos eventos. Ficou evidente a semelhança entre o que assistia e os muitos julgamentos políticos em regimes totalitários que o cinema, felizmente, vem exibindo como gritos de alerta que cruzam os tempos. Vi o mesmo ânimo nos julgadores, os mesmos tribunais acusadores, as mesmas ironias e o mesmo tom pouco condizente com o serviço da verdadeira justiça. Vi o ministro relator exibindo um compacto de cinco minutos que recortou cenas de vandalismo ocorridos naquela tarde e fiquei pensando em quantas horas de projeção teria um filme com todas as cenas de conduta cívica pacífica, que poderiam ser obtidas na mesma praça, na mesma hora! Pessoas caminhando, subindo à cobertura, conversando, rezando, cantando hinos, tirando fotos. Pessoas gritando “Não quebra!” quando os vândalos iniciaram seu ruinoso trabalho. Para mim, a parcialidade da seleção de imagens feita pelo ministro relator fortaleceu a convicção pró anistia e evidenciou a inadequação da Corte para tais julgamentos.
Então, chegou a hora de perguntar às bases de sustentação do regime se já precificaram os objetivos de hoje a médio e longo prazo, bem como seu dano aos mais carentes e às gerações futuras. A nação, senhores, já descrê de si mesma e das instituições! A estas alturas, até quem ainda faz o L sabe quanto a inflação está roubando do produto de seu trabalho, vê quanto mês já sobra no fim do dinheiro e vê a corrupção voltando.
O Brasil é um país maravilhoso e o Estado é seu problema!
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.