• Percival Puggina
  • 08/02/2022
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FESTIVAL DE SAN REMO VAI A CUBA

 

Percival Puggina

 

         A ilha de Cuba, há 63 anos, comprova a miséria que o comunismo habitualmente distribui. E lá se ouvem insistentes clamores por liberdade. Seguindo o protocolo “cientificamente comprovado” dos totalitarismos e tiranias, tais ocorrências são silenciadas a paulada e cadeia.

Articulações comerciais do governo atraíram para Havana uma versão além-mar do Festival de San Remo. O evento ocorrerá no mês de abril e vem encontrando fortes resistências da única oposição cubana possível, também ela além-mar.

Melhor do que eu, a nota a seguir (1), publicada no Havana Times descreve a reação de artistas cubanas que vivem fora da Ilha e foram incluídos na programação.

"Esta semana, vários artistas internacionais se retiraram ao saber quem eram os organizadores deste evento que ocorrerá em abril na capital cubana.

Entre os cancelamentos estão os de Alex Ubago, Andy e Lucas e Kalimba, questionados por usuários nas redes sociais sobre sua participação em um evento organizado por Lis Cuesta, esposa do presidente cubano, Miguel Diaz-Canel.

Quase simultaneamente, esses artistas apareceram em seus canais oficiais para alegar que seus agentes desconheciam ser o festival organizado por instituições governamentais cubanas.

Em parte, esse é o custo político do uso de métodos repressivos contra o protesto social que deixou muitas centenas de presos políticos após o 11 de julho.

Música e arte em geral são impossíveis de separar de seu contexto.

Esperamos que, mais cedo ou mais tarde, o público cubano possa desfrutar da arte sem mediações ideológicas e políticas."

A imprensa oficial cubana reagiu com vigor. O evento tem interesse econômico. Manifesta-se em cifras na desejada moeda do imperialismo ianque sem a qual a situação só piora. E o turismo ilhota sofreu com a pandemia tanto ou mais do que no mundo inteiro.

O resultado foi a total politização do festival.  Ou, mas palavras do colunista de Cubanet, Ernesto Pérez Chang: “O que vai ficando do San Remo Cuba parece mais um caso político do que um festival da canção”

Nesse artigo (2), o autor menciona matéria do Granma, que tratou as manifestações contra o evento e o abandono do festival por artistas cubanos já arrolados para participar, como “terrorismo musical”.

Aí está! A esquerda da ilha também tem sua indústria de etiquetas para colar em quem e no quê lhe desagrada. Terrorismo musical!

Como deve ser difícil acreditar, vale a pena ler este pequeno trecho sintetizado do referido artigo. Ele retrata bem o ambiente local.

O conceito de "terrorismo" associado à música é insano, ridículo, não só porque exala ressentimento, frustração, mas também porque é uma "ideia" que só poderia ser gerada como parte de uma brincadeira de apreciação estética. (...) Acontece que o Granma —“órgão oficial do Partido Comunista”— não só o usou de forma ameaçadora contra um grupo de artistas que exercem seu direito de decidir onde e quando sobem ao palco, como teve, também, a audácia de expô-lo sem aspas em manchete (...). Isso não deixa dúvidas sobre a loucura sofrida não tanto por aqueles que escrevem tais notas "jornalísticas", mas por quem lhes ordenou escrevê-las.

A diáspora cubana está em toda parte e os cubanos, em liberdade, prosperam. Associações de cubanos residentes na Itália se uniram para protestar e escreveram ao Ministro da Cultura denunciando o uso de um evento icônico e representativo da liberdade musical – o Festival de Sal Remo – estar sendo usado como instrumento de propaganda ideológica de um estado repressivo como é o estado cubano.

Ainda segundo Cubanet (3), assinam a manifestação as seguintes organizações "Movimiento di Opposizione, Las Guerreras", "Organizzazione di volontariato, Democrazia e Libertà”, Conselho Europeu-Cubano, “Associazione 17 DICEMBRE”, “Movimento San Isidro-Italy”, Partido Nacionalista Cubano, “Colizione Democrazia e Libertà”, “SOS.CUBA.NAPOLI” e Embaixada Cívica Cubana (ECC).

Aqui no Brasil, quem defende incondicionalmente regimes desse feitio e caráter tem candidato a presidente da República e você sabe quem é.

  1. https://havanatimes.org/opinion/cubas-san-remo-music-festival-losing-participants/
  2. https://www.cubanet.org/destacados/san-remo-sera-otro-acto-de-repudio-del-regimen/
  3. https://s3.eu-central-1.amazonaws.com/qurium/cubanet.org/destacados-cubanos-denuncian-realizacion-del-festival-de-san-remo-en-la-habana.html

Percival Puggina (77), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.