Embora pilote minha churrasqueira com razoável competência, não sou perito em cortes de carnes. Li outro dia que o corte de costela é o mais consumido no Rio Grande do Sul. Pessoalmente, porém, não sou bem sucedido nas ocasiões em que tento assá-las. Repete-se algo que muitas vezes ouvi anfitriões comentarem em churrascadas alheias: "Esta costela não é bem aquela". Entende-se por "aquela", nessa frase, a costela ideal, com bastante carne, pouca gordura, osso delgado, macia e saborosa.

Quando me falam em socialismo, em comunismo, sempre me lembro dessas costelas que não dão certo. As experiências históricas com o socialismo jamais correspondem a "aquele" socialismo ao qual o vendedor de ideologia está se referindo. Você refuga a tese apontando os fracassos do socialismo e do comunismo (este definitivamente saiu do vocabulário com vergonha do próprio nome), e o vendedor de ilusões o interrompe para dizer que "aquilo" nunca foi o verdadeiro socialismo. Mas veja só, enquanto a costela, vez por outra, pode exibir um precioso corte "daquela", o socialismo não tem sequer uma solitária laranja de amostra que possa ser observada no pé da laranjeira. Sua principal sedução é assim apontada por Norberto Bobbio: “O socialismo é cativante porque cada um pode idealizá-lo como desejar”.

A grande acusação que lançam contra o capitalismo ou economia de mercado é a de ser um sistema que beneficia os ricos e responde pela miséria do mundo. No entanto, se dermos uma olhada no mapa da pobreza extrema do World Food Program, veremos que ela se concentra em regiões e nações que não têm e nunca tiveram uma economia baseada na livre iniciativa, no empreendedorismo. Não se conhece um único país cuja sociedade tenha sido rica e que empobreceu devido à sua inserção no mercado global. Do mesmo modo, não se conhece um único país cuja sociedade tenha evoluído econômica, social e politicamente enquanto se manteve num ambiente de economia estatizada e centralizada. Pelo viés oposto, os países europeus e asiáticos que se libertaram do comunismo em fins do século passado e adotaram a economia de mercado encontram-se, hoje, em diferentes mas ascendentes níveis de evolução econômica e social. Tampouco se conhece uma única sociedade que, tendo vivido sob o regime comunista e dele se libertado, manifeste desejo de retornar àquela desgraceira.
 

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SOCORRO!

01/10/2014


Percival Puggina


Assisti ao debate dos candidatos ao governo estadual do Rio Grande do Sul, realizado ontem na RBS TV. Em dado momento, comentando através do twitter as perguntas e respostas com que os candidatos disparavam rajadas desde as respectivas trincheiras, cheguei a gritar por socorro. Socorro!

O que estava em disputa, ali, era um pedaço do futuro do Rio Grande. Felizmente só um pedaço porque a maior parte desse futuro passa por outras vias através da ação dos indivíduos na busca dos próprios objetivos. Mas há uma parcela que corresponde, sim, ao Estado. Boa parte das discussões que foram além da troca de acusações sobre a honorabilidade dos participantes centraram-se na questão fiscal e na dívida com a União. A esse respeito, sem ser contestado, Tarso Genro anunciou, alto e bom som, que reduzir a dívida seria indispensável para abrir espaço a novos endividamentos. Socorro!

Ficou nítido, por outro lado, que o PT trabalhou o significado e o efeito emocional de certas palavras sobre as pessoas com tal competência que o efeito petista desses vocábulos acabou aceito reconhecido até pelos seus concorrentes. Assim, no Rio Grande do Sul, empresário, grande empresa, capital, privatização, lucro, pedágio são termos que viraram palavrão, coisa feia, que não se pronuncia em casa de família que se respeite, mormente em época de eleição. Socorro!
 

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Percival Puggina


 Para entender o aumento das intenções de voto da presidente Dilma em relação a seus dois principais competidores é preciso observar a tabela abaixo. Ela mostra os tempos de cada uma das três coligações no horário da propaganda eleitoral e define. Também o número de inserções comerciais durante a programação normal das emissoras de rádio e tevê observa essa proporção:

I – DILMA - Coligação Com a Força do Povo – 11 minutos e 48 segundos;
II – AÉCIO - Coligação Muda Brasil –                   4 minutos e 31 segundos;
III – MARINA - Coligação Unidos Pelo Brasil –  1 minuto e 49 segundos.

Ou seja, em números redondos, para cada ataque de Aécio, Dilma contra-ataca 3 vezes. Para cada ataque de Marina, Dilma contra-ataca 7 vezes. É uma desproporção gigantesca, e é para proporcioná-la que muitos negócios foram feitos durante o período de gestão da presidente-candidata.

Na perspectiva situacionista, o ideal ocorreria se essa vantagem assegurasse a eleição no primeiro turno, porque, havendo segundo-turno, os tempos se equiparam, o horário de propaganda disponibiliza 10 minutos para cada candidato e igual número de inserções nos intervalos comerciais das emissoras de rádio e tevê.

Ademais, os debates entre os candidatos passam a ser travados apenas entre os dois remanescentes, face-to-face. Com isso, as coisas mudam. E mudam muito.
 

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 Não gostei nem um pouco da notícia de que o governo passará a controlar as viagens internacionais dos brasileiros, com o alegado intuito de coibir evasão fiscal. O verdadeiro nome disso é invasão de privacidade. É intromissão na vida dos indivíduos e suas famílias. O governo que vá cuidar das suas coisas e pare de se comportar como uma senhora fofoqueira controlando a vida alheia.

 

 É paradoxal! Em busca de algo que possa ser tributado, os aparelhos do Estado xereteiam a mala dos viajantes, das pessoas de bem, que vão ao exterior para turismo ou negócios, mas deixam livres, leves e soltos, os criminosos que evadem bilhões através de doleiros, e não protegem nossas fronteiras do contrabando e do ingresso de drogas.

 

Muito mais fácil fiscalizar nos aeroportos o cidadão de bem, em fila por um, com passaporte na mão e levando mala de rodinha do que controlar a saída de madeira da Amazônia, ou a vida dos bandidos que infernizam a vida da população. No tempo de infância, dizia-se dos grandalhões que batiam nos pequenos: "Por que não vão brigar com os do seu tamanho?".
 

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    Reproduzo abaixo partes de um artigo, que escrevi em março de 2002 para o Correio do Povo. Recentemente transcorrera em Porto Alegre a segunda edição do Fórum Social Mundial. Olívio Dutra governava o Estado. Tarso Genro era prefeito de Porto Alegre. E, naquele ano, Lula conquistaria seu primeiro mandato presidencial. Porto Alegre transpirava ideologia pelas pedras do calçamento. Era um quadro dos infernos...

Então, eu escrevi: "Durante uma das reuniões do Fórum, falando para um auditório tomado por religiosos, militantes de CEBs, MST, etc., o petista dominicano Frei Betto afirmou que "o homem novo deve ser filho espiritual do casamento de Che Guevara e Santa Teresa de Jesus". O imenso desaforo deve ter suscitado protestos cósmicos: um frei católico escalando Santa Teresa, ao modo machista, sem consulta prévia, para um matrimônio desses? O público, no entanto, irrompeu em delirantes aplausos. E eu não tenho dúvidas de que esses aplausos foram muito mais orientados ao revolucionário do que à grande santa de Espanha".

"Mal se haviam apagado as luzes dos auditórios do Fórum, Lula foi bater à porta do Partido Liberal  (Nota do autor: o PL era o partido de seu futuro vice José Alencar). Tempo é dinheiro. E muito melhor fica uma aliança política que assegura diretamente as duas coisas: mais tempo na tevê e mais dinheiro para a campanha. A batida do martelo da coligação acertou, em cheio, no cotovelo de Frei Betto e seus companheiros na CNBB, que acusou a dor e botou a boca no trombone para condenar a aliança".

Até então poucos sabiam que a CNBB estava tão imiscuída nos assuntos desse partido. O Partido Liberal existia desde 1985. Desde então haviam sido realizadas oito eleições e o PL deve ter participado de inúmeras coligações sem que ninguém na CNBB houvesse lhe dedicado cinco minutos de atenção. Pois não mais que de repente, o vice-presidente e o secretário-geral da CNBB, secundados pelo secretário da Comissão de Justiça e Paz, vieram a público reprovar a aliança, indagar sobre os reflexos dela nas propostas do PT, e dizer que o PT deverá dar explicações aos católicos pertencentes ao partido. Será preciso dizer mais? O troco veio rápido. De alguém da CNBB? Não, do próprio PT. O senador José Eduardo Dutra retrucou que assim como o PT não interpreta a Bíblia a Igreja não tem que se meter imiscuir nos assuntos do partido. Em outras palavras: não se metam.

José Alencar acabou sendo o que de melhor havia no governo Lula...

 

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A DATA FARROUPILHA

20/09/2014


Percival Puggina

 O Rio Grande do Sul não é um Estado melhor nem pior do que qualquer outro da Federação brasileira. Ele é apenas diferente. Essa diferença tem tudo a ver com a forma como transcorreu a História por estas bandas. Durante os dois primeiros séculos seguintes ao Descobrimento, o Rio Grande era terra de ninguém, uma longa costa arenosa, de mar revolto, que causava preocupações às caravelas que desciam na direção do Prata. Não havia, por aqui, Brasil, nem Portugal, nem Espanha. Quem primeiro chegou, não aportou, mas veio de oeste, das missões guaraníticas. Eram jesuítas e falavam espanhol. O Rio Grande começou a existir como mera possibilidade de ser parte do Estado de Portugal quando a boa estratégia da Coroa portuguesa começou a construir uma fortificação (Colônia do Sacramento) defronte a Buenos Aires, no lado oposto do Rio da Prata, em 1680. A partir de então, a vida nestas plagas foi uma sequência de guerras e batalhas para demarcar os contornos do território da província. Em 1835 foi a vez da guerra contra o Império (uma das tantas que tumultuaram os anos que se seguiram à Independência, mas a que mais se prolongou e a que mais dores de cabeça causou). Menos de 20 anos depois de pacificada a província, já estavam os gaúchos envolvidos e a Fronteira Oeste transformada em palco da Guerra do Paraguai. Em seguida, vieram as revolução da política local, a Federalista de 1893, a dos maragatos contra o borgismo em 1923, e a de 1930, por Getúlio Vargas.

Em cima desses episódios, os gaúchos construíram uma tradição que mais vale pelo efeito do que pelas causas, que mais vale pelas virtudes que se exaltam nos mitos históricos do que pelo conhecimento que se pode ter do caráter de cada um. Num resumo de poucas linhas: a tradição gaúcha, assinalada nas festividades que marcam o 20 de setembro, carrega em si um conjunto de valores e virtudes de honra que lembra certas características da cavalaria medieval. E que muitos rio-grandenses, acertadamente ou não, gostam de reconhecer em si mesmos. O Rio Grande do Sul, nesse sentido, é um exemplo de que tradição, quando não avessa ao progresso, é coisa séria, e com ela não se brinca sem graves prejuízos.
 

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