• Paulo G. M. Moura
  • 11 Novembro 2014

 

Em junho de 2013 milhões foram às ruas contra a corrupção e por melhores serviços públicos de transporte, educação, saúde e segurança. O que ocorreu em 2013 nada tem a ver com as mobilizações que a esquerda costumava liderar no século XX, sob o comando de sindicatos, associações de bairro, entidades estudantis e a esquerda da Igreja. Emergiu no Brasil, assim como na Espanha em 2004, na Tunísia e no Egito em 2011 e na Turquia, Ucrânia e Venezuela mais recentemente, um fenômeno típico das sociedades-rede.

Correndo por fora das organizações tradicionais, milhões de cidadãos conectados pelas mídias sociais saíram às ruas para se manifestar e, sem planejar isso como objetivo, derrubaram ou desestabilizaram governos. Tudo ocorreu sem lideranças, sem organizações de massas, sem projetos de poder e sem controles.

Na eleição que se encerra, essa mobilização em rede reapareceu com a militância a favor de candidaturas de oposição, movida pelo desejo de mudanças. Milhões de pessoas se expuseram nas ruas e nas mídias sociais, não por que estivessem interessadas em cargos no governo ou em receber bolsas estatais. O objetivo dessas pessoas era a defesa das suas liberdades e da democracia, o fim da corrupção e melhores serviços públicos.

Na eleição, parte da sociedade que foi às ruas pacificamente em junho de 2013, aderiu às candidaturas de oposição no primeiro turno e no segundo turno. Os principais candidatos da oposição souberam encarnar o espírito das ruas e traduziram esse sentimento em sua união no segundo turno. Em algumas cidades vimos passeatas mobilizadas por um povo protagonista, fato inédito em eleições tradicionalmente programadas para o povo ser vaca de presépio em comícios teatralizados para militantes idolatrarem líderes.

Fecharam-se as urnas. O PT, até prova em contrário, venceu. O que aconteceria numa eleição tradicional? Os vencedores se auto elogiariam; os derrotados reconheceriam a vitória; o povo se recolheria à condição de expectador passivo à espera do próximo pleito.

Não é isso que acontece. Os cidadãos que não são controlados por partidos seguem nas ruas. Em São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Belém e outras cidades, milhares saíram às ruas dia 01/11/2014 exigindo auditoria da apuração das eleições presidenciais e investigação séria do escândalo do petrolão. No próximo dia 15 estão programadas manifestações em todo o país, com foco na auditoria das urnas e na investigação da corrupção na Petrobrás.

Esse povo se mostra disposto a fazer a oposição que os partidos de oposição nunca fizeram. Essas pessoas estranharam o tom conciliador do Aécio derrotado e aplaudiram a contundência oposicionista que seu ex-candidato a vice, o senador Aloysio Nunes Ferreira, imprimiu à sua primeira fala pós-eleitoral. Aécio recalibrou o discurso e voltou à cena com um vigoroso discurso oposicionista no Senado.

A origem do PSDB não é a rua. O partido nasceu da soma de intelectuais acadêmicos e políticos de centro-esquerda, pretendendo ser uma socialdemocracia de estilo europeu, mas sem as bases sindicais que marcaram o nascimento de seus congêneres do velho continente na segunda metade do século XIX.


O banho de rua que Aécio Neves levou nessa eleição que agora se encerra, foi uma novidade para os tucanos. Se Aécio quer liderar a oposição terá que se deixar liderar por seus liderados nas ruas e nas mídias sociais. Se não o fizer será esquecido; ignorado; atropelado. Não bastará à oposição contestar, apenas na tribuna do parlamento, as medidas autocráticas que o PT pretende implantar para garantir sua perpetuação no poder. Sem povo na rua o Brasil seguirá sua marcha insana rumo à venezuelização.

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  • Gustavo Ioschpe
  • 10 Novembro 2014

Uma leitura indispensável a toda cidadão que queira combater o mal que se infiltrou no País através do sistema de ensino. Este artigo, que reproduzo para que fique em arquivo no site homenageando o autor,  foi publicado na Revista Veja deste final de semana.

 

Há algumas semanas, dei uma palestra em um evento sobre educação, organizado por uma grande empresa e sediado em uma escola. Havia muitos educadores e alunos na plateia. Compartilhei alguns dos dados preocupantes sobre o fracasso do nosso sistema educacional. Expus minha oposição ao plano — agora consagrado em lei — de investirmos 10% do PIB em educação, notando que o único país que investe nesses patamares é Cuba. (Não porque aprecie sobremodo a educação, mas porque não tem PIB: qualquer meia dúzia de vinténs já dá 10% do PIB cubano...)
Depois da minha fala, vieram as perguntas do público. Sempre que há professores na plateia, estas perguntas se repetem: não é muito simplista/reducionista/alienado falar apenas em qualidade do ensino através do domínio dos conhecimentos de linguagem, matemática e ciências medidos por meio de exames como a Prova Brasil, o Enem e o Pisa? A função da educação não vai muito além disso? Não seria formar o cidadão crítico e consciente, engajado na construção de um país mais justo? Respondi o que sempre respondo nesses casos: a educação brasileira está tão mal — incapaz até mesmo de alfabetizar seus alunos ou ensinar-lhes as operações matemáticas básicas — que podemos gerar um consenso abarcando desde os stalinistas do PSTU até o neoliberal mais empedernido. Quer você deseje gerar o próximo Che Guevara, quer um operário preparado apenas para trabalhar numa linha de montagem, ambos precisam ser alfabetizados e dominar as operações matemáticas básicas. Então vamos primeiro focar a criação de um sistema educacional que garanta a 100% de seus alunos o direito de aprender pelo menos essas competências básicas, e deixemos as discussões ideológicas para outras áreas e outros momentos. Para mim, isso tudo é de uma obviedade mais do que ululante.
Qual não foi a minha surpresa quando, ao terminar, fui interpelado por uma meia dúzia de adolescentes, na faixa dos 15 anos, alunos daquela escola, dizendo-se indignados com meu desprezo por milênios de linguagem oral, meu menosprezo pelos analfabetos (“Então o senhor acha que é preciso ler para ter conhecimento?!”) e minhas críticas ao “grande” modelo cubano. Sim, sim, tem bastante gente ainda pensando assim em 2014, não estou brincando! Caiu o Muro de Berlim, e eles ainda estão sonhando em descer a Sierra Maestra. Você deve estar pensando que essa escola era da rede pública de alguma biboca do nosso interior profundo, administrada por uma prefeitura de partido socialista, certo? Pois é, eis a minha surpresa: essa escola, senhores e senhoras, está no Rio de Janeiro, na divisa entre a Barra da Tijuca e Jacarepaguá, e — esta é a melhor parte — pertence ao Sesc. Sim, o Serviço Social do Comércio, mantido pelos empresários e funcionários das áreas de comércio e serviço através de impostos cobrados na folha salarial. Longe de ser exceção, essa dinâmica é a regra: escolas e universidades de entidades privadas, algumas inclusive com fins lucrativos, estão entupindo o cérebro de seus alunos com a mais rasteira e ignóbil doutrinação política marxista. Depois, quando esses alunos se tornam adultos e passam a comandar o país, os donos e diretores dessas escolas e universidades passam anos a fio reclamando (com razão) do intervencionismo estatal e do viés antiempresarial dos líderes... que eles mesmos formaram!
Não acredito que esse tiro no pé seja intencional. É só miopia ou visão de curto prazo. Nas universidades, as áreas de pedagogia e licenciaturas são muito desprestigiadas, e acabam se tornando incompetentes. Formam maus professores, mas ninguém se importa, porque, como muito poucos prefeitos ou governadores são cobrados pela qualidade do ensino que oferecem, mesmo o mau professor não terá muita dificuldade de se encaixar no mercado, desde que tenha o diploma. Como os cursos não precisam ter qualidade, o jeito de reter aquele aluno é dizendo-lhe o que ele gosta de ouvir. De preferência, algo fácil de entender. Como esse é um público muito idealista, que já vem doutrinado do ensino médio, e como os pedagogos responsáveis por esses cursos também estão, na maioria dos casos, imbuídos de um sentido de missão revolucionária, o que você acha que esses cursos fazem? Trilham o caminho difícil de transmitir o domínio da didática e da matéria a ser ensinada ou optam por falar do papel revolucionário do professor, da missão grandiloquente da formação do cidadão crítico etc.? Sim, eles optam pelo caminho do ensino raso recheado por profundo doutrinamento. E assim se formam os professores que formarão as futuras gerações.
Lendo estas linhas você deve estar com um misto de compaixão e desprezo pelos proprietários de nossas universidades, investindo hoje na criação do seu opositor de amanhã. Mas eles não são os maiores culpados pela situação que vivemos. Sabe quem é? Você. Sim, você, que tem recursos para ler esta revista e, provavelmente, para pôr seu filho em uma escola particular. Você que faz parte da elite financeira e intelectual do país, que representa a sua liderança. Pois eu pergunto a você: qual foi a última vez que leu um livro didático de história ou geografia adotado pela escola do seu filho? Se você for como a maioria dos pais, deve fazer muito tempo. Você sabe que seus filhos estão ouvindo nas escolas diatribes contra o capitalismo e a burguesia brasileira (leia-se: você) e elogios ao modelo cubano e outros lixos socialistas? Provavelmente não sabia. É provável que só esteja preocupado com que seu filho entre em uma boa universidade, preferencialmente pública, em que o doutrinamento rastaquera praticado na escola será substituído por uma panfletagem esquerdista travestida de intelectualidade. Ou talvez até saiba o que está se passando mas não tenha vontade suficiente para debater com os professores e diretores, mantidos pela sua mensalidade, o lixo mental que seu filho recebe diariamente. Você que se preocupa com a saúde física do seu filho a ponto de obrigá-lo a comer arroz integral e tomar suco verde não dispõe da mesma energia e entusiasmo para fazer com que seu cérebro seja preservado dos detritos descarregados diariamente pela escola que você financia.
Talvez acredite que não importa o que seu filho ouve na escola: você corrige os desvios de caminho em casa. E pode ser até que tenha razão. Mas os 83% de alunos que estudam em escolas públicas têm pais cujo nível de instrução é muitas vezes insuficiente até para ajudar na alfabetização do filho. Certamente não conseguirão fazer o mesmo nem saberão que seu filho está sendo vitimado pela historiografia marxista, ou mesmo que há outras historiografias possíveis.
O resultado das últimas eleições mostra que não é possível construir um país nos três meses que antecedem a votação. Mostra que, sim, é ótimo que a nossa elite ganhe muito dinheiro, progrida e tenha condições de passar um tempo em Miami, Paris ou onde bem lhe aprouver, mas que só isso não basta: precisamos de uma elite empenhada em alterar a realidade do país, não em fugir dela. O Brasil está criando pessoas que desconfiam da democracia, dos valores republicanos, de sua própria capacidade empreendedora. Se as lideranças do país continuarem se abstendo da discussão que mais importa — a de valores, de identidade, de aspirações nacionais —, continuaremos colhendo atraso e frustração. Não se constrói um país desenvolvido sem elites. Esse debate é indelegável.
Já passou da hora de termos uma escola apolítica, sem doutrinação, que consiga fazer com que nossos alunos pensem e tenham os instrumentos para pôr de pé seus sonhos de vida. Não podemos nos furtar desse debate nem adiá-lo. Ele começa hoje, na sua sala de jantar, na escola de seus filhos. Aproveite essa liberdade enquanto a temos.
 

 

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  • Editorial de O Estado de São Paulo
  • 09 Novembro 2014

08/11/2014

 Quem tem amigos do peito como a Venezuela não precisa de inimigos. Em circunstâncias nebulosas, sem o conhecimento de Brasília, o governo de Caracas firmou com o MST, na cidade paulista de Guararema, convênios pelos quais se compromete a ensinar o povo brasileiro a “seguir avançando na construção de uma sociedade socialista”. Muitos dias depois, na última quarta-feira, o governo brasileiro finalmente protestou junto aos muy amigos. Não necessariamente pelo conteúdo dos tais convênios, mas porque o ex-chanceler e, desde setembro, ministro do Poder Popular para as Comunas e os Movimentos Sociais, Elías Jaua, veio ao Brasil para assiná-los sem informar o Itamaraty. E ainda andou se metendo em confusão policial. Uma típica trapalhada bolivariana. É de imaginar que os petistas tenham ficado aborrecidos com a falta de consideração dos venezuelanos, que, se tivessem sido menos egoístas e mais solidários, teriam possibilitado a realização de um magnífico evento popular em Guararema, talvez até com a presença de Lula com o boné do MST e falando mal da elite.

Mas, diante de uma desfeita que não se pode ignorar nem quando se trata de amigos fraternos, o chanceler brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo, depois de ouvir a presidente Dilma Rousseff, convocou o encarregado de negócios da Venezuela no Brasil, Reinaldo Segovia (o embaixador está viajando), para comunicar a “estranheza” do governo brasileiro com o comportamento de Jaua, reclamar que o lamentável episódio pode significar uma “interferência nos assuntos internos do País” e cobrar explicações do governo de Caracas. Para Figueiredo, “o fato não se coaduna com o excelente nível das relações entre os dois países”.

Os convênios foram assinados no fim do mês passado, numa escola do MST onde são ministrados cursos de formação política para militantes de movimentos sociais. Segundo a organização, os tais convênios com os venezuelanos objetivam apenas “a troca de experiências na área da agroecologia”. O governo venezuelano, porém, conta uma história diferente. No dia 28, antes mesmo do regresso de Jaua a Caracas, o governo bolivariano anunciou aquilo que nem o Palácio do Planalto sabia: “No marco da visita ao Brasil do vice-presidente de Desenvolvimento do Socialismo Territorial, Elías Jaua, foram assinados (...) vários acordos nas áreas de formação e desenvolvimento da produtividade comunal entre o Governo Bolivariano” e o MST. E a nota acrescentava que, segundo Jaua, os convênios têm como objetivo incrementar o intercâmbio de experiências para “fortalecer o que é fundamental em uma revolução socialista, que é a formação, a consciência e a organização do povo para defender suas conquistas e seguir avançando na construção de uma sociedade socialista”.

Não bastasse a desfeita ao Itamaraty, a estada de Jaua no Brasil envolveu um constrangedor episódio policial. O ministro viajou acompanhado da mulher, que foi submetida a uma cirurgia de emergência em São Paulo. Talvez com a agenda tomada por assuntos mais importantes, Jaua chamou, para fazerem companhia à paciente, a sogra, os filhos e a babá destes. Ao desembarcar em Guarulhos, a babá foi presa em flagrante pela PF e permaneceu detida por quatro dias pelo porte de uma arma que, depois ficou esclarecido, estava numa maleta com documentos que Jaua encomendara à funcionária. Apurou-se em Brasília que o Itamaraty ficou sabendo da presença de Jaua no Brasil pela PF. E ninguém foi capaz de explicar o que estava acontecendo, até porque o governo brasileiro faz questão de manter “um excelente nível de relações entre os dois países”, mas, de repente, viu-se surpreendido por um episódio que contraria os protocolos diplomáticos.

O fato de o Itamaraty ter demorado pelo menos uma semana para se manifestar sobre uma inadmissível interferência nos assuntos internos do País sugere que o governo petista estendeu até o limite a possibilidade de botar panos quentes na situação. Era só o que faltava para quem assistiu passivamente ao calote que o finado Hugo Chávez deu no contrato de parceria na construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Gente fina.
 

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  • Gilberto Simões Pires
  • 07 Novembro 2014


ESTADO RUIM DE COISAS
Para que não paire dúvida alguma é preciso esclarecer que não é à toa, e muito menos por obra do acaso, que a economia brasileira vive um momento de forte desesperança. Por muito tempo, como bem acompanharam os leitores do Ponto Crítico, este editor antecipou que, mais dia menos dia, este atual estado ruim de coisas acabaria por ser mostrado, vivido e lamentado .

CONTABILIDADE CRIATIVA
Pois, hoje, quem presta todos os esclarecimentos, com provas, do quanto havia de acerto e razão nos meus insistentes e constantes alertas, são os próprios números -oficiais- do governo, o qual já não consegue mais esconder muita coisa, como vinha fazendo (ou tentando) através de uma insistente, porém criminosa, -contabilidade criativa-.

EXPECTATIVA COMPLICADA
Na medida em que o Setor Público, através de uma profusão de rombos nas contas do governo neocomunista-petista nas mais diversas contas, além dos infindáveis atos de corrupção (comprovados) em todas as esferas, gera uma péssima expectativa econômica, o Setor Privado, em inúmeras atividades, colhe safras de penúrias.
Mais: a perspectiva futura indica que, se estamos mal hoje, vamos ficar ainda pior mais à frente.

COMMODITIES
Até para muitos desavisados (ou porque gostam de ser enganados) que elogiavam Lula porque até pouco tempo acreditavam, piamente, que ele teria feito um bom governo, finalmente estão se dando conta do verdadeiro responsável pelo sucesso da nossa economia: o preço, motivado, principalmente, pelo enorme interesse da China, das commodities que o Brasil tem de sobra para exportar.

INCOMPETÊNCIA
Hoje, como se vê, além da incompetência, que é marca registrada dos líderes da América Latina que adotam o programa Bolivariano, aprovado e definido pelo ainda pouco conhecido Foro de São Paulo, organização comunista que promove, confessadamente e a olhos vistos, a Transição para o Socialismo Latino-americano, nem as exportações estão ajudando.

MATRIZ BOLIVARIANA
Vale registrar que ainda há alguma chance de virar este jogo, embora a quantidade de pedras que os petistas vão colocar no caminho do desenvolvimento sejam cada dia maior, como o próprio Diretório Nacional do PT tornou público nesta semana. Ou seja, o partido afirma, claramente, que jamais vai desistir da Matriz Bolivariana já em curso.

CONTER OS PASSOS
Pois, da mesma forma como o enorme contingente de enganados (por ingenuidade ou por interesse) está mudando de lado, deixando de apoiar o governo Dilma para se colocar numa posição antipetista, ou anticomunista, se assim preferem, é de se admitir que ainda é possível conter os passos daqueles que exigem a todo custo uma Transição para o Socialismo. Como? Basta não dar trégua.

 

www.pontocritico.com
 

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  • Paulo Moura
  • 07 Novembro 2014


As pesquisas possuem grande poder de prognosticar tendências da opinião eleitoral. São pesquisas não publicadas que orientam as estratégias que vencem eleições. No entanto, as pesquisas publicadas têm limites raramente compreendidos pelos leigos e mesmo pelos jornalistas que as comentam.

Nessa eleição a diferença entre o que as pesquisas diziam ao final do primeiro turno e o que as urnas revelaram levou os institutos ao descrédito e minimizou o poder do efeito “bandwagon” (onda de adesão ao líder nas pesquisas) no segundo turno. O eleitor brasileiro parece ter desprezado as pesquisas para decidir em quem votar.

Segundo Bourdieu, em artigo dos anos 1970 (“A opinião pública não existe”), opinião é um discurso articulado impossível de ser traduzido em percentuais. Diz ele, que nem todas as opiniões se equivalem e nem todo mundo tem opinião sobre o que perguntam as enquetes que convertem respostas em percentuais. Igualmente, não existe um consenso pré-estabelecido sobre os problemas que deveriam ser objeto das pesquisas. Ou seja, por trás de quem encomenda a pesquisa e decide o que perguntar há o interesse de influenciar quem lê a pesquisa publicada, mesmo quando o rigor metodológico é obedecido na coleta e análise dos dados. A manipulação não estaria no rigor do método, mas nesses pressupostos falsos sobre os quais se constroem as pesquisas publicadas.

Pesquisas publicadas são cortes verticais na massa de opiniões, no curto espaço de tempo em que os pesquisadores vão a campo. Numa eleição as opiniões estão em movimento, sob influência da disputa entre grupos organizados pela conquista dos indefinidos. Hoje, a opinião é tão arisca quanto o click do mouse que nos conduz a outra página na rede.

As opiniões se formam em círculos de convivência e obedecendo a uma lógica que não encontra em índices estatísticos a forma adequada de representação. Os trackings (monitoramento quantitativo diário) e as pesquisas qualitativas (grupos de eleitores que assistem a propaganda e os debates quando estão no ar, observados por analistas) são os instrumentos que os estrategistas usam para ler essas percepções e calibrar a propaganda para captar votos.

Numa eleição “empatada”, se um fato político (denúncia, escândalo, falha em debate) ocorre muito próximo à coleta de dados, provocando mudanças bruscas das opiniões individuais, dificilmente a pesquisa publicada captará essa alteração. Isso não significa que o instituto errou ao divulgar os índices sobre aquelas perguntas, no momento em que perguntadas. Significa apenas que a pesquisa publicada não capta a mudança brusca.

A situação na qual se constitui a opinião na reta final de um segundo turno em que poucos eleitores indefinidos podem se decidir com base em quaisquer fatores é o inferno dos institutos. As pessoas estão diante de opiniões sustentadas por grupos. Ao se posicionarem estão escolhendo entre grupos, num contexto de disputa de poder e correspondendo a um determinado estado da correlação de forças entre posições em guerra. Quem mantêm distância relativa dos polos que se opõem nesse conflito, os famosos “indecisos”, decide em função da pressão dessas forças constituídas.

As estratégias das campanhas consistem da construção de respostas para demandas comuns dos eleitores. Como essas demandas são as mesmas e as pesquisas encomendadas pelos candidatos mostram isso para todos, impõe-se uma equalização das estratégias que passam a jogar ao máximo com a dissimulação das clivagens para ganhar os votos flutuantes.

Nesse contexto as pesquisas publicadas adquirem relevância extrema para a “fabricação” da opinião pública. A publicação dos resultados de pesquisas prejudica uns e favorece outros. Por isso, criam-se jogos retóricos com a finalidade de usar os resultados para influenciar a interpretação que as pessoas fazem das pesquisas publicadas. E dê-lhe compartilhamentos dos resultados e interpretações que “me favorecem”.

Javier Del Rey Morató mapeou alguns desses artifícios que ele chama de “jogos do termômetro social”. Hoje, diz ele, a difusão desses jogos ocorre sem restrições, e, muitas vezes, seus porta-vozes são analistas a serviço de candidatos. Agentes interessados patrocinam pesquisas e disputam a imposição de versões interpretativas dessas pesquisas. Essas pesquisas estruturam a guerra de versões e desenham o cenário em que vão se desenvolver os jogos de linguagem.

Os jogos retóricos pela imposição de versões sobre as pesquisas buscam definir um cenário que se abre com o jogo de prognóstico dos resultados eleitorais futuros, tomando como base a leitura de resultados de pesquisas presentes. A imposição de uma determinada leitura das pesquisas fisga o observador num anzol.

O analista de pesquisas publicadas, dessa forma, insere-se no jogo como uma espécie de vidente. Apoiar-se no prognóstico dele, se ele “nos favorece”, ou desconstituir esse prognóstico usando outras pesquisas ou outras interpretações das mesmas pesquisas, se ele “nos prejudica”, é um imperativo da disputa em torno da construção de um clima de opinião que “nos interessa”. O passo seguinte é enredar o eleitor na crença de que o simulacro é a realidade. Por isso, nessa eleição, vimos institutos aparentemente independentes, “prestando serviços” às duas candidaturas que passaram ao segundo turno.

Nem sempre funciona. Quando os institutos erram algum prognóstico, depois de terem inundado o espaço midiático com estimativas sobre o resultado da eleição, para explicar a distância entre o prognóstico e o comportamento eleitoral, recorrem às margens de erro; às mudanças bruscas das opiniões sob impacto de fatos novos, enfim, todo o tipo de argumento “técnico” é usado para explicar o inexplicável.

* Cientista político

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  • Cleber Benvegnú
  • 06 Novembro 2014

 

A mais perversa das elites é a elite estatal. Ela quer que você compre um carro e diga: “Obrigado, governo. Como você é bondoso!”. Faça uma faculdade e diga: “Obrigado, governo. Eu te devo essa!”. Suba na vida e diga: “Obrigado, governo. Eu não seria nada sem você!”. Ela sequestra seu pensamento e inverte a lógica da vida social, fazendo parecer que você serve ao governo _ e não o contrário.

O protagonismo das pessoas é substituído pelo protagonismo do aparato estatal. Embalada no glamour da luta de classes, essa elite se apresenta como monopolista da justiça. Como se o dinheiro dos impostos, que subsidiam absolutamente todos os beneplácitos estatais, não viesse da própria sociedade. Como se o Estado, ele mesmo, gerasse riqueza e desenvolvimento.

A história é repleta de exemplos de elite estatal, à direita e à esquerda _ na América Latina, recentemente, esse último exemplo é mais vasto. Mistura supremacia coronelista com populismo assistencialista. Discursa para um lado e, com os seus, age para o outro. Enriquece nas barbas do poder. E legitima tudo em nome de um fim supostamente elevado.
É uma elite que verbaliza amor aos pobres, desde que estejam a seu serviço. Que prega integração dos negros, desde que julguem conforme seus interesses, sem trair a “causa”. Que quer conciliação, desde que ganhe as eleições. Que defende liberdade de imprensa, desde que os critérios disso sejam definidos por seus conselhos.

A elite estatal quer fazer crer que ela é o próprio bem. Quer substituir-se à ética universal. Quer que você se sinta em débito, creditando-a como um instrumento de solidariedade. Quer posicionar-se como indispensável até mesmo no ambiente privado. Se deixar, quer até mesmo dizer como você deve educar seus filhos. Quer que você devolva algo que simplesmente é seu, por direito natural e constitucional.

Não deixe que ninguém roube seus méritos e seu protagonismo. Nenhum partido é dono do seu destino. Nenhum. Quem faz acontecer são as pessoas, não o governo. Libertar-se dessa culpa social é um passo importante para evoluir. É o antídoto para evitar uma nação politicamente amorfa e culturalmente refém.

* Jornalista

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