Artigos do Puggina
Percival Puggina
11/07/2026
Percival Puggina
O professor Alan Sokal criou um caso e fez escola quando, em 1996, visando demonstrar publicamente a falta de rigor intelectual de uma revista acadêmica, usou seu conhecimento para enviar a ela um artigo técnico. Recheado de absurdos, mas enfeitado com jargões e cortejando as tendências ideológicas do veículo, o texto foi publicado. Então, Sokal, que leciona Matemática na UCL de Londres e Física na Universidade de Nova Iorque, divulgou o fato e seu intuito, mostrando por quais caminhos andava parcela já expressiva do ambiente acadêmico “progressista” norte-americano.
Vinte anos depois, três autores – James A. Lindsay, Helen Pluckrose e Peter Boghossian –, para evidenciarem a inversão de valores e a fragilidade intelectual de certa elite acadêmica, encaminharam vinte artigos a diversas publicações. A exemplo do artigo de Sokal, os textos eram repletos de idiotices com maquiagem esquerdista, expressas em rebuscada linguagem científica. Sete dos vinte foram aceitos para publicação e quatro efetivamente divulgados antes de a farsa se tornar pública. O episódio ficou conhecido como “Sokal squared” ou “Sokal ao quadrado”.
Há alguns dias, recebi da editora Avis Rara um exemplar do compilado de textos de James A. Lindsay sobre Paulo Freire, nosso conhecido patrono da Educação brasileira, intitulado “A pedagogia do marxismo”. O livro traz uma crítica severa e consistente à perniciosa influência de Freire na educação ... dos Estados Unidos. Sim, leitor. Até onde avancei na leitura, a obra faz meras menções laterais ao Brasil. Sua preocupação é mostrar o estrago que produz, no país do autor, uma pedagogia cuja finalidade é essencialmente política e voltada para a formação de militância em larga escala.
Não é de surpreender. Quando, no início de 1963, o desconhecido Paulo Freire realizou sua famosa experiência em Angicos, alfabetizando trezentos adultos em quarenta horas, o aprendizado focava duas áreas – alfabetização e política. Por quê? Todo mundo sabe. O aproveitamento foi avaliado em 87% quanto à Política e em 70% quanto à alfabetização. Para ele, a Educação é um ato político. Em suas próprias palavras a um repórter do Jornal da República (Recife, 31/08/70), ele fazia política através da Pedagogia.
A grande armadilha que montou e que o levou à sagração nos altares da apreciação esquerdista internacional está na sedução produzida pela simplificação de um fenômeno complexo. Para suas vítimas, Freire se torna um Cristo redivivo e faz o milagre de, através da Educação, “conscientizar” a sociedade, em vasta proporção, de que a “opressão” é “a causa” da pobreza material, motivando à “luta pela libertação”. Marxismo em modo tosco. Nada como um partido de esquerda para vender essa mercadoria à cadeia produtiva da Educação.
A opressão, onde exista, pode ser consequência da pobreza, não causa. A pobreza tem causas; assim, no plural! Entre tantas outras, elas são históricas, culturais, geográficas, políticas, econômicas, educacionais, familiares e individuais. Onde Paulo Freire é lido ou foi ouvido sobre Educação, o produto colhido das salas de aula é imprestável à superação da pobreza. Aliás, exceto para os militantes mais úteis aos companheiros e camaradas, só serve para agravá-la.
Segundo o livro de James Lindsay, isso está sendo provado também nos Estados Unidos. O resultado da educação freireana, segundo o autor, “é que as crianças norte-americanas em idade escolar quase sempre fracassam no desenvolvimento de competências básica em praticamente todas as matérias e em praticamente todos os níveis de ensino. (...) a educação dessas crianças foi usurpada e o que a está substituindo destina-se a ser usado como arma contra a sociedade da qual seu futuro depende”.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
05/07/2026
Percival Puggina
“Por que tudo da direita vira drama e na esquerda nada pega?”
Em minha escrivaninha, entre papéis contendo anotações que não sei quando irei reler, há um pequeno pote metálico, cilíndrico, com seis linhas de furos paralelos. Ele percorreu um longo caminho do design à vitrina onde minha mulher o viu, gostou e comprou. Dentro dele, uma dúzia contada de diferentes canetas, na maioria com tinta seca pelo desuso. Sobre elas, ergue-se um velho lápis de madeira, ponta feita e nunca refeita.
Aquela extremidade aguçada atrai atenção quando sento para escrever. Ela me faz pensar numa época em que pensamento e sofrimento não rimavam toscamente numa mesma frase. Hoje, porém, meu amigo jornalista Júlio Ribeiro convidou-me para seu programa na Rádio +Brasil propondo uma pergunta que se ouve como um gemido de dor: “Por que tudo da direita vira drama e na esquerda nada pega?”
Olho para meu lápis que está ali, conceitual, íntegro, perfeito em conteúdo e forma, símbolo de um tempo no qual escritores escreviam desenhando palavras. Hoje, apertam teclas, digitam. Abandono, então, o lápis e lanço sobre a tela estes pensamentos que julgo responder à pergunta, embora rimem com os sofrimentos que causam.
1. Ninguém se espanta ou surpreende com o que é comum e rotineiro. A história dos governos de esquerda é recheada por sucessivos escândalos que vão das tesourarias aos abusos de poder, sigilos centenários, blindagens e jurisprudências politizadas. É a banalização do mal. Surpreender-se com isso é como se escandalizar com o mercantilismo do Centrão.
2. Numa eleição, parcela expressiva da direita examina os candidatos sob a lente de seus princípios. Corretíssimo. Ante a menor suspeita lançada sobre seu candidato, porém, muitos desses cidadãos se juntam ao coro dos próprios adversários, sem pensar nos danos. “E isso é um erro?”, talvez indague o leitor. Sim! Em pleitos bipolares, se o oponente representar a continuidade do mal banalizado que descrevi acima, esse é um equívoco óbvio, uma irresponsabilidade, cujas más consequências se perpetuarão, no mínimo, por mais quatro anos.
3. Tanto isoladamente quanto em conjunto, as redes sociais não são articuladas, como a palavra “rede” parece sugerir. Ao contrário, são fragmentadas e caóticas. O predomínio da direita nesse espaço, após o impacto de sua estreia na eleição de 2018, é insuficiente para enfrentar a função orgânica da velha imprensa, principalmente quando articulada com o Estado. É por isso que você quase nada assiste ou lê nesses veículos sobre o ativismo judicial, o desastre da Educação em nosso país, a irresponsabilidade dos milhões de omissos em pleitos anteriores, os escândalos proporcionados pelos poderes que se blindam. É longa a lista das matérias congeladas no silêncio dos dispendiosos necrotérios de aluguel junto às redações.
4. As ruidosas redes sociais, com o passar do tempo, disputam espaço no mercado publicitário com a velha mídia. Os dois sistemas se tornaram antagônicos. Se as redes são majoritariamente de direita, a velha imprensa busca parceria e recursos no oficialismo estatal, onde, sublinhe-se, obtém resultados mensuráveis e monetizáveis.
Caríssimos leitores, eu os adverti, de início, sobre pensamentos e sofrimentos. No entanto – e por isso penso e resisto – tudo vale a pena se a alma não é pequena, como aprendi de Fernando Pessoa.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
26/06/2026
Percival Puggina
“Guias cegos! Coam um mosquito, mas engolem um camelo.” (Mateus 23:24)
Pelas razões de sempre, é muito provável que a imensa maioria de nossos jovens nunca tenham ouvido falar na Primavera de Praga. No entanto, aquele acontecimento primaveril contra o qual o inferno comunista brutalmente arremeteu, entrou para a história e para o vocabulário político. A Tchecoslováquia era um daqueles belos países invadidos por Hitler em 1939 e transformados em despojos de guerra pelo comunismo soviético em 1945. Bota azar nisso! Já haviam transcorridos 23 anos quando, em 1968, o chefe de Estado tcheco, Alexander Dubcek, influenciado pelas ideias liberais de Ota Sik, mobilizou a população por reformas que ele mesmo cuidou de implantar. Ao arrepio das regras impostas por Moscou para todas as nações atrás da Cortina de Ferro, ele acabou com a censura, reabilitou os presos do regime e promoveu liberdades políticas e econômicas.
Com grande repercussão internacional, a situação se tornou intolerável para Leonid Breznev, líder soviético de então, que mandou meio milhão de soldados e tanques russos trazerem de volta ao cativeiro a desafortunada nação. A Primavera de Praga, porém, foi tão marcante que acabou dando nome “Primavera” a eventos libertários anteriores e posteriores, como a rebelião húngara de 1956, ocorrida 12 anos antes, à Primavera Árabe, iniciada em 2010 com consequências em países do Norte da África e Oriente Médio, ao movimento popular chinês de 1989, vitimado pelo massacre da Praça da Paz Celestial e até aos recentes protestos cubanos encerrados a pauladas no ano de 2021.
Faço este preâmbulo porque preciso dele para dar ênfase ao tema deste artigo num país onde a História é muito mal contada, manipulada e cheia de lacunas. Temos diante de nossos olhos as razões e, no calendário, o devido tempo para promovermos, no dia 5 de outubro, uma necessária Primavera Brasileira.
O simples fato de você, leitor, ter severas dúvidas sobre a possibilidade de que isso venha a acontecer fornece a prova da necessidade de que aconteça. Estão muito erradas as coisas em um país onde as pessoas perderam a confiança no Estado. Um país onde, em troca, o Estado não confia nas pessoas e não esconde o desejo de limitar a expressão das opiniões para manipulá-las mediante argumentos infames.
Foi nessa maré que se produziu a fragorosa derrota de uma nação pela falsa revolução dos omissos de 2022, militantes no cativeiro do sofá. Entregaram a própria casa – a Pátria que herdamos de nossos antepassados – para quem lhes é adversário em tudo que importa. Parecem feitas à medida deles as palavras de Jesus em João, capítulo 10, versículo 12, sobre aqueles que fogem quando vem o lobo para as roubar e dispersar.
Foi assim que o Brasil se tornou, em pouco tempo, o país dos escândalos seletivos, dos guias cegos e das blindagens. Uma nação protetora de suas prósperas organizações criminosas e tóxica em relação aos bens não materiais, apreciados, até mesmo, pelos revolucionários do mau humor, na prisão domiciliar dos sofás. Sai daí, cara! Quando o inverno acabar, vamos extrair desta eleição a Primavera do Brasil.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Outros Autores
Como podem apontar o dedo a alguém aqueles que banalizaram o mal em nosso país?
“Guias cegos! Coam um mosquito, mas engolem um camelo.”
Liberdades civis, políticas e econômicas são essenciais à prosperidade social.
Se você é chefe de família, coroa, sênior, pai, tio, avô, cumpra sua missão orientadora entre os mais jovens.
Na perspectiva da extrema esquerda, terrorismo político é algo romanticamente revolucionário.
Graças à tolerância, a corrupção no Brasil do século XXI saltou dos milhões aos bilhões.