Artigos do Puggina
Percival Puggina
06/06/2026
Percival Puggina
Na perspectiva da extrema esquerda que nos afeta, a decisão dá causa a intensa indignação: ianques estão querendo se meter com o CV e o PCC. Estão intervindo em nossa soberania... As duas organizações são coisa nossa (“Cosa nostra!”, diriam sicilianos de Palermo). É uma orientação política que só vamos encontrar lá onde a picada termina; para ir em frente, há que roçar muito mato.
Os Estados Unidos, no uso da autonomia deles, declararam, para efeitos internos deles, que as duas organizações, que também atuam criminosamente por lá, são terroristas. O esquerdismo brasileiro reage com orgulho, sacode o pó do “lábaro estrelado” verde e amarelo e proclama (melhor seria dizer que confessa): “Aqui, no Brasil, temos uma lei sobre organizações criminosas e ela não inclui terrorismo!”. Entende-se, na perspectiva da extrema esquerda, terrorismo político é algo romanticamente revolucionário e, portanto, objeto de necessária proteção. Nossa história foi marcada por um período em que tivemos quase mais organizações terroristas do que times de futebol. Parte da elite política hoje de cabelos brancos foi militante do MR-8, da Ação Libertadora Nacional, da VAR-Palmares, da VPR e de tantas outras organizações! E esse pessoal nutre reverência e sentimento nostálgico em relação a dois Carlos – o Marighella e o Lamarca.
Todo bom policial sabe, porém, que PCC e CV inspiram um sentimento de medo nas sociedades onde se enraízam. Quem leu algo sobre Ciência Política sabe que provocar medo é uma forma poderosa de controle social. Sabia-o Machiavel quando afirmou ser mais confiável ao Príncipe inspirar medo do que suscitar amor. Thomas Hobbes sabia quanto o medo leva os homens a entregar sua liberdade ao Estado. Michel Foucault sabia quanto o pavor causado pelos malfeitores serve ao Estado para a expansão de seus mecanismos de opressão. Mundo afora, eram graduados nessas especialidades líderes que nosso esquerdismo inclui nas suas venerações: Lênin, Stalin, Mao, Pol Pot, Kim Il-sung, Fidel, Guevara.
Não surpreende, pois, que os mesmos figurões da política que denominaram terroristas os desorganizados manifestantes da praça deserta no dia 8 de janeiro se recusem a enquadrar como terroristas as duas principais organizações criminosas do país. Como papagaios de pirata dos fatos, fazem o mesmo teatro os jornalistas adestrados que gastaram papel e tinta repetindo esse discurso diante de idosas senhoras e suas Bíblias. Uns e outros assim procedem, confiantes na ignorância dos leitores e eleitores que não percebem o abismo instalado entre o discurso e a vida de quem fala, nem a distância que tantas vezes separa a racionalidade das motivações individuais.
Como em tantas outras ocasiões, é irônico observar, mais uma vez, o mesmo fenômeno. Tudo que possa garantir mais segurança à população ganha oposição imediata e cega do governo, de seus aliados nos demais poderes da República e, claro, no mundo do crime.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
31/05/2026
Percival Puggina
Diante dos bilhões que as instituições da República passariam a disponibilizar a seus protegidos nos anos seguintes, os números do mensalão (Ação Penal 470) parecem contabilidade de quermesse escolar. Naquele caso, para garantir maioria ao primeiro governo Lula, R$ 104 milhões de reais saídos da publicidade oficial haviam sido fracionados, ao longo de dois anos, como mesadas para parlamentares, à base de R$ 30 mil por cabeça... Banqueiros, publicitários, lideranças políticas e congressistas da envergadura de José Dirceu, José Genoino, Roberto Jefferson, Valdemar Costa Neto, Pedro Correa, João Paulo Cunha (ex-presidente da Câmara dos Deputados), após 53 sessões de julgamento, foram para trás das grades. Por poucas semanas, é verdade, mas foram. O Banco Rural, que operava o esquema, teve dirigentes também presos e foi liquidado pelo Banco Central.
A ideia, porém, nunca foi essa. E continua não sendo essa. As coisas no Brasil não funcionam assim, como se sabe. Por isso, o 27 de fevereiro de 2014 foi o pior dia de Joaquim Barbosa como ministro do STF e como relator da AP 470. Naquela sessão plenária, embargos infringentes apresentados pelos advogados dos réus obtiveram apoio da maioria formada com o ingresso dos novos ministros Teori Zavascki (2012) e Roberto Barroso (2013). Foram excluídas as condenações pelo crime de formação de quadrilha, reduzidas as penas e afastado o cumprimento em regime fechado...
No final daquela sessão, o relator profetizou:
“Sinto-me autorizado a alertar a nação brasileira de que esse é apenas o primeiro passo. É uma maioria de circunstância que tem todo o tempo a seu favor para continuar sua sanha reformadora". Depois, acrescentou: "Essa é uma tarde triste para este Supremo Tribunal Federal. Com argumentos pífios, foi reformada, foi jogada por terra, extirpada do mundo jurídico uma decisão plenária sólida, extremamente bem fundamentada, que foi aquela tomada por este plenário no segundo semestre de 2012”.
A esquerda adota uma política de "cancelamento" da divergência em todo o Ocidente, numa extensão que vai do Parlamento Europeu até as salas de aula aí onde você vive. Essa prática recebe, internacionalmente, o nome de "cordão sanitário". Isolado pelos colegas, três meses depois, Barbosa deixou o Supremo.
Nos dias que correm, o ministro Mendonça já vive isolamento semelhante. Nunes Marques, no TSE, vai pelo mesmo caminho. Os desconfortos se agravarão caso a eleição dos novos senadores no pleito de outubro não conceda sólida maioria à atual oposição. O futuro Senado deve promover uma reforma institucional, colocar cada poder no seu quadrado, restaurar o Estado de Direito e restituir aos brasileiros a liberdade que lhes tomam as canetadas brasilienses.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
24/05/2026
Percival Puggina
Você sabia que nos totalitarismos o Estado aplica força punitiva menor contra alguém que fez algo do que contra coletividades inteiras, apenas por serem o que são? Independentemente de qualquer conduta individual, Robespierre perseguia membros da nobreza, clérigos, monarquistas e girondinos. Lênin e Stalin, cada um a seu turno, faziam o mesmo com intelectuais, empresários e produtores rurais. Hitler eliminava judeus por serem judeus. Mao Tse Tung eliminava professores, cientistas e, claro, líderes religiosos e minorias. Fidel e Che Guevara perseguiam gays, intelectuais e padres.
Quebrados os ovos mais pavorosos da história para fazer trágicos omeletes e com bem nutrido poder, eles derrubavam todos os marcadores, todas as balizas e invadiam a vida privada. Sob o peso de seu braço, nunca houve direito contra a vontade do Estado. Nenhuma dissidência ou divergência era tolerada. Para assegurar-se disso, o aparato estatal protagonizava coerção, disseminando terror na sociedade.
Se você, assim como eu, sofre física, moral e espiritualmente com o padecimento dos injustiçados, com a dor dos perseguidos, e se indigna ante o evidente desejo de perenizar os meios de dominação, chegou a hora da autossuperação! Haverá eleição nacional dentro de quatro meses. Os que jogam com as cartas dessa eleição sabem que a mais importante é a dos novos 54 senadores que se somarão aos 27 remanescentes do pleito de 2022. Não haverá democracia, nem liberdade, nem bom direito, nem boa política, enquanto o poder sem voto continuar sua sanha persecutória contra “bolsonaristas” e “direitistas”, a usar o Direito como estratégia e a redigir a Lei com as próprias mãos.
Na primeira travessia do Delta do Jacuí, há uma parte levadiça para passagem de embarcações. Quando isso acontece, formam-se extensas filas nas pistas de entrada e saída da capital. Certa manhã, fui detido durante operação dessa ponte. Ao retomar a viagem, com os veículos se deslocando lentamente até encontrarem espaço para acelerar, percebi um hiato no fluxo da pista em sentido contrário e avistei, mais adiante, grande concentração de veículos. Passei observando o que detivera o trânsito e o quadro era bem incomum. Havia um motorhome parado no meio das duas pistas; por ambos os lados, alguém tentara passar, mas não conseguira espaço suficiente e deteve quem vinha atrás de si e assim, sucessivamente, todos foram parando. O motorista do motorhome, reclinado no banco, parecia dormir. Fui em frente, rindo do que vira, mas logo deixei de rir ao dar-me conta da lição que ali se proporcionara a todos: uma pessoa parada pode deter uma multidão. Logo, uma pessoa que se mova pode mobilizar uma multidão.
Desculpe-me, caro leitor, mas a hora o exige. O Brasil não aguenta mais quatro anos disso que nos está imposto. Escolha dois bons candidatos a senador, comprometidos não só com seu Estado, mas com a liberdade dos brasileiros e com o fim da tirania das canetas que saíram de todo controle. Trabalhe para eleger esses dois senadores (são dois votos e a liberdade precisa de ambos). Já, agora, mexa-se!
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Outros Autores
Luiz Guedes, adv.
02/06/2026
Não haverá democracia, nem liberdade, nem bom direito, nem boa política, enquanto, no Senado, uma consistente maioria não restaurar a ordem constitucional no país.
Há um escândalo, o maior de todos, que é a causa de todos os demais escândalos nacionais.
Desconjuntado o sistema de freios e contrapesos, só um poder aperta o freio. E com o pé esquerdo.
E importante não desanimar com as derrotas para não desacreditar das vitórias.
Antigamente, não eram deuses nem semideuses, nem simulacros de Deus.
Motivação é a chave de grande parte dos êxitos eleitorais. Quem mais motiva a oposição brasileira?