Artigos do Puggina
Percival Puggina
29/09/2026
Percival Puggina
Para mim é difícil – sabem? – abrir o jornal e ler a recentíssima pesquisa sobre a eleição presidencial. Com 95% de certeza, a instituição que a elaborou reforça constatações anteriores: cerca de metade do eleitorado brasileiro permanece desatenta à necessidade ingente, urgente, intransigente e diligente de resgatar o Brasil do bordel institucional por onde se perdeu na licenciosa noite dos tempos.
Algumas dessas pessoas eu as conheço bem. Debati com elas e sei que, com raríssimas exceções, acordam diariamente para a mistificação. Antes mesmo das redes sociais e dos “influenciadores digitais”, sua fonte era a “cartilha”, expressão aplicada no século passado a boletins partidários contendo orientação para o debate sobre os temas do momento político. Outras, urram e zurram no meio acadêmico quando alguém de seu desagrado vai usar a palavra. São zeladoras incondicionais do sistema parceiro que opera o poder de Estado. Há dezenas de milhões de cidadãos brasileiros vítimas dessa malícia. São ovelhas pastoreadas por lobos a que sequer reconhecem como lobos e aos quais seguem com a docilidade dos realmente inocentes.
Por fim, também votando pela continuidade do que temos aí, há outros muitos milhões, que já entenderam tudo. Sabem chamar o lobo de lobo e o pastor de pastor. Mas entregaram aos lobos sua liberdade e seus votos, sua dignidade e sua honra. Eles sabem dos presos políticos, eles ouviram minúcias sobre o buffet de interesses em torno dos quais são trocadas unhadas retóricas e puxões de cabelo dialéticos. Eles sabem de precedentes criados com os cotovelos, de inquéritos abertos sobre o quadríceps femoral (aquele conjunto de músculos da parte frontal da perna) e de preceitos constitucionais lidos com o tradutor digital das conveniências volúveis.
Mesmo cientes de tudo, eles não se importam! Não se importam com o calvário de Filipe Martins, com Alcides Hahn, doador de um Pix de 500 reais à caixinha de um ônibus que foi a Brasília no 8 de janeiro e virou “mega financiador” do episódio, condenado por cinco crimes a 14 anos de cadeia e multa milionária... Esses eleitores não se sentem ofendidos com o caso de Clezão, que morreu desatendido porque pessoas morrem nas cadeias – certo? Sabem da Débora do Batom, sabem dos refugiados que padecem em algum cativeiro menos indigno, pelo qual optaram por prezar a própria liberdade. E sabem que todos eles – todos eles! – são injustiçados, maltratados, ovos quebrados para que o poder se alimente de uma narrativa sem pé nem cabeça.
E querem manter isso aí? Optam pela mão do Estado, transformado em carrasco, não importa quantos sejam desumanizados para que isso aconteça? Votarei pelas vítimas, pelos ovos quebrados.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
20/09/2026
Percival Puggina
Aprendi há muitos anos de um padre amigo esta singela expressão de lúcida sabedoria: “Ninguém dá o que não tem”. No mais deplorável momento da história do Poder Judiciário brasileiro, a sessão plenária do STF no dia 15 de setembro, a ministra Cármen Lúcia me fez lembrar dessa frase. Examinar a própria consciência e pedir perdão é conduta virtuosa que só pode ser servida por quem tem.
Era um desses momentos que se definem pela expressão “Salve-se quem puder”, nos quais as pessoas costumam dar o melhor de si com vistas à própria salvação. Os olhos de milhões de brasileiros acompanhavam horrorizados o mal, em sua feiura, manipular instrumentos jurídicos com extrema belicosidade. Queriam impedir o julgamento de um membro da Corte.
Olhos nas telinhas da liberdade de expressão, parecia-me rever uma versão compacta, dos julgamentos do 8 de janeiro. Na condição de um entre 200 milhões de ditadorezinhos, assisti aquelas sessões com a impressão de que os ministros, de algum modo, eram parte interessada nas deliberações. Lembro que cheguei a usar a expressão “amicus curiae” para caracterizar o tom dado aos votos que emitiam. Para mim, era uma impressão que fazia sentido, pois os ministros precisavam proteger a própria narrativa sobre “o golpe”, numa unanimidade que resistiu por longos meses até surgirem as primeiras fissuras.
Enfim, na tarde do dia 15, com a contribuição dos ministros indicados pelo atual governo Lula, para completar a terrível cena como eu a percebi, eis que ressurge, sob nova forma, um fantasma de janeiro de 2023. O papel então decisivo e supostamente devastador desempenhado pela tal Minuta do Golpe – uma minuta vadia de um decreto qualquer – agora é atribuído a um incerto Relatório de Inteligência cuja serventia, ao que se diz, vem negada no próprio documento.
Foi essa percepção que me levou a pensar sobre o que cada um tem para dar nos momentos decisivos. Ver que uns, são dados a estratagemas, outros a proteger seus mitos, outros a manipular o poder de que dispõem, outros a manter atitude corajosa, outros a fugir da cena, outros a mergulhar na própria consciência e pedir desculpas à nação. Que tais consciências, em algum momento, sirvam para a anistia dos presos do dia 8 de janeiro e para o triunfo da justiça como valor moral e como instituição para servir à sociedade.
Sirvam estes dias para que cada um, no ofertório dos votos em 4 de outubro, ofereça ao Brasil e seu povo o que de melhor esteve ao nosso alcance para a tarefa de separar o joio do trigo na democrática lavoura da representação popular.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
11/09/2026
Percival Puggina
Até as crianças, quando chegam à idade da razão, começam a perceber a existência de causas e consequências. Aliás, foi num processo de regressão às origens dessa lógica acessível à percepção infantil, que a genialidade de S. Tomás de Aquino o conduziu pela mão a dar o nome de Deus à primeira causa de tudo – a causa sem causa anterior.
Use de sua própria experiência, estimado leitor, para entender o que exponho neste artigo. O Supremo Tribunal Federal brasileiro se transformou, em analogia gauchesca, num chapéu velho. Pense num órgão caótico! Nem mesmo a rígida formalidade, o simbolismo das vestes e o vocabulário habitualmente refinado que a lei e a justiça exigem são capazes de assegurar base suficiente para sustentar a reputação do poder.
Qual a causa disso? Ali, robusta, realmente robusta, é a maioria de ministros cujas cadeiras foram obtidas com a indicação petista ou com ela se afinaram. E aí, meus caros, de modo inevitável – porque a causa tem consequência inevitável – tudo que entra no círculo de influência desse grupo político, acaba ficando assim. Observe o desastre do Brasil petista. Todo o governo Lula transcorreu na toada do aumento de impostos de mãos dadas com a taxa de juros e o custo de vida. Um não solta a mão do outro. A CELIC, cujo valor era tão mal falado durante o governo Bolsonaro, se manteve no governo Lula sempre acima do patamar em que ela estava quando Lula subiu a rampa. Endividamento da população, empresas em recuperação judicial, falências, crescimento constante do número de cidadãos cuja sobrevivência depende de benefícios sociais. Dados da Educação em decadência; na Saúde, problemas em fila antecedem a fila dos pacientes; a criminalidade ganhou soberania; a corrupção prospera e um certo sistema bancário “meio que” depende dela e do mundo do crime.
A autodestruição do Supremo tem seu equivalente nas duas casas do Congresso quando postas a serviço do baião de dois do STF com o Palácio do Planalto. Essa esquerda destrói tudo onde mete a mão. Seja um país inteiro, um Estado, um município, um clube de futebol, um departamento universitário, um grêmio estudantil, uma simples parede de universidade, um sindicato, uma associação, um corpo de militante jovem e seu dormitório, uma prateleira, uma gaveta, uma caixinha de utilidades! Nada a ela resiste.
A velha imprensa comprou por boa qualquer mistificação, inclusive o maldito tripé dos sigilos, silêncios e censuras. Aceitou, inclusive, que os péssimos fins justificassem os terríveis meios. A democracia mergulhou no silêncio e no relativismo moral! É por isso que certas autoridades aprenderam com Lula e só falam em ambiente controlado. Um deles é o das grandes redações, onde imagino proibido espiar, desde a janela, o que realmente acontece na rua.
O certo é que, por si mesmo, nesse composto político, poder algum fará o que deve. Daí a importância das eleições do mês que vem para que o faça a futura representação política da sociedade.
* Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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