Artigos do Puggina
Percival Puggina
21/06/2026
Percival Puggina
Há alguns anos fui convidado, por um grupo católico, a falar sobre liberdade econômica e prosperidade social. A abordagem que fiz aproveitava o ensinamento proporcionado pelas trágicas experiências da Cortina de Ferro e do Muro de Berlim. Aquelas linhas divisórias, traçadas nas reuniões de Yalta e Potsdam após a Segunda Guerra Mundial, evidenciaram ao mundo as diferenças no curto, médio e longo prazo entre economias estatizadas e economias livres. O caso alemão era o mais didático por envolver o mesmo povo e a mesma cultura. De um lado, partido único, opressão e economia centralizada; de outro, Estado de Direito, democracia, liberdades políticas, civis e econômicas. Na primeira fila do auditório, um senhor, adepto da Teologia da Libertação, contrariado, se agitava na cadeira.
Enquanto eu falava, veio-me a ideia de ilustrar a mensagem com um exemplo que era presença cotidiana em todos os lares. Falei sobre as panelas alemãs. Expliquei que, finda a guerra, era preciso fabricar panelas para uma nação bombardeada. No lado ocidental, algum empreendedor instalou sua fábrica e passou a vender o produto. Perguntei ao auditório: “Quanto terá ele cobrado por unidade?”.
Arrancando risos, adiantou-se o tal sujeito na resposta: “Como explorador do trabalho alheio, deve ter cobrado o máximo que o povo estava disposto a pagar”. “Exatamente”, respondi. E acrescentei: “Ganhou tanto dinheiro que, logo, surgiram outros fabricantes para se beneficiar de uma fatia daquele mercado. Novas fábricas, novos empregos, mais gente vendendo e preços em queda por força da concorrência.”
Prossegui a exposição sobre o que de fato aconteceu no lado ocidental, falando na geração das panelas de aço inoxidável, fáceis de limpar, nas panelas de aço com fundo triplo, nas panelas de pressão, nas cerâmicas, nas válvulas reguláveis, nas variedades de design, nos materiais de cabos e alças, nas tampas de cristal, nas cores, nas panelas que apitam. Cada vez mais fábricas, mais operários, mais panelas criando a necessidade de buscar mercados e exportar volumosos excedentes de produção.
No lado oriental, submetido ao comunismo, as fábricas se transformaram em Empresas de Propriedade do Povo (VEB em alemão) e produziam espessas panelas de alumínio, desatualizadas, feias, mas feitas para durar gerações. Demanda atendida e decrescente. Em toda parte, pobreza e miséria se instalando pela ausência de fatores e motivações essenciais ao desenvolvimento econômico. O muro se tornou inevitável para conter o êxodo.
Ao final da palestra, dirigindo-me ao incomodado interlocutor da primeira fila, disse: “De cima do Muro de Berlim, durante três décadas, as donas de casa da Alemanha Oriental, olhavam as panelas usadas por suas irmãs e primas, tão próximas quanto inalcançáveis, e pensavam em quanto não dariam pelo privilégio de possuir ao menos uma em suas cozinhas. Certamente pagariam um preço ainda maior do que o ‘explorador do trabalho alheio’ havia cobrado pelas primeiras panelas que fabricou. Para entender o monumental efeito desses contrastes entre os dois modelos, ponderem que eu falei apenas em ... panelas.” Regime tirano, nação pelo cano.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
14/06/2026
Percival Puggina
Quase 80% dos atuais eleitores brasileiros tinham menos de 18 anos em 1988 e não sabem, portanto, o que representava viver sob as condições nacionais daquela época. A moeda era o Cruzado, a inflação chegou a 980% e bateu em 2.000% no ano seguinte! Em pouco tempo, o Cruzado virou Cruzado Novo (1989-1990), foi substituído pelo Cruzeiro (1990-1993), que se converteu em Cruzeiro Real. A transição para Real aconteceria em 1º de julho de 1994. Cinco moedas em seis anos.
Quanto aqueles anos foram pedagógicos e favorecem a compreensão dos riscos envolvidos num desmonte institucional como o que está em curso no nosso país! E não refiro apenas aos ataques cotidianos à disciplina monetária, à responsabilidade fiscal e à liberdade dos cidadãos. Sob um governo que é um delivery de desgraças, incluo e sublinho o deslocamento do eixo do poder político para o topo do Judiciário, porque loucura política com sintomas iguais nunca houve antes.
São densas as camadas ideológicas que sustentam tantas leviandades e não foi por outro motivo que iniciei este texto mencionando 1988. No ano de nascimento da atual Constituição, o comunismo soviético já fizera todo estrago possível no Leste Europeu. A prosperidade do lado ocidental do Muro de Berlim embaraçava o esquerdismo infiltrado nas democracias liberais do lado de cá. Muito escrevi e falei sobre isso naqueles anos porque o PT nascera em 1980 e defendia muitas daquelas ideias e regimes. Foram elas que inspiraram a atuação dos petistas na Constituinte eleita em 1986.
Chegou-se, então, ao ano de 1989 e à queda do Muro de Berlim no dia 9 de novembro. O contraste entre a próspera liberdade ocidental e a cativa miséria do Oriente comunista era tal que os gritos do povo funcionaram como as trombetas de Josué sobre as muralhas de Jericó. As pedras do Muro foram, contudo, as primeiras cartas a cair. O que sobreveio é tão ou mais impressionante, como se verá a seguir.
Dois meses após a queda do Muro, ao longo de todo o glorioso ano de 1990, desabou o comunismo institucionalizado no Leste Europeu. Em 1º de janeiro, foi extinta a Securitate, temida polícia secreta romena. Em 24 de fevereiro, o Partido Comunista foi vencido nas eleições da Lituânia. Em 26 de fevereiro, com a Checoslováquia no auge da Revolução de Veludo, Gorbachev anunciou a retirada de suas tropas de ocupação. Em 11 de março, o Parlamento da URSS revogou artigo 6º da constituição, que assegurava o monopólio do poder ao Partido Comunista. Em 11 de março, o Conselho Supremo da Lituânia assinou o Ato de Restauração da Independência. Em 2 de maio, o dissidente Arpad Goncz foi eleito presidente da Hungria. Em 4 e 8 de maio, respectivamente, a Letônia e a Estônia se declararam independentes. Em 20 de maio a Romênia teve suas primeiras eleições democráticas desde 1937. Em 29 de maio, derrotando o candidato do Partido Comunista, Boris Ieltsin foi eleito presidente da Federação Russa. Em junho, a Bulgária teve sua primeira eleição democrática. Em dezembro, a Polônia elegeu o sindicalista Lech Walesa presidente com 75% dos votos. No mesmo ano, a Albânia cedeu aos protestos estudantis e abriu-se ao pluralismo partidário. Dois meses antes, acontecera a reunificação da Alemanha.
O esquerdismo latino-americano entrou em pânico. Os acontecimentos libertadores ainda seguiam seu curso quando, entre os dias 1º e 4 de julho, 48 partidos e organizações de esquerda, em vários tons de vermelho, se reuniram em São Paulo. Haviam sido convocados pelo PT brasileiro e pelo PC Cubano. Por Lula e Fidel Castro. Era preciso salvar aqui o que estavam perdendo lá.
Passaram quase quatro décadas daquela reunião. Depois de semear miséria sem apresentar um único bom exemplo, o Foro de São Paulo é sombra do que já foi. Fidel e Chávez morreram. Cuba estertora. Maduro está preso. As revoluções partiram para o narcotráfico. Mas o Brasil, senhores, deu cinco mandatos ao radicalismo esquerdista do PT. E nosso país está em pandarecos. Se você é chefe de família, coroa, sênior, pai, tio, avô, cumpra sua missão orientadora entre os mais jovens.
* Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
06/06/2026
Percival Puggina
Na perspectiva da extrema esquerda que nos afeta, a decisão dá causa a intensa indignação: ianques estão querendo se meter com o CV e o PCC. Estão intervindo em nossa soberania... As duas organizações são coisa nossa (“Cosa nostra!”, diriam sicilianos de Palermo). É uma orientação política que só vamos encontrar lá onde a picada termina; para ir em frente, há que roçar muito mato.
Os Estados Unidos, no uso da autonomia deles, declararam, para efeitos internos deles, que as duas organizações, que também atuam criminosamente por lá, são terroristas. O esquerdismo brasileiro reage com orgulho, sacode o pó do “lábaro estrelado” verde e amarelo e proclama (melhor seria dizer que confessa): “Aqui, no Brasil, temos uma lei sobre organizações criminosas e ela não inclui terrorismo!”. Entende-se, na perspectiva da extrema esquerda, terrorismo político é algo romanticamente revolucionário e, portanto, objeto de necessária proteção. Nossa história foi marcada por um período em que tivemos quase mais organizações terroristas do que times de futebol. Parte da elite política hoje de cabelos brancos foi militante do MR-8, da Ação Libertadora Nacional, da VAR-Palmares, da VPR e de tantas outras organizações! E esse pessoal nutre reverência e sentimento nostálgico em relação a dois Carlos – o Marighella e o Lamarca.
Todo bom policial sabe, porém, que PCC e CV inspiram um sentimento de medo nas sociedades onde se enraízam. Quem leu algo sobre Ciência Política sabe que provocar medo é uma forma poderosa de controle social. Sabia-o Machiavel quando afirmou ser mais confiável ao Príncipe inspirar medo do que suscitar amor. Thomas Hobbes sabia quanto o medo leva os homens a entregar sua liberdade ao Estado. Michel Foucault sabia quanto o pavor causado pelos malfeitores serve ao Estado para a expansão de seus mecanismos de opressão. Mundo afora, eram graduados nessas especialidades líderes que nosso esquerdismo inclui nas suas venerações: Lênin, Stalin, Mao, Pol Pot, Kim Il-sung, Fidel, Guevara.
Não surpreende, pois, que os mesmos figurões da política que denominaram terroristas os desorganizados manifestantes da praça deserta no dia 8 de janeiro se recusem a enquadrar como terroristas as duas principais organizações criminosas do país. Como papagaios de pirata dos fatos, fazem o mesmo teatro os jornalistas adestrados que gastaram papel e tinta repetindo esse discurso diante de idosas senhoras e suas Bíblias. Uns e outros assim procedem, confiantes na ignorância dos leitores e eleitores que não percebem o abismo instalado entre o discurso e a vida de quem fala, nem a distância que tantas vezes separa a racionalidade das motivações individuais.
Como em tantas outras ocasiões, é irônico observar, mais uma vez, o mesmo fenômeno. Tudo que possa garantir mais segurança à população ganha oposição imediata e cega do governo, de seus aliados nos demais poderes da República e, claro, no mundo do crime.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Outros Autores
Liberdades civis, políticas e econômicas são essenciais à prosperidade social.
Se você é chefe de família, coroa, sênior, pai, tio, avô, cumpra sua missão orientadora entre os mais jovens.
Na perspectiva da extrema esquerda, terrorismo político é algo romanticamente revolucionário.
Graças à tolerância, a corrupção no Brasil do século XXI saltou dos milhões aos bilhões.
Não haverá democracia, nem liberdade, nem bom direito, nem boa política, enquanto, no Senado, uma consistente maioria não restaurar a ordem constitucional no país.
Há um escândalo, o maior de todos, que é a causa de todos os demais escândalos nacionais.