• Dartagnan da Silva Zanela
  • 27 Agosto 2026

 

Dartagnan da Silva Zanela

             O professor Antônio Cândido, em uma entrevista há muito concedida, disse uma obviedade ululante que, como todas as obviedades, precisa ser repetida porque nós, seres humaninhos, temos o péssimo hábito de esquecer tudo aquilo que realmente tem alguma importância. Disse ele que a leitura de Homero, Cervantes, Shakespeare, Dumas, Dostoiévski, Machado e companhia limitada, juntamente com o conhecimento de histórias folclóricas, literatura de cordel e demais preciosidades, nunca fez mal a ninguém. Aliás, até onde sabemos, ninguém ficou estúpido ou se tornou uma pessoa pior por ter se entregado a esse tipo de desfrute literário.

Além disso, Northrop Frye e Harold Bloom nos lembram que a literatura, por meio de suas páginas, nos apresenta vidas humanas possíveis que, se forem lidas, apropriadas e devidamente interiorizadas, enriquecem a nossa alma com perspectivas que seriam literalmente inacessíveis a uma pessoa que sabe ler e não lê.

E tem mais! Por termos contato com esses dramas humanos ficcionais — e, por isso, possíveis —, temos a oportunidade de experimentar nas entranhas da nossa alma o que realmente significa ser leal, ter coragem, ser um canalha de marca maior, agir de forma piedosa como um santo, ser audaz como um herói e, entre outras coisas, ter compaixão — ser empático — com quem sofre.

Se não temos contato com o fruto das obras destes e de outros grandes mestres da humanidade, sem querer querendo vamos nos condenando a ver a nossa vida apenas pela perspectiva apequenada da nossa existência medíocre.

Sim, a vida de um cidadão comum, como eu e você — como qualquer um de nós —, é, por definição, uma existência medíocre, apequenada, reduzida à perspectiva de meia dúzia de problemas banais. Agora, quando nos permitimos ter contato com esse universo, sem nos darmos conta vamos ampliando imaginativamente a gama de perspectivas da nossa alma e, ao fazer isso, vamos projetando essa dimensão aquilatada sobre a banalidade do nosso dia a dia, elevando o nosso modo de ver a vida e tornando-a uma grande epopeia vivida magistralmente entre os ditames limitantes de uma rotina alienante. Ou, como diria Rubem Alves, quem não lê vê o mundo apenas com os seus olhos — grande coisa; já quem lê vê o mundo com os seus olhos e com as janelas da alma dos autores que leu. E isso, como diria o senhor Spock, é fascinante.

Sim, eu sei que todos nós, neste mundinho imerso na mais vil tecnolatria, aprendemos que devemos ser práticos e objetivos — o que, em outros termos, quer dizer que esse mesmo mundinho quer apenas que sejamos uma peça autômata e alienada deste sistema maquinal e alienante.

Ainda por esse caminho, o professor Olavo de Carvalho recomendava aos seus alunos que tomassem uma obra da grande literatura universal e procurassem, religiosamente, lê-la e relê-la com relativa frequência para, com o passar do tempo, absorver e integrar em sua alma as várias nuances e camadas de significado que há nela.

Aliás, isso é algo que, instintivamente, as crianças manifestam quando pedem insistentemente para rever o mesmo desenho, o mesmo filme, para ouvir as mesmas músicas, as mesmas histórias, para assimilá-las em seus corações de seres humaninhos. Por essas e outras que Nietzsche dizia que a maturidade consiste em reencontrar, na idade adulta, a mesma seriedade que, quando crianças, colocávamos nos jogos e brincadeiras.

Eric Voegelin, por exemplo, todo inverno relia as obras completas de Shakespeare; Luiz Fernando Verissimo tinha a obra magna de seu pai, O Tempo e o Vento, na cabeceira da sua cama; João Nogueira da Silva Neto todo ano relê O Senhor dos Anéis; e nós, o que relemos? Pois é, foi o que eu pensei.

E com uma resposta destas nós queremos — porque queremos — ficar dando pitaco sobre como deveria ser a educação dos outros quando, na verdade, mal principiamos a jornada da nossa, não é mesmo?

*           O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "NAS ENTRANHAS DO LEVIATÃ", entre outros livros.

 

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 26 Agosto 2026

 

Gilberto Simões Pires            

 

CITAÇÃO DE ABRAHAM LINCOLN

É de se imaginar, sem medo de errar, que se vivo estivesse e como tal conhecesse a realidade brasileira, jamais o presidente americano Abraham Lincoln pronunciaria a citação, a ele atribuída, que diz: -VOCÊ PODE ENGANAR ALGUMAS PESSOAS O TEMPO TODO; PODE ENGANAR TODAS AS PESSOAS POR ALGUM TEMPO; MAS NÃO PODE ENGANAR TODAS AS PESSOAS O TEMPO TODO-.

EM TORNO DE 50% DE BRASILEIROS QUEREM LULA REELEITO

Para chegar a esta simples e certeira conclusão basta ver o que apontam -TODAS AS PESQUISAS ELEITORAIS PARA PRESIDENTE DO BRASIL-, as quais indicam que em torno de 50% DOS ELEITORES BRASILEIROS se dizem dispostos a reeleger o presidente LULA. 

GOSTO DE SER ENGANADO

Isso significa, claramente, que esse enorme contingente de eleitores é do tipo que -ADORA SER ENGANADO O -TEMPO TODO-. Ou seja, o FATO desses eleitores manifestarem publicamente que querem a permanência de LULA no Poder, além de -APLAUDIR OS CORRIQUEIROS E SISTEMÁTICOS ATOS DE CORRUPÇÃO; O EXCESSIVO ENDIVIDAMENTO PÚBLICO; OS ROMBOS NAS ESTATAIS; O BAIXO CRESCIMENTO DO PIB; os AUMENTOS SUCESSIVOS DE IMPOSTOS, etc., etc.-, QUEREM VIVER NUM PAÍS ONDE A LIBERDADE É CADA DIA MAIS AMEAÇADA E A DEMOCRACIA JÁ DEIXOU DE EXISTIR... 

CITAÇÃO COM BASE NA REALIDADE BRASILEIRA

De novo: caso Lincoln vivo estivesse e resolvesse criar uma citação voltada para a triste realidade brasileira, ela seria, certamente, algo assim: -VOCÊ PODE ENGANAR UMA PARTE SUFICIENTE DA POPULAÇÃO E COM ISSO GOVERNAR TODOS PELO TEMPO QUE QUISER-.

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  • Eguinaldo Hélio de Souza
  • 26 Agosto 2026

 

Eguinaldo Hélio de Souza

             A neutralidade é vendida como o remédio para toda sorte de males. Quem a recusa está fomentando a polarização. Quem a abraça é verdadeiro amigo da paz. É a utopia da imobilidade, a panaceia dos “em cima do muro”, a sabedoria dos indiferentes. Mas não funciona.

Diante de um Hitler, pacifismos ingênuos são acomodações maldosas que alimentam a voracidade do destruidor. Seus profetas “falam de flores vencendo o canhão”. Exortam as ovelhas a comungar com o lobo. Pedem um beijo na serpente que supostamente neutralizaria seu veneno. Ilusão.

Flannery O’Connor escreveu que “temos que empurrar a nossa época com a mesma força que ela nos empurra”. Eu diria que com uma força maior, se queremos que o atacante recue. Por isso, a ideia de que o pacifismo sempre pacifica o atacante é na grande maioria das vezes uma ilusão perigosa.

O mal nunca foi vencido pela neutralidade. Só pode ser vencido por uma força oposta com intensidade maior. Os pacifistas, os “equilibrados”, os “sensatos”, medem os outros com a mesma régua que medem a si mesmos. Eles não querem ferir ninguém e acham que seu inimigo também não. Eles respeitam as regras e acham que seus adversários também respeitam. Eles não entendem o significado da palavra “mal”. Quando alguém é mal, essa maldade se manifesta como engano, perfídia, desonestidade, truculência e inúmeros outros adjetivos negativos. O mal não apenas faz o mal. Ele o disfarça de bem.

A mente moderna não é mais capaz de reconhecer a existência do certo e do errado, do bem e do mal, da luz e das trevas. Acreditam que tudo se trata apenas de pontos de vista diferentes. Evitam até mesmo demonizar o próprio demônio. Por isso, o médico famoso abraça e chora enternecido ao pedófilo e assassino de crianças. Por isso, o Ministério da Justiça é visitado pela “Dama do Tráfico”, esposa do líder de facção criminosa. Os padrões que nos norteavam estão em ruínas.

A realidade nos obriga a escolher nosso lado e a assumir as consequências da nossa escolha. E calem-se aqueles que dizem que dessa forma estamos fomentando o conflito, como se todos fossem Madres Teresas transpirando boa vontade pelos poros. Há muito querem nos fazer acreditar que errado e mal é quem acredita no mal e no erro. O errado e o mal são realidades concretas e discursos bem formulados não têm poder para suprimir a dor na carne que eles provocam.

O bem e o certo precisam ser fortes e firmes se querem garantir sua existência. Fraqueza não é sinônimo de bondade e ser neutro não significa estar certo. Já temos informações históricas e filosóficas suficientes para entender o que as ideologias dominantes são e querem.

Neutralidade é somente o discurso utilizado por um lado para neutralizar o outro.

Encerro, ironicamente, citando Vandré:

Vem, vamos embora, que esperar não é saber.

Quem sabe faz a hora não espera acontecer.

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  • Dagoberto Lima Godoy
  • 24 Agosto 2026

 

Dagoberto Lima Godoy

             O Brasil vive sob uma ditadura informal cujo centro está no Supremo Tribunal Federal. Não é uma ditadura clássica: não fechou o Congresso nem suspendeu a Constituição. É um autoritarismo judicial que conserva a aparência das instituições enquanto açambarca poderes que a Constituição atribui a outros órgãos.

Uma série de violações processuais, legais e constitucionais atinge o sistema acusatório, o juiz natural, o devido processo, as liberdades de expressão e de imprensa, os limites constitucionais da competência do STF e a separação dos Poderes. A exceção transformou-se em método de poder.

O STF, porém, não atua isoladamente. O governo Lula é seu principal apoio político e beneficiário. Não é preciso supor um pacto: a Corte constrange adversários e protege o arranjo vigente; o Planalto e sua base legitimam a expansão judicial e resistem ao controle do Congresso. Soma-se a eles parte do Parlamento com processos ou interesses dependentes de decisões judiciais — o Congresso “com o rabo preso”. Forma-se um regime de proteção recíproca.

Contudo, é bom lembrar que a história revela sinais recorrentes da exaustão de regimes autoritários: perda de legitimidade; crise econômica ou fiscal; revelações de corrupção; divisão do núcleo dirigente; deserção de aliados; afastamento do empresariado e da imprensa; autonomia dos investigadores; redução do medo; união da oposição; e recusa dos agentes do Estado em cumprir ordens abusivas. A combinação desses fatores derrubou regimes aparentemente sólidos, como os de Fujimori, no Peru, e Marcos, nas Filipinas.

Pois alguns desses sinais já aparecem no Brasil. O primeiro é a perda de credibilidade do STF. O caso Banco Master atingiu a Corte: Dias Toffoli deixou a relatoria após revelações que exigiam explicações, enquanto o contrato milionário do banco com o escritório da esposa de Alexandre de Moraes criou, para dizer o mínimo, grave aparência de conflito de interesses. Embora não constituam, por si, prova de crime, esses fatos atingem o fundamento moral da autoridade do Tribunal.

O segundo sinal é a expansão das revelações de corrupção. A fraude bilionária no INSS permaneceu ativa durante o governo Lula e provocou a queda do presidente do órgão e do ministro da Previdência. Somam-se investigações sobre possível tráfico de influência envolvendo o filho do presidente, cujo enriquecimento vertiginoso causa espanto. Na fase de exaustão, a corrupção deixa de servir apenas à compra de lealdades e passa a produzir vazamentos, desconfiança e deserções.

O terceiro sinal é a crise fiscal. Em junho de 2026, a dívida bruta do governo geral alcançou 81,9% do PIB, enquanto o déficit nominal acumulado em doze meses atingiu 9,99% do PIB. Em relação a dezembro de 2022, a relação entre a dívida bruta e o PIB aumentou 10,25 pontos percentuais.  A administração demagógica distribui benefícios, evita reformas, eleva impostos e transfere a conta ao futuro. Porém, à medida que os recursos escasseiam, diminui sua capacidade de conservar aliados mediante verbas, cargos e favores.

Também surgem fissuras na imprensa. Grandes jornais que toleraram os excessos do STF passaram a criticá-lo, sobretudo após a violação do sigilo da fonte de um jornalista. E parte do poder econômico já mostra inquietação diante da insegurança jurídica e fiscal, embora ainda dependa de crédito público, contratos, concessões e decisões judiciais.

A perspectiva mais promissora está na eleição de 2026, que renovará 54 das 81 cadeiras do Senado, o mesmo número de votos exigido para condenar um ministro do STF por crime de responsabilidade. Mas serão necessários senadores independentes e um presidente da Casa disposto a exercer suas competências.

Então, os sinais de abalo existem, embora ainda não indiquem queda iminente. O STF conserva razoável unidade, o Congresso hesita, o empresariado prefere a acomodação e a oposição não apresentou um programa comum de reconstrução. A simples derrota de Lula tampouco encerraria o regime: um novo presidente, diante do mesmo STF e de um Senado submisso, poderia ser neutralizado.

A queda do sistema dependerá de novas revelações; da ruptura da proteção recíproca entre Planalto e STF; do afastamento da imprensa e do poder econômico; da autonomia da Polícia Federal e do Ministério Público; de uma maioria de três quintos no Congresso; e de divisão interna na Corte.

O desafio é grande, mas regimes autoritários começam a cair quando seus sustentadores concluem que protegê-los se tornou mais perigoso do que abandoná-los.

A reconstituição da democracia deverá ocorrer dentro da Constituição: encerramento dos inquéritos de exceção, revisão das medidas abusivas, concessão de anistia aos condenados por atos de natureza política, restauração do sistema acusatório e do devido processo, responsabilização individual mediante provas, recuperação das competências do Congresso e saneamento das contas públicas. Sem vingança nem tribunais de exceção invertidos.

Com perseverança e coragem, haveremos de fazer isso.

 

*         O autor, Dagoberto Lima Godoy, é engenheiro civil.

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 21 Agosto 2026

Gilberto Simões Pires     

ESPERANÇA SEM NEXO

O velho ditado popular -A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE- leva muita gente a ACREDITAR, CONFIAR, sem o menor NEXO, que em meio a situações difíceis algo de bom vai acontecer. Para esse contingente de brasileiros, o sentimento de FÉ e ESPERANÇA significa, por exemplo, que ao plantar sementes de FEIJÃO, em breve (90 dias aproximadamente), a safra da LEGUMINOSA será transformada em farta colheita de LARANJAS, BANANAS ou ABACATES, por exemplo. 

AMANTE POLÍTICO

Antes de tudo, muito a propósito, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, totalmente seduzido -de corpo e alma- pela exploração de petróleo na Margem Equatorial, mais precisamente no Amapá, para selar a UNIÃO ESTÁVEL com o presidente Lula, presenteou o seu -AMANTE POLÍTICO- com a certeza de que fará de tudo e mais um tanto para que o projeto que propõe o FIM DA ESCALA DE TRABALHO 6x1, seja analisado e aprovado o quanto antes no Senado Federal. 

LUA DE MEL

Isto significa, claramente, que se alguém NUTRIA ALGUMA ESPERANÇA de que o FIM DA ESCALA 6 X 1 fosse alvo de -NEGOCIAÇÃO ENTRE AS PARTES -SINDICATOS DE EMPREGADOS E PATRONAIS-, e não de LEGISLAÇÃO, esta hipótese é praticamente nula. Ainda que a UNIÃO ESTÁVEL dos POMBINHOS não dure muito tempo, o fato é que os ESTRAGOS PRODUZIDOS durante a LUA DE MEL ficarão garantidos e protegidos, para sempre, por cláusulas pétreas. 

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  • Dartagnan da Silva Zanela
  • 21 Agosto 2026

 

 

Dartagnan da Silva Zanela

             Quando alguém, numa roda de conversa, resolve falar da importância da leitura, todos os presentes — e, talvez, até mesmo os ausentes — concordam que ela é realmente um trem indispensável para o bom desenvolvimento de uma pessoa. Até mesmo aqueles que têm alergia à leitura fazem pose, cara de gente séria, e concordam com o babado, porque é muito chique dizer que com livros e bons leitores se constrói uma grande nação.

Sim, isso é chique e é a mais pura verdade, porque a leitura nos faz parar e nos convida a seguir num passo mais lento e, por isso, mais atento. E essa é a chave para a boa formação de um indivíduo, principalmente no mundo em que vivemos, onde somos praticamente o tempo todo instados a seguir o fluxo acelerado e sem fim de uma sociedade que tem o seu ritmo maquinal regido pelo pulso contínuo de vídeos desconexos e imagens fragmentadas.

A leitura de uma obra literária exige a nossa entrega; ela não abre mão da nossa atenção para nos guiar pelas páginas codificadas de um livro. Lendo, somos obrigados a nos concentrar para não perder o fio da meada, conectando o que está sendo lido na página atual com o que já havia sido lido nas páginas anteriores e, de forma imaginativa, desenhando possíveis cenários que possam se descortinar nas páginas que estão por vir. E isso, meu amigo, é muito phoda.

Mas não somos uma sociedade de leitores e, por isso, é salutar lembrarmos que podemos avaliar o estado em que se encontra a consciência de uma sociedade pelo estado em que se encontra a linguagem utilizada pelos indivíduos, porque o estado da consciência humana reflete-se diretamente na linguagem por eles utilizada.

Ora, se voltarmos nossos olhos para o emaranhado de palavras que são utilizadas por nós em nosso dia a dia, constataremos que grande parte delas não passa de cacoetes mentais, jargões publicitários, trocadilhos oriundos de memes, termos vagos disseminados pela grande mídia, pelas redes sociais e demais traquitanas similares.

De mais a mais, uma sociedade que toma como referência apenas aquilo que as mídias apresentam é um mundo onde as pessoas se encontram presas em um círculo vicioso que, de tempos em tempos, se renova artificialmente, ao mesmo tempo que vai erodindo a nossa capacidade de discernir.

Um bom exemplo dessa erosão são as pessoas que, de um modo geral, dizem acreditar apenas na "ciência" e ponto final. Na real, essa gente acredita em qualquer bobagem que for apresentada pela televisão e confirmada pelo algoritmo de suas redes sociais — e nada mais.

Parece grosseria, mas não é. De um modo geral, todo aquele que diz que acredita apenas na "ciência" não tem uma ideia clara do que seja essa tal de ciência, do que é um objeto de estudo e do que são conceitos, definições, fenômenos e teorias; nunca teve contato com um estudo científico e, provavelmente, não tem o menor interesse em saber o que são procedimentos de pesquisa. Mesmo assim, afirma que crê nela, na ciência, porque essa palavra, em seu uso midiático — esvaziada do seu sentido original e convertida em um "lugar-comum" —, traz para ela uma ilusória e aconchegante sensação de segurança.

E o mesmo pode ser dito a respeito de inúmeros outros termos, como fascismo, comunismo, justiça social, iluminismo, libertário, liberdade, educação, família, amor, democracia — enfim, a lista é longa.

Todos esses termos — e muitos outros — encontram-se, no cenário atual, mutilados dos pés à cabeça. Por isso, te digo uma coisa: se não restaurarmos em nós a gravidade e o peso da linguagem, continuaremos presos neste "samsárico" círculo vicioso. E o caminho para isso — para defendermos a nossa alma do lixo midiático — é a grande literatura universal, pois, como bem nos lembra Saul Bellow, apenas ela pode nos libertar e nos proteger dos estereótipos. Ela não fala a linguagem de uma época ou de um grupo em particular; a grande literatura fala a linguagem da humanidade de todos os tempos para a humanidade de todas as épocas.

*            O autor, Dartagnan da  Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "NAS ENTRANHAS DO LEVIATÃ", entre outros livros.

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