• Valdemar Munaro
  • 02 Março 2026


Valdemar Munaro

                 "Os que maquilam as mulheres causam menor mal (porquanto pouco se perde com não as ver ao natural), do que os que têm por profissão abusar, não de nossos olhos, mas da nossa inteligência, abastardando e corrompendo a própria essência das coisas".

            Miguel de Montaigne (1533 – 1592), filósofo renascentista francês, autor da passagem citada, referia-se à oratória que, no entender de Sócrates e Platão, foi inventada astutamente para enganar e adular. A arte retórica floresceu, maiormente, conforme Montaigne, nos lugares e tempos em que ignorantes e vulgos detinham todo o poder; revelam, por conseguinte, a bancarrota intelectual e moral da cultura em que se alberga. Quando a civilização grega se corrompeu, a sofística proliferou como rato e se tornou um instrumento para acalmar ou excitar populachos. Semelhante fenômeno se deu na civilização romana: quanto mais apodrecido o império se tornava, mais crescia a orla de oradores. Se pelos frutos se conhecem as árvores, grandezas adquiridas na base de oratórias e salamaleques, serão sempre ocas e mentirosas.

"Por que, continua Montaigne, antes de julgar um homem o encaramos já todo empacotado? Nada do que nos mostra é dele e ele esconde tudo o que pode esclarecer-nos a seu respeito. O que precisamos saber é quanto vale a espada e não a bainha, porquanto talvez não demos grande coisa por ela. É necessário julgar o homem em si e não pelos seus adornos. Como diz espirituosamente um filósofo do passado: 'Sabeis por que o achais grande? Porque o medis com o pedestal!' O pedestal de uma estátua não é parte integrante dela. Devemos medi-lo sem pernas de pau, nem riquezas, nem dignidades: em mangas de camisa. É o seu físico adequado às suas funções? É ele sadio e alegre? Como tem a alma? Bela, capaz, bem-dotada sob todos os aspectos? Tem a fortuna influência sobre ela? Perturba-se ante um perigo iminente? É indiferente ao tipo de morte que, a cada instante, a pode atingir? É calma, igual, satisfeita com a sorte? Eis o que é preciso procurar saber e nos permite avaliar as diferenças existentes entre os homens: 'É sábio e sabe dominar-se? É capaz de resistir às paixões e desprezar as honrarias? Fechado por inteiro dentro de si mesmo, semelhante a uma bola perfeita que nenhuma aspereza impede de rodar, é influenciado pela fortuna?' Um tal homem está quinhentos braças acima dos reinos e ducados; é ele próprio o seu império" (Ensaios).

A CNBB, entidade episcopal brasileira similar a sindicato, promove outra vez, ora ocorrendo, a reiterada Campanha da Fraternidade neste ano focalizada nuclearmente na falta de moradia que machuca os pobres. O texto que a advoga vem acompanhado de sôfrega nervura teologal e parco convite à contrição e conversão. Suas inquirições beiram a um estelionato evangélico de pouco efeito evangelizador. Chove no molhado. Seus arrazoados quaresmais atendem prioritariamente aos apelos e dramas econômicos, sociais e políticos já eficazmente enraizados na vida do povo.

Passam a impressão, outrossim, de serem redatores cabeçudos e soberbos, visceralmente comprometidos e solidários à situação dos brasileiros sem moradia e sem vida digna no país. Para esses teólogos, porém, a causa da miserabilidade habitacional espraiada pelo Brasil é exclusivamente atribuída ao famigerado neoliberalismo, um monstro sem rosto e sem cauda, a serviço de ricos e abastados.

O texto não menciona, com vírgula sequer, a lama imoral socialista que também assola o continente em que habitamos. Estão na lista vermelha dos empobrecidos sem eira nem beira as nações como o Brasil, a Venezuela, a Nicarágua, Cuba etc., enroscadas nas teias da corrupção e da canalhice de seus governantes inescrupulosos e de suas instituições locupletadas. Tampouco o escrito desses teólogos menciona o roubo aos aposentados e desvalidos, as fraudes dos banqueiros, os gastos exorbitantes e as mordomias com dinheiro público de privilegiados que se autoproclamam defensores de oprimidos.

As pitadas bíblicas agregadas ao texto da Campanha, aparecem para enfeitar ou lambuzar o conteúdo. Com oportunismo, as Campanhas da Fraternidade viajam de carona na liturgia quaresmal cometendo o delito de se desviar de sua finalidade primordial: a Páscoa de Cristo. Ao invés de nos conduzir à interioridade e ao arrependimento, o texto derrama sobre os fiéis, carradas de julgamentos e moralismos travestidos de engenharias que atiçam vontades e energias a lutas exteriores e sociais.

Certamente, o déficit habitacional é uma causa justa a ser defendida, mas não é preciso ser católico, nem cristão para fazê-lo. Dispensam-se, portanto, empurrões 'teológicos' que jogam os crentes cada vez mais no circo da arena política. O estrangulamento teológico se acha no atrevimento hermenêutico abjeto que submete o Evangelho de Cristo à mera dramaturgia histórica e temporal dos homens. Em qualquer situação em que nos encontrarmos, desde há muito, já estamos suficiente e inevitavelmente enlameados nessa miséria política, econômica, religiosa, moral, educacional e jurídica que nos cerca. A ousadia desses teólogos, porém, é de, ao invés de nos soerguer, persistir em nos levar cada vez mais para o interior da cova. É de arrepiar!

A 'visão cristã' que orienta tais ensinamentos está restrita à solução dos problemas habitacionais. Semelhante promessa também faz e fez, às turras, o marxismo propalador de uma fraternidade futura, surrealista, jamais realizável. "Séculos passarão, escreveu Dostoievski, e a humanidade proclamará pela boca de seus sábios e de seus intelectuais que não há crimes e, por conseguinte, não há pecado; só há famintos. 'Nutre-os e então exige deles que sejam virtuosos!'".

Os teóricos da 'Fraternidade' tomam o Cristo como um ressentido ou um lamuriante andarilho que caminha pelas estradas da Galileia, Samaria, Judéia e afins, maldizendo a gruta em que nasceu, a ida ao Egito quando guri, as inospitalidades em Nazaré, Cafarnaum e Jerusalém, etc. Mas esse não é o Evangelho de Jesus. Não encontramos nele lamentos de Maria, nem de José, nem de Isabel, nem de Zacarias, nem de João Batista, muito menos de Jesus.

Os queixumes são exclusivamente nossos, da escola do pecado, que nos ensina a diatribe do vitimismo, da injustiça, da violência, da vingança. "Não há homem justo sobre a terra" (Ecl 7, 20 e Sl 14 ), diz a Escritura, 'todos somos culpados' (cfr Rm 3, 9s); por conseguinte, tudo o que falarmos, fizermos ou produzirmos virá contaminado de malícia e soberba.

O Autor da vida, ao invés (não o supremo modelo como supõe a CF), O ÚNICO INOCENTE, "por um iníquo julgamento foi arrebatado e sem que haja cometido injustiça alguma, nem sua boca tenha havido mentira, foi sepultado ao lado de facínoras" (Cfr Is 53). Ignominiosamente crucificado, ocupa um lugar absolutamente oposto ao dos homens, o nosso, em cuja moral justiceira e aleijada, mistura-se a avareza, a mentira, a indolência, a preguiça, o crime, a inveja, o ressentimento, o ciúme, a corrupção, a vingança e a morte.

Se nos compararmos a Cristo, veremos que ninguém é santo, ninguém é puro, inclusive os 'teólogos' e/ou clérigos que nos ensinam. Todos viajamos no mesmo trem do pecado e da iniquidade. Morreríamos empalados em nossa miséria e podridão, mesmo quando guarnecidos por confortáveis moradias, se Ele não tivesse, gratuita e amorosamente, vindo ao nosso encontro. É uma teologia fajuta a que desconhece, de um lado, a necessidade imprescindível da graça de Deus e, de outro, o poder do pecado e da morte sobre a vontade e inteligência humanas. Somos castigados pelo próprio mal que fazemos. Como dizem Platão e o poeta Hesíodo, 'nasce o castigo no momento mesmo em que nasce o pecado'. "A maldade, acrescenta Montaigne, engendra os próprios tormentos. O mal recai em quem o faz. A vespa, ao picar, perde o ferrão e com este as suas forças, para sempre: deixa a vida no ferimento que provoca".

Sendo assim, estamos todos involucrados nas tramoias da maldade e a única misericórdia que nos pode livrar dela, é a Páscoa e o perdão incondicional de Jesus. "Se ainda não sabemos que Jesus de Nazaré ressuscitou dentre os mortos então ainda não sabemos coisa alguma sobre a história" (J. Broadus).

Segundo o historiador J. Weiss, a tática é velha. Também os fariseus queriam cancelar Jesus e todos os fatos ligados a Ele. Mil outras vezes foi cancelado da face da terra e seu túmulo trancado conforme os tempos: os seus guardas, o estado, a religião, a filosofia, a ciência, a democracia, a aristocracia, o proletariado, a nação, o racionalismo, a prudência. Mas o Cristo guardado no túmulo ressuscitou. Muitos homens foram amados no seu tempo: Sócrates por seus discípulos, Júlio César pelos seus legionários, Napoleão por seus soldados, mas hoje estes estão inexoravelmente no passado. Nenhum coração palpita mais por seus ideais. Ninguém pensa em blasfemar a Sócrates, a Júlio César, a Napoleão porque não têm mais eficácia. Jesus, ao invés, é ainda hoje amado ou blasfemado. Nenhum vivente é tão vivo quanto Jesus.

O ressuscitado não pode ser tratado, portanto, como mera ilustração à nossa fraternidade como insiste fazer a teologia da libertação. Ele é e só pode ser a sua causalidade. Não nos peçam práticas fraternas sem nos dar o Cristo para o podermos ser! Os santos também seriam tão grandes egoístas e abestalhados quanto o são os demais homens, se não estivessem enxertados na vida de Cristo.

Que significado tem o 'Pretório' senão o de ser um espelhamento de nossos tribunais e poderes judiciais infestados de malícia, escárnio e podridão? Que significado tem o 'Jardim do Getsêmani' senão o de ser um espelhamento das nossas falsas lágrimas, traições e abandonos? Que significado tem o 'Gólgota' senão o de ser um espelhamento de nossas ignominiosas condenações, crimes, violências e cinismos?

Aquele que 'habitou entre nós', o Justo e Santo, sem obrigações e sem mérito algum de nossa parte, pagou a dívida que nos conduziria, fatalmente, ao inferno. 'Quem nada deve, tudo paga; quem nada paga, tudo deve' (S. Anselmo). A Páscoa, sem a qual, tudo ruiria, é o maior dos bens que Deus poderia dar à humanidade. O resto é palha, como disse S. Tomás.

A que serviriam nossas casas bem montadas e guarnecidas sem o Cristo ressuscitado? O moinho, segundo a visão hegeliana, faz a histórica girar para cima e para baixo num movimento cíclico sem começo e sem término. Cedo ou tarde, segundo Hegel, escravos se tornam senhores e senhores escravos. A história é um monstro perpetuando-se no seu próprio suicídio, uma gaiola chumbada no tempo e sem porta. Somente Cristo a quebrou.

Milhões de seres humanos buscam, inconscientemente, todos os dias, espantar sua miserabilidade. Casas de ouro ou de barro não evitam que vivamos ocamente, sem amor e sem sentido. Os teólogos da libertação veem os dramas humanos pela vitrine da epiderme. Cristo, porém, não nos vê, nem nos trata pela casca, se somos estamos vivendo em casebres ou mansões, se andamos descalços ou a cavalo, carroça ou BMWs. Ele conhece nossa alma e quer preencher o vazio que há nela.

As comunidades cristãs nascentes não eram apenas lugar de culto e oração; eram também porto seguro a desamparados materiais (Cfr. At 2, 44). Martinho Lutero, ao saber disso, passou a desprezar os pedintes, por achar que o ato de quem só quer esmola é vagabundagem ou não inserção comunitária. Igrejas realmente fraternas farão muitos perdidos encontrar seu ninho material e espiritual.

Em Betânia, na região dos amigos Lázaro, Maria e Marta, Jesus entrou, certa ocasião, na casa de Simão, o leproso. Veio-lhe ao encontro uma mulher e derramou perfume caríssimo sobre sua cabeça. Indignados, 'amantes dos pobres' e justiceiros lamentaram o desperdício, mas Jesus lhes disse: 'ela praticou uma boa ação para comigo... Pobres sempre tereis e quando quiserdes podeis lhes fazer o bem' (Mc 14, 5s).

Unindo-se a Cristo, o cristão aprenderá como amar e viver a justiça. Os teólogos da libertação priorizam as regras morais e pretendem extrair delas o milagre do encontro com Cristo e a vida nova, quando, na verdade, fazem o movimento inverso ensinado por Jesus. Seus insistentes apelos à prática da justiça desconectados de Cristo, se assemelham a imperativos kantianos: latem como cães encastelados sem assustar os passantes.

Santa Maria, 02/03/2026.

*                      O autor, Valdemar Munaro, é professor de Filosofia.

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  • Alex Pipkin, PhD
  • 28 Favereiro 2026

 

Alex Pipkin, PhD

                 Depois de anos estudando comportamento humano, nas empresas, nas negociações, nas fraturas em que interesse e caráter se enfrentam, tornei-me convicto de que há um equívoco destruidor embalando nossa época. Um erro confortável, incentivado por estruturas que passaram a premiar o desvio e a proteger a irresponsabilidade. Acreditamos que o progresso é automático, que a história é ascendente, que, uma vez civilizados, estamos vacinados contra o retrocesso. Nada é mais perigoso. Nada é mais atual.

Avançamos materialmente como nunca. A medicina prolonga a vida, a tecnologia simplifica rotinas, o transporte encurta distâncias, bens e serviços ampliam o conforto até dos que constroem sua retórica sobre a escassez. Vivemos melhor do que qualquer geração anterior sob quase todos os indicadores objetivos. Mas progresso técnico não é elevação moral. Conforto não produz consciência, e abundância não produz caráter.

A história não é linear; depende de freios internos e externos, e o primeiro a se desgastar é o invisível.

Adam Smith, ao examinar os sentimentos morais, descreveu o “espectador imparcial”, essa instância interior que nos vigia e nos julga. Não queremos apenas aprovação; queremos merecê-la. A reputação não é enfeite social, é capital moral. Perdê-la deveria custar caro: estima, confiança, relações. A vergonha não era fragilidade; era engrenagem da civilização.

O que acontece quando nada mais custa?

Quando a corrupção deixa de escandalizar e passa a ser racionalizada como estratégia de poder, quando a hipocrisia vira habilidade política e a incoerência é defendida com fervor tribal em nome do pertencimento cego, algo essencial se rompe. O freio interno enfraquece porque a consciência foi anestesiada por narrativas convenientes, e o freio externo se esfarela porque a sociedade já não pune reputacionalmente o vício.

Não é preciso que prédios desmoronem para que haja regressão. Basta que a emoção substitua a razão como árbitro supremo, que a lealdade afetiva pese mais que a verdade, que a vergonha deixe de operar como limite.

A sociedade pode continuar “funcional” na superfície e, ainda assim, perder densidade moral. Permanecer conectada e tornar-se menos responsável; informada e menos lúcida.

Podemos ter inteligência artificial e autocontrole rudimentar, infraestrutura moderna e maturidade ética infantil. Civilização não se mede pela sofisticação dos instrumentos, mas pela capacidade de conter impulsos.

Quando a consciência já não constrange e a reputação já não importa, o custo do vício desaparece. E, quando o vício deixa de custar, ele se expande vergonhosamente.

Não voltamos às cavernas. Voltamos à infância moral. Mesmo com aplicativos no bolso, retórica sofisticada e investigações que parecem não ter fim.

Talvez uma das ironias mais agudas do nosso tempo seja a de que enquanto se eternizam inquéritos que prometem salvar a ordem, normaliza-se a erosão silenciosa dos próprios critérios que sustentam a civilização.

O perigo não é apenas regredir. É regredir acreditando que estamos em uma era “progressista”.

 

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 26 Favereiro 2026

 

Gilberto Simões Pires

SURTO DE EUFORIA

Na última 6ª feira, 20, tão logo saiu a notícia de que a Suprema Corte dos EUA decidiu DERRUBAR AS TARIFAS SOBRE PRODUTOS IMPORTADOS -IMPOSTAS GLOBALMENTE PELO PRESIDENTE TRUMP-, a MÍDIA BRASILEIRA ENTROU EM SURTO DE EUFORIA e como tal fez a FELICIDADE DO IGNARO POVO BRASILEIRO, que vê o governo TRUMP como INIMIGO PERVERSO DO NOSSO EMPOBRECIDO PAÍS.

AUTORIZAÇÃO DO CONGRESSO

Antes de tudo, para que fique bem claro, a DECISÃO DA SUPREMA CORTE veio após uma CONTESTAÇÃO JUDICIAL MOVIDA POR EMPRESAS AFETADAS PELAS TARIFAS E POR 12 ESTADOS NORTE-AMERICANOS, A MAIORIA DELES GOVERNADOS POR -DEMOCRATAS-, CONTRA O USO SEM PRECEDENTES DA LEI POR TRUMP PARA IMPOR UNILATERALMENTE IMPOSTOS DE IMPORTAÇÃO. Segundo o presidente da Suprema Corte dos EUA, John Roberts, Trump deve -APONTAR UMA AUTORIZAÇÃO CLARA AO CONGRESSO PARA JUSTIFICAR A SUA AFIRMAÇÃO EXTRAORDINÁRIA DO -PODER DE IMPOR TARIFAS-. ELE (TRUMP)  NÃO TEM O DIREITO DE FAZER ISSO.

O BONDOSO GOVERNO LULA

Pois, para quem não sabe, enquanto a MÍDIA GRITA AOS QUATRO VENTOS noticiando que o PERVERSO -GOVERNO TRUMP -IMPÕE TARIFAS que dificultam sobremaneira a EXPORTAÇÃO DE VÁRIOS PRODUTOS E SERVIÇOS BRASILEIROS PARA OS EUA-, o BONDOSO -GOVERNO LULA-, protegido, ou comprado pela MÍDIA, IMPÕE -TARIFAS- (IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO) QUE ATINGEM CERCA DE 1.000 PRODUTOS, incluindo smartphones, máquinas industriais (bens de capital) e equipamentos de informática e telecomunicações, cujas alíquotas chegam a até 25%. Mais: parte dos reajustes já está em vigor e parte começa a valer em março....

TRUMP NÃO PODE, MAS LULA PODE

Como informa o site Poder 360, o Ministério da Fazenda se defende dizendo que o OBJETIVO DAS TARIFAS BRASILEIRAS é CONTER O AVANÇO DAS IMPORTAÇÕES E PROTEGER A INDÚSTRIA NACIONAL. Ou seja, TRUMP NÃO PODE, MAS LULA PODE. Em nota técnica, O MF informou que as compras externas de bens de capital e de informática cresceram 33,4% desde 2022. A participação desses produtos importados no consumo nacional superou 45% em dezembro do ano passado. Para a equipe econômica, esse nível de entrada no mercado nacional AMEAÇA "colapsar elos da cadeia produtiva" e provocar regressão produtiva e tecnológica no país. De novo: AQUI PODE...

 

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  • Dartagnan da Silva Zanela
  • 26 Favereiro 2026

 

Dartagnan da Silva Zanela

           O escritor Josué Montello nos ensina que o dever número um de um crítico é compreender. Com base nesta lição devidamente aprendida com o mestre, sempre procuro deixar claro para meus alunos que eles não têm a menor obrigação de concordar com uma opinião quando essa lhes é apresentada, pouco importa quem seja o seu autor; entretanto, eles têm o dever moral de, com sinceridade, esforçar-se para realmente compreendê-la.

Lição similar é-nos ensinada através da obra do filósofo Mário Ferreira dos Santos, que procurava, nas palavras dele, identificar em todas as filosofias de que tomava conhecimento as suas "positividades" e, é claro, as suas "negatividades", através de uma análise "decadialética". Procedendo por este riscado, ele conseguia ter uma visão ampla e profunda a respeito das ideias e opiniões de que discordava e, de quebra, acabava aprofundando e ampliando os fundamentos de suas próprias interpretações e pontos de vista.

Um exemplo mui ilustrativo de seu modus operandi foi o debate que ocorreu entre ele e o historiador Caio Prado Júnior, em um evento promovido por um grupo anarquista em São Paulo, na primeira metade dos anos 60 do século passado. Após o grande historiador marxista ter apresentado sua tese, Ferreira dos Santos tomou a palavra e, antes de expor a sua, pediu licença para fazer algumas correções à tese apresentada pelo seu antagonista que, segundo ele, estava repleta de equívocos (Bah!). Bem, após uma longa exposição — que levou os anarquistas presentes a imaginarem que Mário Ferreira tivesse "virado a casaca" — ele disse, serenamente: "Terminada a correção da tese do meu adversário, passo agora para a refutação".

Ora, quando o referido filósofo lia alguma obra ou assistia a alguma conferência, procurava sempre fazer isso com boa vontade, querendo, com sinceridade, compreender o que estava sendo apresentado a ele e, por essa razão mesmo, podia, inclusive, corrigir com naturalidade as ideias e opiniões, as crenças e crendices que destoavam da sua palheta filosófica. Seu olhar sobre as múltiplas faces da realidade era mais amplo porque ele nunca teve medo de conhecê-las com honestidade.

Infelizmente, no mundo contemporâneo, que se ufana de sua hiperconectividade e de outras pataquadas modernosas, as pessoas, de um modo geral — e nós, muitas vezes, de um jeitinho bem particular —, somos incapazes disso. Na real, quando alguém ousa querer apresentar um ponto de vista que destoa do nosso estrabismo ideológico, nós já temos uma opinião pronta e acabada, devidamente deformada, sobre a dita-cuja e, a essa gambiarra epistemológica que não vale um vintém furado, damos o nome pomposo de "nossa opinião crítica" que, na realidade, não é nossa, está a léguas de distância de ser uma opinião e, por isso mesmo, não é digna de uma crítica — diferente de nós, que deveríamos nos dignar a fazer uma honesta autocrítica.
*           Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "O SEPULCRO CAIADO", entre outros livros.

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  • Claudio Apolinario
  • 25 Favereiro 2026

 

 

Claudio Apolinario

Por que o desaparecimento do homem é o epicentro silencioso da desestrutura social

           Mais de 5 milhões de crianças brasileiras não têm sequer o nome do pai na certidão de nascimento e 7,8 milhões de mulheres criam filhos sozinhas. Não é descuido burocrático. É o retrato mais cru de uma ausência que o Brasil aprendeu a normalizar — e que está custando mais do que qualquer escândalo em Brasília.

Nos Estados Unidos — o país mais rico do mundo — 23% das crianças vivem sem pai ou mãe presente, segundo o Pew Research Center. O maior índice do planeta. Essa ausência não é uma crise brasileira. É uma crise civilizatória. E o Ocidente está perdendo essa batalha.

Não é abandono silencioso — é abandono documentado, institucionalizado, tolerado. Uma revisão sistemática publicada no periódico científico Psychology, Crime & Law, em 2020, analisou 48 estudos e confirmou: crescer em família com apenas um dos pais aumenta o risco de envolvimento com crime na adolescência. O efeito é mais pronunciado entre meninos e em bairros violentos — exatamente o perfil da maioria das periferias brasileiras.

O dado não surpreende quem trabalha com formação de caráter. Surpreende quem insiste em tratar a ausência paterna como dado neutro — como se uma criança criada sem pai produzisse os mesmos resultados sociais que uma criança criada com estrutura afetiva e de autoridade.

A psicologia do desenvolvimento e as estatísticas de violência dizem o contrário. O psicólogo clínico Geison Isidro é direto: "A falta de um pai vai gerar problemas na estrutura psicológica e emocional. Há tendência maior à transgressão, insegurança diante da vida, aumento de agressividade — especialmente em meninos que, com muito medo, usam a agressividade como compensação à insegurança."

Mas há uma dimensão desse problema que raramente aparece no debate público. O homem não desapareceu apenas porque quis. Ele foi sistematicamente desconstruído como figura moral.

Durante décadas, a narrativa cultural dominante tratou a masculinidade como problema a ser corrigido — não como força a ser direcionada. Autoridade paterna virou sinônimo de autoritarismo. Liderança masculina virou suspeita de dominação. O resultado foi previsível: uma geração de homens forçada a desaparecer. Não por fraqueza biológica, mas porque esvaziaram o significado de ser pai antes que ele pudesse ser exercido.

Um homem ensinado sistematicamente a pedir desculpas por existir não desenvolve coragem. Desenvolve vergonha. E homens com vergonha não lideram famílias. Fogem delas.

Há ainda uma terceira causa — a mais silenciosa de todas. O homem não apenas foi desconstruído culturalmente. Ele foi substituído. Não por algo melhor, mas por um Estado que passou a se apresentar como provedor alternativo — não de oportunidades, mas de dependência.

Quando o Estado assume o papel que o pai deveria ocupar, ele não liberta a família. Ele a captura. Cria vínculos de lealdade com quem distribui benefícios, não com quem exige responsabilidade. Engenharia social aplicada à célula mais básica da civilização.

Convém dizer com clareza o que o debate público evita: isso não é julgamento sobre mães solo — que carregam um fardo desproporcional com dignidade extraordinária. O problema não começa na mãe solo. Começa no homem que desapareceu antes dela precisar ser solo. Começa na cultura que ensinou esse homem a fugir em vez de ficar. Começa no sistema que recompensou a fuga e puniu a presença.

A proporção de famílias chefiadas por mulheres sem cônjuge e com filhos cresceu 16,38% de 2000 para 2022 — e a aceleração desse índice nos últimos anos indica que a tendência não está se revertendo. Está se aprofundando.

Uma meta-análise publicada na revista Urban Education em 2014, que reuniu dezenas de estudos, confirmou: o envolvimento do pai está diretamente relacionado ao desempenho acadêmico dos filhos — e sua ausência, à maior probabilidade de evasão escolar e problemas disciplinares. Isso não é ideologia. São dados.

A restauração do Brasil não começa em Brasília. Começa no homem que decide ficar. Que assume responsabilidade. Que lidera com serviço, não com domínio. Que forma filhos com identidade, disciplina e senso de limite — porque nenhuma política pública, programa social ou decreto legislativo substitui o que um pai presente constrói no cotidiano silencioso da vida doméstica.

A crise institucional que assistimos tem raízes mais profundas do que partidos, governos ou escândalos financeiros. Ela tem raízes na família. E a família tem raízes no homem.

Uma nação de homens que fugiram do limite não produz filhos livres. Produz órfãos com pai vivo.

*      O autor, Claudio Apolinario, é pastor, vereador em S. José dos Campos, articulista e analista político.

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  • Alex Pipkin, PhD
  • 20 Favereiro 2026

Alex Pipkin, PhD

           Ontem à noite, já olhando o carnaval pelo espelho retrovisor, essa festa permanente que às vezes substitui a reflexão, não vi apenas a história de um homem rico e depravado.

Ao assistir à série sobre Jeffrey Epstein, vi algo mais perturbador; enxerguei a confirmação de que o mal não é um acidente raro. Ele é uma possibilidade constante da natureza humana.

O que nos impede de atravessar certas fronteiras não é a bondade espontânea. São limites. Internos, o caráter. Os externos deveriam ser instituições sólidas. Quando esses limites enfraquecem, o poder não apenas se expande; ele se ilude. Passa a acreditar que é imune. Nada é mais corrosivo do que a sensação de invulnerabilidade.

Dinheiro compra silêncio, prestígio compra deferência. Relações estratégicas compram tempo. E o tempo, quando manipulado, transforma-se na forma mais sofisticada de impunidade. Não existe absolvição formal, há cansaço social. Não existe inocência declarada, há esquecimento calculado.

Epstein viveu nessa bolha. Mas o que torna essa história relevante não é a perversão de um indivíduo. Funestamente, eles existem. Mas o extraordinário, é o momento em que alguns homens decidiram que a lei não seria decorativa. Investigadores que poderiam ter pedido transferência. Policiais que poderiam ter se conformado. Um promotor federal, Geoffrey Berman, que poderia ter escolhido a estabilidade institucional e preferiu a responsabilidade institucional.

Ali não houve milagre. Houve dever. O verdadeiro teste do caráter não acontece sob holofotes. Acontece quando ninguém está olhando. Quando agir corretamente não rende reconhecimento, apenas risco. Quando a omissão preserva a carreira e a ação ameaça o conforto.

É nesse ponto que se separa quem ocupa um cargo de quem honra uma função.

No Brasil de hoje, em que decisões concentradas e interpretações expansivas e enviesadas alimentam debates envolvendo o STF, a pergunta deixa de ser teórica. Toda estrutura de poder corre o risco de acreditar que não será confrontada. Que autoridade equivale a blindagem e que o escrutínio tem prazo de validade.

Mas a história não respeita blindagens eternas.Instituições não se salvam sozinhas. Elas dependem de pessoas que entendam que autoridade é um fardo moral, não uma coroa. Que missão é compromisso, não retórica. Mais: que virtude não é discurso público, mas escolha privada.

Alguns esperam mudanças como quem espera um milagre. Mas o que preserva uma república não é milagre, é coragem institucional.

Resta a pergunta inevitável: surgirá também aqui alguém disposto a agir não por vaidade, não por protagonismo, mas por dever, pelos reais valores virtuosos?

Porque quando o poder se convence de que ninguém o enfrenta, não é apenas a lei que enfraquece.

É a própria ideia de limite que começa a desaparecer.

Sociedades não morrem de súbito.Elas são lentamente corroídas quando ninguém ousa contrariar os blindados. A história mostra que o colapso começa muito antes do estrondo.

Começa mesmo no silêncio dos que poderiam ter dito basta.

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