• Percival Puggina
  • 26/12/2025
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Com os dois pés enfiados na jaca

 

Percival Puggina

         Tenho saudade das panelas que batiam no silêncio da noite. Tenho saudade das multidões que trocaram o clamor cívico nas praças pela calada alienação dos sofás. Tenho saudade da graça e risos do humor político, substituídos pelo salvo-conduto à corrupção e à incompetência. Tenho saudade do insubstituível e querido amigo Olavo de Carvalho, pois, como bem sabíamos, ele tinha razão.

O vaidoso mundo acadêmico dos institutos e departamentos de humanidades desprezava aquele instigante intelectual pelos palavrões que usava para semear verdades às almas endurecidas. Quantos iluministas de obras opacas não veem sequer os próprios pés cravados na lama da corrupção que sustentam, já em quinta versão, bilionária, ao coro de “O amor voltou”? Olavo, porém, fez milhares de discípulos em todo o país! Centenas de livros sobre os mais variados temas humanos continuam a ser colhidos como frutos de seus cursos de filosofia. Parte do que há de melhor no Congresso Nacional, assembleias legislativas e câmaras municipais, bebeu dessa fonte.

Numa entrevista de 2016, Olavo fala em vídeo sobre infiltração, ocupação e dominação comunista e, lá pelas tantas, entre um cigarro e outro, diz que o movimento comunista não foi um instrumento da União Soviética, mas esta foi um instrumento daquele. Por isso, quando a URSS se extinguiu, o movimento adquiriu diversas versões nos cinco continentes.

Lembremos. Nos meses seguintes à queda do Muro de Berlim (9 de novembro de 1989), desmontou-se a URSS. Peça por peça, Lituânia, Estônia, Hungria, Checoeslováquia, Romênia, seguiram o caminho da Alemanha Oriental e romperam as correntes do jugo. Pelo viés oposto, arregimentadas por Lula e Fidel Castro no papel de catadores de lixo ideológico (tudo no mesmo ano de 1990), já nos primeiros dias de julho, 62 organizações comunistas de 22 países da América Ibérica, fundaram o Foro de São Paulo para recuperar aqui o que se perdera lá.

Com experiência, Olavo ensina que infiltração faz parte da natureza desse movimento que assedia o Brasil há quase um século. A infiltração nunca é percebida. Ela é necessariamente invisível e assim mantida até ser atingida a ocupação, fase a partir da qual passa a ser exercida a dominação. 

Hoje, podemos ver com os próprios olhos as políticas de cancelamento da divergência proporcionadas pela dominação. É todo um cardápio que inclui coerção, reprovação, constrangimento, prisão, controle das opiniões, restrições de direitos. Têm o intuito de eliminar toda possibilidade de ascensão e poder a quem se oponha às ideias e estratégias do estamento ideológico dominante. Esse foi o longo percurso que entregou o ambiente cultural brasileiro e o poder político nacional ao movimento comunista festejado por Lula na versão macunaímica que vai entrar o ano de 2026 com os dois pés enfiados na jaca.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 


JOSE LUIZ DE SANCTIS -   31/12/2025 08:06:08

Meus cumprimentos pelo excelente artigo.

Carlos -   29/12/2025 11:08:55

O comunismo é só um dos maléficos tentáculos da piovra globalismo, sinônimo de lula (olha que coincidência...)

Odilon Rocha -   27/12/2025 18:21:38

Caro Professor Já estamos dominados, creio eu, há um bom tempo. Geisel tinha uma estranha paixão pela China e disse em alto e bom som, inclusive dando um murro na mesa de despacho presidencial, ao seu Ministro do Exército, à época, General Silvio Frota, que não era infenso às ideias da esquerda. Está tudo relatado no magistral livro IDEAIS TRAÍDOS, publicado após a morte do seu autor, o General supra citado. Bem colocado esse assédio de quase cem anos. É isso mesmo. Ora mais, ora menos, mas sempre infiltrando e envolvendo, todos os setores. No início deste ano, em um dos muitos vídeos do extraordinário Alexandre Garcia, ao encerrar um comentário a respeito da nossa situação, ele não pestanejou e largou: "...pois é, o Brasil está cada vez mais parecido com a China". O que pensar?

João Jesuino DEmilio -   26/12/2025 12:17:35

Olavo sempre teve RAZÃO...Uma das maiores perdas do Brasil...Eu queria tanto que ainda tivesse vivo, para que, com sua inteligência e lucidez pudesse guiar nesses tempos tão escuros! O Brasil deve uma grande homenagem a Olavo de Carvalho!!