Percival Puggina
Embora a edição em português tenha sido publicada em 1991, ainda hoje encontro fãs da autora, Ayn Rand, empolgados com o livro “A virtude do egoísmo”. Não sei se convenci algum, mas sei que jamais, qualquer desses interlocutores esclareceu o seguinte ponto: se, ao buscar o interesse próprio, o ser humano está cumprindo sua finalidade, por que raios devem os políticos renunciar a ele e se dedicar ao bem dos outros?
No coração do poder político, é preciso ser muito distraído em relação às oportunidades para não encontrar, a cada momento, algum interesse pessoal mais conveniente do que o bem alheio... É assim, exatamente assim, no subterrâneo dos interesses, que negligenciam a corrupção, matam a anistia, a dosimetria, as CPIs, a liberdade e a paciência dos cidadãos, e dão por virtuosos os vícios institucionais.
Qualquer pessoa com bom senso também sabe que nosso sistema eleitoral proporcional está mal pensado. Infelizmente, ele só é bom para quem faz a lei e acaba privilegiando a representação dos grupos de interesse. No viés oposto, e na linha do que expus no parágrafo anterior, esse sistema reduz a representação do cidadão comum (chefe de família, trabalhador, pagador de impostos ou um “ninguém por si”, desempregado). Até o último bilhão de reais, cabe ao cidadão pagar o custo da varredura interesseira que o sistema não perde ocasião de transformar em elite dirigente!
Há quarenta anos escrevo e falo sobre a superioridade técnica do voto distrital com recall, para que o parlamentar mais votado seja o representante de todos os cidadãos de seu distrito, assim como o governador é governador de todos os eleitores de seu Estado. No voto distrital, o deputado deve prestar contas a todos por suas ações e omissões, e está sujeito à revisão do mandato (recall).
Há muitas coisas erradas, sim. Nenhuma delas, porém, nem as urnas sem impressora, são motivo para não votar. Ao contrário, são uma soma de razões para comparecermos à sessão de votação e escolhermos pessoas capazes e virtuosas para o importante trabalho que a nação requer.
Estou acompanhando com muita preocupação as primeiras pesquisas sobre as eleições majoritárias que se avizinham (governadores e senadores). Alinham-se nos partidores, os nomes entendidos como preferenciais do eleitorado e o que leio me causa apreensão. É evidente a força dos partidos que se desfiguraram nas más experiências de um regime que transformou a política em feira de negócios. Tanto rebento de árvores genealógicas das dinastias regionais ponteando preferências não me deixam otimista. Não agora, não com esses dados. A Associação de Corruptos pela Democracia deve estar gostando dessas pesquisas.
O futuro precisa de uma elite da melhor qualidade. E ela existe! Pressionar os partidos, escrutinar suas nominatas, empurrar essas pessoas às urnas, enchê-las de votos, é uma tarefa para os meses vindouros. As convenções partidárias ocorrerão entre 20 de julho e 5 de agosto. O cardápio será o que for escolhido nessas reuniões. E eis aí outra vulnerabilidade de nossa democracia em frangalhos.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.