• Percival Puggina
  • 24/05/2024
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Um depoimento surpreendente

 

Percival Puggina

            Acredite, se puder. O portal Metrópoles informa que o coronel Jorge Eduardo Naime elogiou o ministro Alexandre de Moraes enquanto prestava depoimento ao STF, de forma virtual, no último dia 21. Disse o coronel: “Os atos [de 8 de janeiro] foram muito graves, não podemos admitir que tornem a acontecer dentro de um Estado democrático de direito. As medidas do STF deveriam ter sido tomadas, agradeço algumas inclusive. […] Precisava de uma reação do Alexandre de Moraes”.

O coronel não estava no Brasil no dia 8 de janeiro. Ficou preso durante 461 dias ao longo dos quais precisou de diversos atendimentos médicos. Em dez ocasiões, o STF rejeitou pedidos de soltura formulados por seu advogado. Ele foi finalmente posto em liberdade no dia 13 deste mês de maio.

Claro que você pode encontrar explicações para isso nos meandros da alma humana. Inclusive, um desses fenômenos, estudados pela psicologia como síndrome, ganhou nome nos acontecimentos de Estocolmo. Contudo, não se trata de um fenômeno comum, bem ao contrário. O mais frequente é que o sujeito do cativeiro desenvolva sentimentos de animosidade a quem o mantém preso.

O próprio Supremo tem emitido decisões que atribuem à Lava Jato o uso da prisão do réu como instrumento de pressão para obter colaborações premiadas úteis à investigação de fatos em torno dos quais faltassem elementos de prova à acusação. O STF dá a isso, de modo muito abrangente, o nome de tortura.

Como desconheço o fato transcorrido entre 10º e o 11º pedido de soltura (segundo deduzo da matéria do jornal Metrópoles), fico a indagar-me o que terá modificado a situação do coronel Eduardo Naime. Se não houver um fato processual, cabe a pergunta: se podia soltar no 461º dia, por que não soltou antes? Se não podia soltar antes, por que soltou agora?

Fatos como esse – e fatos como esse são tão comuns! – ofendem o senso de justiça porque parecem revelar a face escura do arbítrio, no lado reverso do estado de direito e da liberdade.

Percival Puggina (79) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.


Menelau Santos -   26/05/2024 15:19:52

Se eu estivesse diante de Kim Jong-un não pensaria em outra coisa senão em elogia-lo.

nader murad -   25/05/2024 22:20:13

E ISSO AI O O BRASIL VAI DEPENDER DA RESOLUCAO DO CONGRESSO AMERICANO........POIS AQUI AS COISAS ESTAO DOMINADAS..........LA ESTA ROTULADO COMO ARBITRARIO E INFRIGINDO A CONSTITUICAO COM CONIVENCIA DA IMPRENSSA SUBORNADA E HUM CONGRESSO QUE SE ADAPTOU A SUBMISSAO E AS FORCAS DESARMADAS SO PENSAM EM SE OLERITEE E OS CAMAROES E REGALIAS ....... ISSO E MUITO TRISTE DEPOIS DO VILLA LOBOS ...... A UNICA SAIDA E O MUSK PRECIONAR OS AMERICANOS A SANCOES CANCELANDO PREVILEGIOS DE EXPORTACOES E OUTRAS TIPO VENEZUELANDAS..........

Joel Robinson -   25/05/2024 16:18:47

E o caso do Polibio que foi preso pela ditadura e hoje adora um golpe. "Como desconheço o fato transcorrido entre 10º e o 11º pedido de soltura (segundo deduzo da matéria do jornal Metrópoles), fico a indagar-me o que terá modificado a situação do coronel Eduardo Naime. " DESCONHECE O FATO E DEDUZ DO METROPOLES? Fala serio ´e muita bolsopatia lobotomizada,

Idilio Pasuch -   25/05/2024 15:58:37

É triste ver um pais como o Brasil, ter que conviver com o STF agindo desta maneira. Mas vão cair como um fruto podre cai da árvore, pois se esperamos ´pelo nosso congresso podemos nos esquecer.

Luiz R. Vilela -   25/05/2024 15:58:20

Dizem que o "pau" quando é demais, até mudo fala. É mais ou menos o que anda acontecendo. Enfiam o "suspeito" na cadeia e o deixam lá, até que que ele resolva abrir o bico. Logo que o sujeito é solto, depois de ficar preso por um bom tempo, ele ainda esta com o "imaginário" preso e com o medo de que sua liberdade seja logo revogada, passa a elogiar o seu algoz, como forma de que este não se arrependa da liberdade concedida. Dizem que até o Sergio Moro depois da vitória de 7 x0 no TSE, andou dizendo que tem orgulho do STF. Isso não é síndrome de Estocolmo coisa nenhuma. É a quebra do sentimento de galhardia do qual a maioria dos cidadãos amantes da justiça e cientes da sua cidadania tem. Depois de massacrado, qualquer "favor" em prol do indivíduo é tido um benefício formidável.

FERNANDO A O PRIETO -   25/05/2024 05:55:12

Depois de um período de tortura, acontece que muitas pessoas "louvem" quem as torturou (uma variante da "Síndrome de Estocolmo"). Assim fez Winston em "1984", que terminou amando o Grande Irmão ("He loved Big Brother"). Também há casos de "conversão" na URSS. Talvez seja o caso aqui... Parabéns pelo texto!