• Jordani Silveira Maciel
  • 19/08/2026
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A Conta da Espera: A Infraestrutura do RS entre a Burocracia Estatal e a Realidade de Quem Produz

 

Jordani Silveira Maciel

              Como podemos falar em competitividade do Rio Grande do Sul se continuamos travados na incapacidade de movimentar aquilo que nosso povo produz com tanto esforço?

Em anos eleitorais, a liturgia política repete o mesmo enredo: discursos sobre estradas, ferrovias, portos e aeroportos ocupam palanques e debates. Promessas são renovadas com a facilidade de quem não carrega a responsabilidade do risco econômico. Entretanto, cabe uma pergunta incômoda: por que continuamos discutindo, geração após geração, gargalos que já conhecíamos no século passado?

O Rio Grande do Sul é uma terra vocacionada para o trabalho. Produzimos grãos, alimentos, proteína, máquinas, tecnologia e conhecimento. Temos força produtiva qualificada, empresários resilientes e uma posição estratégica no Cone Sul. Mas de pouco adianta a excelência dentro da fazenda ou do chão de fábrica se aquilo que produzimos encontra barreiras para chegar ao mercado.

Logística não é mero detalhe operacional. Logística é o nome prático da competitividade. Cada quilômetro mal conectado, cada porto sem capacidade adequada e cada burocracia desnecessária se transformam em custo. E, na economia real, essa conta não é paga por quem discursa em gabinetes: ela recai sobre quem produz, transporta, investe, emprega e consome.

A ilusão do debate infinito

O Rio Grande do Sul desenvolveu uma patologia institucional perigosa: a capacidade de transformar diagnósticos conhecidos em debates intermináveis.

Não estamos descobrindo hoje a necessidade de uma malha ferroviária integrada, de uma estrutura portuária moderna e diversificada ou de aeroportos compatíveis com nossa dimensão econômica. O problema não é desconhecer nossas carências. É a dificuldade de transformar diagnósticos em decisões, decisões em investimentos e investimentos em resultados.

Debatemos a infraestrutura do século XXI com uma mentalidade muitas vezes presa à lógica cartorial do passado. O mundo, porém, não esperou nossa burocracia decidir. A competição atual não ocorre apenas entre empresas. Ocorre também entre estados, regiões e ambientes de negócios.

Capital privado procura previsibilidade, segurança jurídica e agilidade. Quem investe precisa saber quais são as regras, quanto tempo levará para obter uma decisão e se aquilo que foi planejado poderá efetivamente sair do papel.

A grande injustiça desse sistema está na assimetria entre quem assume o risco e quem controla o tempo da decisão. Quem produz precisa correr. Quem investe precisa decidir. Quem empreende precisa responder ao mercado. O Estado, entretanto, não pode se dar ao luxo de tratar o tempo como um recurso infinito.

Porque a espera também tem preço.

Ela custa investimentos que deixam de acontecer, empregos que não são criados, empresas que escolhem outros destinos e riqueza que migra para estados mais competitivos.

Malha Sul e Porto Meridional

Dois casos atuais ajudam a revelar essa encruzilhada.

A renovação da Malha Sul envolve uma concessão ferroviária de mais de 4.200 quilômetros e investimentos projetados superiores a R$ 12 bilhões, com parcela significativa concentrada no trecho gaúcho. Não estamos falando simplesmente de uma obra de governo. Estamos falando de uma decisão estratégica que poderá influenciar os custos e a competitividade da economia do Sul durante décadas.

O mesmo raciocínio vale para o Porto Meridional, em Arroio do Sal. Trata-se de um projeto privado estimado em aproximadamente R$ 6,5 bilhões, com capacidade projetada de até 53 milhões de toneladas por ano.

Respeitar o meio ambiente, cumprir a legislação e realizar estudos técnicos não é negociável. Uma sociedade moderna precisa de regras claras e responsáveis. Mas existe uma diferença fundamental entre prudência regulatória e paralisia decisória.

Licenciar não pode significar eternizar.

Para um investimento dessa dimensão, segurança jurídica também significa previsibilidade. O empreendedor precisa saber quais são os critérios, quais são as etapas e, principalmente, que haverá uma decisão dentro de um prazo razoável.

Essa discussão ganha ainda mais relevância diante dos desafios climáticos enfrentados pelo Estado. Diversificar rotas, ampliar alternativas e criar redundância logística deixou de ser apenas uma questão de reduzir frete. Tornou-se uma questão de segurança econômica.

Um Estado que depende excessivamente de poucos corredores logísticos é um Estado mais vulnerável.

Visão de Estado e liberdade econômica

O atraso gaúcho não decorre de falta de vocação, capacidade empresarial ou conhecimento técnico. Em grande medida, decorre da descontinuidade administrativa, da burocracia e da dificuldade de construir políticas de longo prazo que sobrevivam aos ciclos eleitorais.

Inaugurações pontuais rendem fotografias. Planejamento estratégico, entretanto, constrói desenvolvimento.

Se queremos recuperar o protagonismo econômico do Rio Grande do Sul, precisamos avançar em duas frentes.

Na macroesfera, o planejamento logístico precisa ser tratado como política de Estado, com metas de longo prazo, segurança jurídica e participação crescente do capital privado por meio de concessões e Parcerias Público-Privadas.

Na microesfera, precisamos desburocratizar a ponta. Não basta construir ferrovias, portos e rodovias se, na outra extremidade, o empreendedor continua enfrentando obstáculos desnecessários para abrir, ampliar ou operar seu negócio.

Infraestrutura conecta mercados. Liberdade econômica permite que as empresas ocupem esses mercados.

É preciso, portanto, compreender que desenvolvimento não nasce apenas de grandes obras. Nasce também da capacidade de permitir que quem quer investir possa fazê-lo.

O maior gargalo do Rio Grande do Sul não está apenas no asfalto que falta, no trilho que precisa ser recuperado ou no porto que precisa ser ampliado. Está também no tempo que perdemos discutindo aquilo que os fatos e a razão já nos mandaram fazer há décadas.

A pergunta não deveria mais ser se o Estado precisa avançar.

A pergunta é quanto ainda estamos dispostos a pagar para continuar esperando.

Quem produz tem pressa. O Estado não pode mais continuar fazendo o Rio Grande esperar.

*          O autor, Jordani Silveira Maciel, é Administrador, ex-diretor de Desenvolvimento Econômico e Habitação e relator da Lei da Liberdade Econômica de Glorinha/RS.