• Alex Pipkin, PhD
  • 22/08/2025
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A decadência moral da modernidade


Alex Pipkin, PhD 

              Nunca tivemos tanto e fomos tão incapazes de ser. A modernidade nos deu conforto, tecnologia e abundância, mas arrancou-nos a virtude e a razão. Cada avanço material parece acompanhado de uma regressão ética: aquilo que deveria elevar a alma tornou-nos frágeis, autocentrados e complacentes. O conforto substituiu o dever, o prazer confundiu-se com sentido, e o que outrora era sagrado tornou-se supérfluo. A ausência de moralidade não é detalhe; é o terreno em que germinam o caos, a fragmentação social e a erosão do bem comum.

O sintoma mais evidente dessa decadência é a supremacia das emoções sobre a razão. Hoje, sentir basta para legitimar qualquer ato, qualquer fantasia, qualquer devaneio. O sentimentalismo tóxico alimenta ideologias utópicas e a cultura Woke, que prometem paraísos imediatos sem esforço, mérito ou responsabilidade. “Você pode ser quem quiser” não significa preparo ou aperfeiçoamento; significa autoafirmação instantânea, reconhecimento imediato e vitimização elevada à condição de virtude. O indivíduo não constrói caráter; reivindica privilégios simbólicos e emocionais.

Essa abdicação moral não se limita ao indivíduo. Sob o pretexto de ideologias, muitos se autolocupletam, buscando interesses próprios ou de grupos à custa do bem comum. O que deveria ser guiado pela virtude coletiva se transformou em disputa por privilégios, reconhecimento emocional e poder simbólico. A sociedade fragmentou-se em tribos de ressentimento, cada qual regida por emoções, não por princípios universais.

Sócrates, o maior filósofo moral, advertiu que “a vida sem exame não merece ser vivida”. Foi condenado à morte por se recusar a submeter a verdade às conveniências do momento. Morreu em nome da razão, da virtude e de princípios que transcendem interesses individuais ou coletivos. Hoje, sacrificamos a moral em nome do conforto, da ilusão e de ganhos efêmeros, esquecendo que a virtude é pré-requisito da vida coletiva e da dignidade humana.

Talvez seja hora de reencontrar aquilo que transcende interesses imediatos: o vínculo com o sagrado. Não necessariamente a religião formal, mas a reverência pelo que é eterno, imutável e superior à conveniência humana. Só a reconexão com essa dimensão pode oferecer resistência à incivilização e à corrosão da moral. Sócrates morreu pela virtude; nós precisamos viver por ela, cultivando disciplina, responsabilidade e propósito, individual e coletivo. Assim, não apenas sobreviveremos, mas resgataremos a grandeza que nos falta, e a vida, enfim, terá verdadeiro sentido.