Claudio Apolinario
O Brasil gasta mais e aprende menos. Isso não é acidente.
Entre 2003 e 2014, o Brasil triplicou o gasto público por aluno na educação básica. Mesmo descontando a inflação, o aumento real foi de 65%. O resultado? A posição do Brasil no ranking mundial de educação ficou entre os 20% piores do mundo.
Mais dinheiro. Resultado ruim. Isso por si só deveria ser um escândalo nacional.
Em 2022, o PISA — avaliação que mede o conhecimento de jovens de 15 anos em 81 países — colocou o Brasil na 65ª posição em matemática, na 63ª em ciências e na 59ª em leitura. Atrás de Chile, Uruguai e Colômbia.
Mas o dado mais perturbador não é a posição. É que desde 2009, os resultados brasileiros não mudaram nas três disciplinas. Mais de quinze anos parado no mesmo patamar. Metade dos jovens brasileiros de 15 anos não consegue interpretar um texto simples. Apenas 2% atingem alto desempenho em leitura.
Pense nisso. Metade dos jovens que hoje votam, trabalham e tomam decisões não conseguem ler um contrato, entender uma notícia ou saber o que estão assinando.
E tem um dado que assusta ainda mais. Segundo o INAF 2024 — pesquisa coordenada pela Ação Educativa com apoio de UNESCO e UNICEF — 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. Sabem ler, mas não conseguem interpretar o que leram. Não conseguem preencher um formulário, entender uma bula de remédio ou calcular o troco. São 40 milhões de pessoas. E o mais revelador: 17% de quem terminou o ensino médio ainda é analfabeto funcional. A escola não garantiu nem o básico.
Isso não é falta de recurso. Colômbia e México gastam menos por aluno do que o Brasil e têm resultados melhores (dados OCDE). O problema não é quanto se gasta. É o que se faz com esse dinheiro.
E aqui está a pergunta que ninguém quer responder: se o gasto triplicou e o resultado não mudou, para onde foi o dinheiro?
Essa pergunta incomoda porque a resposta também incomoda. Um sistema inteiro vive desse orçamento — com avaliações que medem mas raramente geram consequência real para quem não entrega.
Não é novidade que há décadas o conteúdo objetivo — matemática, leitura, ciências — tem cedido espaço para outros objetivos dentro da sala de aula. Quando formar opinião política vira prioridade e ensinar a calcular e ler vira secundário, o resultado aparece nos dados. Uma escola que transforma criança em militante ao invés de ensiná-la a interpretar um texto não está falhando por acidente. Está executando um método.
Doutrinação não é falha de gestão. É uma escolha. E esta escolha tem um custo — pago pelas próximas gerações.
O Brasil mede. Mas não age na altura de corrigir o que está errado.
O IDEB — Índice de Desenvolvimento da Educação Básica — existe desde 2007 e mapeia o desempenho de cada escola e município do país. A meta nacional era atingir, em 2022, o nível de qualidade dos países desenvolvidos. Não foi atingida. Em 2019, apenas 23% dos municípios cumpriram a meta. Nenhuma escola fechou por isso. Nenhum gestor perdeu o cargo.
O Brasil sabe onde está falhando. E continua igual.
A incompetência produz resultados ruins por acidente. O que o Brasil tem é diferente: estagnação, aumento constante de orçamento, nenhuma mudança real de cobrança de resultado. Isso não é desorganização. É um sistema feito para quem vive nele, não para o aluno que depende dele.
Coreia do Sul, Japão e Cingapura têm algo em comum: cobram resultado. Professor é avaliado. Escola é avaliada. Aluno é avaliado. Quem não entrega resultado é obrigado a mudar o que está fazendo. São países que estão no topo do ranking mundial em educação. Não por acaso.
No Brasil, o debate sobre educação raramente chega na pergunta mais simples de todas: o aluno aprendeu? Em vez disso, discute-se tudo menos isso. E o ponteiro do PISA não se move desde 2009.
Uma escola que não ensina a ler, a calcular e a pensar não está cumprindo sua função. Não importa a metodologia. Não importa o orçamento. O que importa é se está ou não dando o resultado. O resultado do Brasil é estar na 65ª posição entre 81 países.
Quinze anos parado. Quanto tempo falta para sermos os últimos?
Quem já entendeu isso tem uma responsabilidade concreta. Antes de votar é preciso perguntar: qual é a meta de aprendizagem? Como será medida? O que acontece se não for atingida?
Cobrar o resultado de quem prometeu, antes de renovar o voto, é o mínimo que o eleitor consciente pode fazer. E explicar a realidade para quem ainda não viu que mais dinheiro não trouxe mais aprendizado. Isso é desperdício com dinheiro do contribuinte.
A próxima geração está sendo formada agora. E o que ela vai saber depende das perguntas que fazemos hoje e das ações que tomamos agora.
* O autor, Claudio Apolinario, é articulista e analista político.