• Eguinaldo Hélio de Souza
  • 26/08/2026
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A maldade da neutralidade

 

Eguinaldo Hélio de Souza

             A neutralidade é vendida como o remédio para toda sorte de males. Quem a recusa está fomentando a polarização. Quem a abraça é verdadeiro amigo da paz. É a utopia da imobilidade, a panaceia dos “em cima do muro”, a sabedoria dos indiferentes. Mas não funciona.

Diante de um Hitler, pacifismos ingênuos são acomodações maldosas que alimentam a voracidade do destruidor. Seus profetas “falam de flores vencendo o canhão”. Exortam as ovelhas a comungar com o lobo. Pedem um beijo na serpente que supostamente neutralizaria seu veneno. Ilusão.

Flannery O’Connor escreveu que “temos que empurrar a nossa época com a mesma força que ela nos empurra”. Eu diria que com uma força maior, se queremos que o atacante recue. Por isso, a ideia de que o pacifismo sempre pacifica o atacante é na grande maioria das vezes uma ilusão perigosa.

O mal nunca foi vencido pela neutralidade. Só pode ser vencido por uma força oposta com intensidade maior. Os pacifistas, os “equilibrados”, os “sensatos”, medem os outros com a mesma régua que medem a si mesmos. Eles não querem ferir ninguém e acham que seu inimigo também não. Eles respeitam as regras e acham que seus adversários também respeitam. Eles não entendem o significado da palavra “mal”. Quando alguém é mal, essa maldade se manifesta como engano, perfídia, desonestidade, truculência e inúmeros outros adjetivos negativos. O mal não apenas faz o mal. Ele o disfarça de bem.

A mente moderna não é mais capaz de reconhecer a existência do certo e do errado, do bem e do mal, da luz e das trevas. Acreditam que tudo se trata apenas de pontos de vista diferentes. Evitam até mesmo demonizar o próprio demônio. Por isso, o médico famoso abraça e chora enternecido ao pedófilo e assassino de crianças. Por isso, o Ministério da Justiça é visitado pela “Dama do Tráfico”, esposa do líder de facção criminosa. Os padrões que nos norteavam estão em ruínas.

A realidade nos obriga a escolher nosso lado e a assumir as consequências da nossa escolha. E calem-se aqueles que dizem que dessa forma estamos fomentando o conflito, como se todos fossem Madres Teresas transpirando boa vontade pelos poros. Há muito querem nos fazer acreditar que errado e mal é quem acredita no mal e no erro. O errado e o mal são realidades concretas e discursos bem formulados não têm poder para suprimir a dor na carne que eles provocam.

O bem e o certo precisam ser fortes e firmes se querem garantir sua existência. Fraqueza não é sinônimo de bondade e ser neutro não significa estar certo. Já temos informações históricas e filosóficas suficientes para entender o que as ideologias dominantes são e querem.

Neutralidade é somente o discurso utilizado por um lado para neutralizar o outro.

Encerro, ironicamente, citando Vandré:

Vem, vamos embora, que esperar não é saber.

Quem sabe faz a hora não espera acontecer.