Francisco Carneiro Júnior
Os impactos para a sociedade brasileira de guerras que não declaramos: Frota fantasma russa, por exemplo, trouxe R$ 6,2 bilhões em diesel sancionado para o Brasil
O navio se chamava Prosperity, nome de bom agouro para quem carrega mentira na proa. Atracou no Rio de Janeiro em junho de 2023, no terminal da Refit, com uma carga de nafta e uma certidão de nascimento falsa: os papéis diziam Houston. Mais de quinhentos registros de posicionamento — a própria voz eletrônica do navio, que ele não pôde calar — contam outra biografia. Prosperity nunca chegou perto do Texas. Saiu da Rússia, cruzou o Báltico, contornou a Europa como quem foge de casa pela porta dos fundos, atravessou o Atlântico e entrou pelo Brasil por Maceió antes de se apresentar ao Rio como se nada tivesse acontecido. Dois anos depois, seu nome constaria nas listas internacionais da Frota Fantasma. O Brasil, que jura não estar em guerra nenhuma, deu guarida ao petroleiro que mentia sobre onde tinha nascido. E colabora , assim, com o esforço de guerra russo.
Não foi gentileza isolada. Ao longo do conflito ucraniano, o país importou 26 bilhões de dólares em combustíveis russos; 1,2 bilhão desse total tinha etiqueta de sanção, transportado por 32 navios em 68 viagens que descarregaram principalmente em Santos, Paranaguá e Manaus. A frota que os carrega — entre seiscentos e mil petroleiros, segundo o monitoramento da EOS Risk — vive de trocar de bandeira como quem troca de disfarce, de estruturas societárias que ninguém consegue abrir e de documentação que finge origens que a rota desmente. O Brasil não integrou o cerco. Comprou o desconto que a Rússia oferecia a quem não perguntava demais, e chamou isso de soberania comercial.
É preciso um esforço de honestidade para admitir o óbvio: um país pode se declarar neutro e ainda assim ser instrumento. A neutralidade formal — a recusa em aderir a sanções, a preservação de relações comerciais com Moscou como se a guerra fosse assunto alheio — não isentou o Brasil de figurar na engrenagem. Isentou apenas de constrangimento diplomático. O petróleo que chegou disfarçado de americano não perguntou licença a ninguém antes de entrar no sistema de refino nacional; a omissão brasileira foi condição, não acidente, para que a Frota Fantasma encontrasse porto seguro do outro lado do mundo. Enquanto Washington reforça, sob a atual administração, a lógica de que sancionar sem fiscalizar é teatro — e pressiona compradores terceiros a escolherem lado —, o Brasil trata o tema como curiosidade de reportagem, não como decisão de Estado.
A história, ensinada com paciência, já mostrou este roteiro. Todo embargo cria seu contrabando; toda sanção gera sua frota-fantasma; todo conflito redesenha, por vias que a diplomacia oficial finge não ver, o mapa de quem vende e de quem finge não comprar. A diferença, desta vez, é a velocidade: o rastreamento por satélite que expôs o Prosperity é tecnologia nova aplicada a um vício antigo — o de nações que preferem a ambiguidade lucrativa à clareza moral. O Brasil não inventou esse vício. Apenas o praticou com a desenvoltura de quem tem costume.
Mas o petróleo disfarçado é só a metade visível do problema. A outra metade chega sem navio nenhum, escondida dentro de um saco de adubo. Longe do Rio de Janeiro, no interior da Bahia, a Mosaic desligou em 8 de julho de 2026 a fábrica de fertilizantes de Candeias e demitiu trinta pessoas; no pacote nacional que incluiu Paraná, Goiás e Minas, o número passou de quinhentas. A empresa não disfarçou o motivo, como se disfarça a origem de um petroleiro: escreveu, com todas as letras, que não conseguia mais importar enxofre por causa do conflito no Oriente Médio e das restrições no Estreito de Ormuz. A margem bruta da companhia no Brasil caiu de 69 para 22 dólares por tonelada em um ano; o segmento nacional saiu de lucro operacional de 98 milhões de dólares, no primeiro trimestre, para prejuízo de 422 milhões. Araxá foi posta em desmobilização. A mineração de Patrocínio, suspensa.
O mecanismo é simples e por isso mesmo cruel: são necessárias quatro toneladas de enxofre para produzir dez de MAP ou DAP, os adubos fosfatados que sustentam a lavoura brasileira. O Brasil tem a rocha — o fosfato dorme abundante no subsolo —, mas não tem o enxofre, subproduto do refino de petróleo e do processamento de gás, que sai majoritariamente do Golfo Pérsico. E o Golfo, em 2026, tornou-se propriedade de fato do Irã de Mojtaba Khamenei: a Guarda Revolucionária ataca navios mercantes dentro do Estreito de Ormuz, já matou ao menos dezessete marinheiros e mantém cerca de seis mil presos em quatrocentas embarcações, segundo a Organização Marítima Internacional. Quem quiser atravessar, atravessa pela rota que Teerã autoriza — e Teerã não autoriza de graça.
O MAP e o DAP, os dois fosfatados que dão corpo à lavoura brasileira, nascem do mesmo casamento químico — amônia mais ácido fosfórico, este último tributário do enxofre que falta — e se distinguem apenas no grau de compromisso com o nitrogênio: o MAP, fosfato monoamônico, carrega um único íon de amônio preso ao fosfato, entrega cerca de 11% de nitrogênio e 52% a 54% de fósforo, e chega ao solo levemente ácido, qualidade que o torna preferido na linha de semeadura, junto à raiz, sem embate com outros nutrientes; o DAP, fosfato diamônico, duplica esse íon, inverte a proporção para cerca de 18% de nitrogênio e 46% de fósforo, e se apresenta alcalino, o que libera around da semente uma amônia livre passageira, tolerável em solos que já não pecam por acidez. A diferença, vista de perto, é quase administrativa — uma questão de dosagem, de pH, de que nutriente se quer entregar primeiro à terra —, mas a semelhança, essa sim, é o que importa: os dois dependem da mesma cadeia estrangulada, do mesmo ácido fosfórico que só existe porque existiu enxofre para fazê-lo, e é essa dependência comum, não a diferença de fórmula, que decide se a fábrica de Candeias liga ou desliga.
O cerco não é só iraniano. A Turquia proibiu temporariamente a exportação de enxofre. A Rússia estendeu sua cota de fertilizantes e suspendeu a licença de nitrato de amônio. A China apertou ureia e ácido sulfúrico. Três Estados, três motivos distintos — guerra, sanção, protecionismo interno —, um único insumo estrangulado, e o resultado converge sobre o mesmo país que insiste em não estar em guerra nenhuma. Entre janeiro e abril de 2026, o Brasil importou 4% menos fertilizante nitrogenado e fosfatado e pagou 16% a mais por ele — o volume caiu de 7,7 para 7,4 milhões de toneladas, e o desembolso subiu na direção contrária, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil.
Há uma terceira frente, e essa não chega em navio-tanque nem em saco de adubo: chega no frete. Em 20 de julho de 2026, os houthis anunciaram bloqueio marítimo contra embarcações ligadas à Arábia Saudita no estreito de Bab el-Mandeb — resposta direta ao retorno dos ataques americanos contra alvos ligados a Ormuz, elo que amarra as duas pontas do mesmo conflito num só nó. Os grandes armadores globais já haviam desviado suas rotas para o Cabo da Boa Esperança, somando entre dez e quinze dias e milhares de quilômetros a cada travessia entre Ásia e Europa; o desvio consome mais combustível, mais tripulação, mais prêmio de seguro contra guerra, e cada uma dessas linhas soma-se, discretamente, à tarifa final do contêiner. Cerca de 30% da carga containerizada do comércio mundial cruza o Canal de Suez — a soja e o milho brasileiros, embarcados majoritariamente em graneleiros, escapam por ora do gargalo mais agudo, mas o café, a carne processada e os manufaturados que dependem de contêiner não escapam: pagam o frete mais caro de um mundo que reaprendeu, em poucos meses, o preço de uma rota insegura.
Duas leituras fáceis disputam este ponto, e ambas mentem por omissão. A primeira leitura, a oficial, é a da política externa como escudo: o Brasil não se envolve, o Brasil não escolhe lado, o Brasil observa de longe as guerras alheias e colhe apenas efeitos indiretos de mercado. É a leitura que a tradição diplomática brasileira gosta de repetir como quem reza um terço — envolvimento militar direto é remoto, a vocação é o diálogo. A segunda leitura, a que os números obrigam a fazer, é a de que não existe mais efeito puramente indireto numa economia que importa 93% do adubo que planta e boa parte do combustível que queima. Neutralidade política e dependência material são coisas diferentes, e a segunda desmente a primeira todos os dias, silenciosamente, no preço da soja e no preço do frango.
Porque o frango, hoje, ainda não pagou a conta. Ele custou, em maio de 2026, R$ 4,68 o quilo vivo — 2,1% menos que um ano antes —, porque a ração, que responde por 63% do custo de produção, recuou 6,6% em doze meses. Essa ração veio da safra passada, plantada com adubo comprado antes do estrangulamento do enxofre. A safra que se planta em setembro, e se colhe em 2027, é que vai carregar o preço novo — e a Aprosoja estima que de 30% a 40% desse fertilizante ainda nem foi comprado. A conta está sendo montada agora, diante de todo mundo, e ninguém a vê porque ela ainda não chegou à gôndola. É a modalidade mais brasileira de crise: a que já aconteceu, mas ainda não dói.
Não é fatalidade climática, coisa que cai do céu sem endereço de remetente. Tem endereço, e são três: Ancara, que fechou a torneira por cálculo interno; Moscou, que a fechou como arma de guerra; e, sobretudo, Teerã, que fechou o próprio mar. A firmeza com que potências ocidentais — os Estados Unidos à frente, num momento em que Washington voltou a tratar contenção marítima e pressão sobre exportadores hostis como instrumento de política, não como gesto simbólico — vêm respondendo à beligerância iraniana no Golfo contrasta, de modo desconfortável, com a passividade brasileira diante de sua própria exposição. O Brasil não fecha portas a navios de origem forjada, não constrange fornecedores que financiam a guerra que depois lhe cobra o adubo, e trata a política externa como um exercício de manter as mãos limpas enquanto os bolsos se esvaziam.
A síntese, portanto, foge do conforto de um país isolado que apenas sofre efeitos colaterais de conflitos distantes: revela um país que terceirizou sua segurança energética e alimentar a regimes e rotas que não respondem a Brasília, e que chama essa terceirização de autonomia. O petroleiro que mentiu sobre Houston e a fábrica que apagou em Candeias são, vistos de perto, o mesmo fenômeno com sotaques diferentes: a guerra do outro lado do mundo não pede licença para entrar pela alfândega brasileira, seja disfarçada de nafta americana, seja disfarçada de aumento sazonal no preço do adubo.
Fica, ao final, o princípio que sobrevive a qualquer conjuntura: nação que não produz o que come nem refina o que queima não é neutra — é refém com sotaque de soberana. A guerra que o Brasil insiste em não declarar já está lançada, silenciosa, dentro de cada saco de MAP que ainda não foi comprado para setembro. Quando a conta chegar à gôndola, em 2027, ninguém vai lembrar do nome Prosperity. Vai lembrar apenas do preço do frango — e vai chamar isso, como sempre, de destino.