• Dagoberto Lima Godoy
  • 27/05/2026
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Entre Babel e a consciência humana

 

Dagoberto Lima Godoy

               Em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, o Papa Leão XIV adverte que a humanidade volta a construir torres para conquistar o paraíso — agora não de pedra, mas de dados, chips, modelos matemáticos e plataformas digitais. O documento, recém publicado pelo Vaticano, trata da salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial e apresenta a alternativa entre erguer uma nova Babel ou construir uma comunidade em que técnica e dignidade permaneçam reconciliadas.

A advertência papal situa a IA no seu plano mais profundo: não apenas técnico, mas civilizacional. A questão decisiva não está somente na potência dessas ferramentas, mas no tipo de humanidade que se organiza em torno delas. A tecnologia não é neutra. Toda escolha de design incorpora uma visão de homem: define prioridades, incentivos, critérios de eficiência e modos de incluir ou excluir. O próprio Papa reconhece que a IA pode ampliar capacidades humanas, reduzir sofrimentos e acelerar descobertas; mas adverte que ela também pode ser convertida em instrumento de domínio, exclusão ou morte.

Sou usuário entusiasmado da inteligência artificial, mas reconheço seus riscos. As redes neurais artificiais são  capazes de reconhecer padrões, fazer analogias e simular aquilo que chamamos, de modo aproximado, de intuição. Mas essa “intuição” da máquina não passa de reconhecimento estatístico sofisticado. A intuição humana envolve experiência subjetiva, memória interior, emoção e sentido; e, para quem admite uma dimensão espiritual da realidade, abertura a uma sabedoria superior.

A IA pode simular linguagem, raciocínio e criatividade. Pode falar de moral, mas não sofre moralmente. Pode escrever sobre compaixão, mas não se compadece. Pode organizar ideias sobre Deus, mas não sente sede de Deus. Produz respostas admiráveis, mas não se transforma por elas. A diferença entre inteligência artificial e consciência humana, portanto, não é apenas técnica; é moral, existencial e espiritual. Como diz o Pontífice: “Para um algoritmo, um erro é uma falha a ser corrigida; para uma pessoa, porém, o erro pode ser catalisador de uma transformação profunda.”

Também me preocupa a concentração de dados, infraestrutura computacional e plataformas digitais nas mãos de poucos governos e corporações. Quem controla esses sistemas influencia consumo, reputação, trabalho, linguagem e imaginação coletiva. As redes sociais reforçam crenças, excluem perspectivas divergentes e alimentam a polarização. Regimes autoritários podem usar a IA para vigilância; sistemas autônomos de guerra podem afastar a decisão letal da responsabilidade moral de quem a ordena. Plataformas digitais moldam a percepção coletiva da realidade. “A verdade é um bem comum”, insiste o Papa.

Nesse ponto, volto à imagem central da encíclica: Babel não simboliza excesso de conhecimento, mas excesso de soberba. O maior perigo talvez não esteja em máquinas que se pareçam conosco, mas numa sociedade que passe a compreender o humano segundo a lógica das máquinas.

Por isso,  a IA deve ser usada, não temida; orientada, não idolatrada. Ela pode ser instrumento, provocação e apoio ao julgamento. Mas não deve pensar em nosso lugar. Pensar não é apenas processar informações; é suportar a dúvida, discernir fins, perguntar não só “como fazer?”, mas “por que fazer?”, “para quem?”, “a que preço?” e “em nome de quê?”.

No tempo das máquinas inteligentes, nossa tarefa aparece  clara: transformar informação em compreensão, inteligência em sabedoria, saber em consciência e consciência em espírito. A IA pode ampliar nosso poder, mas só a consciência humana pode orientar o seu sentido. Como adverte o Papa, nenhum sistema computacional, por mais avançado que seja, pode substituir a experiência viva do amor, da responsabilidade e da entrega.

*       O autor, Dagoberto Lila Godoy, é engenheiro civil.