• Dagoberto Lima Godoy
  • 15/06/2026
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Inteligência Artificial : a nova fronteira da guerra fria

 

Dagoberto Lima Godoy

               A decisão do governo americano de proibir o acesso de estrangeiros aos modelos mais avançados de Inteligência Artificial da Anthropic  é mais um sinal de que a inteligência artificial deixou definitivamente o campo da livre competição tecnológica para ingressar no território da segurança nacional, da disputa estratégica e da realpolitik.

À primeira vista, há uma contradição evidente. Os Estados Unidos, que fizeram da livre iniciativa uma de suas bandeiras históricas, intervêm agora diretamente na atividade de uma empresa privada, limitando clientes, usuários e até funcionários estrangeiros. O mercado, nesse caso, deixa de ser soberano. A inovação não circula mais segundo a lógica da concorrência, mas segundo a lógica do Estado.

Essa contradição, porém, não é nova. Sempre que uma tecnologia — ou mesmo um conhecimento decisivo — se aproxima do núcleo do poder, a liberdade econômica e científica cede espaço ao interesse estratégico. Foi assim com a própria teoria física que tornaria possível a bomba atômica. O segredo militar não incidiu apenas sobre objetos, máquinas ou materiais; incidiu também sobre fórmulas, pesquisas, cérebros e laboratórios.

A diferença é que agora o objeto da contenção não é uma bomba, um míssil, um chip ou um reator. É um modelo de inteligência artificial: uma capacidade imaterial, replicável, evolutiva e potencialmente acessível a partir de qualquer lugar do mundo.

O argumento oficial é o risco de uso indevido, em operações cibernéticas, manipulação informacional e muito mais. E o pano de fundo  é a disputa entre Estados Unidos e China. De um lado, uma ordem liberal, ainda que cada vez mais defensiva, baseada em empresas privadas, inovação descentralizada, circulação de capitais e hegemonia tecnológica ocidental. De outro, um modelo de capitalismo estatal, disciplinado pelo Partido Comunista Chinês, no qual empresas, universidades, plataformas digitais e planejamento industrial se integram a um projeto nacional de poder.

A IA  tornou-se o território decisivo desse confronto: quem liderar essa tecnologia ganhará vantagem em ciência, defesa, indústria, educação, vigilância, logística e guerra informacional. Por isso, a medida americana é compreensível em termos de realpolitik. Nenhuma potência entrega voluntariamente ao rival uma ferramenta capaz de alterar o equilíbrio global. Nesse sentido, Trump não age apenas como adversário da livre iniciativa; age como representante de um Estado que percebe a IA como ativo estratégico decisivo.

Mas o risco é evidente. Quando tudo passa a ser segurança nacional, a exceção pode virar regra. A proteção legítima pode degenerar em protecionismo. A defesa da vantagem tecnológica pode comprometer a própria abertura que tornou os Estados Unidos líderes em inovação. Além disso, restrições excessivas podem acelerar o esforço chinês de autossuficiência, consolidando dois ecossistemas tecnológicos rivais, fechados e incompatíveis.

O episódio da Anthropic mostra que a nova guerra fria alcança o território da inteligência artificial e o seu efeito disruptor, ainda inimaginável: a IA capaz de reorganizar ciência, economia, cultura, defesa, educação e até a própria relação entre homem, máquina e poder.

Aí está o novo contorno do conflito. As democracias liberais querem preservar mercados abertos, mas descobrem que a abertura, quando assimétrica, pode fortalecer adversários que não jogam segundo as mesmas regras. Ao mesmo tempo, quanto mais recorrem ao fechamento, mais se afastam de seus próprios princípios fundadores.

A inteligência artificial, afinal, não é apenas uma tecnologia: é uma forma emergente de poder. E, quando o poder está em jogo, a livre iniciativa raramente fica sozinha no comando.

*         O autor, Dagoberto Lima Godoy, é Engenheiro Civil