Alex Pipkin, PhD
Hoje, sexta-feira, acordei com a notícia de que o Brasil bateu recorde de arrecadação em 2025. R$ 2,89 trilhões. Recorde. A palavra vem sempre com um brilho indevido, como se fosse medalha olímpica, não a prova silenciosa de um assalto bem-sucedido.
Tecnicamente, e todo mundo sabe, imposto é coerção. Em português direto, sem maquiagem moral, um roubo institucionalizado, com selo oficial, recibo e discurso edificante para aliviar a consciência de quem cobra e constranger quem paga. A notícia não veio com sirenes nem com vergonha. Veio com naturalidade. E é aí que a ficha caiu ou tem que cair.
Existe um momento silencioso da vida adulta em que a ficha cai mesmo. Não despenca. Desliza.
Acontece quando você percebe que acorda cedo, trabalha, calcula, posterga prazeres, controla impulsos e, ao final do mês, sustenta um sócio invisível, improdutivo e moralmente falido. Um sócio que não aparece para trabalhar, não assume risco, não responde por erros e ainda exige gratidão. Crescer, no Brasil, virou pragmaticamente isso, ou seja, bancar a infância permanente de terceiros. E que terceiros…
Na infância, o mundo é simples. Há regras e castigos, mas eles têm rosto. Na vida adulta tupiniquim, o castigo é mais sofisticado. Vem embalado como virtude cívica. Quanto mais responsável você tenta ser, mais o ambiente institucional te reduz. Não à criança curiosa que aprende, mas à criança obediente que entrega o lanche e não pergunta para onde foi. Trabalhe, produza, cale-se. Não rende admiração nem respeito. Rende obrigação.
A mente adulta começa então a fazer cálculos que ninguém confessa em voz alta. Gary Becker explicou, com frieza científica, que o comportamento responde a incentivos. Quando o custo supera o benefício, a conduta muda. O raciocínio, pensado para a economia do crime, invade a vida do trabalhador honesto. Vale a pena se esforçar mais para financiar um sistema que pune quem produz e acaricia quem depende? Vale ampliar renda para ampliar o confisco? Em certos momentos, a resposta íntima é brutal; talvez seja melhor não avançar. Talvez seja melhor ficar parado. Não por preguiça, mas por lucidez.
Enquanto isso, o sistema romantiza a dependência. A irresponsabilidade, como uma névoa verde-amarela, ganha contornos de virtude social. Viver às custas do esforço alheio se transforma em gesto solidário; cobrar passa a ser cuidado; subtrair assume ares de afeto público. Quem resiste é tachado de egoísta, sem coração. Quem calcula é acusado de frieza. Quem questiona é tratado como imaturo, uma ironia perfeita num país que infantiliza adultos e santifica a dependência.
O imposto deixa de ser instrumento e se torna em um duro castigo. Castigo por amadurecer, por planejar, por querer autonomia. Castigo por não aceitar que o fruto do próprio trabalho seja redistribuído conforme humores políticos, sentimentalismo retórico e promíscuas conveniências eleitorais.
No final das contas, o castigo tupiniquim de ser adulto não é pagar imposto. É pagar e ainda ter que dar uma de hiena.
É sustentar um sistema que transforma coerção em virtude, desperdício em política pública e dependência em ideal moral.
É acordar cedo, trabalhar duro e descobrir, ao ler a manchete do dia, que o prêmio pela maturidade é ser tratado como culpado, enquanto o sistema “progressista” posa de generoso, humanista e igualitário. Piada muito séria.