• Paulo Briguet
  • 04/11/2014
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PARQUE LÊNIN

 

Li recentemente dois livros que ajudam entender a atual situação brasileira: “Antes que anoiteça”, do poeta cubano Reinaldo Arenas, e “A Brincadeira”, do romancista tcheco Milan Kundera. Um terceiro livro importante para esclarecer os dias correntes é “Ponerologia”, do psicólogo polonês Andrew Lobaczewski. Eu diria que as obras de Arenas e Kundera descrevem de maneira literária o mesmo drama que Lobaczewski analisa pelo viés científico: o que acontece quando um partido de psicopatas e criminosos assume o poder.

É inconcebível que uma pessoa intelectualmente honesta leia o livro de Reinaldo Arenas e continue defendendo o regime cubano. A quantidade de sofrimento a que esse homem foi submetido por Fidel Castro e sua revolução desafia os limites da expressão verbal. Foi preciso que um escritor de talento sofresse na pele a brutalidade do socialismo cubano para traduzi-la de maneira adequada. Arenas escreve “com o coração nas mãos”.

O título “Antes que anoiteça” faz referência ao período em que o escritor cubano, fugitivo da polícia de Fidel, escondeu-se nos bosques de um local como Parque Lênin. Durante o dia, escondido nas copas das árvores, ele escrevia seus poemas e memórias. À noite, era impossível escrever, por causa da escuridão.

Arenas deixou Cuba durante o chamado “Êxodo de Mariel”, em 1980, quando mais de 100 mil pessoas trocaram o paraíso socialista pelo exílio nos Estados Unidos. Mariel é esse mesmo lugar em que o PT está financiando a construção de um porto para a ditadura cubana, com o dinheiro dos brasileiros.

Em “A Brincadeira”, Kundera conta a história de um jovem que resolve escrever um bilhete irônico para a namorada nos seguintes termos: “O otimismo é o ópio do gênero humano! O espírito sadio fede a imbecilidade. Viva Trotsky! Ludvik”. A intenção de Ludvik era apenas impressionar a moça, mas a brincadeira se torna sua desgraça. Considerado inimigo do regime socialista, ele perde a vaga na universidade e é obrigado a trabalhar em uma mina de carvão (da mesma forma que Arenas seria obrigado a trabalhar em um canavial).

O professor José Monir Nasser dizia que o socialismo é o império da inveja e da delação. Os livros de Kundera e Arenas retratam perfeitamente essa atmosfera de medo e desconfiança, em que o suposto amigo pode ser um informante do governo. Se as coisas no Brasil continuarem seguindo o mesmo rumo, em breve poderemos ser destruídos por uma brincadeira ou precisaremos escrever nossas opiniões escondidos antes que anoiteça. Aliás, já anoiteceu. Eles estão – e continuam – no poder.

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