Claudio Apolinario
Por que boa parte dos eleitores que dizem querer mudança votam para que tudo fique igual.
Existe uma conversa que se repete em todo ciclo eleitoral no Brasil. O eleitor reclama dos políticos. Diz que são todos iguais. Que não prestam. Que o país só piora. Diz nas rodas de conversa estar decepcionado, mas vai às urnas e vota no mesmo de sempre. Não por ingenuidade. Por escolha. Uma escolha que tem sempre um motivo.
Uma pesquisa do Ipea com vereadores em doze municípios chegou a uma conclusão simples: o candidato se adapta ao que o eleitor aceita. Se o eleitor troca o voto por favores, o candidato oferece favores. Onde o eleitor não topa essa troca, o candidato muda a estratégia.
O eleitor molda o candidato. Não o contrário.
O clientelismo funciona de forma simples. O candidato não promete transformar a cidade. Promete resolver o problema imediato do eleitor. Consertar a rua da frente. Conseguir uma consulta médica. Liberar um benefício. Intermediar um alvará. É uma troca direta, concreta e imediata — muito diferente da proposta de um candidato que fala em mudanças que melhoram a cidade para todo mundo.
No momento da escolha, o imediatismo vence o longo prazo — quase sempre.
E aqui está o ponto que o eleitor precisa encarar sem conforto: cada voto trocado por um favor particular é um voto contra a reforma que tornaria aquele favor desnecessário. É votar naquilo que o eleitor mesmo reclama. É dar ao sistema exatamente o combustível que ele precisa para continuar. É votar pela continuidade do problema que gerou a necessidade da troca.
O favor de hoje tem um preço. E ele é pago em impostos. Em serviços públicos ruins. Em dinheiro público gasto para agradar quem elegeu, não para resolver o que mais precisa. O eleitor que aceita o favor está financiando, com seu próprio imposto, o sistema que o mantém dependente do próximo favor.
Isso é clientelismo. E ele é caro.
Já presenciamos disputas em que candidatos com histórico limpo, propostas sérias e argumentos sólidos perderam para candidatos com máquina montada, distribuição de benefícios e promessas localizadas. Não perderam por desonestidade do eleitor. Perderam porque ofereciam algo difícil de sentir antes do voto — o longo prazo — contra algo fácil de ver agora — o favor do curto prazo.
O voto é uma decisão tomada no presente, com consequências que chegam depois.
O problema não é apenas ético. O problema vai além do certo e errado. Um eleitorado que vota por um favor cria um ambiente onde o bom candidato, para competir, precisa montar uma máquina parecida e aceitar a lógica da troca. Os que se recusam a fazer isso perdem. Os que fazem comprometem exatamente o que os tornava diferentes.
É uma armadilha que o eleitor ajuda a construir toda vez que aceita a troca.
A saída é mais simples do que parece — mas exige uma decisão que o candidato não pode tomar pelo eleitor. Antes de votar, perguntar o que foi entregue, não o que foi prometido. Comparar histórico com discurso. Recusar o favor quando ele vem com um preço embutido. E entender que o candidato que distribui benefícios na campanha vai precisar de orçamento para pagar essa conta depois de eleito — e esse orçamento é pago pelo próprio eleitor.
Bons candidatos perdem quando o eleitor decide que o favor de hoje vale mais do que a cidade, o estado e o país que poderia ter amanhã.
A mudança começa quando o eleitor vota com consciência. Não por troca de favores.
Este é um ciclo que só o eleitor pode quebrar.
* O autor, Claudio Apolinario, é articulista e analista político.