Blindados até quando?
Ontem à noite, já olhando o carnaval pelo espelho retrovisor, essa festa permanente que às vezes substitui a reflexão, não vi apenas a história de um homem rico e depravado.
Ao assistir à série sobre Jeffrey Epstein, vi algo mais perturbador; enxerguei a confirmação de que o mal não é um acidente raro. Ele é uma possibilidade constante da natureza humana.
O que nos impede de atravessar certas fronteiras não é a bondade espontânea. São limites. Internos, o caráter. Os externos deveriam ser instituições sólidas. Quando esses limites enfraquecem, o poder não apenas se expande; ele se ilude. Passa a acreditar que é imune. Nada é mais corrosivo do que a sensação de invulnerabilidade.
Dinheiro compra silêncio, prestígio compra deferência. Relações estratégicas compram tempo. E o tempo, quando manipulado, transforma-se na forma mais sofisticada de impunidade. Não existe absolvição formal, há cansaço social. Não existe inocência declarada, há esquecimento calculado.
Epstein viveu nessa bolha. Mas o que torna essa história relevante não é a perversão de um indivíduo. Funestamente, eles existem. Mas o extraordinário, é o momento em que alguns homens decidiram que a lei não seria decorativa. Investigadores que poderiam ter pedido transferência. Policiais que poderiam ter se conformado. Um promotor federal, Geoffrey Berman, que poderia ter escolhido a estabilidade institucional e preferiu a responsabilidade institucional.
Ali não houve milagre. Houve dever. O verdadeiro teste do caráter não acontece sob holofotes. Acontece quando ninguém está olhando. Quando agir corretamente não rende reconhecimento, apenas risco. Quando a omissão preserva a carreira e a ação ameaça o conforto.
É nesse ponto que se separa quem ocupa um cargo de quem honra uma função.
No Brasil de hoje, em que decisões concentradas e interpretações expansivas e enviesadas alimentam debates envolvendo o STF, a pergunta deixa de ser teórica. Toda estrutura de poder corre o risco de acreditar que não será confrontada. Que autoridade equivale a blindagem e que o escrutínio tem prazo de validade.
Mas a história não respeita blindagens eternas.Instituições não se salvam sozinhas. Elas dependem de pessoas que entendam que autoridade é um fardo moral, não uma coroa. Que missão é compromisso, não retórica. Mais: que virtude não é discurso público, mas escolha privada.
Alguns esperam mudanças como quem espera um milagre. Mas o que preserva uma república não é milagre, é coragem institucional.
Resta a pergunta inevitável: surgirá também aqui alguém disposto a agir não por vaidade, não por protagonismo, mas por dever, pelos reais valores virtuosos?
Porque quando o poder se convence de que ninguém o enfrenta, não é apenas a lei que enfraquece.
É a própria ideia de limite que começa a desaparecer.
Sociedades não morrem de súbito.Elas são lentamente corroídas quando ninguém ousa contrariar os blindados. A história mostra que o colapso começa muito antes do estrondo.
Começa mesmo no silêncio dos que poderiam ter dito basta.