• Dagoberto Lima Godoy
  • 13/04/2026
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O Brasil mudou de lado?

 

 

 

Dagoberto Lima Godoy

 

              A política externa do governo Lula já não pode ser apresentada apenas como busca de autonomia. Ela revela, de forma cada vez mais clara, uma escolha ideológica: afastar o Brasil de seu eixo histórico de aproximação com os Estados Unidos e aproximá-lo do campo que contesta a primazia ocidental, tanto na política quanto na economia.

Sob o rótulo de “neoliberalismo”, o governo investe contra a livre iniciativa, a centralidade do mercado e a ordem econômica liderada pelo Ocidente. Em sentido oposto, exalta a multipolaridade, o BRICS e mecanismos destinados a reduzir o peso do dólar e das instituições internacionais moldadas pelos países ocidentais. Não se trata de acaso diplomático, mas de convicção. Lula já afirmou, no BRICS, que “o modelo neoliberal aprofunda as desigualdades” e, no Foro de São Paulo, disse orgulhar-se de ser chamado de “comunista” ou “socialista”.

Essa orientação também se manifesta na forma desigual como o governo trata seus parceiros. O capital chinês é recebido como instrumento de um projeto: multipolaridade, soberania tecnológica, financiamento alternativo, redução da dependência do Ocidente. O capital americano, ao contrário, costuma ser cercado de reservas, suspeitas e condicionantes políticos. A China é exaltada como parceira estratégica; os Estados Unidos, tratados como potência hegemônica a ser contida ou contrabalançada.

O governo celebrou investimentos chineses em cerimônias de alto nível, firmou amplos pacotes de cooperação e aprofundou instrumentos financeiros sensíveis. Já no trato com Washington, predominam a linguagem defensiva, os atritos políticos e a negociação sob tensão. Mesmo quando há cooperação objetiva, como no combate ao crime organizado, ela aparece menos como parceria de confiança do que como expediente funcional

O mesmo viés se revelou na reação brasileira ao conflito entre EUA, Israel e Irã. O governo condenou os ataques americanos e israelenses, insistiu em que ocorreram em meio a negociações e tratou a diplomacia como única via legítima. Embora tenha mencionado a resposta iraniana, a censura política mais forte recaiu sobre a ação dos EUA e de Israel, não sobre o regime dos aiatolás. A pretensa neutralidade, nesse caso, soou menos como prudência do que como inclinação.

O que está em curso, portanto, é um reposicionamento ideológico do Brasil, sem mandato claro da sociedade para tanto. O país vai sendo empurrado para mais perto do campo antiamericano e para mais longe do universo liberal-democrático e da economia de mercado que, com todas as suas imperfeições, moldaram sua inserção histórica no Ocidente.

O pragmatismo tradicional da diplomacia brasileira ainda impede uma ruptura aberta, mas já não conduz a política externa; apenas lhe contém os excessos. A direção de fundo parece nítida: na estratégia lulopetista, a ideologia vem primeiro; a realidade entra depois, para impor limites.

Se o Brasil não declarou formalmente que mudou de lado, seu governo age, cada vez mais, como se já tivesse mudado.

E o Congresso? Assiste a tudo de longe, como se a geopolítica não lhe dissesse respeito. Já a vontade de grande parte do povo brasileiro vai sendo ignorada, embora seja sobre ele que recairão, amanhã, as consequências de uma escolha desastrada.

*           O autor, Dagoberto Lima Godoy, é engenheiro civil