• Dagoberto Lima Godoy
  • 05/11/2026
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Paraguai: crise de governo não significa avanço da esquerda

 

Dagoberto Lima Godoy

             A renúncia do presidente paraguaio Santiago Peña, provocada pelo escândalo financeiro do Ueno Bank, oferece um exemplo de como uma crise institucional pode ser confundida com uma transformação ideológica. A queda de um presidente conservador não significa necessariamente a ascensão da esquerda. E, no Paraguai, os fatos apontam para uma realidade política bastante diferente.

O escândalo é grave. Suspeitas de conflitos de interesse e irregularidades na aplicação de fundos públicos desencadearam protestos, investigações e uma crise que retirou de Peña o apoio de parte de seu próprio partido.

Entretanto, o Partido Colorado, de orientação conservadora e protagonista da política paraguaia há décadas, permanece no controle da sucessão presidencial. O vice-presidente Pedro Alliana, também colorado, teve seu pedido de impeachment rejeitado pela Câmara dos Deputados por 48 votos a 30, abrindo caminho para assumir o governo até agosto de 2028.

Mais significativo ainda é o quadro eleitoral. Nas eleições municipais de outubro de 2026, realizadas apenas um mês antes da crise, o Partido Colorado conquistou 52,9% dos votos válidos para prefeitos e venceu em 187 dos 263 municípios do país. São resultados que evidenciam uma organização política profundamente enraizada na sociedade paraguaia.

A oposição, por sua vez, está longe de constituir um bloco socialista. Reúne liberais, centristas, conservadores dissidentes e pequenos agrupamentos de esquerda. Mesmo suas conquistas recentes, como a prefeitura de Assunção, não representam uma guinada ideológica à esquerda.

É nesse contexto que se impõe cautela ao interpretar os acontecimentos paraguaios à luz da política brasileira. Lula acaba de conquistar a reeleição, mas enfrentará, a partir de 2027, um Congresso de composição predominantemente conservadora. Seria equivocado utilizar a crise no país vizinho como demonstração de um suposto declínio continental da direita.

O que está em discussão no Paraguai são responsabilidades políticas, a segurança dos depósitos bancários e o funcionamento das instituições. A indignação popular diante de possíveis irregularidades não constitui, por si, adesão a um projeto socialista.

O Partido Colorado poderá sofrer desgaste, e a oposição poderá beneficiar-se dele. Mas isso não autoriza identificar uma eventual alternância de governo com uma vitória da esquerda.

A lição é simples: a crise de um governo não equivale à derrota de suas ideias, assim como a indignação contra um escândalo não significa adesão à ideologia de seus adversários.

*           O autor, Dagoberto Lma  Godoy, é Engenheiro Civil