Percival Puggina

23/01/2017

 

 Praticamente todos os países europeus, se deduzida a natalidade dos imigrantes, vêm apresentando taxas que não repõem, na próxima geração, os atuais níveis populacionais. Quando a taxa de fecundidade média cai abaixo de 2,1 filhos por mulher, a população começa a envelhecer e a diminuir. É o "suicídio demográfico da Europa", sobre o qual demógrafos vêm apontando e alertando há bom tempo.

 Os motivos são vários. Os jovens estão despendendo mais tempo em sua formação, estudando mais e evitando relações estáveis. O nível de renda subiu e as pessoas estão mais preocupadas consigo mesmas (a elevação de renda é positiva, mas a ascensão do egocentrismo não). As relações conjugais não proporcionam às mulheres segurança suficiente para engravidarem com a certeza de que a família não se irá desfazer. A integração feminina no mercado de trabalho ganhou tal abrangência e significado econômico que a gravidez passou a ser vista como um embaraço ao sucesso profissional. À medida em que avançam nas respectivas carreiras, muitas mulheres percebem que, simultaneamente, por falta de tempo, regridem na estabilidade conjugal. Muitos homens europeus, mesmo comprometidos com sua relação, percebem a gravidez da companheira como uma restrição adicional à sua "liberdade" e como severa redução da própria autonomia. A tudo isso, somam-se as periódicas crises econômicas, a redução do número de matrimônios formais, a facilidade que muitos países concedem ao aborto, a expansão da homossexualidade, a profusão de métodos contraceptivos e por aí vai.

 Com tantas "razões" para e modos de não ter prole, às razões do amor e sua generosa partilha na geração de outros seres, as emoções da gravidez, do parto, do desenvolvimento dos filhos, a maternidade e a paternidade, enfim, vividas em sua riqueza psicológica, emocional, espiritual e social perde impulso. Fica para depois. Fica para o futuro. Até que o futuro vira passado, e já era.

Várias fontes consultadas relatam que França, Reino Unido, Irlanda e países escandinavos têm taxas de fecundidade menos assustadoras, entre 1,8 e 2,0, mas esses números certamente computam os nascimentos de europeus em comunidades de imigrantes, notadamente muçulmanos. Noutros países, como na Alemanha, Áustria e Suíça, os números, mesmo assim, são assustadores (1,3 filhos por mulher). Em contrapartida, as famílias muçulmanas, que lideram com folga os atuais fluxos populacionais para a Europa, têm taxas de natalidade de 3,1 filhos por mulher. Assim, com dados do Pew Resarch Center, a população muçulmana cresce duas vezes mais rapidamente do que a população nativa europeia e já atinge 7,5% da população da França, 6,0% da Holanda, 5,9% da Bélgica, 5,8% da Alemanha e 4,8% do Reino Unido.

Se os europeus pretendem, hoje, utilizar recursos humanos oriundos do mundo islâmico para realizar trabalhos que não estão mais dispostos a executar, se o egoísmo, a frouxidão dos laços familiares e as atitudes antinatalistas continuarem no rumo em que estão, logo verão quem estará trabalhando para quem.

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* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

 

Percival Puggina

20/01/2017

 

 Roubo descaradamente o título da obra de Jorge Amado sobre o passamento de Quincas Berro D’Água para tecer considerações a respeito do acidente aéreo que resultou na morte do catarinense/gaúchoTeori Zavascki, ministro relator do processo da Lava Jato no STF.

 A morte é um acontecimento fortuito ou anunciado. As pessoas morrem, subitamente, por inesperada causa interna, ou acidente; e morrem , previsivelmente, quando acometidas por moléstias que conduzem a tal desfecho. O que acende tantas luzes de advertência em relação à morte de Teori Zavascki é saber o quanto ela atende à conveniência de verdadeira multidão de pessoas sem escrúpulos, que praticaram graves, continuados e comprovados crimes, com a finalidade de roubar a nação. A trágica morte de Teori Zavascki, então, sai dos padrões da normalidade e se torna um caso a exigir meticulosa investigação. A clássica pergunta que comparece a tantos inquéritos em que se busca a autoria do crime na persecução penal - a quem isso é proveitoso? - leva a algumas centenas de prontuários. A morte de Teori pode beneficiar muita gente, em diferentes graus de conveniência. Até que se concluam as perícias técnicas, as causas do acidente permanecerão envoltas em incertezas. Mas a morte de Teori não extingue a colossal tarefa que lhe fora confiada, para desconforto de tantos. Quando o STF acelerava o passo, a fatalidade ou o crime deram-lhe um tranco.

Por outro lado, sempre há outro lado, o infortúnio coloca nas mãos de Michel Temer oportunidade talvez única de desanuviar inteiramente, perante a opinião pública, sua relação com a Lava Jato. Do perfil que tiver o jurista escolhido por ele para suprir a vaga, muito se poderá deduzir. Sob certas condições, até nomes sugeridos e refugados ficarão sujeitos a especulações. Nessa, ou Michel Temer acerta e se conserta ou erra e se enterra.

Pessoalmente, não dou sugestões. No entanto, espero que o presidente indique alguém que, além da imprescindível formação jurídica – aquela que se define como notório saber – e da idoneidade moral, destoe do realejo “progressista”, “politicamente correto” e esquerdista em variados graus que assinala a atual formação do plenário daquela Corte. O tom monocromático que o STF adquiriu após um quarto de século de indicações feitas por governos de esquerda e centro-esquerda conspira contra a democracia. Cria graves desacertos com o parlamento. Induz o STF a invadir competências do Congresso. Põe a Corte em grave contradição com bem identificada vontade nacional numa série de pautas face às quais a sociedade se foi tornando crescentemente liberal e/ou conservadora. Esse desajuste no qual a sociedade vai para um lado e o STF para outro, responde pela grave desconfiança de tantos em relação à real disposição do STF para cumprir seu dever no julgamento de casos de corrupção.

Esperemos que Temer se afine com a ministra Carmem Lúcia, presidente da Corte, que não hesitou em avocar a si, imediatamente, a vacante relatoria da Lava Jato. A situação é bem maniqueísta. Ou se está com o bem, ou se está com o mal.

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* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

 

Percival Puggina

18/01/2017

 

 

 É muito freqüente, freqüente demais, que estudantes me façam perguntas ou comentários que revelam grande reprovação ao papel desempenhado pela Igreja na história da humanidade. Apegada aos bens, sequiosa de poder, guerreira, sanguinária, corrupta e devassa, ela teria cruzado os séculos fazendo exatamente o oposto daquilo para o que a instituiu Jesus. “Onde vocês aprenderam isso?”, indago com cada vez menor surpresa. E a resposta é sempre a mesma: “No colégio, ora”. E esse “colégio ora” é, não poucas vezes, uma instituição católica.

Trato de prolongar tais diálogos para repor a verdade: “O que vocês aprenderam sobre Constantino? Houve alguma aula a respeito do fim do Império Romano do Ocidente e o surgimento da Igreja como instituição central da civilização? O que foi ensinado sobre o Islã, Maomé, Omar? Sobre a tomada de Jerusalém, os persas, os oito séculos de investidas contra Bizâncio, a invasão da Península Ibérica? Alguém lhes mencionou os mil anos durante os quais o Ocidente sonhou com a restauração da unidade perdida em 476 d.C.?

Nada. As aulas a respeito das Cruzadas silenciaram sobre os avanços dos cavaleiros de Alá; as aulas sobre a Inquisição nunca referiram a heresia dos cátaros; os alunos jamais ouviram falar sobre os gigantes da Igreja medieval: Agostinho de Hipona, Leão Magno, Gregório Magno, Bonifácio, Tomás de Aquino, Francisco de Assis, Domingos, o colossal Bernardo, a admirável Catarina de Siena – para referir alguns entre centenas de santos e mártires. Nenhuma palavra dita a respeito dos grandes bispos e pontífices medievais, sobre reis e rainhas que chegaram à dignidade dos altares, sobre os hospitais, as escolas, as universidades, as bibliotecas, a vida monástica e a preservação da cultura e da fé.

Alguém pode explicar a mim, que aprendi a amar ainda mais a Igreja exatamente estudando História, como se pode produzir o avesso em escolas católicas? Por que alguns fatos negativos são pinçados e exibidos aos jovens, fora do contexto, sem causa e sem efeito, enquanto se lança no monturo do silêncio todo o imenso bem que ela, mãe e mestra, prestou e presta à civilização e à humanidade? Espero que, no dia do Juízo esses mestres de pouco juízo não sejam avaliados na mesma balança com que, em aula, julgaram e sentenciaram a Igreja.

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* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.


 

Percival Puggina

14/01/2017

 

 Em artigo anterior, com o título Cria Cuervos, mostrei como o Brasil foi se tornando um criatório de maus cidadãos, de patifes, mentirosos, velhacos, corruptos, traiçoeiros e dirigentes de igual perfil. Os cuervos, afirmei, são criados por quantos chamam bandido de herói e herói de bandido, combatem a polícia, riem da lei, proclamam a morte da instituição familiar, ridicularizam a virtude, aplaudem o vício, enxotam a religião, desautorizam quem educa ou usam a Educação para fazer política, e relativizam o bem e a verdade.

 Observe as movimentações para eleição da presidência da Câmara dos Deputados. Quem for escolhido pela maioria de seus pares, além de comandar a Casa e exercer várias outras atribuições importantes, será o substituto eventual do presidente da República. A disputa se trava entre Rodrigo Maia e Jovair Arantes. O primeiro dirigiu aquela sinistra sessão em que - forçando um poquito pero no mucho a expressão - as dez medidas contra a corrupção se transformaram em regras desmedidas a favor dos corruptos. E fez o possível, Rodrigo Maia, para que tudo acontecesse conforme articulado nos bastidores, inclusive o tardio horário em que se desenrolou a escabrosa parte deliberativa da sessão. Do segundo, é dito que representa o centrão, grupo de deputados do baixo clero, cuja principal atividade parlamentar seria usar os votos e o poder do bloco para intercambiar favores que, na maior parte dos casos, não se distinguem de meros negócios. Tudo indica que estamos lidando com títulos de estampado valor de face.

 A essas alturas, impõe-se perguntar se não há naquele plenário alguém com estatura para o cargo. É claro que há. E não são poucos, embora não sejam muitos nem em número suficiente, os homens e mulheres que honram seus mandatos e os exercem com integridade, voltados ao bem do país. No entanto, eventuais disposições para concorrer à liderança maior da casa, que entre eles surjam, tropeçam num grande obstáculo. Nesse parlamento dominado por indivíduos de péssimo caráter é muito difícil a uma pessoa de bem articular, ao seu redor, um grupo que viabilize suplantar, em votos, os atuais disputantes. Sei que há iniciativas. Tomara que funcionem. Mas o cenário que desenho é real.

 A sociedade que cria corvos é a mesma que os elege. E a experiência já mostrou que, no atual quadro institucional e moral do país, se o Poder Judiciário não afastar do poder os criminosos, não há lei de "fidelidade partidária", nem da "ficha limpa", nem projeto das "dez medidas", nem o que mais ocorra à criatividade nacional, que consiga aprimorar o tipo de representação política da nossa sociedade. Chega a ser ridículo. O Brasil foi levado para essa perdição como um adolescente conduzido por más companhias.

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* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

 

Percival Puggina

11/01/2017

 

 Quando as imagens do massacre de Manaus me caíram diante dos olhos, lembrei-me do ditado espanhol - "Cria cuervos y te sacarán los ojos". Naquelas cenas reiteravam o quanto é pueril supor que há perversidades inacessíveis ao homem. Não há. Feras não podem se humanizar, mas o contrário não é verdadeiro. E quando acontece, a ferocidade se potencializa pela aplicação da inteligência ao mal.

 Muitas vezes, algo que parece nascido da boa intenção, tornando quase impossível ser percebido de modo diverso, acaba prestando extraordinário serviço ao mal e a seus objetivos. Pondere o que aconteceu com a sociedade brasileira, em avassaladora proporção, nas últimas décadas. Para tal fim, seja seu próprio instituto de pesquisa. Examine suas experiências de vida e as informações que lhe chegam de variadas fontes e modos. Tenho certeza de que acabará concluindo que a nação passou da quota na quantidade de maus cidadãos, de patifes, mentirosos, velhacos, corruptos, traiçoeiros e dirigentes de igual perfil, cujas decisões põem a ética e o bem de cabeça para baixo.

O que se constata nessa observação ligeira, mas suficiente, não é causa de si mesma em circuito fechado, mas consequência de uma atitude pedagógica aparentemente generosa, que concede liberdade sem responsabilidade, direitos sem deveres, prêmios sem méritos, amor sem exigências, educação sem restrição. E tolera a falta sem punição e o crime sem pena.

Temos recebido doses maciças disso nas famílias, nas salas de aula, nas relações sociais, no trabalho e na política. Então, prezado leitor destas poucas linhas, se lhe ocorre, ao lê-las, a ideia de que os cuervos a que me refiro estão enjaulados nas penitenciárias do Brasil, crocitando e executando sentenças de morte, ali mesmo ou nas nossas ruas e estradas, você se enganou. É ao criatório que me refiro. Ele está por toda parte, está aí na volta, combatendo a polícia, rindo da lei, declarando a morte da instituição familiar, chamando bandido de herói e herói de bandido, fazendo novelas de TV, ridicularizando a virtude, aplaudindo o vício, enxotando a religião, desautorizando quem educa ou usando a Educação para fazer política e relativizando a vida (aconteceu o que, em Manaus e Roraima, que não ocorra diariamente, com tesouras e pinças, em salas de aborto?).

cuervos que não se apresentam como tal.

Não estou afirmando que as pautas da violência se esgotem nestas que menciono. Estou dizendo, isto sim, que o crime e a violência avançam, inclusive, por motivação política e ideológica. E estou reafirmando, mais uma vez, que consciências ou se formam ou se deformam. Há no Brasil um evidente empenho em criar seres humanos com consciência de corvos.

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* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.


 

Percival Puggina

08/01/2017

 

 Neste giro anual da catraca, acumulam-se reflexões e análises sobre o "preocupante avanço da direita", que estaria entre os fatos mais relevantes de 2016. O destaque e a surpresa são compreensíveis. Entendem esses peritos que, após décadas de publicidade e crescente hegemonia esquerdista, todos deveriam saber que a direita é insensível, brutamontes e malevolente, enquanto a esquerda é compassiva, cordial e generosa. Tá bom.

 O ano, então, foi marcado pelo impeachment de Dilma Rousseff e, no pleito de outubro, por impressionante perda de substância dos partidos à esquerda. Para quem supunha trilhar sem retorno o rumo da hegemonia, seguindo agenda científica, os tombos de 2016 reforçam a preocupação manifestada por Gilberto Carvalho durante a campanha eleitoral de 2014, quando reuniu no Palácio do Planalto um grupo de blogueiros e comunicadores ativistas. Ao lhes pedir redobrados esforços, o chefe de gabinete de Dilma Rousseff sublinhou tal necessidade diante do surgimento de uma direita militante - "coisa que nós não conhecíamos há uns anos atrás". Nos meses seguintes, durante as manifestações de rua, essa direita militante exibiria força e civilidade, provocando inevitável comparação com a conduta quase sempre agressiva e violenta das manifestações a que a cordial esquerda, como senhora dos pneus queimados e das invasões, habituara a sociedade.

O ministro expressou com correção o que observava. Falava de algo novo e que produziu, rapidamente, efeito importante no debate político e junto à opinião pública nacional. Mas se limitou à descrição. Haveria muito mais a dizer! A novidade era bem maior e sobre ela escrevo estas linhas. O fato descrito por Gilberto Carvalho tinha importância superior e suas consequências iriam além da eleição que ocorreria semanas depois. Aliás, sob o ponto de vista da grande política, que supera o horizonte dos fatos, o fenômeno sobre o qual o ministro silenciou excede a própria Operação Lava Jato e o impeachment de Dilma.

Desde meados do século passado, a esquerda brasileira se abastecia na Universidade para influenciar a cultura e a intelectualidade nacional e para manejar, em seu favor, os meios de comunicação e as igrejas. Mesmo a formação da massa de intelectuais orgânicos (para dizer como Gramsci) que iria agir nas bases só poderia acontecer, e acontecia, como consequência do produto disponibilizado pela cobertura do edifício do conhecimento. A Universidade, em especial a universidade pública - pública e notória nesse particular -, era o latifúndio do saber pouco produtivo, com título de propriedade passado em favor da esquerda e porteira fechada ao conhecimento divergente, não marxista.

No momento em que a internet se massificou e ocorreu a explosão das redes sociais (tão atacadas, nessas recentes críticas, como território "da direita"), democratizou-se o conhecimento e a Universidade perdeu sua função de grã-sacerdotisa do saber filosófico e da interpretação da história, onde só autores marxistas podiam ser citados sem sarcasmo. Era fácil, então, num vácuo de substantivos, atacar com adjetivos. Tudo que não fosse esquerda era neoliberal, conservador, reacionário e por aí afora.

Entrementes, de modo sutil, pelo viés oposto, acontecia uma revolução do saber. A internet e as redes sociais, Olavo de Carvalho e seus cursos, cortavam os cabelos de Sansão e faziam emergir um grande número de novos autores e formadores de opinião que encontraram os meios de chegar ao público, multiplicando nas redes o conhecimento produzido por gigantes do pensamento até então jogados às traças nos desvãos das bibliografias e bibliotecas acadêmicas. É bem complicado, num debate, superar Russell Kirk, William F. Buckley Jr., Theodore Dalrymple, Friedrich von Hayek, Ludwig Von Mises, Roger Scruton (...) A totalidade do artigo pode ser lido em zhora.co/percivalpuggina.

 

Percival Puggina

06/01/2017

 Em 1963, consegui meu primeiro emprego. Tinha 18 anos recém feitos e fui contratado para trabalhar como auxiliar de administração no Presídio Central de Porto Alegre. Cursava o último ano do Científico (etapa final do ensino médio da época), preparava vestibular, ganhava uma merreca, mas sabia que, com aquela idade, deveria comprar meus próprios cigarros (levei 40 anos para me livrar deles!). O presídio que me permitia fumar com o suor do meu rosto fora inaugurado quatro anos antes e era o mesmo hoje apontado como o pior do país. No ano seguinte, fui aprovado num concurso e efetivado como funcionário do órgão que administrava os institutos penais do Estado. Novo em folha, articulado com outros dois estabelecimentos da região metropolitana, o Central cumpria bem suas funções.

Faço esse relato para referir a degradação do sistema penitenciário brasileiro. A exemplo de tantos outros aspectos da vida nacional - mal sabem disso os leitores jovens - nosso sistema penitenciário já foi melhor. Aliás, o Brasil, também já foi melhor. Imperfeito, claro, mas em quase tudo superior a este onde nos trouxeram as filosofias que adotamos e as políticas que escolhemos.

Entre 1959, ano-base deste relato, e 2015, a população do Rio Grande do Sul apenas duplicou, o Produto Interno Bruto cresceu 10 vezes (se não me enganei nas contas que pude fazer a partir das tabelas da FEE disponíveis na rede) e as alíquotas dos tributos estaduais sofreram diversas majorações. Apesar disso, o poder público estadual não tem, no horizonte, a menor perspectiva de recuperar capacidade de investimento e retirar o sistema penitenciário da falência.

Impossível recusar o que explode diante de nossos olhos. Sucessivas décadas de imprudência, imperícia e negligência, levaram as unidades da Federação e a própria União Federal à atual ruína. Ela foi gerada por governos perdulários e suas prodigalidades; pela ávida busca das manchetes e benefícios políticos de planos de impacto meramente publicitários; pela corrupção e pelo histórico patrimonialismo que confunde e funde o público e o privado; pelos corporativismos espraiados nos poderes de Estado, contaminando a atividade privada e transformando o que é público num butim de múltiplos e permanentes ataques.

A miséria do sistema penitenciário tem outras causas adicionais. A sociedade brasileira foi, deliberadamente, submetida a uma sistemática destruição de seus valores. Ridicularizou-se o bem e se relativizou a verdade; o errado fala do alto das torres e o certo sussurra nos porões; silenciaram-se as consciências e se tornou proibido proibir; jogou-se sobre a alma da vítima o peso de todos os males sociais e se aliviou a do criminoso, de quem não seria possível exigir outra conduta. Nossos policiais não temem enfrentar os bandidos. É das críticas da sociedade e das manchetes que têm receio. Por causa delas muitos morrem, desnecessariamente, em combate.

Antes da carnificina nos presídio de Manaus e Roraima, houve a chacina da ordem e o estupro da lei. Lá atrás, bem antes de tudo, reprimiu-se a necessária repressão ao mal. Lavrou-se, cuidadosamente, o terreno para a insanidade geral, enxotando-se a propagação do bem, do verdadeiro sentido da liberdade e da responsabilidade. Foram décadas de elogio à loucura! Agora, o diabo ri seu riso sarcástico diante das cabeças decepadas. Ali estão as oferendas da estupidez, dispostas frente ao seu altar. E a ironia o faz seguir gargalhando de uma nação que se extraviou ao ponto de perder, para as facções criminosas, o controle de seus presídios.

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* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

 

Percival Puggina

05/01/2017

 

 A contestação mais comumente feita a quem denuncia os erros e maldições do ideário comunista é a de que o comunismo morreu. E se morreu, seu ridículo adversário é um Dom Quixote com neurônios de Sancho Pança, avançando contra algo que não existe mais.

Eu mesmo imaginei, em 1989, com a queda do Muro, que a desgraçada trajetória das experiências com o comunismo real, somada ao piedoso e exitoso trabalho diplomático e pastoral de S. João Paulo II, houvesse produzido a completa paralisia das funções vitais de uma doutrina que nunca foi funcional. Tal ilusão durou pouco mais de um ano. Enquanto a maior parte dos velhos Partidos Comunistas no Leste Europeu fechava as portas e outros, mundo afora, mudavam a razão social para não perder freguesia, aqui no Brasil eles se mantinham vivos e foram dando cria. O primeiro motivo para a não expedição do atestado de óbito é proporcionado pela existência, entre nós, ainda hoje, de nove partidos, registrados no TSE, que têm o comunismo no nome de família ou nas posições políticas. Não sei de outro país onde existam tantos partidos com esse alinhamento.

Após a Segunda Guerra Mundial, houve uma transmutação. O operário industrial, que o marxismo via como protagonista da revolução, começou a ganhar dinheiro e mandou a ideologia às favas, fazendo com que a militância revolucionária se deslocasse para os operários do imaterial, do conhecimento, com atuação no campo da cultura, vale dizer, muito prioritariamente, para a universidade. Não fosse assim, onde iriam tantos professores buscar para si o título de "trabalhadores em Educação"? Aqui, o nome determina a função e o ensinado se subordina à causa.

Esse projeto andava muito bem no Brasil. Não foi por mero acaso que o Muro de Berlim caiu e o PT fazia nascer nestas bandas o Foro de São Paulo, em comunhão de corações e mentes com Fidel Castro. Por esse caminho, chegou ao poder e não preciso contar o resto dessa específica história. O projeto de tomada da hegemonia através da cultura e do meio acadêmico, porém, foi rompido pelo surgimento da Internet e pela incontrolável propagação das redes sociais, difundindo o que deveria permanecer oculto, disponibilizando o que era para ser contido: o saber filosófico dos grandes autores liberais e conservadores, não marxistas. Estou tratando disso em maior detalhe noutro artigo desta semana, especial para Zero Hora.

O que importa, aqui, é conhecer a diferença entre esquerda democrática e esquerda não democrática, comunista, porque ela permitirá saber como andam as funções vitais dessa doutrina e do respectivo movimento revolucionário, que se fazem passar por mortos para ganharem sapatos novos. Trata-se de algo muito simples, que funciona como o retratinho na carteira de identidade. Qual a posição desses "trabalhadores do imaterial" (para dizer como Negri) e dos dirigentes políticos desses partidos que trocam, em suas siglas, o C (de comunista) por um impreciso S (de socialista), sobre assuntos como:

• regimes totalitários de esquerda, atuais ou passados?
• Luís Carlos Prestes, Carlos Marighella, Carlos Lamarca?
• Fidel Castro, Che Guevara, Hugo Chávez?
• os regimes bolivarianos e Nicolás Maduro?
• Foro de São Paulo?
• Paulo Freire?
• - entre outros temas cruciais - "controle social da mídia", conselhos populares, invasão de terras?

Submeta os partidos políticos e suas lideranças, formadores de opinião e profissionais da educação ao teste das respostas cabais ou facilmente presumíveis a essas questões e você verá quem se faz de morto para ganhar sapato novo.


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* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

 

Percival Puggina

02/01/2017

No início de novembro, o Conselho de Estado francês (o STF deles) decidiu que instalar presépios em locais públicos não contraria, a priori, a lei de separação entre Igreja e Estado (matéria do Le Monde pode ser lida aqui). A Corte entendeu que presépio é uma representação susceptível a diferentes significados: tem certo "caráter religioso", porque ilustra "uma cena que faz parte da iconografia cristã", mas é também, um elemento que integra a "decoração e ilustração que acompanha tradicionalmente, sem significação religiosa particular, as festas de fim de ano". O Conselho, então, esclareceu que cabe discernir, caso a caso, qual o caráter determinante da exposição do presépio. Se for de natureza ou conotação religiosa, não deve ser permitida.

A questão que assim foi "resolvida" no caso particular de locais públicos franceses ilustra algo que ocorre mundo afora. Em nome do multiculturalismo e sob as vestes da mais prestimosa tolerância, reproduzem-se, em todo o Ocidente, episódios nos quais representações e símbolos cristãos são banidos dos espaços e agendas públicas.

Seria hipocrisia negar que esse assédio tem o cristianismo como alvo certo e único. A militância de associações civis, os atos legislativos já produzidos e tantas decisões judiciais lavradas com esse intuito, ainda que valendo para todos os credos, alinham dois argumentos: 1º) em locais públicos, os símbolos religiosos desrespeitariam a separação entre Igreja e Estado e 2º) seriam constrangedores ou ofensivos à sensibilidade de outros crentes e descrentes em geral. Então, vejamos:

  • símbolos religiosos em locais públicos desrespeitam a separação entre Igreja e Estado?

É o sonho dourado do multiculturalismo anticristão. Promover, gradualmente, uma revolução cultural que varra para baixo do tapete da memória o cristianismo presente em dois milênios de história. E covardia para aceitá-lo não falta. Pergunto: a retirada da cruz que encima a coroa espanhola no símbolo do Real Madrid não foi exigida ao clube pela parceria com o Banco Nacional de Abu Dahbi? Quem garante que, em breve, a cruz presente nas bandeiras de uma dúzia de países europeus não sejam, em respeito ao multiculturalismo, substituídos por símbolos niilistas ou new age? Andamos em marcha batida, nessa direção.

  • os símbolos religiosos ofendem crentes e descrentes de outros credos?

Tal pergunta me leva a esta outra: até onde se deve fazer concessões aos intolerantes, em nome da tolerância? Porque é disso que hoje se trata no Ocidente, de modo constante, diariamente, nos mais diferentes países, sempre que algum ato, ou fato, suscita a obstinada questão. Não consigo imaginar como se avançaria para uma vida social mais harmônica com tolerância ilimitada de todos à ilimitada intolerância de alguns. Porque convenhamos, indivíduos que diante de símbolos religiosos expressem constrangimento ou indignação revelam problemas psicológicos e atitude antissocial. Qualquer outro modo de se ver a mesma questão importa um olhar bizarro sobre o fenômeno religioso e sua participação na cultura.

Anualmente, milhões de católicos que visitam países islâmicos talvez se surpreendam (e até mesmo se estarreçam) perante certas práticas culturais, mas ninguém se dirá ofendido ou constrangido por qualquer manifestação ou símbolo religioso muçulmano em espaços públicos. E ninguém se nega a atender preceitos a que não está habituado. O sujeito tem que sofrer de alguma disfunção para manifestar animosidades diante de um crucifixo, uma estrela de Davi, um Om e uma roda de Dharma, quer estejam no alto de uma coluna, no centro de uma praça, quer ao rés do chão, como singelo presépio em espaço público. E mais paradoxal ainda: como conciliar com multiculturalismo (!) a patológica intolerância ?


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* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.