Percival Puggina

05/04/2026

 

Percival Puggina

 

         Fazer política exige alguns talentos especiais. Não é por acaso que pessoas competentes, vencedoras em outros setores de atividade, são mal sucedidas quando, convocadas à atividade política, se apresentam ante o eleitorado.

A partir do momento em que por ampla maioria, a atual configuração do STF formou trincheira no teatro das operações políticas e abriu o arsenal dos meios jurídicos de que dispunha, suas decisões produziram as consequências que todos pudemos ver e lastimar. Num rápido sumário: oposição intimidada, redes sociais amordaçadas, população silenciosa, ministros parecendo usufrutuários do Supremo, e militância de redação recebendo poderosa parceria para acabar com as pretensões políticas de conservadores e liberais. Nas refregas quotidianas, era comum ver estúdios que lembravam barraca de campanha onde, entusiasmados jornalistas, diante do mapa dos fatos, recebiam do STF, por celular, mensagens transmitidas como se vindas do Alto Comando de uma guerra contra a direita.

Alijado assim, o povo – aquele povo de onde, se não me falha a memória, a Constituição diz emanar todo o poder – se descobria desabrigado na noite da História. A democracia, de hábito ruidosa, foi sendo silenciada. No vocabulário dos antigos, em meio a tanta truculência, a divergência foi sendo “exemplada”. A cada opinião ou movimento, levava um “para-te quieto”. A harmonia entre os poderes de Estado tinha lado para existir. Palácio do Planalto e STF eram a goiabada e o queijo ou o “baião de dois”, como disse certa vez alguém referindo-se a uma situação semelhante.

Assim como se sucedem as fases da Lua, o tempo passa e o calendário eleitoral comanda o andar dessa história. Na lua minguante de outubro, haverá eleições. Ao longo do ano, tem pesquisa, tem candidatos na rua, há conversas reservadas, há notícias a dar e objetivos a alcançar.

Não é por acaso que a rejeição ao presidente da República coincide com a avaliação negativa do Supremo Tribunal Federal, superando os 50%!

Trata-se de uma consequência inevitável da truculência verbal e judicial, e da inaptidão para a política como ela deve transcorrer num regime democrático. Ao tratar a divergência como inimiga, os donos da cena construíram o passado, sim, mas construíram, também, o futuro. Impor sigilos, brigar com certos fatos e ocultar outros nunca foi boa política. Ufanismo sem causa, agressividade explícita, maus tratos à opinião pública, censura, ânimo vingativo, injustiça explícita e abuso de poder não combinam com voto. Presidência da República e Supremo Tribunal Federal são, agora, os principais cabos eleitorais da oposição brasileira.

Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

03/04/2026

 

Percival Puggina      

        Durante os primeiros três séculos do cristianismo, a crucifixão de Jesus era vista como algo tão infame que os cristãos não se identificavam pela cruz, mas pelo esquemático desenho de um peixe. Foi com Constantino que ela se afirmou como símbolo cristão. E, mesmo assim, apenas a cruz, não o crucifixo. Outros séculos transcorreram até surgir a representação do crucificado, mas em forma gloriosa, reinando do alto da cruz. E um milênio inteiro decorreu entre agonia do Calvário e as primeiras representações gráficas do sofrimento humano de Cristo.

Creio que esse dado serve para explicar, em parte, o profundo impacto causado pelo filme de Mel Gibson. A pintura e a escultura jamais puderam comunicar, de modo perceptível à sensibilidade humana, a flagelação e a agonia de Jesus. Só com o cinema surgiria o conjunto dos instrumentos de comunicação necessários. E foi preciso ao próprio cinema vencer todo o século XX para chegarmos à uma Paixão de Cristo que alcançasse o realismo e a intensidade atingidos pela obra de Mel Gibson. Se tivermos que buscar um único mérito no filme – e ele tem muitos outros – certamente será este: pela primeira vez em quase dois mil anos, o sofrimento de Jesus encontrou uma representação real, compreensível aos olhos humanos.

Vitorio Messori, num texto que tive a oportunidade de ler, cita São Tomás de Aquino, quando este adverte que não se deve representar a verdade com argumentos irrisórios. A meditação que Gibson faz sobre a Paixão (o filme é isso) por certo não incorre nesse equívoco. Martela, com extraordinário vigor, a mensagem essencial da paixão, morte e ressurreição. Cristo não fez essa trajetória por culpa dos judeus que pediram sua condenação, ou dos romanos que o flagelaram e crucificaram. Foi pelos pecados da humanidade inteira que Ele assumiu a cruz, do alto da qual pediu ao Pai que perdoasse aqueles que o faziam padecer porque eles não sabiam o que faziam. E não sabiam mesmo.

O filme nos põe na cena dos fatos, junto a Maria e João, com uma espada de dor atravessada no peito. Comove e move. Vale à pena submeter-nos à crueza das imagens?  Se apenas comover pela dor, não. Se mover pelo amor, sim.

Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

Percival Puggina

02/04/2026

 

 

Percival Puggina

         O governador do Rio Grande do Sul se encarregou de ilustrar, por conta própria e sem entender a causa, o que acontece com o debate político brasileiro. Apresentando-se como vítima, ele atacou seu alijamento da campanha presidencial como se fosse consequência dos polos a que se refere. 

Vamos imaginar que Eduardo Leite tivesse razão. Suponhamos que os dois polos, intrometidos e igualmente malvados como parece vê-los, não entendam quanto andaríamos melhor de mãos dadas. Já pensou? A canção “Imagine” na Praça dos Três Poderes! Coroa de flores na cabeça, “all the people” unido num único “centro democrático”, “liberal”, comprometido com a “conciliação” e com a “construção de soluções reais”, etc.?

Certamente ele não está falando no Centrão dos negócios, feirão de votos parlamentares, nem nos partidos sem cor nem sabor que se aglutinam representando a maior parte do aparente sincretismo político brasileiro. Pergunto: e se não for à turma da esquerda, nem à da direita, nem à do Centrão, que se refere o governador gaúcho? Quantos votos têm as pessoas com as quais ele vem conversando e tanto apoio diz lhe terem prestado?

Há algo ainda mais intrigante na tese de Eduardo Leite. Ele teve oito anos consecutivos de mandato. Teve todo o tempo do mundo para aplicar sua harmoniosa plataforma no Rio Grande do Sul. Andou disciplinadamente no Centro e muitos o viram como frequentador habitual do topo do muro. Por afinidade, era muito mais fácil para ele do que para qualquer outro trabalhar junto com o PT. No entanto, para governar, precisou articular-se com a direita, com os conservadores do PP gaúcho. Por quê? Porque o PT jamais dá as mãos ou aceita proximidade com quem senta na cadeira que ele pretendeu ocupar e à qual deseja retornar.

De nada adiantou Eduardo Leite se alinhar com o polo esquerdista em questões bem específicas como o “fecha tudo” da Covid e a anistia. Foi o PP gaúcho, de direita, quem lhe deu o apoio de que precisava ao longo de oito anos. É por ideias e ações que se estabelece o antagonismo político. Os dois polos não existem para aborrecer Eduardo Leite, mas por absoluta necessidade do momento. Vejam o Brasil! O petismo e seus coadjuvantes, seus escândalos e desastres, suas práticas e maus costumes precisam ser confrontados! Ainda bem que, com a inesperada liderança original de Bolsonaro, a direita parou de perder por W.O., rompeu o teatro das tesouras e se alinhou como polo oposto. Isso foi e continua sendo historicamente oportuno e necessário. Há que preservar o que subsiste e retomar o bem que se perdeu nos últimos 40 anos.

Eis o motivo pelo qual o governador gaúcho fala num centro democrático, liberal e conciliador, sem mencionar a palavra “conservador” e sem nenhum registro sobre o valor da tradição e da fé. Se depender dele, a guerra cultural que confronta o Ocidente já tem perdedor e essa posição exige oposição.

Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

 

 

 

 

Percival Puggina

28/03/2026

 

 

Percival Puggina

         Se alguém tinha dúvida sobre a natureza política da prisão de Bolsonaro e tantos outros, o ministro Alexandre de Moraes acaba de escancarar a realidade a quem tem olhos de ver.

Essa incerteza jamais me acometeu. Sempre vi como insanidade o fervor com que a esquerda se converteu em cortesã da Suprema Corte. Desde a indulgência plenária concedida por ela ao mestre Lula, os seguidores do profeta de Garanhuns repicavam sinos, tocavam clarins e gargalhavam felizes ante qualquer canetada dos ministros impondo restrições e penas a seus adversários. Era muita alegria de um lado só.

Sempre havia uma urgência incomum: salvava-se a democracia. Em cada invasão de privacidade, em cada direito humano abalroado, em cada trambolhão dado às boas práticas, salvava-se a democracia. As imposições de silêncio se transformaram em produtos refinados de uma ação civilizatória. Festejada com vivas e urras dos companheiros, elas cortavam a voz oposicionista como a guilhotina, ao som de urras e vivas, cortava pescoços na Place de la Concorde em 1789. O medo, leitores, pode ser tão silencioso quanto os cemitérios.

Por isso, não me espantou a decisão de autorizar a prisão domiciliar temporária de Bolsonaro. Ela não só liberava um pouco de vapor da panela de pressão em que se convertera o STF (ministros mais duros já estariam amolecendo) como criava oportunidade para ampliar as restrições impostas ao ex-presidente. Novo paradeiro, novas regras. E isso, convenhamos, era bastante oportuno. Além das visitas familiares, Bolsonaro tivera autorizadas 15 visitas de políticos no seu período em prisão.

Ora, para quem o quer fora do jogo, é altamente recomendável que ele não mantenha contato algum com pessoas desse ambiente. Está em curso a janela de transferência entre partidos e em tempos de organização de chapas majoritárias. Seguem-se a elaboração das listas proporcionais, as negociações que antecedem as convenções, etc. Quanto mais Bolsonaro estiver desaparecido ou dado por politicamente morto, melhor para o governo. Melhor, também, para os ministros e todos que ainda acreditam na narrativa do “funcionamento virtuoso das instituições” (credo!), mesmo que elas pareçam destroçadas por um inexorável vandalismo interno.

Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

21/03/2026

 

 

Percival Puggina

              Embora a edição em português tenha sido publicada em 1991, ainda hoje encontro fãs da autora, Ayn Rand, empolgados com o livro “A virtude do egoísmo”. Não sei se convenci algum, mas sei que jamais, qualquer desses interlocutores esclareceu o seguinte ponto: se, ao buscar o interesse próprio, o ser humano está cumprindo sua finalidade, por que raios devem os políticos renunciar a ele e se dedicar ao bem dos outros?

No coração do poder político, é preciso ser muito distraído em relação às oportunidades para não encontrar, a cada momento, algum interesse pessoal mais conveniente do que o bem alheio... É assim, exatamente assim, no subterrâneo dos interesses, que negligenciam a corrupção, matam a anistia, a dosimetria, as CPIs, a liberdade e a paciência dos cidadãos, e dão por virtuosos os vícios institucionais.

Qualquer pessoa com bom senso também sabe que nosso sistema eleitoral proporcional está mal pensado. Infelizmente, ele só é bom para quem faz a lei e acaba privilegiando a representação dos grupos de interesse. No viés oposto, e na linha do que expus no parágrafo anterior, esse sistema reduz a representação do cidadão comum (chefe de família, trabalhador, pagador de impostos ou um “ninguém por si”, desempregado). Até o último bilhão de reais, cabe ao cidadão pagar o custo da varredura interesseira que o sistema não perde ocasião de transformar em elite dirigente!

Há quarenta anos escrevo e falo sobre a superioridade técnica do voto distrital com recall, para que o parlamentar mais votado seja o representante de todos os cidadãos de seu distrito, assim como o governador é governador de todos os eleitores de seu Estado. No voto distrital, o deputado deve prestar contas a todos por suas ações e omissões, e está sujeito à revisão do mandato (recall).

Há muitas coisas erradas, sim. Nenhuma delas, porém, nem as urnas sem impressora, são motivo para não votar. Ao contrário, são uma soma de razões para comparecermos à sessão de votação e escolhermos pessoas capazes e virtuosas para o importante trabalho que a nação requer.  

Estou acompanhando com muita preocupação as primeiras pesquisas sobre as eleições majoritárias que se avizinham (governadores e senadores). Alinham-se nos partidores, os nomes entendidos como preferenciais do eleitorado e o que leio me causa apreensão. É evidente a força dos partidos que se desfiguraram nas más experiências de um regime que transformou a política em feira de negócios. Tanto rebento de árvores genealógicas das dinastias regionais ponteando preferências não me deixam otimista. Não agora, não com esses dados. A Associação de Corruptos pela Democracia deve estar gostando dessas pesquisas.

O futuro precisa de uma elite da melhor qualidade. E ela existe! Pressionar os partidos, escrutinar suas nominatas, empurrar essas pessoas às urnas, enchê-las de votos, é uma tarefa para os meses vindouros. As convenções partidárias ocorrerão entre 20 de julho e 5 de agosto. O cardápio será o que for escolhido nessas reuniões. E eis aí outra vulnerabilidade de nossa democracia em frangalhos.

Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

18/03/2026

 

Percival Puggina

               Saudades de vocês, meninos!

Vasculhando a nuvem, encontrei imagens do encontro do MBC (Movimento Brasil Conservador), ocorrido em Camaquã no mês de novembro de 2021. Então, éramos felizes e sabíamos, porque se sucediam, pelo país inteiro, em auditórios lotados, as oportunidades de convívio, de reconhecimento e apreço aos bens culturais do Ocidente. Os territórios conflagrados da Cultura e da Educação, parafraseando Thomas Sowell, se haviam convertido na política por outros meios. Havia uma guerra pela Cultura.

Esse antagonismo somou-se às causas da censura que não tardaria em sair das máscaras e vacinas para derrubar a própria máscara e assumir seu rosto real no plano da política e da eleição que se avizinhava. A noite do regime estava chegando e reservava seu riso para a desgraça alheia. Tanto mais se divertia quanto mais gente houvesse para multar e prender.

Os talentosos Paulo Souza, Augusto Pacheco e Bismark Fugazza são exemplos vivos do mau humor de um regime que dizia “salvar a democracia” enquanto, entre outros pecados, acabava com a liberdade de expressão e tentava proscrever a opinião pública. Muitos jogaram a toalha do desalento, colocaram o livre pensar numa gaiola e se recolheram ao cárcere virtual do “sofá com celular”.

Se, por um lado, graças ao trabalho de Olavo de Carvalho e outros, a produção do ideário conservador e liberal no Brasil entrou num fluxo quantitativo e qualitativo ascendente, suplantando pela primeira vez a produção esquerdista, por outro lado, os meios culturais e educacionais se valeram, e ainda se valem,  da hegemonia política imposta pelo regime para desqualificar intelectualmente os recursos humanos do país desde o interior das salas de aula.

Por isso, vencer a eleição presidencial não significa derrotar o regime. Essa vitória virá com a recuperação do trabalho de base, interrompido pela repressão instaurada em 2019 e com maioria parlamentar nas duas casas legislativas, a partir de 2027.

Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

Percival Puggina

14/03/2026

 

 

Percival Puggina  

         Dezenas de milhões de brasileiros arrendaram a consciência ao senso moral do Estado, desse Estado a que chegamos. Exclamará o leitor: “Impressionante! E a que preço? Qual o valor desse arrendamento?”. Pois então: trata-se de mercadoria alienada a preço vil. A consciência desses cidadãos não vale um centavo mais do que o senso moral do Estado que tenham como senhor de seus bolsos e almas.

Se estas são palavras duras, a realidade que todos veem e sentem deveria cortar como lâminas do mais puro aço alemão a couraça de quantos não percebem a malignidade do patrão a que se submetem – o Estado que virou feitor da sociedade. Abriram mão da liberdade de pensar, malgrado os milhares de alertas com que Millôr Fernandes, ao longo dos anos, carimbava suas páginas afirmando que “Livre pensar é só pensar”. E ele não falava na liberdade do pensamento irrelevante, da coisa à toa, sem valor ético nem estético.

Para usar uma expressão da moda que não significa coisa alguma, a exemplo de tantos outros modismos como a estampa das meias, os cidadãos a que me refiro abriram mão de seu “lugar de fala”.  Como cidadãos, podem e devem falar, mas o Estado em que vivemos, esse Estado a que chegamos, esvaziou em sala de aula os pneus do pensamento, substituído por maus sentimentos contra qualquer um que ouse pensar fora da esparrela mental em que foram capturados. Só quem já observou a naturalidade com que vandalizam seus próprios ambientes e os assistiu, como que em matilha, expulsando deles, aos gritos de “Recua, fascista, recua!” quem tem a ousadia de pensar, sabe do que e de quem estou falando. E sabe quanto essa conduta faz lembrar  um regimento da Hitlerjugend, a juventude hitlerista.

Sucessivas décadas de domínio esquerdista do ambiente educacional garantiu a esses moços a condição de face visível do Estado a que chegamos. Refiro-me a um Estado que considera totalmente ociosa a opinião pública. Em si e por si, ele detém o “notável saber”, sendo motivo de escândalo que alguém expresse um pensamento ou um argumento. Aliás, para esse Estado em que vivemos, o cidadão é, sobretudo, um chato, indesejável, de quem se espera e a quem se recomenda o silêncio eterno.

Quando se acumulam os escândalos, esse Estado a que chegamos investiga e inferniza a vida do denunciante. Ele interroga quem formula perguntas e se cobre de misteriosos segredos. Enquanto expõe quem incomoda, impõe sigilo sobre o incômodo que causou... 

Em outubro haverá eleições. É o último recurso disponível para nos resgatar dos abusos do Estado, desse deplorável Estado a que chegamos. Sigamos o bom ânimo inaciano que nos indica trabalhar como se fôssemos a democracia com que sonhamos e tudo dependesse de nós, mas vamos rezar colocando os resultados nas mãos de Deus.

Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

11/03/2026

 

Percival Puggina

         Ante os olhos de todos, a senhora avançou o potente automóvel contra a mureta que havia na frente de um centrinho comercial. Quanto mais fragmentos de carro e concreto eram vistos em meio à fumaceira dos pneus que queimavam, mais ela pisava no acelerador pensando ser ele o freio. E permaneceu assim até o carro salvar a própria vida e desligar tudo.

Ocorreu-me a analogia entre a cena e o maltratado Brasil de meu tão bem querer. Pensei na maioria do Senado, hábil em business, mas destruindo o próprio poder e criando condições para o protagonismo político do Supremo Tribunal Federal. Lembrei-me, também, dos ministros do STF, que pisam no acelerador da política instrumentalizando o poderoso motor da justiça. Lembrei-me do lamentável jornalismo da velha imprensa, selecionando o que publicar e fazendo convenientes “recortagens” quando tão necessários se faziam os furos de reportagem.

Um desastre em modo dane-se. No balaio dos desacertos, vi os egos se inflarem, as prisões políticas se multiplicarem e a censura se instalar; vi o cala-boca virar multiformes projetos de lei, ganhar apelido em inglês e se tornar inquérito policial, com cabeça neste mundo e pés no outro. Vi a prepotência sendo verbalizada e a arrogância da débil natureza humana ser cultuada como sarça ardente, manifestação divina do próprio poder, teofania de uns, venerada com medalhas e aplausos de outros.

Ao longo destes últimos anos, em diversos artigos, mostrei que criticar um deputado não é o mesmo que criticar o parlamento; criticar um senador não é o mesmo que criticar o senado e, por pura lógica, criticar um ministro do Supremo não é o mesmo que criticar o Supremo. Certo? Certíssimo. E ainda que fosse a mesma coisa, camarada, qual o problema? Se todos se omitirem na crítica às instituições, como serão elas corrigidas? Como retornará o rio da Justiça ao leito do bom Direito? Convenhamos, essas instituições do Estado, perfeitas é que não são; se fossem, não teriam chegado a estas semanas de tão desolador descrédito.

O otimismo dos constituintes de 1988 esgotou o prazo de validade. É hora de realismo. Não surpreende que uma Constituição com tantos defeitos tenha produzido essa mescla de corrupção com impunidade. Não surpreende tenha ela gerado tantos partidos que são, em quase totalidade, interesses fragmentados e transformado a Carta de Ulysses em caixa de ferramentas da maioria do STF. As eleições de outubro são a hora de corrigir o erro e confiar o poder a mãos hábeis, sem cometer, por exemplo, o erro de quem entregou o carro àquela senhora que acelerou quando tinha que frear.

Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

Percival Puggina

06/03/2026

 

Percival Puggina

                 Durante o governo Bolsonaro, bem mais de uma centena de decretos, MPs, programas e políticas de governo e de Estado foram barrados pelo STF. Muitas dessas medidas eram antigas aspirações nacionais, outras tantas haviam sido explicitadas na campanha de 2018 e receberam a bênção das urnas, outras, por fim, eram iniciativas inéditas do governo. Tais intervenções do Supremo foram solicitadas pela oposição e levadas à Corte pelo senador Randolfe Rodrigues, então filiado à Rede, que foi muito exitoso na transformação do Supremo em longa manus da oposição ao governo Bolsonaro.

Lembremos alguns desses casos. O Supremo impediu, por exemplo, a nomeação de Alexandre Ramagem como diretor-geral da PF. Impediu a redução do número de sovietes (os tantos conselhos que o petismo cria e com os quais passa a controlar administrações e governos). Frustrou medidas que facilitariam o porte de armas. Protegeu a UNE, travando a criação da carteira estudantil digital gratuita, fornecida pelo governo. Impediu a transferência da demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura, e por aí vai. A lista é imensa.

Quando a polêmica chegava à sociedade, vinha da Corte a explicação: tratava-se do exercício da “função contramajoritária” do STF. Assim, caberia àquele colegiado o papel de preservar direitos inerentes às minorias numa sociedade democrática. Há quem aprecie esse tipo de explicação e se dê por satisfeito. No entanto, chama muito a atenção o fato de que após a eleição de Lula, nunca mais esse papel contramajoritário enfeitou qualquer argumento do Supremo...

Lembro, então, das pessoas simples, idosas, impotentes para praticar os crimes que lhes são imputados na narrativa do 8 de janeiro, sem que isso mobilize as energias protetivas do STF. Sou levado a crer, então, que o papel contramajoritário foi cumprido e se esgotou nas conveniências daquele período. Agora, ele vai para a mesma gaveta em que jaz, pedindo para ser esquecida, a vergonhosa carta da USP que tanto malefício sacramentou em agosto de 2022.

Quem conhecesse a conduta do banqueiro Vorcaro sabia que aquilo não ia acabar bem. O excesso de excessos é um pecado capital. Mas não era apenas em Vorcaro que se manifestava a impetuosidade do poder em desatino. Mais grave ainda e com consequências mais danosas: a mesma nocividade inerente ao poder que julga poder tudo se foi fazendo visível e ameaçadora no Brasil. O STF se descolava da melhor tradição e de regras básicas sobre moderação e autocontenção.

Relatos de poderes que podem tudo cruzam milênios de história num catálogo de tragédias políticas e sociais pela ação de indivíduos ou juntas governativas. Sua trajetória inicia com a concentração do poder, evolui para o ufanismo e a autodivinização (“Nós somos os supremos!”), padece com a subsequente paranoia e entra em colapso.

Isso é tão sabido que parece resposta de almanaque.

Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.