Percival Puggina
30/10/2015
Se você leu meu texto (http://www.puggina.org/fique-sabendo/ufpel---nudez-maconha-alcool-e-masturbacao-no/1212), e viu imagens do ocorrido (a maioria é impublicável, mas tem de tudo), você precisa ler, também, a nota oficial da reitoria da universidade (http://ccs2.ufpel.edu.br/wp/2015/10/29/nota-oficial-da-ufpel-sobre-a-manifestacao-no-ich/). Num texto desnecessariamente longo, a UFPel "vem a público esclarecer sobre o ocorrido" e informar sobre "as ações realizadas pela Instituição". O que você lerá, caso se dê o trabalho de clicar no link indicado, é uma confissão formal sobre a calamidade que expus na última frase do meu artigo mencionado acima:
Algumas [dessas moças] serão professoras de nossas crianças e adolescentes! E o que mais deve preocupar a comunidade: ninguém nasce assim. O veneno que as domina lhes foi ministrado gradualmente por gente de péssimo juízo e ainda pior leitura, como venho alertando há bom tempo.
Com efeito, a nota oficial dispensa qualquer lente para ver, ou qualquer investigação para identificar, onde e como estas condutas são geradas. A reitoria simplesmente passou a mão por cima de todo aquele despudor. O texto inicia (imagine só!) criticando um grupo do whatsapp constituído por alunos acusados de machismo. Segundo a nota, estaria ali, na intimidade vilã daquele grupo machista, o motivo da pornomanifestação pública do dia 26, evento que a universidade não aplaude, mas gasta praticamente todo o texto para explicar e compor coro com as manifestantes.
A da UFPel usou 23 das 670 palavras empregadas em sua nota oficial para anunciar que "a Administração está constituindo uma comissão especial para avaliar os fatos e propor os encaminhamentos devidos e cabíveis diante da importância da situação". Tudo mais foi redigido para alinhar-se com a pauta das manifestantes, jactar-se da criação de um Observatório de Gênero e Diversidade, afirmar-se como um espaço de diálogo, de convivência das diversidades, de multiplicidade de perspectivas, de interação das culturas e blá, blá, blá.
Com o que fica tudo perfeitamente explicado e, de minha parte, perfeitamente entendido. Sei, até, em quem votaram para presidente em 2014.
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* Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+.
Percival Puggina
27/10/2015
Embora a palavra corrupção seja comumente empregada para designar ações ilícitas visando a ganhar dinheiro, estas não são as únicas condutas que se caracterizam como tais. Nem sempre os ganhos com a corrupção têm natureza monetária. Assim, por exemplo, é corrupção buscar benefício contra a verdade, ou seja, mentindo. É corrupção atribuir a outros as próprias culpas. O emprego de sofismas e falsidades para convencer sem ter razão preenche vasto catálogo de técnicas corruptas, concebidas para induzir ao erro e, disso, levar vantagem. Usar a estrutura do setor público gerando publicidade enganosa, enunciando meias verdades, negociando o inegociável, comprando apoios e produzindo desinformação também é corrupção.
Haverá quem, adivinhando onde quero chegar, interrogue: "Nesse caso, quem atira a primeira pedra?". É uma pergunta esperta. Ela pretende induzir a uma recíproca absolvição geral, tipo indulgência plenária, da qual todos se tornam credores visto que praticaram os mesmos males. Restaure-se, assim, pelos deméritos alheios, a saúde daquela outra velha senhora, a impunidade. Ora, o crédito à primeira pedra (simbolicamente falando) cabe às instituições da república e à imensa maioria do povo brasileiro. Este, de modo ordeiro e cívico, já vem clamando pelo impeachment em memoráveis manifestações, nas ruas do país. São cidadãos que não endossam acordos velhacos, inconfessáveis, e não aceitam a retórica enganosa, o raciocínio fraudulento, a publicidade mentirosa.
Pois é exatamente esse tipo de manobra que os governistas puseram em curso. Procuram confundir os atos de repúdio ao governo, expressos nos pedidos de impeachment exigidos nas ruas e formalizados por cidadãos de bem, com o que há de mais desqualificado na oposição parlamentar. Tentam fazer de Eduardo Cunha o símbolo maior dessa oposição, obscurecendo o fato de que os negócios do senhor Cunha aconteceram dentro dos mesmos esquemas investigados na Lava Jato, ao tempo em que ele pertencia à base do governo. Tentam transformar o impeachment em um negócio do Cunha e buscam fazer desse lamentável cavalheiro uma espécie de dono do impeachment. Ora, se já é pouco digno agir assim, em inescrupulosa defesa do indefensável, sendo governista, muito menos digno é reproduzir tal conduta na condição de formador da opinião pública, orientando-a mediante sofismas e artifícios retóricos. São marujos do mar de lama!
Não mudarão o curso da história com artes e manhas tão corrompidas quanto os corruptos que tentam proteger. Queiram ou não, sucessivas pesquisas mostram que o legítimo senhor do impeachment, a contragosto de quem ele jamais aconteceria, é o bom povo brasileiro. Se quiserem atacar o impeachment, ataquem o povo.
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* Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+.
Percival Puggina
25/10/2015
Em junho deste ano, durante o 2º Congresso Nacional da CSP-Conlutas, um membro do comitê central do PCB fulminou os conservadores com o poema em que Brecht sentencia um homem dito bom à morrer num bom paredão, com uma boa espingarda, uma boa bala e com sepultura numa boa cova. Calorosos aplausos da plateia referendaram a fala. Alguém filmou, vazou e o vídeo prolifera nas redes sociais sob óbvias rejeições. O site do PCB atribui tais repulsas - ora vejam só! - a uma direita "fascista e raivosa".
Lembrei-me do livro Camaradas. Esse excelente trabalho de pesquisa e jornalismo, empreendido por William Waack sobre a Intentona Comunista de 1935, foi viabilizado quando a abertura dos arquivos de Moscou permitiu escrutinar com correção os fatos da época. O livro inicia com pequeno trecho de uma das peças teatrais didáticas produzidas por Brecht: "Quem luta pelo comunismo tem que poder lutar e não lutar, dizer a verdade e não dizer a verdade, (...) manter a palavra e não cumprir a palavra (...). Quem luta pelo comunismo tem de todas as virtudes apenas uma: a de lutar pelo comunismo".
Nessa obra (procure "The measures taken" para lê-la em inglês), Brecht, que era militante comunista, relata certa missão de propaganda durante a qual um jovem militante concorda com ser executado por seus camaradas para segurança da tarefa revolucionária. O coro, como a plateia do sujeito do PCB, louva a terrível decisão. Às infames lições citadas acima, o drama brechtiano, acrescenta que a benevolência faz mal à causa, que o coletivo sabe mais que o individual, que a rígida disciplina é indispensável à tarefa revolucionária, e por aí vai. Tais princípios abastecem os coletivismos, motivaram os genocídios sem os quais não se imporiam e são as muletas retóricas do discurso mencionado no início deste texto. Paredão!
Portanto, quando lhe falarem no tal coletivo, se não for ônibus, desembarque! Você pode ser atropelado por uma terrível ideia: nos coletivismos, o indivíduo e sua vida valem nada, absolutamente nada. Opondo-nos a isso, devemos reconhecer que temos, por natureza, uma real e preciosa existência social. Essa existência, todavia, deve ser vivida sem prejuízo da nossa individualidade. Somos dotados de liberdade, vontade, razão, responsabilidade e dignidade natural. Somos indivíduos, pessoas humanas, desde a concepção. É como indivíduo, pessoa divina, que Cristo irrompe na História. Será como indivíduos que nos apresentaremos ao Altíssimo para um juízo pessoal, não coletivo. Desconhecer, minimizar ou desfazer essa grandeza num coletivismo é reabrir as páginas mais trágicas e escabrosas do século 20.
ZERO HORA, 25 de outubro de 2015
Percival Puggina
21/10/2015
Tenho encontrado pessoas que, diante das mobilizações em favor do impeachment da presidente Dilma, expressam preocupação com a intangibilidade, espécie de "sacralidade", que adornaria o mandato de quem ocupa, simultaneamente, as funções de chefe de Estado e de governo.
É um sentimento de parte da população. Menos de 10% dos brasileiros aprovam o governo da presidente. No entanto, cerca de 30% discordam de seu impeachment. No valão desse sentimento, o petismo se entrincheira e opera para atacar como golpista quem pede às instituições da República o cumprimento dos ritos que podem levar à perda do mandato presidencial. Note-se, a propósito: são tantos os motivos para essa punição que ela pode ocorrer pela via judicial e pela via parlamentar.
Países que adotam o parlamentarismo substituem governantes com facilidade, inclusive por mau desempenho, permitindo a rápida superação, sem traumas, de crises políticas e administrativas. Em muitos deles, democracias estáveis, legislaturas podem ser interrompidas por convocação extemporânea de eleições parlamentares para atender alterações das tendências da opinião pública. Para que um primeiro-ministro caia do posto basta perder o apoio da maioria parlamentar. Faço estas referências para mostrar que, em boas e sólidas democracias, os mandatos não se revestem da mesma blindagem em nome da qual, entre nós, até grandes culpas e proverbiais incompetências pretendem ser relevadas. Pergunto: seria essa uma irredutível imposição do presidencialismo? Não! A Constituição Federal e a legislação complementar regulam perfeitamente o processo de impeachment e a natureza dos crimes que levam à perda dos mandatos.
Estou usando neste texto de modo intencional e entre aspas o vocábulo "sacralidade" como um suposto atributo dos mandatos, embora, mais adequadamente, devesse usar a palavra "respeito". Mas se "sacralidade" é um vocábulo que certamente cairia no gosto do Advogado Geral da União para defender a presidente, ele serve ainda melhor a mim para justificar o processo de impeachment.
Assim como só pode ser respeitado aquele que se dá o respeito, não há como considerar sagrado, respeitável, intangível, revestido de dignidade, o mandato de quem antecipadamente proclamou que "faria o diabo na hora da eleição". E fez! Incontáveis vezes. Antes, durante e depois da eleição, conforme abundantemente comprovado nos documentos escrutinados pelo TSE e pelo TCU. Afinal, quem não viu os usos, abusos e mentiras que varreram o país e conspurcaram a sacralidade (esta sim) do pleito de 2014?
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* Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+.
Percival Puggina
17/10/2015
Em discurso tão inflamado quanto lhe permite a dificuldade de expressão, a presidente Dilma justificou as pedaladas fiscais perante uma plateia amiga. O fato aconteceu no último dia 13, em São Bernardo do Campo, durante a abertura oficial do 1º Congresso Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores. Como tem feito nos últimos meses, saiu de casa para falar em casa. É o jeito de escapar das vaias.
Disse a presidente que as pedaladas foram usadas para pagar o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida, os dois maiores programas sociais do governo. Quer dizer, ela teria agido sob o manto das mais nobres intenções. E, apesar disso, concluo eu, os nove ministros "golpistas" do Tribunal de Contas da União lhe rejeitaram as compassivas contas. Esse discurso da presidente escamoteou pelo menos dois fatos.
Primeiro, além de dar sumiço no dinheiro, deu sumiço no motivo pelo qual faltou dinheiro para aqueles programas. Refiro-me às irresponsáveis injeções de esteróide anabolizante que ela aplicou, como dopping, em outras ações do governo para dar-lhes musculatura financeira, multiplicar o número de beneficiários e trombeteá-las como medalhas de ouro durante a campanha eleitoral. O leitor destas linhas haverá de lembrar que Dilma e todos os candidatos da corte governista, eleitoralmente beneficiados com tal esbanjamento, percorreram o país discursando, à exaustão, sobre a prodigalidade oficial que se expressava, entre outros, nos programas FIES, Pronatec e Minha Casa Melhor. Com isso, empilharam votos e elegeram as numerosas bancadas que agora se veem às voltas com necessárias explicações que ditas boas intenções passam a exigir.
Segundo, escamoteuou algo que é óbvio perante toda consciência bem formada: a necessária compatibilidade moral entre os meios e os fins. Se lá na ponta da decisão de sair pedalando com os recursos públicos havia um fim bom (atender dois programas sociais para os quais os recursos haviam secado) e um melhor ainda (angariar votos para a presidente e seu partido), o meio usado para isso foi ilícito e contrário à norma constitucional. A manobra tornou-se ainda mais óbvia a partir do momento em que, obtido o resultado eleitoral, a tesoura se apresentou furando os inflados programas eleitoreiros de 2014 do mesmo modo como tentam fazer com os pixulecos em 2015.
* Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões e A tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.
Percival Puggina
13/10/2015
Eduardo Cunha foi um exemplo que caiu dos céus no inferno moral brasileiro. Ele está aí como um divisor de águas. Surpreso, leitor? Acalme-se, o petismo ainda não conseguiu me enlouquecer.
Eduardo Cunha obteve seu primeiro mandato como deputado federal pelo PMDB, em 2003, ou seja, ele acompanhou como deputado da base três dos quatro mandatos presidenciais petistas. O dinheiro que está depositado em suas contas na Suíça foi conquistado com o "suor de seu rosto" nas mesmas falcatruas que enriqueceram outros parlamentares dos partidos que apoiam o governo. Participou dos mesmíssimos trambiques que custearam as campanhas presidenciais petistas. Só se afastou do governo em fins de 2013 quando percebeu que as fissuras abertas no apoio a Dilma poderiam lhe proporcionar a presidência da Câmara dos Deputados. De fato, somando as perdas do governo com os ganhos da oposição ele superou por vários corpos de vantagem, o parelheiro da comissária, o arrogante deputado Arlindo Chinaglia.
A inimizade estabeleceu-se instantaneamente. O governo afundava em escândalos e a economia em crises. Cunha tornou-se, então, figura-chave para viabilizar um incontornável processo de impeachment. E é a partir desse exato momento que se justifica a frase inicial deste artigo: Cunha caiu dos céus no inferno moral brasileiro.
Primeiro, e principalmente, porque foi dentro das investigações referentes à operação Lava Jato que seu nome surgiu na ribalta dos escândalos. Ora, para quem dizia que a operação era uma armação golpista, nada mais contragolpista do que desmoralizar o arqui-inimigo do governo. Acho que isso até os petistas entendem: a denúncia contra Cunha é atestado de isenção da Lava Jato. Segundo, porque o fato separa nitidamente duas atitudes morais. De um lado, a dos que defendem com unhas, dentes e os mais encardidos sofismas um governo que apodreceu sob a ação de seus "heróis do povo brasileiro". De outro, a atitude dos que colocavam esperanças na atuação de Eduardo Cunha como presidente da Câmara dos Deputados. No entanto, meteu o pé na jaca? Fez o que não se faz? Dane-se e pague a conta de seus atos! Ele não tem em seu favor senão vozes isoladas entre mais de cem milhões de brasileiros que querem ver o petismo pelas costas. Responda-me, agora, leitor amigo: isso não revela duas posições moralmente opostas - a daqueles para quem o poder vale mais do que a honra e a daqueles que não sacrificam dignidade em nome de causas políticas?
Por fim, um exemplo adicional. Os petistas militantes, os que estão para o que der e vier, em flagrante desrespeito à verdade (e este é o primeiro degrau na escada da corrupção) querem fazer de Eduardo Cunha um exemplo da corrupção oposicionista, mesmo sabendo que foi dentro dos contratos dos governos petistas, enquanto membro da base, que ele acumulou a fortuna localizada em bancos da Suíça.
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* Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+.
Percival Puggina
12/10/2015
Quer acesso a recursos públicos para si ou para seu projeto político? Esteja atento ao conselho de Eça de Queiroz em deliciosa crônica de 1871: faça-o numa associação. "Nada há para esses feitos quanto apoiar-se numa associação. A associação inocenta tudo e tudo purifica". Quanta razão tinha o mestre! Que o digam os promotores de invasões. Numa associação, aplicam-se sobre os autores dos crimes camadas e mais camadas de teflon político e jurídico.
A decisão tomada pelo TCU na última quarta-feira foi, como diria o ministro Roberto Barroso, do STF, um ponto fora da curva. Fugiu à regra. Imediatamente, os membros da associação subiram às tribunas e microfones para defender o governo. Na Assembleia Legislativa gaúcha, um deputado afirmou que as pedaladas fiscais não eram novidade. Já eram praticadas em outros governos. Desceu triunfante da tribuna e ouviu do deputado Marcel Van Hattem que, no autoindulgente senso petista, se um crime não for original, inédito, não é crime...
Foram os erros e crimes cometidos ao longo dos últimos 13 anos que, primeiro, proporcionaram a Lula seus anos de Midas e, em seguida, nos precipitaram na crise atual. Agora, em nome do caos que produziram, pedem benevolência para manterem a associação e se preservarem no poder. Ora, o Brasil não pode ser uma terra sem lei. São as crianças que brincam dizendo que lei é o "malido da lainha". Isso não serve para adultos, não serve para homens de Estado. Senhores, não podemos deixar o passado no cabide, por mais que convenha à associação. Aliás, não será entre pessoas condenadas pelo próprio passado que vamos encontrar estadistas para nosso futuro.
As instituições nacionais foram se convertendo, gradualmente, em associações para os fins que Eça ilustrou com seu fino humor. Como consequência, o povo brasileiro - fato sublime - ergueu-se vários degraus acima delas e assumiu a tarefa de pô-las a dançar segundo a música constitucional. O povo fez a bagunçada orquestra sentar e começar a arranhar cordas e resfolegar trompetes e oboés. Por que sublime? É que essas pessoas, indiferentes aos xingamentos dos que as chamam golpistas, coxinhas, lacerdistas, reacionárias, elitistas, e outros adjetivos menos asseados, arregimentam-se para mobilizar as instituições da república. Irrita-se a associação com essa gente de verde e amarelo, rosto exposto e modos civilizados, com lenço e documentos, que não está a serviço de nenhum bandido, seja de que banda ou bando ideológico for. Aliás, como pode alguém indignar-se quando o povo clama às instituições que cumpram seu dever e elas começam a fazer isso?
Zero Hora, 11 de outubro de 2015
Percival Puggina
09/10/2015
Causou polêmica a recente pesquisa sobre o que pensam os brasileiros da frase "Bandido bom é bandido morto". A informação de que 50% concordam com tal afirmação alvoroçou determinados grupos de opinião, especialmente os seletivos defensores de direitos humanos dos criminosos. A frase e os que a ela aderem foram agraciados com vários adjetivos depreciativos: violentos, racistas, vingativos, destituídos de sentimentos de solidariedade e por aí afora. Significativo saber que a frase tem apoio de 44% dos pretos e 48% dos pardos. Também é significativo saber que ela não significa adesão a esquadrões da morte ou a linchamentos. Expressa, apenas, o fato de que a criminalidade saturou a tolerância social. E assim deveria ser entendida pelas autoridades.
Apesar de não conseguir, por profundo antagonismo com minha formação católica, endossar essa opinião, eu quero afirmar que dela não se pode dizer que seja desumana ou irracional. É da natureza humana, perante o medo que lhe impõe o potencial agressor, desejar sua eliminação do mundo dos vivos, seja ele uma fera no mato, seja uma fera na cidade. O medo é um sentimento muito forte para que suas consequências na psicologia social sejam desqualificadas com motivações ideológicas. Tampouco se deve dizer que seja não razoável, irracional. Num país em que ocorrem quase 60 mil homicídios por ano, o número de bandidos mortos é muito menor do que o número das vítimas que produzem. Portanto, aritmeticamente, cada bandido na lista dos mortos gera um número significativo de não vítimas.
Em nosso país, na contramão das expectativas sociais, o presidente do Supremo Tribunal Federal anuncia como grande feito a criação de audiências de custódia que permitirão colocar em liberdade, mediante condições, criminosos presos que, apesar de presos em flagrante, só serão encarcerados após o julgamento definitivo. Para ele é uma iniciativa ótima! E note-se: muitos magistrados, independentemente das novidades aportadas pelo ministro Lewandowsky, já vêm adotando esse procedimento alegando a precariedade do sistema penitenciário.
Disparate? Absurdo? Sim, mas disparate e absurdo ainda maior é o fato de que, em nosso país, os estudos sobre o assunto se detêm no grande número de presos e não no número infinitamente maior de vítimas. Estas são esquecidas sempre que se trata da criminalidade em nosso país. A soltura de criminosos presos em flagrante é algo tão desconexo com o mundo dos fatos que me leva à frase título deste artigo. Será, então, que vítima boa é a vítima morta? É a eliminada, que não dá queixa, que sequer suscita investigação? Por que nossas autoridades, junto com esses intelectuais de meia prateleira e com esses políticos corretores de interesses não reconhecem o estrago feito e nos devolvem o Brasil?
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* Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+.
Percival Puggina
06/10/2015
O pequeno vídeo (4 min.), que pode ser visto aqui com legendas, impressionou-me vivamente. Ele mostra uma jovem, Stacey Duley, apresentadora de TV, visitando sua cidade natal, no interior da Inglaterra. Luton fica a 90 km de Londres e tem uma população 260 mil habitantes. Pequena parcela, pouco menos de 10%, é muçulmana. Durante essa visita, Stacey gravou um programa para a BBC com o título My Hometown Fanatics (Os fanáticos da cidade onde nasci). Nas filmagens que fez e nos depoimentos que colheu, ela registrou um protesto da comunidade muçulmana e interagiu com os manifestantes. O grupo estava contrariado com a prisão de uma senhora cujo marido fora detido como terrorista após explodir uma bomba em Estocolmo. Os manifestantes gritavam bordões mandando ao inferno o Reino Unido e a Polícia Britânica. Em breves entrevistas selecionadas para esse pequeno vídeo, eles lhe dizem que, segundo o Corão, não deviam se submeter a qualquer lei não islâmica, que o primeiro ministro David Cameron não era muçulmano e que todos os não muçulmanos arderiam no inferno. Há muito mais no My Hometown Fanatics, na versão integral, mas sem legendas, (aqui). Entre outras entrevistas e imagens, há afirmações sobre a superioridade da sharia (o Direito islâmico), veem-se muçulmanos distribuindo nas ruas panfletos com condenações à democracia e à liberdade porque tais atributos estariam "destruindo a sociedade inglesa". E há também, obviamente, reações a tudo isso por parte da sociedade local.
Para não ficar preocupado ao assistir esse documentário basta estar desinformado sobre os acontecimentos que se desenrolam com violência interna em praticamente todo o Islã. Basta nada saber das guerras tribais e étnicas e dos conflitos multisseculares entre sunitas e xiitas. Basta não ter a mínima ideia sobre a pluralidade de organizações terroristas com planos para destruir o Ocidente, objetivo político explicitamente desejado e entendido como dever religioso. E note-se: não escrevo apenas sobre fatos recentes. Os fatos recentes são mera continuidade, por outros meios, da jihad iniciada no 7º século, que levou o Islã pela espada a boa parte do globo, e que prosseguiu, ininterruptamente, até os dias de hoje.
O mundo islâmico precisa parar de atribuir ao Ocidente a culpa de seus males. Tem que olhar para seus 1400 anos de conflitos internos e fazer a própria reflexão sobre os motivos de sua estagnação, de sua pobreza e das aflições que se autoimpõe. Todos os bens tecnológicos e materiais que a civilização proporciona ao mundo islâmico procedem do Ocidente porque a cultura do Islã estagnou no século 15. Não é razoável, que um muçulmano encontre na terra onde nasceu motivos tão fortes quanto os necessários para abandoná-la, migrando para países cuja cultura odeia e, depois, pretenda moldar esses países segundo seus próprios e superados padrões. Há algo muito errado nisso aí.
Uma coisa é o acolhimento misericordioso, pelo Ocidente, dos fugitivos das guerras e conflitos étnicos e religiosos; outra, bem diferente, é a abertura imprudente das fronteiras num tempo em que os promotores dessas mesmas guerra e conflitos, no discurso e na prática, hostilizam e atacam o Ocidente com atos terroristas.
A única solução boa para a guerra e suas consequências é a paz. Mas as decisões pacificadoras não podem ser adotadas unilateralmente quando você tem uma porção do Islã que, apesar de minoritária, envolve dezenas de milhões de pessoas, sentindo-se religiosamente comprometida com a extinção dos ditos infiéis. Sob condições tão drásticas e perigosas resulta ingênuo e imprudente o discurso que quer tornar compulsória a acolhida fraterna e generosa de quantos batam às portas do Ocidente. Deveríamos ponderar sobre os motivos pelos quais esse acolhimento não encontra correspondência entre os próprios muçulmanos, cujos países abastados se trancafiaram aos irmãos de fé. Lá não! Pelo viés oposto, em mais de meia centena de países islâmicos, e há muitas décadas, as comunidades cristãs residuais têm sido objeto de perseguição, massacres, taxação por motivo religioso, expropriação e expulsão.
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* Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+.