Alex Pipkin, PhD
Existe coisa pior do que uma sociedade indiferente à corrupção. É uma sociedade resignada a ela. O indiferente não se importa. O resignado se importa, reclama, xinga diante da televisão e, cinco minutos depois, muda de canal. Não porque deixou de distinguir o certo do errado, mas porque aprendeu que sua indignação não altera rigorosamente nada.
O Brasil não aceitou moralmente a corrupção. Fez algo muito mais perigoso. Acostumou-se com ela.
Minha geração conheceu o célebre “rouba, mas faz”, nascido com Adhemar de Barros e depois incorporado ao folclore de Paulo Maluf. Era uma indecência moral embrulhada em pragmatismo. O sujeito roubava, mas entregava alguma obra em troca. Décadas depois, modernizamos o conceito. Agora nem precisamos que faça.
A Lava Jato interrompeu por algum tempo essa tranquila rotina. Empresários confessaram crimes, políticos foram condenados, bilhões foram recuperados e gente acostumada à deferência descobriu a incômoda horizontalidade da lei. Depois vieram as anulações, as reviravoltas e decisões do próprio STF que desmantelaram aquele legado judicial.
Interessantemente, a Justiça britânica acaba de manter o uso de provas da Lava Jato anuladas no Brasil. Para o cidadão ficou uma lição devastadoramente simples. Aqui, até a consequência pode ser desfeita.
Agora temos o escândalo do Banco Master e o contrato de R$ 129 milhões entre o banco e o escritório da esposa de Alexandre de Moraes.
E eis que o STF discute um Código de Ética para tratar, entre outras coisas, de conflitos de interesse. A ironia seria um espetáculo se não fosse constrangedora.
Ética deveria ser pré-requisito para vestir a toga, não curso de reciclagem depois dos escândalos.
Quando a mais alta corte precisa colocar por escrito limites que deveriam morar no constrangimento pessoal de seus integrantes, o problema é muito anterior ao código. É de governança e de caráter.
Começou a campanha eleitoral. Economia e segurança certamente ocuparão palanques, entrevistas e debates.
Quero ver quanto espaço sobrará para a corrupção. Suspeito que pouco. Não porque tenhamos resolvido o problema, evidentemente. Fizemos algo mais extraordinário. Aprendemos a conviver com ele.
A corrupção poderá desaparecer dos debates sem desaparecer do país. E o mais revelador é que pouca gente sentirá falta do assunto.
A engrenagem é quase perfeita. O poderoso perde o medo da punição, a elite institucional perde o pudor e o cidadão perde a esperança.
Depois de repetida muitas vezes, a anormalidade troca de nome. Passa a se chamar normalidade.
Romper isso exige algo bem menos poético que discursos sobre democracia e cidadania. Exige consequência. Lei aplicada com rapidez e previsibilidade, instituições submetidas à mesma régua que impõem aos outros e eleitores dispostos a transformar desvio de conduta em morte política. Educação ajuda, mas nenhuma aula de cidadania consegue competir com o espetáculo cotidiano do crime sem castigo.
A corrupção não precisa convencer uma sociedade de que é aceitável.
Basta convencê-la de que é inevitável.
A impunidade protege o corrupto. A resignação protege a impunidade.
Um país que aprende a dar de ombros acaba ensinando aos poderosos que podem fazer o mesmo.
Fazer o quê? Damos de ombros.