• Francisco Carneiro Júnior
  • 20/08/2026
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O visitante impossível

 

 

Francisco Carneiro Junior

A estranha Agenda Bilateral Brasil-Rússia

 

 

 

 

m homem de setenta e cinco anos, a quem os Estados Unidos proíbem de pisar em seu território e a quem a União Europeia proíbe de pisar no seu, atravessou na terça-feira, 4 de agosto, os portões do Palácio do Planalto e apertou a mão do presidente da República. Não houve nota oficial. Não houve fotografia distribuída pelos canais do governo. Não houve, sequer, o gesto mínimo de fingir que aquilo era notícia. Coube à embaixada da Rússia em Brasília — e não ao Brasil — informar ao mundo que o encontro havia ocorrido. Um país que costuma anunciar reuniões de gabinete com antecedência de agenda decidiu, desta vez, que o silêncio era a melhor política.

O nome do visitante é Nikolai Patrushev. Dirigiu o FSB, herdeiro direto da KGB, entre 1999 e 2008. Hoje é assessor pessoal de Vladimir Putin e preside o Conselho Marítimo da Rússia, o que explica, ainda que não justifique, por que sua passagem pelo Brasil não se resumiu ao aperto de mão: houve agenda paralela no Ministério da Defesa, no Itamaraty, no comando da Marinha — onde se reuniu com o próprio comandante, o almirante Marcos Sampaio Olsson — e no Arsenal de Marinha do Rio, onde se discutiu, entre outros temas, o reator nuclear do submarino Álvaro Alberto e a construção de usinas nucleares de pequeno porte. No mesmo dia, o presidente Lula telefonou a Vladimir Putin. O Kremlin descreveu a conversa como positiva e citou, explicitamente, a intenção de intensificar a cooperação em ciência, tecnologia, energia e na área naval — e, segundo o Kremlin, é bom que se registre a fonte, porque o Planalto não desmentiu, a ligação partiu do lado brasileiro.

Convém não confundir discrição com neutralidade. Um governo que exige protocolo alheio com rigor de cerimonial britânico — que cobra aceite diplomático formal, que aguarda consultas, que se ofende com telefonemas fora de hora — tratou a chegada de um homem sancionado por meio mundo democrático como quem recebe um primo de segundo grau: sem alarde, sem registro, sem satisfação a ninguém. Há quem veja nisso apenas o pragmatismo de sempre. Há quem veja a mão de uma assessoria diplomática cada vez mais permeável às leituras de Pequim e Moscou. As duas hipóteses, goste-se ou não, cabem no mesmo fato: o Itamaraty não quis que este encontro existisse aos olhos do público brasileiro.

Para entender o tamanho do que se calou, é preciso recuar ao dia 9 de agosto de 1999. Naquela manhã, Boris Iéltsin nomeou primeiro-ministro um tenente-coronel da KGB que até então dirigia o FSB: Vladimir Putin. A cadeira que ficou vaga foi ocupada, no mesmo dia, por Nikolai Patrushev. Vinte e seis dias depois, prédios residenciais começaram a explodir de madrugada em Moscou e em outras duas cidades russas. Morreram perto de trezentas pessoas, a maioria dormindo.

Em Ryazan, no dia 22 de setembro daquele ano, um morador viu três pessoas descarregando sacos no porão do prédio onde vivia. Dentro, três sacos de sessenta quilos, um detonador e um temporizador marcado para as cinco e meia da manhã. O teste de campo deu positivo para hexogênio, o mesmo explosivo usado nos atentados anteriores. No dia seguinte, o ministro do Interior russo anunciou publicamente que um atentado havia sido evitado.

Vinte e quatro horas depois, o próprio chefe do FSB desmentiu o próprio ministro, ao vivo, na televisão nacional. Não foi uma explosão frustrada, disse Nikolai Patrushev à emissora NTV. Foi um exercício de treinamento de segurança. Os sacos continham apenas açúcar. A frase existe, está gravada, foi dita por quem depois se tornaria, primeiro, chefe máximo dos serviços secretos russos, e hoje, assessor de confiança de Putin — o mesmo homem que, vinte e sete anos depois, cruzaria sem escolta visível os corredores do Planalto.

Nenhum tribunal jamais julgou a acusação de que o próprio FSB, sob o comando de Patrushev, teria armado aqueles atentados para justificar a guerra que se seguiu na Chechênia e consolidar a ascensão de Putin ao poder. A Duma nunca abriu investigação. É acusação, e continua sendo apenas isso — mas é o tipo de acusação que se mede não pela sentença que nunca veio, e sim pelo destino de quem foi atrás dela.

O deputado que presidia a comissão de cidadãos criada para apurar o caso foi morto a tiros na porta de casa, em 2003. O advogado da comissão, um ex-oficial do próprio FSB, foi preso uma semana antes de uma audiência marcada e condenado por um tribunal fechado. E o livro que primeiro acusou o FSB por aqueles atentados era de Alexander Litvinenko — o mesmo que, em 1º de novembro de 2006, tomaria chá no bar de um hotel em Londres na companhia de dois compatriotas.

Havia polônio-210 no bule. Veneno radioativo sem cor, sem cheiro e sem gosto, que só se produz em reator nuclear. Litvinenko levou vinte e dois dias para morrer. O inquérito público britânico, conduzido pelo juiz Sir Robert Owen, concluiu em janeiro de 2016, no parágrafo 10.16 de seu relatório, que a operação do FSB para matar Litvinenko foi provavelmente aprovada pelo senhor Patrushev e também pelo presidente Putin. Não é insinuação de jornal. É conclusão de tribunal britânico, escrita com a sobriedade fria de quem sabe o peso de cada palavra.

É por isso, e não por capricho burocrático, que Nikolai Patrushev consta da lista de Nacionais Especialmente Designados do Departamento do Tesouro americano, sob dois programas distintos, RUSSIA-EO14024 e UKRAINE-EO13661. É por isso que a União Europeia o sanciona desde 2014. O homem não pode entrar nos Estados Unidos. O homem não pode entrar na União Europeia. O homem entrou no Palácio do Planalto, apertou a mão do presidente da República e foi tratar, entre uma coisa e outra, de reator nuclear de submarino brasileiro.

O contraste não seria tão grave se fosse um deslize isolado. Não é. O Brasil assinou acordos nucleares com a estatal russa Rosatom em maio de 2025, quando Lula viajou a Moscou com a guerra da Ucrânia já em curso havia mais de três anos. Em maio de 2026, o chanceler Celso Amorim disse, de Moscou, que o Brasil não tem que tomar partido na Ucrânia — como se recusar-se a nomear o agressor fosse, em si, um ato de sabedoria diplomática, e não uma escolha com endereço certo. A Rússia é hoje a principal fornecedora do diesel que o Brasil importa. Neutralidade que se sustenta em cima de contrato de energia não é neutralidade: é dependência com sotaque de princípio.

E a aproximação não se limita ao gesto simbólico. Chegue-se ao osso do assunto: poucos dias antes da visita de Patrushev, em reunião ministerial dos BRICS na Índia — país que preside o bloco neste ciclo e sediará a cúpula de líderes em Nova Délhi em setembro —, a delegação russa apresentou aos parceiros, o Brasil entre eles, uma proposta formal de cooperação em drones civis. Falou pela Rússia o vice-ministro da Indústria e Comércio, Alexei Gruzdev: cooperação tecnológica, desenvolvimento conjunto, compartilhamento da experiência russa no uso de veículos aéreos não tripulados em agricultura, monitoramento de dutos, logística. No papel, tudo soa inofensivo. O problema é o que existe debaixo do papel.

A indústria russa de drones virou prioridade de Estado depois de 2021, e em janeiro de 2025 um grande evento setorial fixou a meta oficial: transformar a Rússia numa das lideranças mundiais em sistemas não tripulados até 2030, com dezenas de centros de pesquisa e produção espalhados pelo território. O programa nasceu, na prática, colado ao esforço de guerra — mesmos centros, mesmas linhas de montagem, mesmos engenheiros, e sobretudo as mesmas peças. Num drone pequeno ou médio não existe, fisicamente, diferença alguma entre o componente civil e o componente militar. O motor que gira a hélice de um drone agrícola é o mesmo que gira a hélice de um drone de ataque direto. O controlador eletrônico de velocidade é o mesmo. A unidade de medição inercial, que dá estabilidade de voo à aeronave, é a mesma. O receptor de navegação por satélite, o transmissor de vídeo, a bateria de lítio, a estrutura em fibra de carbono, a câmera de primeira pessoa: tudo é idêntico entre o drone que pulveriza uma lavoura e o drone que mergulha contra um alvo. O que transforma um drone civil em arma não é a engenharia. É a carga que se coloca dentro dele e a intenção de quem o lança — coisa que Rússia e Ucrânia já demonstraram à exaustão, usando drones comerciais comprados de prateleira como plataforma de ataque. Nos sistemas maiores a lógica se repete: os drones de desenho iraniano que a Rússia produz em massa sob nome próprio voam com motores derivados de projetos de aeromodelismo, com microeletrônica comercial e com antenas de navegação montadas a partir de peças de mercado.

Foi por isso que Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido e Japão deixaram de perseguir apenas o drone pronto e passaram a perseguir o componente, fornecedor por fornecedor, país por país. E foi por isso que Moscou precisou construir uma rede de intermediários em terceiros países para continuar comprando o que não pode mais importar direto. É nesse ponto exato que a proposta apresentada na Índia precisa ser lida. A Rússia não está oferecendo tecnologia ao Brasil. Está caçando capacidade industrial em país que ainda não esteja sob controle de exportação ocidental. Um parceiro que monte placas, produza motores, fabrique estruturas em compósito ou apenas revenda componentes eletrônicos sob o rótulo de cooperação civil resolveria, de uma só vez, o gargalo industrial e o gargalo jurídico russos — como já ocorreu, e já custou sanção, a empresas chinesas, turcas e de outros países que serviram ao mesmo papel antes. O Brasil tem indústria de drones de uso agrícola concentrada no centro-oeste. É exatamente esse tipo de empresa que se tornaria alvo natural de uma parceria com a Rússia — e é exatamente esse tipo de empresa que mais sofreria se a coisa desandasse.

O Brasil é membro do Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis desde 1995. Uma empresa brasileira flagrada numa cadeia de fornecimento militar russa não seria apenas multada: viraria candidata a sanção secundária do Tesouro americano, o tipo de sanção que arrasta bancos, seguradoras e fornecedores junto. E como a indústria aeroespacial nacional — com a Embraer à frente, e o programa do KC-390 desenvolvido em parceria com países da OTAN — depende quase inteiramente de componentes e certificações americanas, um único episódio malconduzido nessa fronteira poderia custar mais do que qualquer contrato russo jamais pagaria.

Existe, além do prejuízo material, um custo político — e talvez seja o maior de todos. O Brasil construiu sua posição sobre a guerra da Ucrânia em cima da ideia de neutralidade ativa e mediação, a fórmula que o governo prefere chamar de resolver na mesa de negociação. Aceitar montar peças de drone para o país que invade o território ucraniano derrubaria essa narrativa por inteiro: o Brasil deixaria de ser lido como mediador e passaria a ser lido como fornecedor ativo de componentes para quem ataca. A guerra deixou de ser apenas disputa de exércitos; tornou-se disputa de cadeias produtivas, e quem fabrica mais rápido, mais barato e em maior escala garante o abastecimento de quem está na linha de frente. A Rússia entendeu isso, e faz o que qualquer país em guerra prolongada faz: transforma parceria econômica em infraestrutura militar, sempre com verniz civil por cima, para driblar as próprias sanções.

Nem é preciso especular sobre infraestrutura futura de espionagem: ela já existe em solo brasileiro, e mora sob nome falso — e nome falso, aqui, é só outra forma do mesmo rótulo civil que hoje veste de cooperação agrícola uma proposta de drones. O russo Sergey Cherkasov está preso em Brasília desde 2022, sob acusação de espionagem, aguardando possível extradição — mas viveu no país sob a identidade fabricada de Victor Muller Ferreira, um suposto brasileiro nascido em Niterói. Serviços de inteligência do Brasil, da Holanda e dos Estados Unidos o apontam como agente militar russo treinado, e foi sob essa máscara que ele circulou pelo exterior e quase conseguiu um estágio no Tribunal Penal Internacional, em Haia: o objetivo, segundo as investigações, era acessar informações sensíveis sobre crimes de guerra. Relatou assédio de integrantes do PCC depois que sua identidade real veio a público — um tumulto no pátio do presídio o levou a pedir isolamento, alegando temer pela própria vida —, chegou a fazer greve de fome para recuperar palavras cruzadas e cartas em russo, e reclamou da pouca luz solar na cela. O Ministério da Justiça já determinou sua expulsão do país, com veto de trinta anos para o retorno; a medida, porém, só se cumpre depois de encerrada a pena atual ou mediante autorização judicial. A cena tem algo de didático: o aparelho de inteligência russo tentando driblar até o tribunal que julga crimes de guerra, e cruzando caminho, dentro de um presídio federal brasileiro, com a facção criminosa mais poderosa do país — enquanto o Estado discute, lá fora, se concede ou não o aceite diplomático ao embaixador indicado por Washington. Não é acaso de enredo, é doutrina: o rótulo civil, para o aparelho de inteligência russo, nunca foi fim — foi sempre disfarce, seja num currículo falso, seja numa proposta de drone agrícola.

E foi justamente nesta semana — não em outra, nesta — que o Brasil bateu de frente, ao mesmo tempo, com seus dois maiores parceiros ocidentais. Javier Milei subiu num palanque em São Paulo e chamou Lula de presidiário. O Itamaraty chamou de volta o embaixador brasileiro em Buenos Aires, deixando a embaixada argentina sem representação — a pior crise entre os dois países desde a redemocratização. Do outro lado, Washington taxou quase um quinto de tudo o que o Brasil vende aos americanos; o Brasil respondeu negando visto a dois funcionários do Departamento de Estado que vinham tratar do sistema eleitoral brasileiro; na mesma terça-feira, os Estados Unidos cancelaram o visto da embaixadora brasileira, Maria Luíza Viotti. Some-se a isso os quase setenta dias de espera do Itamaraty para conceder o aceite diplomático a Daniel Perez, o indicado americano para embaixador no Brasil, nomeado em 1º de junho sem consulta prévia ao Itamaraty e ligado a Marco Rubio e à ala mais dura da política americana para a América Latina — atraso que Washington leu, com alguma razão, como hostilidade disfarçada de burocracia.

Nove dias antes da visita de Patrushev, em 26 de julho, Lula conversara mais de uma hora com Xi Jinping. Segundo o comunicado chinês, Xi afirmou que a China apoia o Brasil na defesa de sua soberania e se opõe à interferência externa — fórmula generosa o suficiente para significar qualquer coisa, e específica o bastante para significar apenas uma: ficou combinado acelerar a negociação entre o Mercosul e a China e ampliar parcerias em inteligência artificial, satélites e minerais críticos. Um país que se afasta de Washington e de Buenos Aires na mesma semana em que se aproxima de Pequim e recebe, sem alarde, um homem banido de meio Ocidente democrático não está exercendo soberania. Está trocando de eixo, e chamando a troca de equidistância.

O padrão importa mais que o episódio isolado: os instrumentos de poder russo raramente desaparecem com seus donos, e raramente aparecem fardados — o mesmo desenho que veste de agricultura um drone de ataque se repete, em outro continente, vestido de comércio. O Grupo Wagner foi criado para lutar nas guerras de Moscou, e seus combatentes já foram associados a bombardeios, torturas, execuções e decapitações na Ucrânia, na Síria, no Mali, na Líbia e na própria República Centro-Africana — país onde o fundador do grupo, Yevgeny Prigojin, chegou a posar de mãos dadas com o embaixador centro-africano em solo russo. Quando Prigojin morreu num acidente de avião em 2023, o Ministério da Defesa russo absorveu a maior parte das operações do grupo. Mas cerca de quinhentos combatentes permaneceram na República Centro-Africana, hoje sob o comando de Pavel, filho do fundador.

O negócio deles roda a tramadol, analgésico comum para dor articular que, em doses elevadas, vira estimulante barato conhecido na região como a cocaína dos pobres: mercenários o tomam antes do combate porque elimina o medo e alimenta a agressão. As estruturas que sucederam a Wagner também administram extração de ouro de sangue na República Centro-Africana, no Mali e no Sudão, onde crianças cavam em minas sob controle do grupo e tomam a mesma droga para suportar o calor por horas a fio. Desde 2022, o Kremlin já extraiu ao menos dois bilhões e meio de dólares em ouro africano, usados para ajudar a financiar a guerra contra a Ucrânia. Só com o ouro ilícito, a Wagner fatura cerca de cento e oitenta milhões de dólares por ano; o tramadol soma outra fonte de renda — um carregamento que vale sete mil dólares na República Centro-Africana chega a valer vinte e um mil no Camarões vizinho.

Esse dinheiro compra armas, e as armas matam gente inocente em outros países. Em fevereiro de 2025, uma milícia ligada à Wagner matou cerca de cento e trinta pastores perto da fronteira com o Camarões, uma das piores atrocidades já registradas na região; as mortes ligadas a disputas por áreas de mineração cresceram quase vinte por cento no último ano, para cerca de quinhentas. A República Centro-Africana é o país onde a Wagner foi mais poderosa, resume Charles Bouëssel, analista sênior para a África Central de um centro internacional de estudos sobre crises; os ativos econômicos do grupo, incluindo os interesses em mineração de ouro, permanecem intactos, e a Rússia administra a situação evitando confronto aberto. Pesquisadores de uma iniciativa internacional dedicada ao crime organizado transnacional já classificam a República Centro-Africana como o principal reduto africano do grupo, hoje capaz de controlar território, coordenar outras milícias e ampliar influência onde quer que se instale. O ouro sai da mina como comércio, não como munição — mas financia munição do mesmo jeito que uma peça de drone agrícola financiaria, se fosse preciso, um rotor de ataque. É a mesma arquitetura da proposta apresentada na Índia: vestir de comércio, de agricultura, de cooperação civil, o que na ponta sustenta e mata em nome da guerra.

O aparelho sobrevive ao chefe; muda de nome, muda de produto, muda de continente, mantém a lógica. É a mesma lógica, em escala diplomática, que levou um homem formado nos porões do FSB a se tornar, décadas depois, negociador de reator nuclear e de cooperação tecnológica em nome de um país que se apresenta como potência emergente e pacífica.

Não se trata de demonizar toda relação com Moscou, nem de fingir que o mundo se divide, com nitidez de manual escolar, entre vilões e mocinhos. Trata-se de outra coisa, mais modesta e mais grave: soberania não é apenas o direito de escolher os próprios convidados. É a disciplina de saber, e de deixar que a nação saiba, o que se arrisca cada vez que a porta se abre sem cerimônia para quem o resto do mundo democrático trancou por decreto. O Brasil escolheu não saber, ou escolheu não contar. As duas opções, no fim, dão no mesmo lugar.

Ficou célebre a frase de Patrushev sobre os sacos de Ryazan: não havia explosão frustrada, havia apenas açúcar. Vinte e sete anos depois, o mesmo homem tomou chá de cortesia num país que jura neutralidade. Da próxima vez que alguém garantir, em Brasília, que não há nada a temer no que se serve à mesa, valeria perguntar, com a ironia que a história já pagou caro para ensinar: açúcar, ou alguma outra coisa sem cor, sem cheiro, sem gosto?