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O "FASCISMO' SEM TIRAR NEM PÔR

por Irineu Berestinas. Artigo publicado em



Segundo Norberto Bobbio (filósofo político, historiador do pensamento político, escritor e senador vitalício italiano), o fascismo se contrapôs à democracia porque realça que a violência era a sua ideologia, e, por isso, a exaltação da guerra foi uma de suas características mais constantes, e assinala que Mussolini via na democracia representativa e no seu antibelicismo a mediocridade de uma vida cotidiana cerceadora de uma ação voltada para a criação de uma “nova ordem".

Dia desses, um amigo me abordou e fez indagações a respeito do significado do termo "fascista", com a pretensão de ter as suas dúvidas esclarecidas sobre a propriedade ou não acerca do seu uso frequente.

Formulei a resposta como alguém que tem devoção às Ciências Sociais, especialmente à Ciência Política, e, desse modo, o dever me impôs a necessidade de buscar a essência dos fatos, sem tirar nem pôr. Excluir, deliberadamente, as artimanhas, afinal de contas, a ciência não pode estar a serviço de ideologias...

Vamos à resposta. O termo "fascista" é desalojado, com frequência, dos seus aposentos naturais para servir a propósitos políticos outros, com o claro objetivo de pôr fecho à discussão, sem nenhum esforço qualitativo.

Antes de tudo é conveniente dizer que a "retórica", assunto dos sofistas, da Grécia Antiga, difundia a arte de preparar o aluno para vencer o debate, nada a ver, entretanto, com a preocupação sistemática de buscar a verdade, tanto quanto engendrado por Sócrates e Platão, que eram pregoeiros da discussão como um meio apropriado de chegar até ela. Assuntos da Grécia Antiga, fonte inesgotável de sabedoria e de aprendizagem, é bom dizer! Aqui, entre nós, as armas não são os argumentos, mas sim os rótulos, símbolos e chavões, num assumido oportunismo, acoplado da pobreza mental que o acompanha, pois normalmente é produto das manadas sem nenhum espírito crítico sobre o que está fazendo (aprendeu na escola, na universidade...) Assim, não existe debate, mas apenas terror e medo a ser esparramado... Despejam símbolos, como se estivessem saindo embriagados da adega: fascista, direitista, reacionários, e por aí afora. Sem contar que nesses senhores a pecha "extremista" é sacada exaustivamente (sobre isso cabem alguns comentários pedagógicos: extremista é aquele que age fora da lei, ou seja, quer fazer triunfar as suas "ideias" à margem das leis e das instituições, normalmente por meio da violência e do terror).

Na verdade, tirante esse casuísmo e despindo-o das suas pragmáticas fantasias, é apropriado dizer que o "fascismo" foi um sistema político dotado de ideias rígidas e pontuais, cuja geometria percorreu o seguinte traçado: monopólio da representação política, com o objetivo de arbitrar os interesses das classes sociais; forte presença estatal na economia; mediação entre os interesses trabalhistas e patronais; apego acentuado à industrialização; desprezo ao liberalismo econômico e à existência de livres mercados; uma ideologia política em expansão que pretendia ser emprestada a outras nações, de modo a exceder as fronteiras nacionais; as suas ações incursionaram pela militarização da política. Em síntese, os seus postulados são uma visível transgressão, tanto ao cenário ideológico revolucionário da luta de classes, da esquerda, quanto aos da direita liberal, a qual abomina a presença estatal na economia, pois prega o laissez-faire, assunto do célebre economista Adam Smith, um clássico das letras econômicas e precursor teórico do capitalismo.

De quebra, podemos incluir o regime nazista, de Adolf Hitler, o nacional socialismo nessa formulação, o qual, conjugou preconceitos raciais (a raça ariana tinha desígnios superiores a todas as outras) e ações de governo que se aproximavam visivelmente das ideias fascistas, considerado o elevado grau de intervenção na economia que Hitler empreendeu no seu famigerado período. Nunca é demais dizer que esse genocida teve uma trajetória de ódio aos judeus (hoje muita repetida, por setores políticos que vivem clamando, pasmem, pelos direitos humanos...), eslavos e ciganos, por razões que não cabem discorrer aqui neste breve relato.

Já Benito Mussolini, primeiro-ministro da Itália Monárquica, nas décadas de 20 a 40 do século passado, simbolizou e sintetizou as ideias fascistas aqui relatadas, com intensidade e pioneirismo, aplicando-as no exercício do seu período ministerial.

Aqui nas plagas latino-americanas, os governos que mais se aproximaram dessas engrenagens foram o de Juan Domingo Perón, na Argentina, e de Getúlio Vargas no Brasil, ambos do século passado, com viés fortemente intervencionista na economia, mediação dos conflitos sociais e trabalhistas e autoritarismo na política. Já na quadra dos nossos dias, os governos de Lula e Dilma foram os que mais se aproximaram das ideias fascistas: forte presença estatal na economia; empresários escolhidos pelo BNDES para ser os campeões nacionais; distribuição de favores fiscais a certos setores; aliciamento sindical e das ONGS, etc. Já, por sua vez, a Líbia de Muammar al-Gaddafi, um estatólatra de carteirinha poderia, perfeitamente, ser enquadrada como apóstolo de Benito Mussolini, tranquilamente, sem incorrer em desarmonia histórica.

Donde podemos dizer: deixemos o "fascismo" descansar em seu jazigo histórico e que, no Juízo Final, possa ser julgado pelos seus "feitos", sem receber a semântica deformante e oportunista dos dias de hoje...

 

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