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A CHINA E A HERANÇA DE DENG XIAOPING

por Irineu Berestinas. Artigo publicado em

 

A China de Mao-Tsé-Tung e da Revolução Cultural já não é mais a mesma (a Revolução Cultural foi um aprofundamento da luta de classes em seu território, sob a liderança de Mao, e quem dela discordasse teria que acertar as contas com o ‘Grande Timoneiro’).

Mudanças históricas, porém, foram perpetradas a partir da morte do “camarada” Mao (1893-1976) e da consequente chegada de Deng Xiaoping ao poder (1904-1997), pois o espírito pragmático deste se chocava com os dogmas daquele.

No período da Revolução Cultural, empreendida por Mao, Deng e seus companheiros foram punidos e despojados das funções que exerciam no partido comunista e obrigados a desfilar em praça pública com cartazes nada edificantes: “Bandido capitalista nº 2” e “bandido nº 1”. O primeiro deferido a Deng, e o segundo a Lio Shao Shi, então Presidente da República Popular, que morreu na prisão resgatando as contas das ideias que professava. Tempos de chumbo! Reinado da ortodoxia, do purismo ideológico, que reduziu ainda mais a já insuficiente quantidade de proteínas, gorduras e calorias consumidas pelos chineses... Em vez de pão, aprofundamento ideológico, promovido pela Revolução Cultural...

Com a chegada de Deng Xiaoping, é edificado o mantra: “Não importa a cor do gato, o que importa é que cace os ratos”. Desse modo, organizou ações em direção a uma China com dois sistemas: um capitalista e o outro comunista. Zonas costeiras foram liberadas para o capitalismo (depois estendeu-se essa liberação por todo o continente). E empresários egressos do exterior, ávidos por aumentar o seu faturamento, aportaram para acudir aqueles setores que o governo indicou, excetuados os bancos, o câmbio, as fontes energéticas e as terras. Alguns setores de bens de capital viriam a ser liberados mais adiante, desde que houvesse a transferência de tecnologia para os chineses.

Quem diria que esse País, sob a égide do regime comunista e do manto marxista, iria azucrinar o mundo ocidental com os seus produtos de consumo, impondo sucessivos déficits nas contas correntes dos americanos, por exemplo. E, ainda mais, hoje os chineses são compradores de jazidas de minério de ferro, bem como de terras agricultáveis. Certamente, a intenção é influenciar nos preços dessas commodities, pela manipulação do mercado.

Como a China está conseguindo tudo isso? Com abertura econômica, que atrai capitais e tecnologias; com rígido controle cambial, ao promover forte desvalorização da sua moeda, para facilitar as exportações; com uma carga tributária reduzida; com encargos trabalhistas que estão muito aquém dos exigidos no mundo ocidental; com baixos salários. Na área trabalhista, ainda são incipientes decisões arbitradas para resolver conflitos. A Previdência Social fica por conta da poupança que cada trabalhador deve empreender por si mesmo.

E a coesão social, em que estágio se encontra? Até aqui as ideias de Confúcio, que apregoam a harmonia social e o respeito às autoridades, têm dado a sua contribuição, a despeito da revolta dos estudantes em Tiananmen (a Praça Celestial), ocorrida em 1989, que Deng Xiaoping não vacilou em conter, com os seus tanques dissuasivos?

É elementar: qualquer país com moeda desvalorizada corre o risco de ver os seus ativos depreciados, adquiridos por estrangeiros (prédios, terras, jazidas, ações, etc.). Regra que não se aplica à China, que liberou, basicamente, a sua economia para indústrias produtoras de bens manufaturados. Nas de bens de capital, pontualmente foi admitida a presença do capital estrangeiro, desde que haja a transferência de tecnologia para os chineses.

Toda essa situação foi facilitada, em 1972, pela mudança geopolítica promovida pelo então presidente norte-americano Richard Nixon e por seu chanceler Henry Kissinger, do lado americano; e por Mao Tsé-Tung e ZhouEnlai, pelo lado chinês. A diplomacia, por esses acertos, selou a convivência pacífica entre os dois sistemas antagônicos. Deng XiaoPing, mais adiante, aproveitou-se desses fatos e avançou enormemente, não que tivesse deixado de ser comunista, mas apenas pretendia trazer conhecimentos do Ocidente para consolidar ainda mais o regime idealizado por Karl Marx... se bem que, na esteira dessas ações, é despertado o olho gordo do povo chinês para o capitalismo, que facilita a produção de riquezas e de bens de consumo em abundância, capazes de atender às necessidades do enorme contingente populacional da China.

Donde se pode dizer: o futuro a Deus pertence! A sabedoria popular socorre-me neste momento derradeiro da escrita...


*Bacharel em Ciências Sociais e escritor
 

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