Percival Puggina
29/09/2025
Percival Puggina
Como se constrói uma “narrativa” ao gosto de quem a queira, usando fatos reais? Conto, aqui, o que aprendi sobre a tal “trama golpista” enquanto revia fotos de 2012 tomadas durante longa viagem pelo interior da França. Naquele ano, ao planejar nossas férias, minha mulher e eu concluímos que a melhor essência daquele país estava em suas pequenas cidades medievais. Identifiquei haver 70 cidades nessa categoria e precisei escolher 25. Solução: descartei todas que não cabiam no meu roteiro. Bingo! A constatação esclareceu um ponto muito importante sobre a trama que teria eclodido em 8 de janeiro de 2023.
Organizei, então, uma lista com os principais acontecimentos políticos brasileiros no período entre 1º de janeiro de 2019 e aquela fatídica data (governo Bolsonaro e primeiros 8 dias do governo Lula). Ficou fácil perceber algo muito interessante sobre a narrativa oficial da “Abolição violenta do Estado Democrático de Direito e Golpe de Estado”:
dos inúmeros acontecimentos e tensões políticas do período, os autores da narrativa escolheram os que convinham e descartaram os que não convinham!
Ou seja, com integral apoio da velha imprensa, selecionaram apenas fatos relacionados à direita e ao bolsonarismo. Sequer mencionam a existência do STF, do TSE e de seus ministros!
Tudo se passa como esse poder de Estado, que se assumiu como político e desenvolveu intenso protagonismo, se mantivesse passivo em seu devido lugar de estar, sem ativismo e sem “excepcionalidades” típicas de um regime de exceção.
Para ilustrar, ao final deste artigo, mostro uma lista de acontecimentos relevantes do mencionado período, buscados no Google, Wikipedia e ChatGPT. Uma lista completa seria ainda muito mais extensa.
É interessante perceber que do mesmo modo, pelo viés oposto, excluindo-se da mesma lista de fatos o bolsonarismo e a direita, tem-se a nítida formação de um regime de exceção sob comando do STF. Não por acaso, a partir do 8 de janeiro de 2023, ele apenas ganhou força e o Congresso nada mais decide sem, antes, pedir bênçãos ao Supremo... Tanto uma narrativa quanto a outra peca por excluir as interações e as motivações recíprocas das forças políticas em choque. Pense nisso. Também por isso a anistia é indispensável.
Fatos relevantes do período 2019-2022
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
21/09/2025
Percival Puggina
Manhã de 18 de setembro. Exultante, o ativismo das redações liberava, para entrega, notícia fresquinha como fruta de feira: Hugo Motta confiara o posto de relator da PEC da Anistia à integridade moral do Paulinho da Força. Horas depois, este informava que levaria ao plenário da Câmara um texto previamente submetido ao proverbial zelo humanitário do STF.
Fiquei pensando na maldade de quem acenara esperança a tantos brasileiros. Havia mais de dois anos, por ação de uns poucos, o que era para ser protesto contra o passado recente e o futuro previsível descambou para atos de vandalismo. Pronto! Para padecimento de uns e alegria de outros, o que poderia ser resolvido de um jeito pela primeira instância judicial, absorvido pela Primeira Turma do STF e tratado com uma frieza de arrepiar pinguins, virou instrumento da política e travou o relógio da história. De lá para cá, o episódio ocupa o epicentro de um terremoto político, judicial e institucional com reflexos internacionais.
O destino do grupo de manifestantes em 8 de janeiro de 2023 caíra em mãos que, lhes imputaram, indistintamente, um pacote pronto de crimes impraticáveis por aquele grupo. A exemplo de milhões de brasileiros, habituados à liberdade e à democracia, manifestavam-se contra o futuro previsível e a sanha liberticida por vir. E ela veio, arrastando o eixo do poder para o formidável e sem precedentes protagonismo político do STF.
Desde então, no peito e na voz de milhões de brasileiros arde um clamor por justiça que só pode ser mitigado pela Anistia. O recente e minucioso voto do ministro Fux, em boa parte, refletiu esse sentimento. No entanto, em virtude do deslocamento do eixo do poder político para o STF, tendo o fígado razões que a Razão desconhece, conteúdos legislativos de natureza política, como a Anistia, só são tolerados se previamente abençoados pelo Supremo.
Em recente artigo, o amigo santa-mariense Valdemar Munaro, professor de Filosofia, explicou aquela votação com base na crítica que vem fazendo em sucessivos textos, ao idealismo de Hegel: “Se o ministro Fux refletiu sobre o que viu, os demais ministros, refletiram sobre o que pensaram. No primeiro caso, a realidade dos fatos orientou o pensamento, no segundo, o pensamento orientou os fatos da realidade”. E nasceu a tão reiterada “narrativa”.
A essa perspicaz observação pode-se acrescentar, também, com a mesma base de observação, que vivemos no Brasil uma distopia real e uma utopia fajuta: a primeira reflete a opressão política pelas mãos da maioria da Corte; a segunda explica o modo grandiloquente como a Corte fala sobre o que vem fazendo.
Raciocínio semelhante nos leva, por fim, ao caso Tagliaferro. Se o STF, o governo e o Consórcio Goebbels de Comunicação não pensam sobre Tagliaferro, tampouco suas denúncias cabem no âmbito das coisas pensáveis... Não, não são sequer descartadas; elas, simplesmente, não existem. Putz!
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras
Percival Puggina
18/09/2025
Percival Puggina
O ambiente político brasileiro está irrespirável! E não foi o polo da direita que deu causa ao fenômeno, já comum a todo o Ocidente. A forte polarização se impôs por justíssima causa quando o extremismo esquerdista, de corpo inteiro, passou a arremeter contra os valores da civilização.
Entre as vítimas, está a juventude submetida à ditadura ideológica nas salas de aula e à tirania da informação que carrega os estigmas da submissão aos “editores da nação”. A primeira faz o que temos visto, em dimensão prática, no comportamento de matilha dos novos cidadãos; a segunda se permite escrutinar, no cardápio dos fatos diários, com a conveniente harmonização facial, a notícia que pode chegar ao conhecimento do povo.
De um lado, você tem:
a) organizações empresariais e instituições públicas dedicadas a uma suposta autenticação dos fatos mediante fact-check;
b) o silêncio submisso ante escancarada lawfare (a lei como arma da guerra ao inimigo);
c) a sumária adoção da cancel culture (cultura de cancelamento), significando o expurgo de toda divergência, promovido pela esquerda sempre que majoritária;
d) a tolerância ao discurso de ódio que diz combater o hate speech (discurso de ódio) alheio;
e) a normalização dos vazamentos possibilitados por fishing expeditions (pescaria probatória);
f) a distribuição de rótulos como os de fake news, misinformation, e informational disorder.
Em língua inglesa, juntas, essas expressões importadas pela esquerda exprimem conceitos e condutas que, em muitos casos, corrompem a aplicação do Direito, a política e o convívio social. Sinto muito, rapaziada, não foram vocês das “ciências humanas” em nossas universidades que inventaram essas práticas. É dos primeiros anos do século passado, tempo de seus tataravôs, que lhes vem os exemplos de cancelamento, desumanização da divergência, pensamento único, estado opressor e jornalismo submisso proporcionados pelos comunistas no contexto da Revolução Russa. Ponto. Sempre acompanhados do Gulag. Ou da Papuda.
De outro lado, para confrontar e criticar o desastre de um jornalismo cujo símbolo é o Consórcio Goebbels de Comunicação, milhões se valem dos novos canais viabilizados pelas redes sociais e pelas modernas tecnologias. São iniciativas brilhantes, que alcançam fantástico sucesso pelo simples fato de corresponderem ao desejo da sociedade por uma informação livre, plural e destemida.
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
12/09/2025
Percival Puggina
Seria um exagero dizer que fiquei escandalizado com a agressão ao Dr. Jeffrey Chiquini na Faculdade de Direito da UFPR. Tais cenas são cada vez mais comuns. O jovem advogado alcançou rapidamente o patamar das figuras intoleráveis aos ambientes acadêmicos que os coletivos juvenis, sempre pela esquerda, constroem à sua imagem e semelhança. Para saber o quanto esses jovens são “progressistas”, basta vê-los e, em muitos casos, observar a ruína dos espaços sob seu domínio. A civilização leva um tombo a cada geração dessa turma.
Há que ser justo na avaliação. Antes de começarem a desumanizar seus desafetos para justificar tudo que contra eles fazem, os jovens desses coletivos desumanizam a si mesmos... Como na fábula do boneco de sal que quis conhecer o mar, sua natureza como pessoa é dissipada no coletivo porque essa é a natureza dos coletivos. Eles sentenciam de morte as individualidades e, com ela, se vão: a) a efetiva natureza do ser humano, b) um atributo vital de sua dignidade e c) o fundamento de seus direitos.
É nesse leito do manicômio humano que nascem os totalitarismos. A negação de tais direitos moveu o dedo do sniper que matou Charlie Kirk e foi ela que comandou o show de estupidez no prédio histórico da UFPR e na praça Santos Andrade da progressista e moderna capital do Paraná. Aliás, que o digam os alijados e amargurados pais daqueles rapazes e moças.
Pelo mal que representa para cada um deles e para a sociedade, eu não naturalizo o processo de desumanização a que foram submetidos e do qual aparentam ser o produto acabado. Certa feita, observando uma anterior geração de jovens naquela aparência de zumbis raivosos, me perguntei se seria razoável afirmar que ficaram assim por conta própria. Seriam eles produtos de um profundo processo de reflexão pessoal sobre temas essenciais da existência humana? Teriam ficado assim, queimando pestanas diante de bons livros de sã filosofia? Concluí que havia mais jeito de terem ficado assim queimando baseados... Eles não saberiam sequer iniciar uma operação mental que processasse tais reflexões.
Isso significa afirmar algo grave: alguém fez isso com eles, contra eles, de caso pensado. O processo mental lhes foi posto e imposto. Os jovens capturados para o coletivo, ignorantes e intolerantes ante o saber superior, pagarão com alto custo existencial a destruição de suas mentes por ideias corrosivas de neurônios. As cenas, dentro e fora da UFPR, falaram por si. Foi uma cena de estupidez “multitudinária”.
Caiu-me, então, a ficha. Onde estariam os autores daquele desastre da universidade como instituição da universalidade e do conhecimento plural? Onde estariam os desumanizadores daqueles alunos? De hábito, longe da cena. Pergunto: por que não se expõem, habitualmente, ao mesmo ridículo, os gestores, os mestres, os doutores velhacos? Por que não se unem, solidários, aos jovens e tristes frutos de sua velhacaria política e ideológica?
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
11/09/2025
Percival Puggina
Na mesma proporção e frequência com que estelionatários do mundo do crime investem diariamente sobre milhões de brasileiros, estelionatários da política agem tentando nos convencer sobre quanto há de certo no erro, de bem no mal e de verdade na mentira.
Na política, uma narrativa justaposta a cada fato ou uma interpretação enganosa para cada acontecimento realiza esse mesmo feito. Sempre há uma organização pretendendo enganá-lo, manipulando a informação que você recebe. Aqueles que hoje sofismam, retorcem, torturam e ocultam a verdade têm mestres que viveram na antiguidade clássica e desenvolveram a arte da retórica como técnica da persuasão útil a picaretas da internet e a políticos inescrupulosos. Tais artes são usadas inclusive por quem faz política sem voto na mídia, no ambiente cultural, nas salas de aula e nas instituições do Estado.
Quem consegue exercer, imune a qualquer controle, um poder do tipo “todos devem obediência incondicional ao que mandamos” jamais abre mão desse poder. Aquele ou aqueles que o tenham conseguido se tornam, eles mesmos, por motivos de segurança, mais e mais dependentes do poder de que dispõem. Por isso, regimes de exceção não se transformam para melhor, mas para pior. Não são experimentos de curto prazo. Valem-se das manhas da retórica para iludir as massas e aprofundar o controle social.
Exemplifico: o que diz, hoje, a retórica do regime em nosso país? Diz que defende nossa “soberania” enquanto o Brasil é levado para a não desejada integração aos inimigos do Ocidente, à Legião do Mal, que reúne todos os ditadores do inferno totalitário, visíveis em recente evento militar chinês.
A garbosa defesa da soberania é o gato vendido como lebre; é o equivalente político do telefonema criminoso aplicando um golpe, é a honra nacional anunciada a baixo custo para conquistar a vítima. Fosse anúncio honesto, diria que a opção brasileira não é escolher entre Brasil e EUA, mas escolher, para o Brasil, o bloco do Ocidente, com EUA e União Europeia em vez de unir nosso país aos inimigos do Ocidente, com China, Rússia, Irã e demais povos submetidos à Legião do Mal. Infelizmente, essa última é a desastrada escolha que o regime está fazendo para preservar a si mesmo mediante terríveis custos para a nação.
O regime fez uma opção que o “aqueça neste inverno e tudo mais vá pro inferno”.
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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08/09/2025
Percival Puggina
Alguns meios de comunicação que se deixaram aparelhar e instrumentalizar tomam por amiga ou amante, companheira ou camarada, qualquer autoridade ou poder que de algum modo antagonize as redes sociais. O desconforto em relação a elas se explica: a) há muito mais talento no artesanato das redes do que na indústria da informação; b) os anunciantes já perceberam a tendência e migram parte importante de seus recursos para onde tem ido o público: c) um dos nichos mais bem sucedidos nesse mercado é o dos correspondentes de guerra que reportam a beligerância da velha mídia com os fatos. É uma guerra assimétrica, muitos fatos têm ido a óbito e há brasileiros refugiados no exterior por relatarem ocorrências sepultadas.
Exemplo totalmente em curso é proporcionado pela atitude dos veículos do “Consórcio Goebbels” de Comunicação, em relação ao mais recente personagem na cena do regime instalado no Brasil. Os profissionais do consórcio preferem olhar a paisagem além da janela cada vez que lhes aparece pela frente o senhor Eduardo Tagliaferro. Vivem dilemas shakespeareanos. Ser ou não ser? Ver ou não ver? Saber ou não saber? Preferem entrar em negação, na expectativa de que seu reino de papel e seus cavalos não lhes sumam sob os pés.
Flutuando, então, algumas polegadas acima da superfície dos fatos, os membros do “consórcio” têm referido a existência de uma crise institucional causada pela direita golpista e bolsonarista. Sério? O regime está em crise? Pergunto isso porque até o momento em que escrevo estas linhas, não há no horizonte sinais de insegurança na estrutura que sustenta o poder instalado no Brasil. Ela é bem simples: a maioria do STF manda, o governo aplaude e a maioria da representação política no Congresso obedece por sensibilidade natural aos impactos da mão pesada do Estado. Manda quem pode e obedece quem precisa. A linguagem popular dá outro nome, mas todos entenderão se eu disser que trato aqui de um ponto da anatomia frágil ao medo.
As denúncias se empilham, graves, gravíssimas. Nas redes sociais, quem não fala de pets nem de cuidados de saúde que substituam remédios de uso contínuo, não fala de outra coisa. Hoje, 6 de janeiro, a mídia do Consórcio rasga manchete a esta trepidante matéria: o ministro relator da ação penal do 8 de janeiro pediu um dia a mais para o julgamento. Uau! Um calafrio percorre a coluna vertical da oposição.
Você percebeu, leitor, a palavra que eu usei? Eu escrevi “oposição”! Para o consórcio, a existência de algo com esse nome já é porteira aberta à crise institucional. Em regimes como o vigente no Brasil, oposição, de direita, fazendo seu trabalho, caracteriza “crise institucional”. No século XX, apenas julgamentos coletivos, gulags e covas rasas foram sido mais eficientes para demarcar um regime tirânico do que a recusa a uma oposição.
Considere, por fim, que um “regime” não pode abdicar nem renunciar. O exercício do poder gera a necessidade de perpetuá-lo para a segurança de seus titulares. Há que planejar o futuro. O poder é parte interessada nas decisões que o próprio poder toma. Eis por que já se fala em “anistia sem Bolsonaro”. Capici?
Esqueceram-se de Franklin Martins! Antes das redes sociais, ele inspirou o projeto petista de “controle social da mídia” para acabar com as críticas da imprensa tradicional aos governos de Lula e Dilma entre 2003 e 2016. Essa mesma mídia que hoje lhes afofa os fatos foi alvo de tentativas petistas de lhe colocar freios e não percebe o quanto esse feitiço que hoje aplaude pode regurgitar da panela dos feiticeiros.
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
03/09/2025
Percival Puggina
Iniciou o julgamento politicamente mais importante deste século no Brasil. Sua importância vem da magnitude dos crimes? Não. Vem da solidez da narrativa que os descreve? Não. Vem da exuberância e veemência das provas? Não. Vem da esmerada condução processual? Não. Vem de sua necessidade para o momento histórico nacional? Não, três vezes não. Bem ao contrário. O processo caminha para seu final acompanhado por denúncias de violações de direitos humanos, de ter instituído o direito penal do inimigo e assim tratado os réus, antecipando julgamentos, construindo versões e imagens em consonância com o viés político assumido pela Corte ao longo dos últimos 14 anos.
Um ambiente soturno rondou essa ação penal. Houve, inclusive, momentos de Família Adams, nos quais o Tribunal agia como se não tomasse conhecimento da opinião pública, mas falando a ela sem parar, impondo uma narrativa e sugerindo culpas antes mesmo de estar a investigação conclusa e de ter a PGR oferecido a denúncia. Advogados dos réus relatam obstáculos processuais que a tudo faziam penoso, inacessível, em meio à obscuridade de perguntas incômodas ficarem sem resposta. Aliás, ignoradas ficaram, também, as denúncias das Vaza Togas que ganharam novo capítulo em recente sessão da CSP do Senado Federal.
O Brasil e o mundo sabem que os manés perderão e tudo sugere que seu principal líder será condenado à mais extravagante das penas.
Arrisco aqui minha opinião sobre o que se pode esperar das futuras páginas dessa história já redigida nas linhas enigmáticas das artimanhas juspolíticas. Quem exerce com tamanha facilidade um poder descomunal vai ficar por aí, parar tão longe do fim? Nunca houve poder assim! 11 ministros em suas togas impuseram-se aos demais entes do Estado e sobre a nação. Como? Transformando o que era um poder sob a Constituição, num poder sobre a Constituição, atributo que ela não concede a qualquer dos poderes que institui. Transformaram a Carta de 1988 numa caixa de ferramentas de valor privativo e uso reservado. Nessa nova ortodoxia, ninguém pretenda lê-la e interpretá-la. Parece ser conteúdo de uso exclusivo da Corte. Há meses avisaram que derrubarão a anistia...
Daí meu receio: aqueles que realizarem feito de tais proporções, nas circunstâncias do tempo presente, desfilarão atrás das fanfarras da vitória. Poderão, inclusive, arrastar 213 milhões de brasileiros para um completo desvio de rota. Poderão levá-los a companhias que não guardam relação amistosa com a democracia nem com os direitos dos cidadãos. Tal menção, aliás, foi proibida na eleição de 2022, lembram?
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
31/08/2025
Percival Puggina
Recebi e-mail de uma estudante que ingressou recentemente em universidade federal. Desejava adquirir um livro de minha autoria e explicava o motivo: precisava munir-se de conhecimentos e argumentos para enfrentar todos os professores e mais de quatro dezenas de colegas. Somente ela e um rapaz não eram de esquerda e já sofriam o fenômeno conhecido como “cancelamento”. Na sequência, relatou uma série de fatos observados que mostram a atividade acadêmica transformada em artilharia pesada da guerra cultural, usada como arma para militância política à custa da sociedade, com o cancelamento funcionando como necessária forma de censura. Infelizmente, a universalidade da universidade ou é de extrema esquerda ou é de extrema esquerda.
Disse à minha leitora que eu não ia lhe vender um exemplar do livro que pretendia. Iria enviar-lhe de presente dois exemplares para que ela presenteasse seu colega “dissidente” com o outro. Aconselhei-a, também, a adquirir os dois exemplares do recente lançamento da editora Avis Rara com título “Thomas Sowel Essencial” – estes sim, pela pluralidade de temas, livros essenciais para a situação em que ambos se encontravam.
No silêncio do meu pequeno gabinete fiquei pensando no significado daquela informação, tão coincidente com tantas outras: alunos egressos do ensino médio chegando à universidade nessas condições e lhes sendo oferecido, ali, em doses acadêmicas, muito mais do mesmo. O produto final só pode ser uma anencefalia com diploma, eleitora de Lula, descerebrado padrão, quebrando o país e o arrastando, sem autorização de ninguém, para as piores companhias disponíveis no mercado das tiranias.
A radical burrice acadêmica é mais nociva que o analfabetismo porque o analfabeto tem pequeno círculo de influência e sua natureza não foi violentada pela mentira sofisticada e pela ética de conveniência que domina a conduta dos radicais e seus “cancelamentos”. Em suas limitações, o analfabeto aprende da vida e esta costuma ensinar as regras básicas do viver, o bem e o mal, o certo e o errado, não por acaso as primeiras vítimas das oficinas de mentira e ilusão em que a esquerda vai transformando a cadeia produtiva da Educação em todo o Ocidente.
Dessas oficinas provêm, sem exceção, os controladores da opinião alheia, os inibidores da divergência, os fanáticos pela censura, os democratas do pensamento único, os economistas inimigos da austeridade fiscal, os historiadores de antolhos, os militantes do toco de giz e do toco de ideias, e claro, os tiranos só por um tempo...
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
31/08/2025
Percival Puggina
Governos petistas não têm o hábito de levar a sério imposições da razão. Entende-se. Grupos políticos de extrema esquerda são pouco racionais. Embora digam defender a ciência, rejeitam as mais elementares lições da Economia, Antropologia, Sociologia, Política, etc. O critério ideológico é determinante, até mesmo, da escolha do jardineiro e dos ingredientes gastronômicos. Girassóis da Rússia. Camarões de esquerda. Lagostas trotskistas. Pato de Pequim. E, claro, conselheiros chineses.
Por vezes, o que um extremista de esquerda diz corresponde ao que algumas pessoas desejam, mas o que ele faz, nunca encaixa no que disse. Eis a trágica marcha rumo às grandes burradas, como as que nos trouxeram às atuais dificuldades, e provocam a doentia ansiedade de controlar as opiniões e seu trânsito no corpo social.
Depois de 2011, como consequência das sucessivas eleições de petistas para a presidência da República, a esquerda radical nunca teve menos de seis representantes entre os 11 ministros do Supremo. Com a adesão de ministros indicados por outros governos, como Gilmar Mendes (por FHC) e Alexandre de Moraes (por Michel Temer) chega-se à atualidade, quando a minoria conta com apenas dois e eventualmente com três dos 11 votos.
Era inevitável que o STF, pela maioria de seus membros, atravessasse a linha vermelha. O petismo não brinca com ideologia nem com o que possa afetar seu acesso e permanência no poder. Assim, com ares missionários, cobrando silêncio e submissão do rebanho, o STF se tornou uma esponja de prerrogativas, drenando-as do Parlamento, espaço legítimo da representação popular.
O advento das redes sociais pôs fim a um tempo em que essa maioria “era feliz e não sabia”, para dizer como o ministro Luís Roberto Barroso, hoje visivelmente infeliz, desejoso de ir embora. De fato, as redes sociais acabaram com a intermediação da opinião pública pelas grandes emissoras e grandes jornais. Como ela passou a se expressar de modo vigoroso pelas vozes próprias dos cidadãos em proporções que se revelaram decisivas na eleição de 2018, para elas confluiu parte expressiva das verbas publicitárias.
Selou-se assim um compromisso dos “editores da nação” no STF com os editores da velha mídia, repetindo juntos, à moda Goebbels, sem cessar, narrativas à margem dos fatos. Os editores da nação usam e abusam da intimidação proporcionada por mandados de busca e apreensão, celulares escrutinados, bloqueios de contas, supressão de direitos; muita gente pra prender e multa pra aplicar. Os editores da velha mídia agem como trombonistas da banda oficial, controlando música e letra à vontade dos donos. Fora isso, restam as redes sociais, porque tudo mais, no Brasil de hoje, é apenas paisagem. Com a verdade já decidida pelo Estado, quem precisa da opinião pública?
Ao observar pela primeira vez uma decisão ser tomada pelo STF em frontal antagonismo com teor explícito da Constituição, sob silêncio do Congresso e da mídia, redigi este prefácio do futuro em artigo publicado por Zero Hora.
“Foi escancarada a porta para o totalitarismo jurídico. Passou o bezerrinho. Atrás vem a boiada. Doravante, se um projeto de lei não tiver guarida no Congresso, recorra-se ao Supremo. Sempre haverá um princípio constitucional para ser espremido no pau-de-arara das vontades presentes.”
Corria o ano de 2011. Quanto eu quis estar errado!
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