• Alex Pipkin, PhD
  • 17 Abril 2026

Alex Pipkin, PhD


        Há uma verdade incômoda, atribuída a Margaret Thatcher, que funciona como epitáfio de nações desorganizadas; o dinheiro alheio acaba.

Não é provocação; é constatação. O colapso não nasce da falta de boas intenções, mas de um erro elementar sobre a origem da riqueza.

No debate público, insiste-se em apontar o imposto como causa. Não é; o imposto é consequência.

A distorção começa antes, no impulso contínuo de expandir o gasto público como se o recurso fosse impessoal, desvinculado do esforço, do risco e da decisão de quem produz.

O erro se aprofunda quando o Estado passa a tratar o capital privado como um estoque disponível para promessas políticas. Ao ampliar benefícios e distribuir subsídios sem critério de eficácia, desloca-se o eixo da responsabilidade de uma forma perversa.

Quem produz torna-se financiador involuntário de uma ineficiência que não escolheu.

Não se discute a necessidade de amparar quem precisa. O ponto de ruptura está no limite. O que deveria ser suporte transitório consolida-se como estrutura permanente. A exceção, no Brasil, foi elevada à regra. O instrumento de proteção social deixa de corrigir falhas e passa a organizar o sistema.

Dessa escolha emerge uma física econômica que não concede indulgência. O gasto excessivo exige mais arrecadação; a voracidade fiscal sufoca o investimento; a retração do capital drena a base de geração de riqueza e a escassez resultante alimenta novas demandas por gasto.

É um ciclo que consome o chassi para alimentar o motor.

Enquanto a economia real suporta o peso de tributos que alteram decisões e comprimem ambições, a resposta institucional repete o mesmo caminho, preservando privilégios e evitando enfrentar o núcleo do problema. Procrastinar é um dos esportes verde-amarelos favoritos.

Disciplina fiscal não é preferência de economistas; é condição de sobrevivência de qualquer sociedade que pretenda ser livre. Gastar além da capacidade não produz justiça social; corrói as bases que a tornariam possível.

O Brasil não enfrenta um problema de compreensão técnica. Enfrenta um problema de escolha deliberada, confortável e reiterada.

Impostos podem até ser inevitáveis, mas a recusa em aceitar limites é a conta que nunca perdoa.

Resta saber até quando o brasileiro aceitará o destino de Sísifo, aquele de carregar o peso de um Estado que consome o amanhã para custear os erros de ontem.

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  • Dagoberto Lima Godoy
  • 13 Abril 2026

 

 

 

Dagoberto Lima Godoy

 

              A política externa do governo Lula já não pode ser apresentada apenas como busca de autonomia. Ela revela, de forma cada vez mais clara, uma escolha ideológica: afastar o Brasil de seu eixo histórico de aproximação com os Estados Unidos e aproximá-lo do campo que contesta a primazia ocidental, tanto na política quanto na economia.

Sob o rótulo de “neoliberalismo”, o governo investe contra a livre iniciativa, a centralidade do mercado e a ordem econômica liderada pelo Ocidente. Em sentido oposto, exalta a multipolaridade, o BRICS e mecanismos destinados a reduzir o peso do dólar e das instituições internacionais moldadas pelos países ocidentais. Não se trata de acaso diplomático, mas de convicção. Lula já afirmou, no BRICS, que “o modelo neoliberal aprofunda as desigualdades” e, no Foro de São Paulo, disse orgulhar-se de ser chamado de “comunista” ou “socialista”.

Essa orientação também se manifesta na forma desigual como o governo trata seus parceiros. O capital chinês é recebido como instrumento de um projeto: multipolaridade, soberania tecnológica, financiamento alternativo, redução da dependência do Ocidente. O capital americano, ao contrário, costuma ser cercado de reservas, suspeitas e condicionantes políticos. A China é exaltada como parceira estratégica; os Estados Unidos, tratados como potência hegemônica a ser contida ou contrabalançada.

O governo celebrou investimentos chineses em cerimônias de alto nível, firmou amplos pacotes de cooperação e aprofundou instrumentos financeiros sensíveis. Já no trato com Washington, predominam a linguagem defensiva, os atritos políticos e a negociação sob tensão. Mesmo quando há cooperação objetiva, como no combate ao crime organizado, ela aparece menos como parceria de confiança do que como expediente funcional

O mesmo viés se revelou na reação brasileira ao conflito entre EUA, Israel e Irã. O governo condenou os ataques americanos e israelenses, insistiu em que ocorreram em meio a negociações e tratou a diplomacia como única via legítima. Embora tenha mencionado a resposta iraniana, a censura política mais forte recaiu sobre a ação dos EUA e de Israel, não sobre o regime dos aiatolás. A pretensa neutralidade, nesse caso, soou menos como prudência do que como inclinação.

O que está em curso, portanto, é um reposicionamento ideológico do Brasil, sem mandato claro da sociedade para tanto. O país vai sendo empurrado para mais perto do campo antiamericano e para mais longe do universo liberal-democrático e da economia de mercado que, com todas as suas imperfeições, moldaram sua inserção histórica no Ocidente.

O pragmatismo tradicional da diplomacia brasileira ainda impede uma ruptura aberta, mas já não conduz a política externa; apenas lhe contém os excessos. A direção de fundo parece nítida: na estratégia lulopetista, a ideologia vem primeiro; a realidade entra depois, para impor limites.

Se o Brasil não declarou formalmente que mudou de lado, seu governo age, cada vez mais, como se já tivesse mudado.

E o Congresso? Assiste a tudo de longe, como se a geopolítica não lhe dissesse respeito. Já a vontade de grande parte do povo brasileiro vai sendo ignorada, embora seja sobre ele que recairão, amanhã, as consequências de uma escolha desastrada.

*           O autor, Dagoberto Lima Godoy, é engenheiro civil

 

 

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  • Claudio Apolinario
  • 12 Abril 2026

 

 

Claudio Apolinario

           Mais de 3.300 estudos científicos analisaram a relação entre fé e saúde ao longo de um século. O Handbook of Religion and Health, publicado pela Oxford University Press, chegou a uma conclusão que regimes autoritários já sabiam: quem pratica fé ativamente é mais difícil de manipular.

Menor depressão. Menor risco de suicídio. Maior resistência sob pressão.

Isso não é religião. É pesquisa. Não estou falando de crença. Estou falando de dados.

Passei anos acompanhando homens em crise. E vi o mesmo padrão se repetir: quando a fé era real, a pessoa não se entregava, mesmo depois que tudo desmoronava. A fé impedia o desmoronamento.

Mas tem uma forma de esvaziar a fé sem atacá-la. Regimes inteligentes não a proíbem visivelmente. Até falam de religião. O que fazem é mais sutil: anestesiam. Deixam a fé existir só como conforto, nunca como estrutura. E quando a fé dorme, os valores dormem junto.

O que parece inofensivo, na prática é devastador.

É por isso que regimes preferem uma fé de amuleto. De enfeite. Porque enfeite não organiza resistência. A fé que estrutura civilizações não espera o colapso para entrar em cena. Ela organiza a vida antes que o colapso aconteça. É a diferença entre quem reforça o telhado antes da tempestade e quem corre atrás de balde quando já está tudo molhado.

A ciência demorou para entender isso. Durante boa parte do século XX, a fé foi tratada como coisa de gente que não pensa. Os dados, porém, foram na direção oposta — e foram consistentes o suficiente para mobilizar pesquisadores de Duke (uma das principais universidades médicas dos Estados Unidos por mais de duas décadas).

O que eles encontraram é direto.

Quem vive a fé de verdade desenvolve propósito — um senso de significado que ultrapassa o próprio umbigo. Quando a vida tem sentido além de si mesmo, suportamos mais. Cedemos menos. Decidimos com mais firmeza.

David DeSteno, psicólogo da Northeastern University, demonstrou em pesquisa controlada que gratidão reduz a disposição das pessoas de mentir mesmo quando há vantagem imediata em jogo. O mecanismo é direto: gratidão cria uma âncora moral por dentro. Quem reconhece que recebeu algo não consegue trapacear para ganhar mais sem um custo interno. A fé alimenta exatamente esse estado — e por isso forma pessoas mais difíceis de corromper.

Junto com isso vem o limite. A fé vivida comunica que existem linhas que não podem ser cruzadas. Não porque a lei proíbe. Não porque alguém está olhando. Porque há um código anterior a qualquer norma e posterior a qualquer conveniência. Um homem que sabe o que não fará — independente do que ganhe ou perca — é muito difícil de comprar.

Depois vem a responsabilidade. A fé cristã não produz passividade. Produz dever. A lógica de que cada um responde pelo que fez com o que recebeu é incompatível com a terceirização de culpa que alimenta o populismo. Quem foi formado assim não transfere para o Estado o que é sua responsabilidade.

E por último, comunidade. Redes religiosas criam vínculos de lealdade que resistem à manipulação do poder. Não têm um ponto único de controle. Por isso incomodam tanto quem quer controlar tudo.

Propósito. Limite. Responsabilidade. Comunidade. São o que permite que uma família se sustente sob pressão, que um pai permaneça quando seria mais fácil ir embora, que um profissional ou funcionário público recuse o suborno quando seria mais rentável aceitar.

Agora você entende por que regimes de dominação sempre atacam a fé primeiro?

Não é superstição. É estratégia.

Entre 1917 e 1935, 130.000 sacerdotes foram presos na União Soviética. Noventa e cinco mil foram executados. Na China de Mao Tse-tung, templos foram demolidos sistematicamente. O objetivo nunca foi religioso. Foi sempre político.

Porque a fé que forma caráter não se submete facilmente.

Fé que cria comunidade não tem dono. E o que não tem dono não se confisca.

Fé que ensina responsabilidade não terceiriza suas convicções para o Estado.

Isso incomoda o poder. Sempre incomodou.

A fé não é o lugar onde os fracos se escondem. É o lugar onde os firmes se formam.

*       O autor, Claudio Apolinario, é articulista e analista político.

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  • Dartagnan da Silva Zanela
  • 10 Abril 2026

 

Dartagnan da Silva Zanela

           No mundo atual, há uma grande valorização daquilo que se convencionou chamar de "opinião própria"; e, se esta for qualificada como sendo uma "opinião crítica", aí a sua cotação vai para as alturas. Porém, como muitas outras coisas que abundam no mundo contemporâneo, essa supervalorização da posse de uma "opinião" é apenas mais um trem fuçado de valor duvidoso. Só isso, e olhe lá.

Pessoalmente falando, não dou importância nenhuma para a opinião de ninguém, muito menos para as minhas, pois toda opinião é apenas uma impressão imprecisa a respeito de algo ou de alguém e, como tal, é apenas uma geringonça de pouca valia. De mais a mais, se tivermos nossas vistas invadidas pela luz de uma verdade, o que faremos? Ficaremos agarrados à nossa opinião criticamente furada ou a deixaremos de lado para abraçar a verdade que nos foi revelada por uma determinada circunstância da vida? Bem, foi o que eu imaginei.

Infelizmente, tratamos as nossas opiniões como se fossem bichinhos de estimação e, ao fazermos isso, terminamos por colocá-las muito acima da verdade. Agindo deste modo, sem nos darmos conta, acabamos nos colocando no lugar de Deus, posando, em nossa vida, como se fôssemos Bruce Nolan, personagem interpretado por Jim Carrey no filme Todo Poderoso (2003) — figura que, por algum tempo, passa a ocupar o lugar de Deus e, ocupando o lugar do Altíssimo, terminou metendo os pés pelas mãos.

Aliás, falando em "todo poderoso", lembremos da Sexta-Feira Santa, onde vemos a multidão clamar, em alto e bom som, pela libertação de Barrabás e, na sequência, bradar a plenos pulmões para que o Nazareno fosse crucificado. Aí temos a multidão colocando-se acima de Deus, crendo que a sua opinião sobre tudo era superior à Verdade que se fez carne e que estava diante de suas vistas. Resumindo: um bando de "todos-poderosos" colocando-se acima do bem e do mal, condenando o Sumo Bem como se fosse todo o mal.

E assim somos nós, muitas e muitas vezes, em nosso dia a dia, em nossas decisões comezinhas e escolhas mesquinhas. Se somos daqueles que creem que tudo é relativo, é bem provável que, por conta disso — e sem nos darmos conta — terminemos por agir como se as nossas opiniões fossem incontestáveis. Não é à toa, nem por acaso, que tantas pessoas promovam campanhas de cancelamento aqui e acolá e, ainda por cima, sejam capazes de posar como baluartes da democracia; afinal, se tudo é relativo, apenas o nosso ego narcisicamente inchado é absoluto, não é mesmo?

Por essas e outras a verdade é tão levianamente assassinada por nós; por essas e outras trocamos tão facilmente de opinião sem ao menos refletir, um cadinho que seja, a respeito do que estamos fazendo.

Mas, afinal de contas, o que é a verdade? Bem, essa é a pergunta que foi feita por Pilatos ao Verbo Divino encarnado, estando com o seu coração dividido entre a pressão da opinião da turba, a ordem do Império Romano e a sua vaidade. E, mesmo tendo a Verdade diante de suas ventas, ele foi incapaz de reconhecê-la e, por isso, acabou lavando as mãos do sangue inocente que foi derramado.

Há quem diga que ele passou o resto de sua vida lavando compulsivamente as mãos, dizendo que elas estavam, o tempo todo, sujas de sangue.

Enfim, que tenhamos a coragem que Pilatos não teve; que tenhamos a humildade que as multidões não têm e, principalmente, a fortaleza necessária para abandonarmos as nossas opiniões quando estas forem silenciosamente tratoradas pela verdade — para que nossa mente e coração sejam iluminados por ela, renovando o nosso olhar e fazendo nova toda a nossa vida.

*      O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS", entre outros livros.

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 09 Abril 2026

 

Gilberto Simões Pires

OBEDIÊNCIA À CARTILHA DO FORO DE SÃO PAULO

Mais do que sabido, percebido e lamentado, em todas as vezes que presidiu o Brasil o presidente LULA se mostrou OBEDIENTE com tudo que manda e/ou propõe a CARTILHA DO -FORO DE SÃO PAULO-, ORGANIZAÇÃO COMUNISTA que reúne mais de 100 partidos e organizações de esquerda, criada em 1990 a partir de um seminário internacional promovido pelo Partido dos Trabalhadores e pelo Partido Comunista de Cuba (leia-se Fidel Castro).

ENDIVIDAMENTO

Pois, entre tantas propostas e mudanças que já foram colocadas em prática, a maioria delas sempre teve como PRINCÍPIO, MEIO E FIM a indisfarçável -DESTRUÍÇÃO ECONÔMICA-. E neste particular o que mais salta aos olhos é o -EXCESSIVO ENDIVIDAMENTO-, tanto GOVERNAMENTAL quanto da POPULAÇÃO, cujo efeito supera -em número e grau- todas as malignas expectativas. 

DÍVIDA DAS FAMÍLIAS E DÍVIDA PÚBLICA

Por partes:

1- a DÍVIDA DAS FAMÍLIAS, segundo a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (CNC) bateu recorde no mês de março ao atingir a destruidora marca de 80,4%. Deste total 29,6% estão IINADIMPLENTES, ou seja, com PARCELAS EM ATRASO e com pouquíssimas chances de reversão e/ou redução;

2- a DÍVIDA PÚBLICA DO BRASIL, segundo dados recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI), atingiu a significativa marca de 90% do PIB. Detalhe: o avanço não está relacionado ao DESENVOLVIMENTO, mas ao AUMENTO CRIMINOSO DOS GASTOS PÚBLICO NOS ÚLTIMOS ANOS, mais precisamente no atual governo Lula.

EFEITO ÓBVIO

A título de esclarecimento, a ATUAL DÍVIDA DAS FAMÍLIAS faz , obviamente, com que o CONSUMO DESACELERE, o que implica em ÓBVIO RECUO NA PRODUÇÃO DE PRODUTOS E SERVIÇOS, assim como DIMINUIÇÃO DA OFERTA DE CRÉDITO POR PARTE DO SISTEMA FINANCEIRO. Aliás, o Banco Central já admite uma redução do crescimento do PIB para este ano, que já apontava para míseros 1,6%. Mais: segundo a CNI, caso venha a ser aprovado o fim da ESCALA 6 X 1, aí o Brasil vai acelerar ainda mais no sentido da DESTRUIÇÃO ECONÔMICA desejada por Lula. 

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  • Dagoberto Lima Godoy
  • 07 Abril 2026

 

 

Dagoberto Lima Godoy

           A explosão da dívida dos Estados Unidos é um sintoma de desgaste estrutural. A dívida americana já ronda os US$ 39 trilhões, acima de 120% do PIB, segundo o FMI. Isso não significa colapso iminente do sistema americano, mas indica que o coração financeiro do mundo já não transmite a mesma sensação de solidez inquestionável de outrora. Tampouco significa o desaparecimento súbito da ordem anterior. O que se vê é a erosão simultânea de vários de seus pilares: a supremacia incontestada do dólar, a neutralidade das cadeias globais, a abundância de energia barata e a ideia de que a globalização havia domesticado a guerra.

A ordem mundial não está apenas se reordenando por planilhas, tarifas e algoritmos; está sendo redesenhada também pelo uso da força. A guerra da Rússia contra a Ucrânia demonstra quanto energia, alimentos e logística continuam sendo armas estratégicas, assim como o confronto militar direto dos Estados Unidos contra o Irã projeta forte impacto potencial sobre petróleo, seguros, fretes e estabilidade regional.

Mas a transformação mais profunda decorre do fato de a economia digital ter-se tornado brutalmente material. A escalada da inteligência artificial está empurrando para cima a demanda por eletricidade, refrigeração, cobre, lítio, grafite, terras raras e capacidade firme de geração. A demanda por minerais críticos segue crescendo e permanece fortemente concentrada, sobretudo no refino controlado pela China.

Nesse cenário, o Brasil ganha relevo. Não por ser potência militar ou líder em inteligência artificial, mas por deter um conjunto de ativos que o novo ciclo histórico valoriza crescentemente: energia limpa, alimentos, água, território e minerais críticos, como lítio, grafite, níquel, cobre, nióbio e terras raras. Num mundo que passa a girar em torno de infraestrutura energética, transição industrial e segurança de suprimentos, isso confere ao Brasil um peso que parece ainda não ter sido inteiramente percebido por sua própria elite dirigente.

Nesse quadro, os BRICS ensaiam, não uma substituição frontal do dólar, como Lula por vezes sugere, mas uma erosão prática de sua centralidade, por meio de sistemas de pagamento e cooperação financeira colocados no centro da agenda do bloco. Pelas manifestações oficiais, o Brasil parece inclinar-se para esse polo alternativo, embora essa opção estratégica não tenha sido efetivamente discutida no Congresso Nacional.

O governo Lula parece acreditar que a aproximação com os BRICS amplia a margem de manobra diplomática, abre espaço para financiamento, cooperação tecnológica seletiva, pagamentos em moedas locais, quando convenientes, e maior poder de barganha diante do sistema tradicional. Isso pode elevar o valor estratégico de nossos ativos materiais — energia, agropecuária e minerais. Mas há três ilusões que o país precisa evitar.

A primeira é imaginar que os BRICS já constituam uma ordem coesa. Não constituem. O bloco reúne interesses frequentemente divergentes, ritmos distintos e visões estratégicas por vezes incompatíveis.

A segunda é supor que China e Rússia sejam parceiros neutros ou desinteressados. Não são. Toda potência opera segundo seus próprios objetivos nacionais.

A terceira é crer que o Brasil possa reduzir rapidamente sua dependência funcional da ordem financeira baseada no dólar. Também não pode. O dólar continua central porque ainda não existe outro sistema com a mesma profundidade, liquidez e capacidade de absorver poupança global.

Por isso, a aposta correta do Brasil não é “trocar de lado”. É usar a reestruturação do mundo para ampliar sua autonomia, sem romper com nenhum polo essencial, muito menos com seus históricos parceiros ocidentais.

Afinal, o mundo não vive exatamente um reset econômico. Vive uma sacudida, um reordenamento. E, em tempos assim, os países que prosperam não são necessariamente os mais ideológicos, mas os que sabem ocupar posições indispensáveis. O Brasil pode ser um deles, mas só acertará se compreender que sua vocação não é ser satélite de uma ordem nem soldado de outra, e sim procurar ser necessário para ambas.

*           O autor, Dagoberto Lima Godoy, é engenheiro civil

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