Alex Pipkin, PhD
Toda sociedade é, em silêncio, organizada por uma escolha vital. Ouve-se os que descrevem o mundo ou se confia naqueles que o sustentam.
De um lado estão os engenheiros do discurso, mestres da interpretação, hábeis em nomear injustiças, rápidos em distribuir responsabilidades e sempre prontos a oferecer soluções cuja execução quase nunca repousará sobre seus próprios ombros. Do outro estão os construtores da realidade, menos visíveis, porém indispensáveis. São os homens e mulheres que assumem riscos concretos para que a vida coletiva continue a avançar factualmente.
A distância entre esses dois grupos não é somente ideológica, é uma distância de experiência concreta.
Os que mais falam em defesa dos trabalhadores quase nunca carregaram a responsabilidade de garantir o trabalho de alguém. Nunca olharam uma folha de pagamento como quem encara um compromisso moral inadiável. Nunca atravessaram a noite revendo cálculos para assegurar que, ao amanhecer, uma empresa permaneceria aberta.
Existe uma verdade simples, incômoda e pragmática: é impossível proteger aquilo que você nunca teve de sustentar.
Forjados, em grande medida, em estruturas protegidas, tais como sindicatos, aparelhos partidários, burocracias estáveis, muitos intérpretes “progressistas” da economia acostumaram-se a enxergar o setor produtivo como uma abstração resistente, sempre capaz de absorver mais encargos, mais regulações, mais intervenções.
Mas empresas não são abstrações. São organismos vivos mantidos por um equilíbrio exigente, onde decisões mal calibradas não apenas comprimem resultados. Essas suspendem contratações, estreitam horizontes e, por vezes, eliminam futuros antes mesmo que tenham a chance de começar.
Gerar riqueza está entre as tarefas mais difíceis da experiência humana. Não é um exercício de linguagem, mas um pacto permanente com a realidade.
Só compreende uma economia viva quem já decidiu antes da certeza, quem já contratou antes do conforto, quem já avançou quando recuar parecia mais sensato. São aqueles que, de fato, correm riscos, arriscando a própria pele.
Empreender é aceitar viver sem corrimão.
Talvez por isso seja tão fácil falar em opressão e desigualdade. Mas o difícil é compreender a arquitetura do progresso. O progresso raramente faz barulho. Ele se ergue no silêncio das responsabilidades assumidas por aqueles que entenderam que prosperidade não se anuncia, constrói-se.
Convém lembrar uma verdade antiga, frequentemente ignorada nessa “res pública” verde-amarela. A maior política social já concebida chama-se crescimento econômico. Quando ele é vigoroso, o trabalho deixa de ser escasso, a renda ganha densidade e a autonomia deixa de ser promessa para se tornar destino.
Nenhum discurso produz esse fenômeno.
O risco começa quando aqueles sem intimidade com o mundo produtivo passam a desenhar os limites de quem o sustenta. Ao tentar proteger, sufocam. Ao buscar justiça imediata, comprometem o amanhã. Penaliza-se o risco. Suspeita-se do lucro, como se prosperar fosse uma falha moral, e não a evidência de que algo valioso foi criado.
Instala-se, então, um dos paradoxos mais destrutivos de uma economia, passando-se a “defender” o trabalhador enquanto se estreita o espaço para que o trabalho exista.
No fundo, há apenas duas maneiras de encarar a prosperidade. A primeira acredita na força organizadora das palavras, da retórica bom-mocista. A segunda confia na coragem de quem constrói mesmo quando o terreno ainda é incerto e repleto de riscos.
Sociedades não começam a empobrecer quando lhes faltam recursos.
Começam a empobrecer quando passam a ouvir mais os intérpretes do mundo do que aqueles que aceitam o risco de carregá-lo.
Porque economias não avançam pela eloquência.
Avançam pela coragem, a de sustentá-las, de carregá-las quando o peso aumenta, de cair e se levantar sempre que a realidade cobra seu preço.
Toda a vez que o discurso tenta substituir a experiência, não é apenas o crescimento que perde força.
Não, é a própria liberdade de prosperar que, quase sempre em silêncio, começa a ficar lejos atrás.
Ao cabo, a pergunta que permanece é singela: você quer apenas explicar o mundo, ou ter a coragem de sustentá-lo?
Gilberto Simões Pires
TRISTE REALIDADE
Mais do que sabido, pouquíssimas pessoas compreendem e/ou se interessam por -notícias, comentários e opiniões- sobre o que acontece no complicado ambiente econômico do nosso empobrecido Brasil. Some-se aí o fato -marcante- de que a maioria dos jornalistas escalados para cobrir o noticiário econômico confunde -sistematicamente- CAUSA com EFEITO, o que resulta em desinteresse e/ou desconhecimento ainda maior.
OTIMISMO SEM CAUSA
Pois, enquanto milhões de brasileiros EMBALADOS PELO -OTIMISMO- acreditam piamente que combatendo os EFEITOS as CAUSAS DESAPARECEM, aqueles que, COM BASE REAL E CONSCIENTE, veem o crescimento de ADVERSIDADES INCONTESTÁVEIS, que implicam em BAIXO CRESCIMENTO ECONÔMICO, acabam sendo criticados e/ou rotulados como PESSIMISTAS, do tipo que não merecem ser ouvidos, lidos ou assistidos.
PARTICIPAÇÃO NO PIB MUNDIAL
Dentro desse clima de desinteresse motivado pelo -PREGUIÇOSO OTIMISMO SEM CAUSA-, pouquíssimos brasileiros são capazes de entender que o BRASIL TEM PERDIDO PARTICIPAÇÃO NA ECONOMIA MUNDIAL NAS ÚLTIMAS DÉCADAS, segundo informaram, com farta base numérica, alguns especialistas que foram consultados pelo CNN MONEY, onde TODOS apontam que -ENTRAVES FISCAIS, BAIXA PRODUTIVIDADE E O ELEVADO CUSTO DO ESTADO- AJUDAM A EXPLICAR POR QUE O PAÍS VEM ENCOLHENDO NO PIB GLOBAL.
BAIXA PRODUTIVIDADE DO TRABALHO
FATO: segundo dados do BANCO MUNDIAL, entre os anos 1980 e 1990, a -PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA NO PIB MUNDIAL- saiu de 2,96% para mais de 3,5%. Nos anos seguintes, o indicador praticamente não avançou, oscilando entre 3,2% e 3,4%. Entretanto, em 2023, a FATIA DO BRASIL NO PIB GLOBAL DESPENCOU PARA 2,08%.
Um dos principais fatores por trás desse desempenho é a BAIXA PRODUTIVIDADE DO TRABALHO. Segundo Lucas Ferraz, ex-secretário de Comércio Exterior do governo, o BRASIL CORRE O RISCO DE VER A RENDA PER CAPITA ESTAGNAR OU ATÉ RECUAR SE NÃO CONSEGUIR PRODUZIR MAIS COM A MESMA FORÇA DE TRABALHO.
A CAUSA É O ESTADO
Na real, a despeito do que pensam os OTIMISTAS, o ESTADO É IMENSO E CAUSA UMA DISTORÇÃO TRIBUTÁRIA ENORME. Se uma EMPRESA QUER CRESCER, PAGA MUITO IMPOSTO E FICA DIFÍCIL ABSORVER MELHOR TECNOLOGIA, diz Fabio Kanczuk, diretor de Macroeconomia do ASA e ex-diretor do Banco Central. Mais: a AGENDA FISCAL PESA DEMASIADAMENTE SOBRE O DESEMPENHO ECONÔMICO. A ampliação de BENEFÍCIOS SOCIAIS, O CUSTO DO SISTEMA PREVIDENCIÁRIO E O PESO DOS JUROS estão entre os fatores que elevam os GASTOS FEDERAIS, PRESSIONAM A DÍVIDA E MANTÉM OS JUROS EM PATAMAR ELEVADO, O QUE DESESTIMULA INVESTIMENTO E REDUZ A COMPETITIVIDADE DO PAÍS.
Esse ciclo ajuda a explicar por que outras economias avançaram mais rapidamente. Nos últimos 25 anos, a CHINA viu seu PIB crescer 518%. Países como Vietnã, Índia e Bangladesh registraram expansão superior a 200% no mesmo período. Até o Cazaquistão, entre os últimos do grupo, teve crescimento de 183%.
ABISMO
O que mais impressiona é que o presidente LULA ainda quer acabar -rapidamente- com a ESCALA 6 X 1, mantendo os salários intactos. Com isso, certamente, o BRASIL VAI CORRER AINDA MAIS RÁPIDO EM DIREÇÃO AO ABISMO. Que tal?
Dartagnan da Silva Zanela
Diante dos dilemas que a vida nos apresenta, podemos reagir de inúmeras maneiras, dependendo do nosso temperamento, da disposição do nosso espírito, da nossa força de vontade e, é claro, dos valores que norteiam a nossa caminhada por esse mundão de meu Deus. Mas penso que podemos agrupar todas as reações humanas possíveis e pensáveis diante dos perrengues em três tipos de atitude, as quais poderíamos chamar de: ativa, passiva e alternativa. Pouco importa qual seja o quadro; esses são os três balaios nos quais, penso eu, podemos reunir as diversas formas de conduta diante dos entreveros que pintam em nosso caminho.
Para explicar as três atitudes possíveis frente à vida, convido o amigo leitor a imaginar-se em uma canoa, navegando no remanso de um rio qualquer e, lá pelas tantas, eis que as águas mudam de temperamento, tornando-se uma corredeira. Para a nossa infelicidade, temos nossa vista invadida pela imagem borbulhante de uma cachoeira que, de forma inclemente, quer porque quer nos engolir. Imaginou? Beleza, então vem comigo para o próximo parágrafo.
Diante dessa situação, podemos, furiosamente, remar contra a correnteza e contra toda a desesperança para evitarmos a tragédia que se apresenta como inevitável. Bem, esse é um exemplo de atitude ativa. Se não somos daqueles que gostam de lutar batalhas perdidas, podemos então, estoicamente — ou não —, deitar calmamente no fundo da canoa, cruzar os braços sobre o peito e deixar que as águas nos levem para muito além do reino das Águas Claras, abraçando assim o nosso destino. Essa, por óbvio e por certo, seria a atitude passiva.
Por fim, teríamos a atitude alternativa. Lá está o caboclo em sua canoa, diante da cachoeira e, ao invés de lutar pela vida até o último suspiro ou de abraçar sem temor a ferocidade do seu destino, ele fica em pé na canoa e, furiosamente, começa a xingar a força das águas, os céus, tudo e todos, como se tal atitude tivesse algum valor.
Quando voltamos nossas vistas para os desafios que vicejam no mundo contemporâneo e paramos para refletir um cadinho a respeito das inúmeras incertezas que nos assombram — e sobre as muitas certezas aterradoras que nos circundam —, brota em alguns momentos em nosso peito um sentimento de impotência e desesperança. E é bem aí que o trem desanda, tal qual na cena hipotética da canoa que é tragada pela cachoeira, porque a realidade exige uma resposta de nós e, para ser sincero, espero que a sua, amigo leitor, não seja uma resposta alternativa. Até mais.
* O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "O SEPULCRO CAIADO", entre outros livros.
Claudio Apolinario
Como a esquerda transformou a educação em doutrinação — e quando percebemos o estrago estava feito.
Durante décadas, o Brasil assistiu à transformação metódica de escolas em células de doutrinação. A esquerda chama isso de "democratização do ensino". Eu chamo pelo óbvio: aparelhamento ideológico.
Gramsci ensinou que revolução não se faz com fuzis, mas com livros didáticos. Ele entendeu que a conquista do poder passa pela conquista da cultura. Controlar escolas e universidades significa controlar o imaginário das próximas gerações. É guerra de posicionamento, não de movimento.
No Brasil, essa estratégia foi aplicada com precisão cirúrgica. O Ministério da Educação foi aparelhado e virou laboratório gramsciano. Nos governos de esquerda, as nomeações políticas substituíram critérios técnicos. O conteúdo curricular passou por filtro ideológico. Professores viraram agentes de transformação social — máscara retórica elegante para militantes de sala de aula.
O cavalo de Troia perfeito foi a pedagogia de Paulo Freire. Sob o pretexto de "educação libertadora", introduziu-se a ideia de que todo conhecimento é político e que o professor deve "conscientizar" o aluno — eufemismo para doutrinação marxista. Freire virou patrono da educação brasileira por lei federal em 2012. Não por acaso, a educação brasileira é um desastre absoluto.
A ironia é brutal: enquanto países asiáticos focavam em matemática, ciências e conteúdo objetivo, o Brasil abraçou pedagogias construtivistas que priorizavam "consciência crítica" sobre conhecimento factual. As consequências são claras: gerações inteiras que decoram slogans de esquerda, mas não sabem interpretar um texto. Sabem protestar, mas não sabem pensar.
O resultado? O país que celebra esse método como gênio pedagógico ocupa as últimas posições em leitura e matemática no PISA 2022, entre 81 países avaliados. Mas para a esquerda, isso não é falha — é método. Afinal, o objetivo nunca foi educar e sim formar militantes.
Veja o ENEM. Prova que deveria medir conhecimento virou teste de alinhamento ideológico. Questões sobre desigualdade social, racismo estrutural e gênero aparecem sistematicamente, enquanto conteúdos factuais de História e Geografia ficam em segundo plano. Matemática e ciências seguem o mesmo destino. A mensagem é clara: importa mais saber a narrativa progressista correta do que dominar conteúdo objetivo.
As universidades federais completaram o projeto. Transformaram-se em feudos ideológicos onde discordância é heresia. Casos de perseguição a professores conservadores são recorrentes, mas raramente ganham visibilidade. Alunos de direita são hostilizados. Currículos privilegiam pensamento crítico de esquerda, vitimismo histórico e relativismo moral — jargões sofisticados para um marxismo requentado.
O mais perverso? Tudo financiado com dinheiro público. O contribuinte que mal terminou o ensino médio paga para formar militantes que o desprezam. E quando questiona o sistema, é taxado de fascista.
A esquerda domina institucionalmente, mas há resistência silenciosa de professores conservadores que, intimidados, não se posicionam. Enquanto a direita discutia currículo e meritocracia, a esquerda construiu, silenciosamente, seu domínio cultural.
Quando os pais conservadores perceberam a captura institucional, já era tarde. Seus filhos estavam doutrinados. As universidades tomadas. A narrativa estabelecida.
A arquitetura desse fracasso educacional foi planejada, sistemática e devastadoramente eficaz. Porque criar cidadãos pensantes é perigoso. Formar militantes obedientes é estratégico.
E assim, o Brasil segue produzindo analfabetos funcionais que repetem bordões revolucionários. A esquerda comemora. Afinal, eles não queriam educação de qualidade. Queriam controle de mentes. E conseguiram.
A pergunta que fica é incômoda: quando a direita vai perceber que batalha cultural não se vence com propostas técnicas, mas com conservadores dispostos a lecionar, a enfrentar hostilidade acadêmica e a não abrir mão de formar a próxima geração?
A esquerda venceu porque executou um plano deliberado de aparelhamento — enquanto a direita, distraída com economia e eleições, nem percebeu o controle institucional acontecendo. Quando finalmente acordou, o estrago estava feito. Hoje, conservadores fogem da educação por medo de hostilidade ou desprezo acadêmico, e a esquerda forma militantes sem oposição. É preciso voltar às salas de aula — não para doutrinar, mas para formar cidadãos pensantes.
É hora de acordar — ou a próxima geração já estará perdida.
* O autor, Claudio Apolinario, é pastor, vereador em S. José dos Campos, articulista e analista político.
Alex Pipkin, PhD
Eu não sou cinéfilo. Não estudo cinema, não escrevo sobre enquadramentos nem faço reverência a teorias narrativas. Quem me lê, porém, sabe: eu amo o cinema. Amo porque, quando acerta, ele funciona como um espelho moral, desses que deformam o rosto para revelar o caráter. A arte serve para dizer verdades que a vida real prefere esconder atrás de discursos moralmente edificantes e consagrados pelo aplauso social automático.
O cinema sempre foi válvula de escape e laboratório social. Talvez por isso, em tempos de delírio coletivo, a ficção tenha começado a parecer menos imaginação e mais ensaio geral. Há filmes que envelhecem mal; outros envelhecem rápido demais. O Amor é Cego pertence à segunda categoria porque se transformou num diagnóstico exato da realidade vermelho-verde-amarela de 2026.
À primeira vista, é uma comédia romântica leve. Jack Black interpreta um sujeito raso, obcecado por padrões estéticos que jamais alcança. Então surge o guru — sempre surge — oferecendo iluminação instantânea. O truque é singelo. O protagonista passa a enxergar apenas a “beleza interior”. O efeito é cômico. Ele se apaixona por uma mulher que, no mundo real, não corresponde ao ideal que ele dizia cultuar. Para ele, porém, ela é perfeita. Não porque ela mudou, mas porque a realidade foi suspensa.
A genialidade do filme está aí. Não se trata de aprender a ver melhor, mas de aprender a não ver. A hipnose não cria virtude; cria cegueira. Mas quando a cegueira deixa de ser acidente e se transforma em estratégia, ela abandona a ingenuidade e se converte num projeto evidente de poder.
É preciso chamar as coisas pelo nome. Desde Karl Marx, o grande formulador da ideologia do fracasso, a moral é tratada como um incômodo descartável. Para ele, ética é superestrutura: um artifício criado para legitimar relações econômicas. Não existe bem ou mal em si; existe o projeto. Os meios são irrelevantes, desde que o fim seja proclamado como justo. A corrupção, nesse esquema mental, não é um problema moral, é apenas uma ferramenta. Se serve ao projeto, absolve-se. Se escandaliza, relativiza-se. A moral não limita o poder; ela é sacrificada em nome dele.
Por isso o filme é atualíssimo. Basta olhar ao redor para enxergar uma sociedade submetida ao mesmo transe. Não por um guru excêntrico num elevador, mas por uma ideologia inteira que promete redenção enquanto suspende qualquer critério de realidade.
O resultado é a obscenidade normalizada. Ou não? Aposentados roubados no INSS tratados como “falhas técnicas”, Correios afundados sem culpados, escândalos financeiros como no caso Master escancarados recebidos com indiferença moral. A corrupção deixou de se esconder; perdeu o pudor e ganhou, como sempre, narrativas.
O mais espantoso não é a existência do encantador de burros — toda época produz o seu. O espantoso é a multidão disposta a manter os olhos fechados mesmo depois de revelado o velho novo truque.
Enxergar exige responsabilidade, a de admissão do engano. Impõe o “acordar-se”.
Bem, talvez algo esteja mudando. Pesquisa recente indica um dado incômodo para o “hipnotizador de burros”. Até parte dos sustentados pelo assistencialismo tupiniquim começa a rejeitar o encanto. Não é lucidez plena, mas já é um espasmo de consciência no país hipnotizado pela farsa lulopetista.
No filme, a hipnose acaba. Na vida real, ela costuma durar mais, porque rende cargos, discursos, dinheiro sujo, e a confortável cumplicidade dos que fingem não ver. Nenhuma ilusão, porém, resiste eternamente à realidade. Quando o transe se desfaz, o encantador desaparece, o truque fica evidente e sobra apenas o essencial.
Oxalá o país comece a se olhar no espelho e se pergunte, sem anestesia, como aceitou chamar cegueira de virtude, e farsa e ruína de “governo do povo”.
Dartagnan da Silva Zanela
A professora Inger Enkvist, em seus livros e palestras, frequentemente chama a atenção para uma obviedade ululante que, para a infelicidade geral das futuras gerações, é desdenhada por praticamente todos nós. Ela afirma, de forma clara e categórica, que uma nação minimamente séria deve cultivar uma atenção especial para com a educação das tenras gerações; porque, se isso não for feito, estaremos literalmente colocando em risco a existência futura de toda a nossa sociedade. Por essa razão, e por inúmeras outras, não poderia haver espaço para levianas aventuras experimentais nesta seara.
Aliás, quando tomamos a palavra educação e meditamos sobre o seu significado, compreendemos claramente o tamanho do enrosco em que estamos nos metendo, devido à forma como atualmente as autoridades (políticas e intelectuais) vêm tratando a questão. Como todos nós sabemos, educação vem do latim ex-ducere, que quer dizer, simplesmente, "guiar para fora". Deste modo, o ato de educar consiste em levar o infante a sair de seu universo pueril, das suas cercanias subjetivas, para iniciar uma longa jornada por um mundo que vai muito além da sua imaginação. Tal empreitada não é fácil, tendo em vista que muitas e muitas vezes o indivíduo prefere ficar encastelado no conforto do seu mundinho caprichoso do que ser contrariado pelo conhecimento da verdade.
Como a própria professora Enkvist nos lembra — e o bom senso também —, aprender qualquer coisa exige de nós esforço, perseverança e ordem (disciplina); caso contrário, não conseguiríamos integrar uma nova dimensão do conhecimento em nossa personalidade e acabaríamos tolhendo a amplitude do nosso círculo de ação humana. Qualquer um que já estudou uma língua estrangeira, uma arte marcial ou aprendeu a tocar um instrumento musical sabe muitíssimo bem do que estamos falando.
Agora, a visão que norteia a educação em nosso país segue um riscado bem diferente. No lugar da devida valoração do esforço individual, do estímulo à perseverança e do cultivo de ações com propósitos claros, o que temos é o fomento da centralidade em aspectos subjetivos albergados caprichosamente por cada indivíduo em seu íntimo.
Não estou dizendo, de modo algum, que a subjetividade de cada pessoa não seja importante, mas apenas, e tão somente, que ela não deve ser o centro do processo educativo. Fazendo isso, ao invés de possibilitarmos aos indivíduos uma real ampliação da sua capacidade de ação através das ferramentas intelectuais adquiridas, estaremos agrilhoando-os em seus caprichos de momento e, de quebra, estimulando, sorrateiramente, atitudes narcísicas e comportamentos antissociais. E isso, venhamos e convenhamos, é o contrário da educação.
Não é à toa que o analfabetismo funcional impera nestas terras de desterrados, nem por acaso que o número de não leitores nestas plagas é maior que o de leitores.
* O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "O SEPULCRO CAIADO", entre outros livros.