Dartagnan da Silva Zanela
É curioso quando começamos a refletir sobre o tempo e, ao fazê-lo, as primeiras palavras que nos vêm à cabeça são aquelas presentes nas páginas do livro Confissões, de Santo Agostinho, onde o bispo de Hipona pergunta: o que é o tempo? E, na sequência, responde-nos: se ninguém me pergunta, eu sei; mas, se quero explicá-lo a quem me pergunta, já não sei.
E é curioso refletirmos sobre isso porque, quando paramos para prestar a devida atenção na forma como experienciamos o tempo em nossas venturas e desventuras pra lá de humanas, notamos, num piscar de olhos, que suas três dimensões estão sempre presentes — juntas, fundidas e misturadas — em nosso horizonte de percepção.
Como bem nos ensinam Gilberto Freyre e Peter Berger, todos nós guardamos em nossa consciência os fragmentos do passado, de tudo aquilo que foi vivido e testemunhado por nós. Por isso mesmo, esse passado em cacos sempre pode sofrer uma ressignificação, uma nova interpretação à luz daquilo que está sendo vivido por nós no presente. Reinterpretação essa que pode ser mais profunda e esclarecedora, ou mais tosca e superficial; tudo depende da forma como triangulamos nosso eu — mais ou menos consciente — com o que estamos vislumbrando hoje e com os fragmentos desconexos de tudo aquilo que, de certa forma, compõe a nossa história pessoal e sua articulação com a memória coletiva de nossa sociedade.
Da mesma forma, quando voltamos nossas vistas para os dias que estão por vir, para o nosso futuro, invariavelmente edificamos em nossa imaginação um retrato hipotético do amanhã ou, se preferirmos, acabamos por escrever na mente uma biografia imaginária futura, articulada com uma história possível do amanhã. E essas imagens sempre são elaboradas a partir daquilo que estamos vivendo no momento presente, à luz do modo como ressignificamos o nosso passado.
Detalhe importante: tanto a forma como reinterpretamos o nosso passado quanto o modo como projetamos as nossas expectativas com relação ao futuro acabam impactando a maneira como vivemos o nosso tempo presente. Ou seja: passado e futuro não são dimensões temporais distantes do agora — nada disso. Elas estão fundidas com o presente no âmago do coração humano que, queiramos ou não admitir, está sempre diante da eternidade.
Nesse sentido, é mais do que natural que, em momentos como um pleito eleitoral, sintamos uma certa vertigem, como se o mundo estivesse prestes a terminar. Afinal, nossas vivências nos atiram em um turbilhão de emoções desequilibradas pela volúpia midiática, de afetos desordenados pelas ideologias que se eriçam e de sentimentos que se desencadeiam frente às possibilidades que vão sendo desenhadas por nossa imaginação — a qual não mede esforços para nos cobrir de razão e justificar nossas escolhas e ações.
Porém, esse momento passa; os plúmbeos ares eleitoreiros também se vão e, gradativamente, uma nova brisa sopra. Com esses novos ares de outro presente, iremos refletir, a partir de nossas expectativas, sobre tudo o que vivenciamos nestes loucos dias. E assim, entre trancos e barrancos, temos a oportunidade de aprender e amadurecer com os dias vividos — ou continuar do mesmo jeito, cometendo os mesmos erros em um próximo momento.
Resumindo o entrevero: a cidadania não pode ser restrita ao sufrágio de um voto, muito menos reduzida à militância apaixonada. Viver na pólis e pela pólis significa compreender que nossas diferenças políticas devem servir para, através delas e das nossas contradições, nos elevar como pessoas que aprendem a viver e conviver com suas limitações — e não para, ao final, nos apartarmos em guetos mentais que nos segregam, esgarçando o tecido social e tudo aquilo que nos permite reconhecer como filhos do mesmo chão.
* O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "NAS ENTRANHAS DO LEVIATÃ", entre outros livros.
Gilberto Simões Pires
CONTAGEM REGRESSIVA
Mais do que nunca, esses próximos CINCO DIAS que nos separam do dia 4 de outubro, data marcada para a realização das ELEIÇÕES 2026, faz-se mais do que necessário e urgente que os ELEITORES dotados de um mínimo de discernimento se mobilizem ao máximo com o FRANCO PROPÓSITO DE DESTRUIR O -SISTEMA- que ao longo dos últimos anos foi COMANDADO E EXERCITADO -PELAS MÃOS, PÉS E MENTES DEMONÍACAS DA ESQUERDA-, com apoio da MAIORIA ESCANDALOSA DA NOSSA TERRÍVEL SUPREMA CORTE.
O INIMIGO É O SISTEMA
Mais do que sabido e reconhecido, o candidato FLÁVIO BOLSONARO (22) é o ÚNICO que, segundo TODAS as pesquisas de intenção de voto, reúne condições efetivas para VENCER O -SISTEMA- cujo PROGRAMA DE GOVERNO TEM COMO CLARO OBJETIVO A -DESTRUIÇÃO- ECONÔMICA E SOCIAL DO NOSSO CADA DIA MAIS EMPOBRECIDO BRASIL. Ora, como o INIMIGO É O -SISTEMA-, agora, mais do que nunca, é hora de -UNIÃO DA DIREITA- e não de fazer qualquer tipo de julgamento sobre quem é o melhor ou o pior CANDIDATO DE DIREITA. Antes de tudo, repito à exaustão, é preciso TIRAR A ESQUERDA DO PODER -A QUALQUER PREÇO-.
É HORA DE ACERTAR
Mais: além de eleger FLÁVIO BOLSONARO (22), como representante da DIREITA BRASILEIRA, é extremamente importante eleger candidatos ao SENADO que tenham a mesma vontade e disposição. Como nesta edição eleitoral o povo brasileiro tem o direito de escolher DOIS CANDIDATOS, é absolutamente necessário, portanto, que os DOIS SENADORES ELEITOS SEJAM CANDIDATOS DE DIREITA. De novo: É FUNDAMENTAL PARA DERRUBAR O -SISTEMA- O QUANTO ANTES-.
Da mesma forma é preciso que a CÂMARA DE DEPUTADOS tenha na sua maioria CANDIDATOS DE DIREITA. Não é hora de VACILAR. É hora de ACERTAR.
SENADO
No Rio Grande do Sul, meu estado, por exemplo, volto a lembrar: só -DOIS CANDIDATOS AO SENADO- são reconhecidamente de -DIREITA-: MARCEL VAN HATTEM (300) e UBIRATAN SANDERSON (222).
Gilberto Simões Pires
INDIGNAÇÃO EM FORMA DE RISO
Em meio, 1- ÀS INCRÍVEIS E CRIMINOSAS DECISÕES QUE SÃO TOMADAS, SEM RECEIO ALGUM, PELA MAIORIA DOS MINISTROS DA SUPREMA FACÇÃO FEDERAL;
2- ÀS CENTENAS DE DECLARAÇÕES -MENTIROSAS- EXPRESSADAS A TODO MOMENTO PELO -DESCONDENADO- PRESIDENTE DA REPÚBLICA COMUNISTA DO BRASIL;
3- À NOJENTA POSTURA DOS PRESIDENTES DA CÂMARA E DO SENADO, QUE DÃO COBERTURA À SANHA COMUNISTA QUE IMPERA ABERTAMENTE NO PAÍS;
4- AO COMPROMISSO FIRMADO PELA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA (ABI), QUE NESTA SEMANA, SEM SEQUER SER MINIMAMENTE CONTESTADO POR EMPRESAS DE COMUNICAÇÃO DO PAÍS, DECLAROU APOIO ABERTO, TOTAL E IRRESTRITO À REELEIÇÃO DE LULA; etc. etc...ainda assim muita gente INDIGNADA- reage a tantos ABSURDOS com risos e deboches.
CASO MASTER
Ontem, por exemplo, o ex-condenado Lula, COM A JÁ COSTUMEIRA -CARA DE PAU-, subiu ao palco para mais uma RODADA DE PIADAS. E, de imediato, ao se referir ao CASO MASTER, O PETISTA detalhou o encontro que teve, em 2024, com o banqueiro Daniel Vorcaro, da seguinte forma: -EU DISSE A ELE, CLARAMENTE, QUE O BANCO MASTER SERIA INVESTIGADO COM SERIEDADE E QUE A ENTIDADE FOI FECHADA POR ATUAÇÃO DO GOVERNO DELE. Que tal? É de morrer de rir, não?
PONTO ALTO
Ainda assim, o PONTO ALTO DA RODADA DE PIADAS DO DIA, que resultou em RISOS NO MODO -SEM PARAR-, aconteceu quando Lula afirmou: "É IMPORTANTE A GENTE DEIXAR CLARO PARA A OPINIÃO PÚBLICA, que -O BANCO MASTER FOI CRIADO NO GOVERNO BOLSONARO, O VORCARO FOI PRESO NO MEU GOVERNO E O BANCO FOI FECHADO NO MEU GOVERNO.- Pode?
CONSELHEIROS DO MASTER
Como manda o FIGURINO PETISTA, em nenhum momento Lula fez menção, por exemplo, aos CONSELHEIROS -PETISTAS- DO BANCO MASTER (GUIDO MANTEGA, RICARDO LEWANDOWSKI, JAQUES WAGNER, HENRIQUE MEIRELLES, RUI COSTA E JERÔNIMO RODRIGUES). Lula, suponho, imaginou que o FATO de citar seus diletos amigos, ao invés de risos ouvira CHOROS DE RAIVA.
Francisco Carneiro Junior
Chama-se democracia àquilo que raramente se pratica e frequentemente se invoca. O termo virou sinônimo de virtude, escudo retórico de regimes que dele se aproximam apenas na embalagem. Robert Dahl, em 1971, recusou-se a essa generosidade semântica. Preferiu um nome mais seco para descrever o que os países ocidentais desenvolvidos haviam de fato alcançado: poliarquia — governo de muitos, nunca de todos, e nunca pleno. A palavra soa a jargão de sala de aula. É, na verdade, um ato de honestidade intelectual que a maioria dos discursos políticos não tem estômago para cometer.
Duas condições sustentam essa honestidade. A primeira é a contestação: a liberdade de grupos de oposição desafiarem quem governa e de tentarem, em eleições regulares e limpas, tomar-lhe o lugar. A segunda é a participação: a fatia da população autorizada a intervir nas decisões, seja pelo voto, seja pela administração pública. Onde as duas se combinam em grau máximo, tem-se a poliarquia. Onde nenhuma existe, tem-se a hegemonia fechada — o nome técnico para o que o senso comum chama, sem rodeios, de ditadura.
Dahl não parou nas duas condições. Detalhou-as em oito garantias: liberdade de organização, liberdade de expressão, direito ao voto, elegibilidade a cargos, direito de líderes disputarem apoio e votos, fontes alternativas de informação, eleições idôneas, instituições que amarrem as políticas de governo ao resultado das urnas. Retire uma, e o edifício racha. É um projeto de engenharia institucional, não uma declaração de bons sentimentos — e Dahl tinha plena consciência de que a engenharia, ao contrário da retórica, pode falhar.
Essa é a primeira tese, e ela é otimista sem ser ingênua. Dahl argumenta que o caminho para a poliarquia depende menos de riqueza que de cálculo: governos hegemônicos toleram a oposição quando reprimi-la custa mais caro que suportá-la. A repressão consome recursos, corrói legitimidade interna e externa, e cedo ou tarde perde a vantagem sobre a tolerância. A poliarquia, nessa leitura, não nasce de virtude cívica. Nasce de aritmética de poder — o que a torna, paradoxalmente, mais robusta do que qualquer fundação moral, porque sobrevive mesmo quando ninguém acredita nela por convicção.
Mas há quem leia esse otimismo como ingenuidade disfarçada de realismo, e é aqui que o contraponto se instala. Nicos Poulantzas, ao definir poder como a capacidade de uma classe realizar seus interesses objetivos, retira do Estado a roupagem de árbitro neutro que os pluralistas lhe concederam. Para ele, o Estado é a condensação das forças de classe — não um campo aberto onde grupos competem em igualdade, mas um instrumento que, mesmo sob procedimentos democráticos, permanece a serviço de quem controla a vida econômica.
Ellen Wood aprofunda a acusação. A universalidade formal dos direitos políticos, diz ela, deixa intactas as relações de propriedade. O sufrágio universal pode se espalhar por todas as camadas da sociedade sem tocar um centímetro sequer da estrutura que determina quem manda na fábrica, no banco, na terra. É a democracia que se permite ao capitalismo porque não ameaça o que realmente importa — e Wood chama essa invulnerabilidade da esfera econômica de condição, não de acidente, da democracia liberal moderna.
Atílio Boron, com a franqueza que os acadêmicos costumam evitar, chama de “ditadura de fato dos capitalistas sobre os assalariados”, sob a forma social e política de uma democracia que a oculta sem eliminá-la. Não há aqui exagero panfletário — há uma constatação estrutural: quem precisa vender a própria força de trabalho para sobreviver não compete em igualdade de condições com quem pode comprá-la. A poliarquia, para essa linhagem, é o disfarce mais sofisticado que o poder de classe já inventou para si mesmo.
Duas teses, portanto, olhando para o mesmo fenômeno. Uma vê na poliarquia um patamar concreto e mensurável de liberdade política, alcançável por qualquer sociedade que administre bem o custo da repressão. A outra vê nela uma cortina — legítima em sua forma, cúmplice em sua função. Ambas descrevem fatos reais. Nenhuma das duas, isoladamente, descreve o Brasil.
O Brasil formal cumpre os requisitos de Dahl com uma disciplina que surpreenderia o próprio autor. Eleições regulares desde 1985, alternância efetiva de partidos e de poder, sufrágio universal a partir dos dezesseis anos, voto secreto, liberdade — ampla, às vezes turbulenta — de formar agremiações partidárias. Ricson Moreira Coelho da Silva, ao aplicar a grade de Dahl ao país, não hesita: o Brasil é poliarquia, ao menos no aspecto formal, porque as pessoas participam do poder de um modo ou de outro. É difícil discordar do diagnóstico na superfície. A superfície, porém, nunca foi o problema.
Valéria Lobo chega a conclusão oposta a partir dos mesmos fatos. O sistema eleitoral e partidário brasileiro, escreve ela, carrega distorções que mitigam justamente o igualitarismo político que a poliarquia pressupõe. E aqui a tese marxista encontra terreno fértil: um país onde a desigualdade econômica é traço estrutural, não acidente histórico, é exatamente o cenário que Poulantzas, Wood e Boron previram — o voto formalmente igual coexistindo com um acesso brutalmente desigual aos recursos que decidem quem chega a disputá-lo. Financiamento de campanha, controle de mídia, capital social herdado: nenhum desses fatores aparece na cédula eleitoral, e todos eles decidem o resultado antes dela ser impressa.
Há, contudo, uma terceira distorção que nem Dahl, escrevendo sobre democracias consolidadas em 1971, nem seus críticos marxistas, preocupados com a estrutura de classes, anteciparam com a devida gravidade: a contestação e a participação supõem território onde o Estado seja, de fato, a autoridade que garante ambas. Em extensas faixas do território brasileiro — regiões periféricas de grandes centros urbanos, municípios do interior amazônico, corredores de fronteira — essa autoridade é disputada, e por vezes vencida, por organizações criminosas que substituem o Estado como regulador da vida cotidiana. Onde uma facção decide quem entra, quem sai e, cada vez com mais frequência, quem vota em quem, a poliarquia deixa de ser questão de desenho institucional e passa a ser questão de soberania territorial simplesmente ausente.
Esse deslocamento não é acidente de percurso. O Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, ao expandirem-se para fora das capitais onde nasceram — hoje presentes em múltiplos estados e mesmo além das fronteiras nacionais, na Bolívia, no Paraguai —, não apenas comercializam entorpecentes. Administram territórios. E administração de território, na tradição de Weber que Dahl herdou sem sempre citar, é a definição mesma de soberania. Um Estado que tolera zonas onde não decide quem manda não é hegemonia fechada, tampouco poliarquia plena: é um Estado que abdicou, em parcelas crescentes de seu mapa, da precondição mínima para que qualquer um dos dois conceitos faça sentido.
A leniência institucional diante desse fenômeno — a lentidão em tratar essas organizações com o instrumental de guerra assimétrica que sua capacidade de fogo e sua estrutura hierárquica já justificam, e não apenas com o instrumental ordinário de segurança pública — agrava o quadro em vez de contê-lo. Enquanto isso, o fluxo de combatentes e articuladores de organizações produtoras da região andina, deslocados pela pressão militar que os Estados Unidos vêm exercendo sobre rotas no Caribe e no Pacífico, encontra no território brasileiro pouco mais que porosidade. A poliarquia formal segue funcionando em Brasília. Em parte crescente do país, funciona apenas como ficção jurídica.
Vale ampliar o círculo até o cenário internacional, porque a comparação revela por contraste o que a análise interna, sozinha, esconde. Tome-se a China. Nenhum dos critérios que sustentam a poliarquia — igualdade de voto, participação efetiva, compreensão esclarecida, controle plural da agenda, inclusão universal — encontra ali sequer um simulacro de aplicação. A liderança política chinesa não emerge de disputa alguma: escolhe-se a si mesma, elite que se recruta, se filtra e se perpetua por dentro de um único partido, sem rotatividade, sem oposição legal, sem eleições que mereçam o nome. O regime é, na classificação que o próprio Dahl deixou pronta, hegemonia fechada em estado puro — concentração de poder e ausência de participação caminhando juntas, sem disfarce e sem pretensão de disfarce.
A diferença entre o caso chinês e o caso brasileiro não é de grau: é de origem. A China nunca teve poliarquia para perder — o desenho institucional nasceu fechado, e permanece fechado por decisão deliberada de quem o administra. O Brasil teve, tem no papel e ainda pratica em suas instituições centrais os cinco critérios de Dahl quase por inteiro; o que lhe falta não foi planejado por ninguém no topo, foi cedido, território por território, pela omissão de quem deveria disputá-lo de volta. Um regime hegemônico se impõe de cima para baixo, por projeto. Uma poliarquia se esvazia de baixo para cima, por vácuo. É a diferença entre uma casa que nunca teve portas e uma casa cujas portas foram, uma a uma, arrombadas enquanto os moradores discutiam a cor das cortinas.
Chega-se, então, a uma síntese que nenhuma das duas teses originais entrega sozinha. Dahl tem razão ao afirmar que a poliarquia é questão de custo e tolerância, não de virtude — mas esqueceu de perguntar quem, dentro de um mesmo território nacional, está de fato cobrando esse custo, e para quem a tolerância se converte em cumplicidade por omissão. Poulantzas, Wood e Boron têm razão ao apontar que a igualdade formal do voto convive com desigualdades estruturais profundas — mas concentraram o argumento na classe, quando no Brasil contemporâneo a fratura mais visível já não separa apenas capital de trabalho: separa território pacificado de território tomado.
O Brasil não é, portanto, nem a poliarquia apresentada em seu aspecto formal, nem simplesmente a cortina de fumaça que a tradição marxista denuncia em qualquer democracia capitalista. É as duas coisas sobrepostas, com uma terceira camada que a teoria de 1971 não previu: uma poliarquia funcional nas instituições centrais e uma hegemonia fechada, imposta por atores não estatais, em fatias do território que crescem enquanto o debate público se distrai com outras urgências.
Dahl escreveu que a democracia plena talvez seja inalcançável, e que toda sociedade que a persegue está condenada a se transformar continuamente, porque cada patamar alcançado gera novas exigências. É uma observação sóbria, quase resignada. Falta a ela, no caso brasileiro, uma cláusula adicional: não basta perseguir o próximo patamar de participação e contestação se o Estado, entrementes, perde o controle sobre o chão onde essa perseguição deveria ocorrer. Poliarquia não se mede apenas pela abertura das urnas. Mede-se, primeiro, pela pergunta mais elementar de todas — se existe, atrás das urnas, um Estado disposto e capaz de proteger quem vota, e não apenas de (mal) contar quem votou.
Afonso Pires Faria
Delfim Netto, quando ministro do governo militar, tinha uma tese de que deveríamos fazer o bolo crescer para depois dividi-lo. Era ridicularizado por isso, mesmo sendo esta a fórmula que deu certo em países que progrediram. Agora, não existe mais nem bolo, e o atual governo insiste em dividir. Divide o que ainda não existe. O resultado disso, em curto prazo, é um povo contentando-se com o pouco. Em um período maior, é a pobreza e a miséria extrema.
Caracterizar o fascismo como sendo uma característica somente de direita é desconhecer totalmente o seu significado. Sendo suas principais características o nacionalismo, o desprezo pela democracia e pelo liberalismo, a crença na hierarquia social, o domínio das elites e o desejo de criar a Volksgemeinschaft (comunidade do povo) — na qual os interesses individuais seriam direcionados ao bem da nação —, todas estas características ficam muito mais próximas de regimes de esquerda do que de direita.
Pagamos caro para manter um deputado federal em Brasília para nos representar. Muitas pessoas pensam que a qualidade do parlamentar é medida pelo número de leis que ele propõe. Na ânsia de agradar ao eleitor, muitos deles criam leis sem a menor precisão. Vejam alguns casos que ouvi na "A Voz do Brasil" somente em um dia: lei que multa veículo utilizado para abandonar animais na rodovia; lei que obriga o sistema de saúde a fornecer exames anuais para prevenir doenças contagiosas em mulheres (esta tramitando desde 2024); criação de um fundo garantidor para financiar empresas prejudicadas pelo tarifaço do governo dos EUA. São dias, meses e até mesmo anos que estas preciosidades ficam em discussão no plenário. Quando da sua promulgação, já não existe real necessidade de sua aplicação. Tempo e dinheiro postos no lixo.
É da natureza humana o indivíduo temer mais aquilo que ele desconhece do que o que não é palpável ou visível. É por isso que elementos sem escrúpulos preferem se utilizar de narrativas totalmente infundadas para amedrontar as pessoas com menor discernimento das coisas. Fica difícil para quem tem alguma cultura tentar argumentar combatendo algo que sabidamente inexiste.
Eu sou obrigado pelo Estado a contribuir para que ele pague um agente que me impõe a forma como devo administrar meus bens. Também é este mesmo ente que diz quem eu posso ou não contratar para trabalhar comigo, impondo condições de seletividade. Também é este agente invisível que me impede de fazer caridades de acordo com as minhas preferências.
O atual candidato da oposição teve muita sorte. Tentaram impugnar a sua candidatura fraudando uma filiação em um outro partido, que não aquele no qual estava inscrito. Outro candidato antissistema levou uma facada.
Dagoberto Lima Godoy
Diante da eleição iminente, é natural que o cidadão procure o candidato que reúna consistência moral, inteligência, honestidade e espírito público. O problema surge quando nenhum parece corresponder ao padrão desejado. Restaria, então, votar no “menos ruim”?
Esse critério, excessivamente simplista, reduziria a política à prevenção do pior. Melhor é perguntar-se: qual alternativa oferece a perspectiva do melhor governo possível?
Sem dúvida, o caráter continua sendo requisito fundamental, embora ainda insuficiente. Honestidade sem competência pode produzir fracasso; inteligência sem consciência moral pode ampliar os danos; convicção sem prudência pode tornar-se fanatismo. Em qualquer caso, a integridade não pode ser compensada por promessas de eficiência.
Nesse ponto, examinar a experiência anterior é fundamental. Não basta saber quais cargos o candidato ocupou, mas como os exerceu. É preciso cotejar sua vida pregressa com os atributos que agora proclama: como tratou os recursos sob sua responsabilidade? Que pessoas escolheu? Como reagiu à crítica e aos limites da lei? Produziu resultados e reconheceu erros? O passado não determina o futuro, mas é a melhor evidência do comportamento provável.
É preciso ter presente, ainda, que um governante não chega sozinho ao poder. Traz consigo uma concepção de sociedade, um partido, uma equipe, alianças, compromissos e uma maneira de exercer a autoridade. Não escolhemos apenas uma pessoa: escolhemos um governo provável.
A análise racional torna-se ainda mais necessária quando o ambiente político está radicalizado. A polarização pode deformar o julgamento: avalia-se o adversário por seus piores atos e o candidato de nossa preferência por suas melhores intenções; aceita-se aquilo que confirma nossa escolha e rejeita-se o que a contraria. Pensar racionalmente é aplicar a todos a mesma medida, distinguindo fatos comprovados de versões tendenciosas — “narrativas” — e propostas consistentes de slogans de campanha. Nesse contexto, a serenidade não elimina a convicção: impede que ela se transforme em cegueira.
É então que se examinam as concepções políticas e econômicas. Aqui entra a ideologia, entendida não como rótulo, mas como uma visão sobre o ser humano, a sociedade e o papel do Estado. Que importância o candidato atribui à liberdade, à igualdade, à responsabilidade e à solidariedade? Como pretende conciliar produção de riqueza, proteção social e equilíbrio das contas públicas?
O desafio é combinar um Estado capaz de assegurar a lei, os direitos e os serviços essenciais, mas limitado para não sufocar a sociedade, com um mercado livre para criar riqueza e inovação, mas sujeito a regras que impeçam privilégios e exploração.
Também a governabilidade precisa ser compreendida corretamente. Governar não é apenas formar maioria parlamentar, que pode ser obtida pela distribuição de cargos, favores e recursos públicos. A verdadeira governabilidade exige legitimidade, programa coerente, equipe competente, capacidade de negociação e respeito às instituições. É transformar objetivos em resultados sem corromper os meios utilizados.
A avaliação deveria, portanto, indagar: o candidato compreende os problemas ou apenas explora ressentimentos? Suas propostas indicam meios, custos e prioridades? Sua equipe e suas alianças são compatíveis com o discurso e com sua história? Aceita a oposição e os limites do poder? Se fracassar, os danos serão corrigíveis ou comprometerão a democracia?
E se nenhum candidato atender a tantos requisitos? Surge, então, a opção pelo “mal menor”. Evitar um dano maior pode ser uma decisão responsável; o perigo está em fazer disso o único critério, resignando-se à degradação da vida pública. O “mal menor” deve ser o recurso final, não o ponto de partida. Somente quando todas as alternativas se mostrarem insatisfatórias devem-se comparar os riscos e escolher aquela que ainda preserve maiores possibilidades de correção.
Talvez seja este o critério mais realista: não procurar o candidato ideal, mas o governo provável que ofereça, em grau minimamente aceitável, integridade e experiência, competência administrativa, compromisso com a liberdade e a justiça, capacidade de promover a prosperidade e respeito aos limites institucionais.
A democracia não garante que escolheremos sempre os melhores. Sua maior virtude é permitir que os erros sejam corrigidos. Quando nenhum candidato inspira confiança suficiente, podemos ao menos preferir aquele que preserve a possibilidade de escolhermos melhor no futuro.
* O autor, Dagoberto Lima Godoy, é engenheiro civil