Gilberto Simões Pires
MAIS SOBRE INVESTIR NO PARAGUAI
Face ao interesse manifestado por inúmeros leitores quanto às sugestivas declarações feitas pelo ministro de Indústria e Comércio do Paraguai, Marco Riquelme, em recente evento do grupo Mercado&Opinião, em São Paulo, com pedidos de mais informações sobre as reais vantagens de INVESTIR NO PARAGUAI, que foram alvos do editorial de ontem, 25 , com o título - PARAGUAI - A PASÁRGADA LATINO-AMERICANA-, eis aí o que o governo do nosso país vizinho está oferecendo, por exemplo, às pessoas físicas:
INVESTOR PASS
Para começar, como bem refere Rafael Balago, repórter internacional da Exame, em abril o PARAGUAI lançou NOVAS MODALIDADES DE VISTO DE RESIDÊNCIA PARA INVESTIDORES. Neste modelo, chamado de INVESTOR PASS, quem abrir um negócio ou investir no país GANHA DIREITO A UM DOCUMENTO DE RESIDENTE PERMANENTE, O QUE PERMITE PAGAR MENOS IMPOSTOS. O programa possui QUATRO CATEGORIAS DE INVESTIMENTO, que exigem A PARTIR de US$ 70 mil (R$ 350 mil na cotação atual).
QUATRO CATEGORIAS DE INVESTIMENTOS
1- INVESTIMENTO EM NEGÓCIOS COMERCIAIS OU INDUSTRIAIS - Para tanto se faz necessário empregar ao menos cinco cidadãos paraguaios.
2- INVESTIMENTO FINANCEIRO - O interessado precisa investir ao menos US$ 200 mil (R$ 1 milhão) no mercado de ações do Paraguai, ou em outros tipos de investimento financeiro, e manter o dinheiro nele ao menos por DOIS ANOS.
3- INVESTIMENTO EM IMÓVEIS - É preciso investir ao menos US$ 200 mil (R$ 1 milhão) em um projeto imobiliário, como a compra, a construção ou a operação do imóvel, que não pode ser para uso pessoal.
4- INVESTIMENTO EM TURISMO - O estrangeiro deve investir ao menos US$ 150 mil em serviços, infraestrutura ou atividades relacionadas ao turismo. O Paraguai tem interesse especial em desenvolver o turismo em Ciudad del Este, vizinha de Foz do Iguaçu. A região já recebe fluxo intenso de turistas e compradores, e o país quer oferecer mais opções a eles, bem como aumentar seu faturamento no setor.
DIREITO OFERECIDO PELO INVESTOR PASS
Em caso de aprovação, o estrangeiro recebe um VISTO DE RESIDÊNCIA PERMANENTE -VÁLIDO POR DEZ ANOS- QUE PODE SER RENOVADO. O documento dá direito a trabalhar no país e a pagar menos impostos, na comparação com estrangeiros que não possuem o visto. A taxação de dividendos cai de 15% para 8%. A permissão vale apenas para o aplicante. Outros membros da família precisam fazer pedidos de residência temporária separadamente. Após dois anos, eles também podem pedir a residência permanente.
REQUISITOS
DETALHE: O RESIDENTE NÃO PRECISA MORAR NO PAÍS PARA MANTER O DOCUMENTO. Basta comparecer para retirar o documento. A solicitação pode ser feita online. O interessado precisa apresentar certidões de antecedentes criminais, declarar a origem dos recursos e, depois, demonstrar o andamento dos investimentos para o governo paraguaio. De acordo com o governo paraguaio, os pedidos de residência passaram de 28.000 para 47.000 em 2025, com a expectativa de atingir 80.000 em 2026. A maioria deles vem do Brasil.
Dagoberto Lima Godoy
Em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, o Papa Leão XIV adverte que a humanidade volta a construir torres para conquistar o paraíso — agora não de pedra, mas de dados, chips, modelos matemáticos e plataformas digitais. O documento, recém publicado pelo Vaticano, trata da salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial e apresenta a alternativa entre erguer uma nova Babel ou construir uma comunidade em que técnica e dignidade permaneçam reconciliadas.
A advertência papal situa a IA no seu plano mais profundo: não apenas técnico, mas civilizacional. A questão decisiva não está somente na potência dessas ferramentas, mas no tipo de humanidade que se organiza em torno delas. A tecnologia não é neutra. Toda escolha de design incorpora uma visão de homem: define prioridades, incentivos, critérios de eficiência e modos de incluir ou excluir. O próprio Papa reconhece que a IA pode ampliar capacidades humanas, reduzir sofrimentos e acelerar descobertas; mas adverte que ela também pode ser convertida em instrumento de domínio, exclusão ou morte.
Sou usuário entusiasmado da inteligência artificial, mas reconheço seus riscos. As redes neurais artificiais são capazes de reconhecer padrões, fazer analogias e simular aquilo que chamamos, de modo aproximado, de intuição. Mas essa “intuição” da máquina não passa de reconhecimento estatístico sofisticado. A intuição humana envolve experiência subjetiva, memória interior, emoção e sentido; e, para quem admite uma dimensão espiritual da realidade, abertura a uma sabedoria superior.
A IA pode simular linguagem, raciocínio e criatividade. Pode falar de moral, mas não sofre moralmente. Pode escrever sobre compaixão, mas não se compadece. Pode organizar ideias sobre Deus, mas não sente sede de Deus. Produz respostas admiráveis, mas não se transforma por elas. A diferença entre inteligência artificial e consciência humana, portanto, não é apenas técnica; é moral, existencial e espiritual. Como diz o Pontífice: “Para um algoritmo, um erro é uma falha a ser corrigida; para uma pessoa, porém, o erro pode ser catalisador de uma transformação profunda.”
Também me preocupa a concentração de dados, infraestrutura computacional e plataformas digitais nas mãos de poucos governos e corporações. Quem controla esses sistemas influencia consumo, reputação, trabalho, linguagem e imaginação coletiva. As redes sociais reforçam crenças, excluem perspectivas divergentes e alimentam a polarização. Regimes autoritários podem usar a IA para vigilância; sistemas autônomos de guerra podem afastar a decisão letal da responsabilidade moral de quem a ordena. Plataformas digitais moldam a percepção coletiva da realidade. “A verdade é um bem comum”, insiste o Papa.
Nesse ponto, volto à imagem central da encíclica: Babel não simboliza excesso de conhecimento, mas excesso de soberba. O maior perigo talvez não esteja em máquinas que se pareçam conosco, mas numa sociedade que passe a compreender o humano segundo a lógica das máquinas.
Por isso, a IA deve ser usada, não temida; orientada, não idolatrada. Ela pode ser instrumento, provocação e apoio ao julgamento. Mas não deve pensar em nosso lugar. Pensar não é apenas processar informações; é suportar a dúvida, discernir fins, perguntar não só “como fazer?”, mas “por que fazer?”, “para quem?”, “a que preço?” e “em nome de quê?”.
No tempo das máquinas inteligentes, nossa tarefa aparece clara: transformar informação em compreensão, inteligência em sabedoria, saber em consciência e consciência em espírito. A IA pode ampliar nosso poder, mas só a consciência humana pode orientar o seu sentido. Como adverte o Papa, nenhum sistema computacional, por mais avançado que seja, pode substituir a experiência viva do amor, da responsabilidade e da entrega.
* O autor, Dagoberto Lila Godoy, é engenheiro civil.
Afonso Pires Farias
Nos primórdios da humanidade, os homens buscavam na natureza e na caça apenas o necessário para a própria sobrevivência. Com o tempo, essa busca passou a incluir também o sustento da família, evoluindo da coleta e caça para o cultivo da terra. O que faltava a um, ele adquiria de outro através da troca direta de mercadorias — o conhecido escambo.
No entanto, com a diversificação dos produtos e a dificuldade de mensurar o valor de cada item, surgiu a moeda. Inicialmente, um único bem serviu como base de valor para todas as transações, até que a própria moeda oficial foi adotada.
O trabalho passou a ser especializado e remunerado. O carpinteiro produzia a madeira e recebia por isso; o construtor erguia as estruturas; o artista demonstrava sua arte em troca de donativos. Quando o trabalho exigia um espaço mais adequado, o dono de um estabelecimento cedia o local e, em troca, ficava com uma porcentagem do lucro gerado. Tudo funcionava de maneira orgânica e autônoma, e eventuais desavenças eram resolvidas naturalmente com o passar do tempo.
Mas eis que surgiu uma "brilhante" ideia: a criação de um ente que regulasse tudo e todos. O objetivo era evitar conflitos decorrentes do descumprimento de regras. Assim, criou-se o Estado, encarregado de ditar comportamentos, trocas e relações sociais. A partir desse momento, tudo passou a depender do crivo estatal.
O Estado prometeu justiça e segurança — coisas que antes não havia necessidade de imposição e que, no fim, ele falhou em entregar. Prometeu também equidade, para que ninguém fosse lesado. Contudo, para que o sistema funcionasse sob suas regras, tudo passou a ser subordinado ao aparato governamental. Quanto mais o Estado atuava, mais cobrava por isso e menos entregava como resultado.
Hoje, nada pode ser feito livremente sem a chancela deste "leviatã". Estamos entregando nossa liberdade em troca de uma segurança que não possuímos, mas que somos obrigados a pagar de qualquer forma. O fruto de toda essa arrecadação é distribuído de maneira conveniente àqueles que estão no poder. O que antes era fruto de livre negociação, hoje só se concretiza mediante autorização estatal — um processo que muitas vezes só favorece quem possui vínculos políticos ou quem recorre a favores dentro da própria entidade fiscalizadora.
Com isso, criaram-se duas castas distintas, diferenciadas por sua proximidade ou alinhamento com o aparato estatal: aos amigos do rei, os favores da lei; aos opositores, os rigores dela.
Claudio Apolinario
No Brasil, existe modo. E ele não começou agora.
Toda censura começa com uma justificativa razoável. Combater mentiras. Proteger a democracia. Garantir a ordem. Defender os mais vulneráveis. São argumentos que ninguém consegue ser contra — e é exatamente por isso que são usados. Não para convencer. Para silenciar sem parecer que está silenciando.
O Brasil está vivendo isso. E não começou agora.
Em 2020, decisões judiciais passaram a ordenar a remoção de conteúdos e o bloqueio de contas nas redes sociais, na maioria das vezes sem explicação pública sobre o critério usado. Em 2022, um documentário foi proibido de ser exibido antes mesmo de ser lançado — censura prévia, que a Constituição proíbe expressamente.
Em 2023, um aplicativo de mensagens usado por dezenas de milhões de brasileiros foi suspenso duas vezes por não obedecer a ordens de retirada de conteúdo. Em 2024, uma plataforma inteira foi bloqueada no Brasil por meses — a primeira vez que isso aconteceu num país que se apresenta como democracia plena.
E em maio de 2026, dois decretos do governo federal mudaram as regras do jogo de forma definitiva: as plataformas digitais passaram a ser obrigadas a retirar conteúdos sem precisar de ordem judicial. Basta uma notificação do governo.
Isso não é uma série de casos isolados. É um método. É um caminho de censura que se consolida passo a passo.
O método funciona em etapas. Primeiro, cria-se o argumento de que certas opiniões são perigosas — não erradas, não discutíveis, mas perigosas. Depois, transfere-se para o Estado o poder de decidir quais opiniões se enquadram nessa categoria. Por último, pune-se quem discorda da classificação.
Em cada etapa, a justificativa parece razoável. É só na soma das etapas que o resultado aparece: quem discorda do poder aprende que discordar tem um preço alto.
E aqui está o problema central que qualquer eleitor de centro e de direita deveria ver com clareza: isso não é sobre proteger a democracia. É sobre quem controla a narrativa num ano eleitoral.
Quando um governo decide o que pode ser dito sobre ele, não existe debate livre. Existe debate permitido. E debate permitido não é democracia — é performance de democracia.
A liberdade de expressão não é o direito de dizer apenas o que o poder aprova. É exatamente o oposto: é o direito de dizer o que o poder não quer ouvir. Retirar esse direito em nome de combater mentiras é o truque mais antigo do autoritarismo. Porque quem define o que é mentira nesse arranjo é sempre quem já está no poder.
Outros países encontraram formas de combater a desinformação real sem abrir mão da liberdade de expressão. O caminho passa por educação, por transparência, por jornalismo independente e por debate aberto — não por decretos que colocam nas mãos do governo a chave do que pode circular.
O que cada um pode fazer é simples: não aceitar a ideia de que calar é proteger. Perguntar sempre quem decide o que é perigoso. Cobrar do candidato posição clara sobre liberdade de expressão antes de votar. E lembrar que toda ditadura da história começou dizendo que restringia apenas o que era prejudicial.
Quem tem razão não tem medo do debate. Tem medo do debate quem sabe que não consegue vencer no campo das ideias.
* O autor, Claudio Apolinario, articulista e analista político.
Silvio Lopes
Há segredos escondidos que precisam ser descobertos e revelados para, dessa forma, nos permiter libertar dos grilhões que nos são impostos na caminhada da vida. A ideologia política é um desses que, modernamente, se tornam verdadeiras " amarras mentais", como assim as definiu o Sidarta Gautama(Buda), idos dos anos 570 aC.
Vivemos tempos de milhões de mentes "engessadas" por falsas verdades, que apoiam, de modo irrestrito, visões de sociedade que ao invés de enaltecer o ser humano, o fazem escravos mentais capazes de( inimaginável se pensar!), nutrirem cega adoração pelos algozes que os querem é, justamente, condenar a viver uma vida miserável e indigna.
Num ambiente como o que vivemos atualmente no Brasil, em que, no dizer de José Saramago, " o tempo das verdades plenas acabou", o que vemos é o prosperar da " mentira universal" provinda da boca de autoproclamados " defensores da democracia", que não passam, isto sim, de vilões a serviço de uma milícia formal de adoradores da mais cruel, sangrenta e desumana das ditaduras do proletariado que a antiga União Soviética nos deixou como exemplo de "catástrofe civilizatória".
O velho Diógenes de Sinope(Turquia), o Cínico, já dizia que " os piores escravos são aqueles que estão constantemente servindo as suas paixões". Essa frase, vamos ter que admitir, se encaixa perfeitamente no que tem acontecido há pelo menos três décadas no Brasil. A paixão "deslavada e incompreensível" de grande parte do povo a uma figura política desprezível que nunca sequer lhe entregou nada além de esperanças renovadas, e que vem( por isso mesmo), condenando o Brasil a ser um eterno país do futuro...
Mas tenhamos a firmeza, a fé e a determinação de que o apóstolo João tem toda a razão quando proclamou: " Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". Que essa verdade chegue logo. Mesmo que, para isso, tenhamos de usar, em pleno dia, a lanterna do acima citado Diógenes para buscá-la entre os homens. Não há outra saída!
* O autor, Sílvio Lopes, é jornalista, economista e palestrante
Dartagnan da Silva Zanela
A História nos ensina, de forma trágica, que existem mil e uma maneiras de censurar, de calar a boca daqueles que os donos do poder consideram inconvenientes. Não apenas a História, mas também a literatura que, através de obras distópicas, retrata-nos de forma alegórica o quão grande é a criatividade dos tiranos e tiranetes deste mundão para silenciar as vozes que não estão de acordo com sua opereta.
De todas as obras distópicas, o livro "Fahrenheit 451", de Ray Bradbury, tem um lugar de destaque. Nesta distopia, o autor descreve-nos uma hipotética sociedade futura onde as pessoas não leem mais livros.
Neste universo ficcional, ler é um crime gravíssimo e, por isso, todas as vezes que livros eram encontrados, eles eram queimados, ironicamente, pelo corpo de bombeiros que, com seus lança-chamas, consumia as obras à temperatura de 451 graus Fahrenheit.
Mas por que fazer uma barbaridade dessas? Ora, porque livros são perigosos. Eles são um perigo porque expõem as pobres pessoinhas a diferentes perspectivas sobre a vida; questionam-nas, causando desconforto ao retratar a complexidade da existência humana; e fazem tudo isso exigindo um longo tempo de concentração e reflexão sobre o que foi lido.
E como as pessoas, neste mundo imaginário, chegaram ao ponto de encarar a leitura como algo tão perigoso? Bem, é aí que mora a sutileza desse trem doido: as pessoas desinteressaram-se pela leitura porque estavam saturadas de informações (de serventia pra lá de duvidosa). Todos possuíam em suas casas as tais "teletelas", que nada mais seriam que televisões que ocupavam praticamente toda uma parede.
Essas estrovengas funcionavam como um sofisticado instrumento de alienação e controle social — ou de entretenimento e lazer, se preferir —, fornecendo para a população uma programação incessante, superficial e interativa, que de um jeito muito bizarro substituía a realidade, as relações genuinamente humanas e, de quebra, sabotava sem dó o pensamento crítico, mantendo os cidadãos em um perene estado de transe, como se estivessem hermeticamente encarcerados em uma bolha midiaticamente edificada.
Graças a Deus que esse trem sinistro existe apenas nas páginas distópicas de Bradbury. Já imaginou viver numa sociedade assim, onde as pessoas preferem bater um lero-lero com uma tela fria de cristal do que olhar no olho de uma pessoa de carne e osso para trocar umas ideias? Pois é...
E esse é o ponto: quando as pessoas vão deixando de lado a prática da leitura — de obras literárias, não de postagens aleatórias e mensagens no WhatsApp —, a atenção dos indivíduos vai gradativamente se esfarelando, a paciência vai se esgotando e o discernimento sendo embotado por um fluxo sem fim de informações desconexas que, ao serem consumidas de forma conspícua, produzem uma estranha sensação de satisfação soberba que, sem pedir licença, vai tomando o lugar daquilo que um dia convencionou-se chamar de pensamento crítico, mas que hoje, francamente, não quer dizer muita coisa, sendo apenas mais uma forma diferente de nominar a nossa soberba satisfação frente ao consumo desregrado de informações de pouca ou nenhuma valia.
Enfim, graças a Deus nosso país está a léguas de distância das páginas desta triste distopia onde os indivíduos não mais tem disposição e paciência para ler um livro, não é mesmo?
* O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS", entre outros livros.