Claudio Apolinario
O Brasil gasta em saúde quase o mesmo que países ricos — mas quem paga a diferença é o cidadão. Quem não tem plano espera 2 anos por uma cirurgia. Isso não é falta de recurso. É escolha.
O Brasil tem uma das maiores redes de saúde pública do mundo. E uma das maiores filas também.
Em 2024, mais de um milhão de brasileiros aguardavam na fila do SUS por cirurgias eletivas. Procedimentos que não são emergência — mas que doem, que limitam, que impedem de trabalhar. Essa fila cresceu 26% em relação a 2023. O tempo médio de espera é de 2 anos e 4 meses.
Dois anos e quatro meses esperando por uma cirurgia.
O Brasil e os países ricos gastam no total percentuais parecidos em saúde — em torno de 9% da economia. A diferença está em quem paga essa conta. Nos países ricos, o Estado banca 70% do total gasto. No Brasil, o estado banca apenas 45%. A diferença é paga pelo cidadão — quem pode paga plano, quem não pode espera na fila. O Estado brasileiro entra com menos e transfere a diferença para o bolso do cidadão.
E o impacto é direto: o Brasil gasta apenas US$ 1.573 por pessoa em saúde por ano. Os países ricos gastam US$ 4.986. Menos de um terço.
Menos de 25% dos brasileiros têm plano de saúde — cerca de 53 milhões de pessoas. Os outros 160 milhões dependem exclusivamente do SUS.
No andar de cima, quem tem plano agenda consulta com especialista em dias, faz exame na semana, é operado em semanas. No andar de baixo, quem depende do SUS espera meses por uma consulta, meses por um exame, anos por uma cirurgia. São os mesmos impostos pagos. São resultados completamente diferentes.
E o custo dessa espera não aparece só na fila. Aparece no trabalhador que perde emprego enquanto aguarda uma cirurgia que poderia tê-lo recuperado em semanas. Aparece na criança que deixa de ir à escola porque a mãe não tem com quem deixá-la durante as consultas intermináveis. Aparece no idoso que piora enquanto espera o diagnóstico. A fila do SUS não é só inconveniente. É um gerador silencioso de pobreza.
Esse não é um problema sem comparação. Um estudo sobre eficiência dos sistemas de saúde na América Latina mostrou que o Brasil figurou de forma consistente entre os países menos eficientes da região — ao lado de países que gastam proporcionalmente menos e entregam mais. Chile e Colômbia, que investem percentuais menores do PIB em saúde pública, aparecem entre os sistemas mais eficientes da região. A diferença não está em quanto se gasta. Está em como se gasta — e em quem responde pelo resultado.
E não é um problema novo. O Estado brasileiro sempre transferiu para o cidadão uma fatia maior da conta do que os países desenvolvidos fazem. Não é de hoje.
ão décadas de escolhas orçamentárias que priorizaram outras despesas e deixaram o sistema público funcionando abaixo do que a população precisa.
Cada vez que um orçamento é aprovado com menos dinheiro para a saúde do que o necessário, alguém decide que a fila pode esperar. Cada vez que um gestor não é cobrado pelo resultado do sistema que administra, a fila cresce.
O Brasil não precisa de mais discurso sobre saúde. Precisa de menos tolerância com a fila. Quem tem voz — quem vota, quem debate, quem influencia — tem uma responsabilidade concreta: parar de aceitar 2 anos e 4 meses como resposta normal.
Quando uma espera absurda vira aceitável, ela vira permanente.
Porque 2 anos e 4 meses esperando por uma cirurgia não é inevitável. É consequência da escolha de quem controla o sistema.
* O autor, Claudio Apolinario, é articulista e analista político.
Afonso Pires Faria
No início do século passado, um empreendedor, mesmo tendo pouco estudo, poderia obter sucesso nos seus empreendimentos. Naquele tempo, isso dependia muito de sua perspicácia. Pessoas que tinham mais estudos e conhecimentos geralmente eram guindadas a cargos mais importantes. Existiam também aqueles que já herdavam fortunas ou cargos e, por isso, não lhes era exigido muito esforço para se manterem bem estabelecidos. Os tempos evoluíram e hoje dificilmente uma pessoa com poucos conhecimentos consegue obter sucesso nos negócios. O conhecimento é imprescindível para que se faça a boa administração de uma empresa.
Na política não era diferente. Os vereadores, prefeitos, deputados e senadores muito dificilmente não tinham conhecimentos bem acima da média da população. Mas estas exigências parecem não fazer mais sentido na nossa realidade. Começamos por ver vereadores sendo eleitos por serem figuras folclóricas e até louvadas por seu pouco conhecimento, mas de "boa paz". Eram elevados ao cargo e conseguiam se manter por terem alguém com mais conhecimentos que os assessorava. Não demorou muito e estes personagens obtiveram cargos mais importantes: prefeitos, deputados e, em estados menos civilizados, até a senadores chegaram.
Um presidente da República, para ser eleito, deveria preencher certos requisitos para se habilitar ao cargo: qualidades e conhecimentos bem acima daqueles que ele vai governar. Um rei não é eleito. Não precisa demonstrar ao povo que tem condições de exercer o cargo. Este é herdado; portanto, independentemente de ter ou não conhecimentos atinentes ao cargo, lá ele estará se for o herdeiro. Não precisa, portanto, se esforçar para isso. D. Pedro II falava vários idiomas, conhecia botânica, física e estudava muito. Traduzia obras clássicas, como a Odisseia, do grego para o português; fazia comparações com outras traduções do francês ou alemão.
E daí eu pergunto: como foi que conseguimos involuir a tal ponto de termos, como governantes, pessoas que não dominam corretamente sequer a língua pátria? E, se a própria ignorância não fosse o suficiente para nos causar constrangimento, temos que ver este fato ser exaltado como virtude. O orgulho que tínhamos dos nossos governantes foi agora substituído pelo culto à ignorância. Ao contrário do magnetismo, em que os opostos se atraem, na política o efeito é o inverso. Sabendo disso, os nossos governantes tratam de multiplicar os que com eles se parecem. Infelizmente para o nosso país, esta é a regra que está sendo seguida. Pior: com estrondoso sucesso. Mário Ferreira dos Santos, em sua obra "Invasão Vertical dos Bárbaros", já alertava. Pena que em vão.
PS. "Desvalorização da inteligência", é o subtítulo da parte II, pag. 91 da obra supracitada.
Gilberto Simões Pires
SLOGAN PREOCUPANTE
Mais do que sabido, na semana passada, na reunião que manteve com seu marqueteiro, Raul Rabelo, o ministro da Secom, Sidônio Palmeira, o vice-presidente Geraldo Alckmin e um seleto grupo de apoiadores e colaboradores, o presidente Lula aprovou o PREOCUPANTE SLOGAN -O BRASIL PRONTO PRA MAIS- que deverá de nortear a campanha eleitoral que tem como propósito a sua reeleição.
JUSTIFICATIVAS ABSOLUTAMENTE RACIONAIS
Aqui entre nós e o mundo, a expressão -PREOCUPANTE- que usei para definir o slogan -O BRASIL PRONTO PRA MAIS- tem mais de mil justificativas, todas absolutamente racionais. Mais do que sabido, até aqueles que não conseguem desenvolver um RACIOCÍNIO LÓGICO são testemunhas da péssima administração que o GOVERNO LULA impôs, por exemplo:
1- às ESTATAIS, QUE REPETEM À EXAUSTÃO ROMBOS E MAIS ROMBOS;
2- às CONTAS PÚBLICAS -SEMPRE DEFICITÁRIAS-;
3- ao INCRÍVEL AUMENTO DAS -TAXAS DE JUROS-;
4- ao ENDIVIDAMENTO PÚBLICO RECORDE;
5- ao ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS E EMPRESAS -JAMAIS VISTOS NO NOSSO EMPOBRECIDO BRASIL-; e
6- ao ESCANDALOSO ÍNDICE DE INADIMPLÊNCIA ...
OBSERVAÇÕES INQUESTIONÁVEIS
Ora, a partir dessas poucas observações inquestionáveis, o fato do presidente LULA afirmar que -caso seja reeleito- (tomara que os eleitores que estão propícios a votar em candidatos do PT e partidos aliados abram os olhos) o -BRASIL ESTÁ PRONTO PRA MAIS-, é algo mais do que PREOCUPANTE. É SIMPLESMENTE TENEBROSO. Mesmo assim, em meio à -TRAGÉDIA ANUNCIADA- o que ainda pode deixar os RACIONAIS um pouco mais tranquilos é o FATO de que os ESCOMBROS ACUMULADOS ATÉ AGORA podem servir como ESCUDOS DE PROTEÇÃO DE ALGO MUITO PIOR...
Francisco Carneiro Júnior
Os impactos para a sociedade brasileira de guerras que não declaramos: Frota fantasma russa, por exemplo, trouxe R$ 6,2 bilhões em diesel sancionado para o Brasil
O navio se chamava Prosperity, nome de bom agouro para quem carrega mentira na proa. Atracou no Rio de Janeiro em junho de 2023, no terminal da Refit, com uma carga de nafta e uma certidão de nascimento falsa: os papéis diziam Houston. Mais de quinhentos registros de posicionamento — a própria voz eletrônica do navio, que ele não pôde calar — contam outra biografia. Prosperity nunca chegou perto do Texas. Saiu da Rússia, cruzou o Báltico, contornou a Europa como quem foge de casa pela porta dos fundos, atravessou o Atlântico e entrou pelo Brasil por Maceió antes de se apresentar ao Rio como se nada tivesse acontecido. Dois anos depois, seu nome constaria nas listas internacionais da Frota Fantasma. O Brasil, que jura não estar em guerra nenhuma, deu guarida ao petroleiro que mentia sobre onde tinha nascido. E colabora , assim, com o esforço de guerra russo.
Não foi gentileza isolada. Ao longo do conflito ucraniano, o país importou 26 bilhões de dólares em combustíveis russos; 1,2 bilhão desse total tinha etiqueta de sanção, transportado por 32 navios em 68 viagens que descarregaram principalmente em Santos, Paranaguá e Manaus. A frota que os carrega — entre seiscentos e mil petroleiros, segundo o monitoramento da EOS Risk — vive de trocar de bandeira como quem troca de disfarce, de estruturas societárias que ninguém consegue abrir e de documentação que finge origens que a rota desmente. O Brasil não integrou o cerco. Comprou o desconto que a Rússia oferecia a quem não perguntava demais, e chamou isso de soberania comercial.
É preciso um esforço de honestidade para admitir o óbvio: um país pode se declarar neutro e ainda assim ser instrumento. A neutralidade formal — a recusa em aderir a sanções, a preservação de relações comerciais com Moscou como se a guerra fosse assunto alheio — não isentou o Brasil de figurar na engrenagem. Isentou apenas de constrangimento diplomático. O petróleo que chegou disfarçado de americano não perguntou licença a ninguém antes de entrar no sistema de refino nacional; a omissão brasileira foi condição, não acidente, para que a Frota Fantasma encontrasse porto seguro do outro lado do mundo. Enquanto Washington reforça, sob a atual administração, a lógica de que sancionar sem fiscalizar é teatro — e pressiona compradores terceiros a escolherem lado —, o Brasil trata o tema como curiosidade de reportagem, não como decisão de Estado.
A história, ensinada com paciência, já mostrou este roteiro. Todo embargo cria seu contrabando; toda sanção gera sua frota-fantasma; todo conflito redesenha, por vias que a diplomacia oficial finge não ver, o mapa de quem vende e de quem finge não comprar. A diferença, desta vez, é a velocidade: o rastreamento por satélite que expôs o Prosperity é tecnologia nova aplicada a um vício antigo — o de nações que preferem a ambiguidade lucrativa à clareza moral. O Brasil não inventou esse vício. Apenas o praticou com a desenvoltura de quem tem costume.
Mas o petróleo disfarçado é só a metade visível do problema. A outra metade chega sem navio nenhum, escondida dentro de um saco de adubo. Longe do Rio de Janeiro, no interior da Bahia, a Mosaic desligou em 8 de julho de 2026 a fábrica de fertilizantes de Candeias e demitiu trinta pessoas; no pacote nacional que incluiu Paraná, Goiás e Minas, o número passou de quinhentas. A empresa não disfarçou o motivo, como se disfarça a origem de um petroleiro: escreveu, com todas as letras, que não conseguia mais importar enxofre por causa do conflito no Oriente Médio e das restrições no Estreito de Ormuz. A margem bruta da companhia no Brasil caiu de 69 para 22 dólares por tonelada em um ano; o segmento nacional saiu de lucro operacional de 98 milhões de dólares, no primeiro trimestre, para prejuízo de 422 milhões. Araxá foi posta em desmobilização. A mineração de Patrocínio, suspensa.
O mecanismo é simples e por isso mesmo cruel: são necessárias quatro toneladas de enxofre para produzir dez de MAP ou DAP, os adubos fosfatados que sustentam a lavoura brasileira. O Brasil tem a rocha — o fosfato dorme abundante no subsolo —, mas não tem o enxofre, subproduto do refino de petróleo e do processamento de gás, que sai majoritariamente do Golfo Pérsico. E o Golfo, em 2026, tornou-se propriedade de fato do Irã de Mojtaba Khamenei: a Guarda Revolucionária ataca navios mercantes dentro do Estreito de Ormuz, já matou ao menos dezessete marinheiros e mantém cerca de seis mil presos em quatrocentas embarcações, segundo a Organização Marítima Internacional. Quem quiser atravessar, atravessa pela rota que Teerã autoriza — e Teerã não autoriza de graça.
O MAP e o DAP, os dois fosfatados que dão corpo à lavoura brasileira, nascem do mesmo casamento químico — amônia mais ácido fosfórico, este último tributário do enxofre que falta — e se distinguem apenas no grau de compromisso com o nitrogênio: o MAP, fosfato monoamônico, carrega um único íon de amônio preso ao fosfato, entrega cerca de 11% de nitrogênio e 52% a 54% de fósforo, e chega ao solo levemente ácido, qualidade que o torna preferido na linha de semeadura, junto à raiz, sem embate com outros nutrientes; o DAP, fosfato diamônico, duplica esse íon, inverte a proporção para cerca de 18% de nitrogênio e 46% de fósforo, e se apresenta alcalino, o que libera around da semente uma amônia livre passageira, tolerável em solos que já não pecam por acidez. A diferença, vista de perto, é quase administrativa — uma questão de dosagem, de pH, de que nutriente se quer entregar primeiro à terra —, mas a semelhança, essa sim, é o que importa: os dois dependem da mesma cadeia estrangulada, do mesmo ácido fosfórico que só existe porque existiu enxofre para fazê-lo, e é essa dependência comum, não a diferença de fórmula, que decide se a fábrica de Candeias liga ou desliga.
O cerco não é só iraniano. A Turquia proibiu temporariamente a exportação de enxofre. A Rússia estendeu sua cota de fertilizantes e suspendeu a licença de nitrato de amônio. A China apertou ureia e ácido sulfúrico. Três Estados, três motivos distintos — guerra, sanção, protecionismo interno —, um único insumo estrangulado, e o resultado converge sobre o mesmo país que insiste em não estar em guerra nenhuma. Entre janeiro e abril de 2026, o Brasil importou 4% menos fertilizante nitrogenado e fosfatado e pagou 16% a mais por ele — o volume caiu de 7,7 para 7,4 milhões de toneladas, e o desembolso subiu na direção contrária, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil.
Há uma terceira frente, e essa não chega em navio-tanque nem em saco de adubo: chega no frete. Em 20 de julho de 2026, os houthis anunciaram bloqueio marítimo contra embarcações ligadas à Arábia Saudita no estreito de Bab el-Mandeb — resposta direta ao retorno dos ataques americanos contra alvos ligados a Ormuz, elo que amarra as duas pontas do mesmo conflito num só nó. Os grandes armadores globais já haviam desviado suas rotas para o Cabo da Boa Esperança, somando entre dez e quinze dias e milhares de quilômetros a cada travessia entre Ásia e Europa; o desvio consome mais combustível, mais tripulação, mais prêmio de seguro contra guerra, e cada uma dessas linhas soma-se, discretamente, à tarifa final do contêiner. Cerca de 30% da carga containerizada do comércio mundial cruza o Canal de Suez — a soja e o milho brasileiros, embarcados majoritariamente em graneleiros, escapam por ora do gargalo mais agudo, mas o café, a carne processada e os manufaturados que dependem de contêiner não escapam: pagam o frete mais caro de um mundo que reaprendeu, em poucos meses, o preço de uma rota insegura.
Duas leituras fáceis disputam este ponto, e ambas mentem por omissão. A primeira leitura, a oficial, é a da política externa como escudo: o Brasil não se envolve, o Brasil não escolhe lado, o Brasil observa de longe as guerras alheias e colhe apenas efeitos indiretos de mercado. É a leitura que a tradição diplomática brasileira gosta de repetir como quem reza um terço — envolvimento militar direto é remoto, a vocação é o diálogo. A segunda leitura, a que os números obrigam a fazer, é a de que não existe mais efeito puramente indireto numa economia que importa 93% do adubo que planta e boa parte do combustível que queima. Neutralidade política e dependência material são coisas diferentes, e a segunda desmente a primeira todos os dias, silenciosamente, no preço da soja e no preço do frango.
Porque o frango, hoje, ainda não pagou a conta. Ele custou, em maio de 2026, R$ 4,68 o quilo vivo — 2,1% menos que um ano antes —, porque a ração, que responde por 63% do custo de produção, recuou 6,6% em doze meses. Essa ração veio da safra passada, plantada com adubo comprado antes do estrangulamento do enxofre. A safra que se planta em setembro, e se colhe em 2027, é que vai carregar o preço novo — e a Aprosoja estima que de 30% a 40% desse fertilizante ainda nem foi comprado. A conta está sendo montada agora, diante de todo mundo, e ninguém a vê porque ela ainda não chegou à gôndola. É a modalidade mais brasileira de crise: a que já aconteceu, mas ainda não dói.
Não é fatalidade climática, coisa que cai do céu sem endereço de remetente. Tem endereço, e são três: Ancara, que fechou a torneira por cálculo interno; Moscou, que a fechou como arma de guerra; e, sobretudo, Teerã, que fechou o próprio mar. A firmeza com que potências ocidentais — os Estados Unidos à frente, num momento em que Washington voltou a tratar contenção marítima e pressão sobre exportadores hostis como instrumento de política, não como gesto simbólico — vêm respondendo à beligerância iraniana no Golfo contrasta, de modo desconfortável, com a passividade brasileira diante de sua própria exposição. O Brasil não fecha portas a navios de origem forjada, não constrange fornecedores que financiam a guerra que depois lhe cobra o adubo, e trata a política externa como um exercício de manter as mãos limpas enquanto os bolsos se esvaziam.
A síntese, portanto, foge do conforto de um país isolado que apenas sofre efeitos colaterais de conflitos distantes: revela um país que terceirizou sua segurança energética e alimentar a regimes e rotas que não respondem a Brasília, e que chama essa terceirização de autonomia. O petroleiro que mentiu sobre Houston e a fábrica que apagou em Candeias são, vistos de perto, o mesmo fenômeno com sotaques diferentes: a guerra do outro lado do mundo não pede licença para entrar pela alfândega brasileira, seja disfarçada de nafta americana, seja disfarçada de aumento sazonal no preço do adubo.
Fica, ao final, o princípio que sobrevive a qualquer conjuntura: nação que não produz o que come nem refina o que queima não é neutra — é refém com sotaque de soberana. A guerra que o Brasil insiste em não declarar já está lançada, silenciosa, dentro de cada saco de MAP que ainda não foi comprado para setembro. Quando a conta chegar à gôndola, em 2027, ninguém vai lembrar do nome Prosperity. Vai lembrar apenas do preço do frango — e vai chamar isso, como sempre, de destino.
Dagoberto Lima Godoy
A recente declaração do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, segundo a qual, diante de uma hipotética invasão dos Estados Unidos, seria melhor “abrir o portão”, porque o Brasil não teria condições militares de enfrentá-los, merece reflexão para além da evidente ironia da frase.
É possível que o ministro tenha utilizado a comparação para defender maiores investimentos na Defesa e, principalmente, maior previsibilidade orçamentária para projetos militares de longo prazo. Mesmo considerado esse contexto, porém, a frase continua profundamente infeliz.
Há coisas que um cidadão pode dizer em tom de brincadeira, mas que adquirem outro significado quando pronunciadas pelo ministro da Defesa.
Ninguém razoavelmente imagina que o Brasil possa enfrentar os Estados Unidos em uma guerra convencional de igual para igual. Pouquíssimos países poderiam fazê-lo. Mas daí não decorre que, diante de uma potência militar superior, a única alternativa seja a rendição.
Essa conclusão ofende os brios da nação e desconsidera a própria essência da defesa moderna.
Forças Armadas não existem para assegurar que um país consiga derrotar qualquer adversário. Existem, antes de tudo, para dissuadir: tornar uma agressão tão difícil, demorada e custosa que o potencial agressor prefira não a realizar.
O Brasil não precisa ter poder militar equivalente ao dos Estados Unidos, da China ou da Rússia. Precisa possuir meios suficientes para proteger seu território, suas fronteiras, sua imensa costa, a Amazônia, suas reservas naturais, sua infraestrutura estratégica e, sobretudo, para tornar extremamente cara qualquer tentativa de ocupação.
O artigo 142 da Constituição estabelece que Marinha, Exército e Aeronáutica se destinam, em primeiro lugar, à defesa da Pátria. É essa sua razão fundamental de existir.
Por isso, se diante de uma agressão externa relevante a resposta imaginável é “abrir o portão”, alguma coisa precisa ser revista: a dimensão das Forças, sua organização, sua doutrina, seus equipamentos ou a maneira como os recursos da Defesa estão sendo empregados.
Há ainda uma questão mais delicada.
As Forças Armadas devem, evidentemente, estar subordinadas ao poder civil e à Constituição, mas não existem para servir ao governo de turno. Devem cumprir ordens legais, dentro das funções que a Constituição lhes atribui. Há uma diferença essencial entre subordinação ao Estado democrático e instrumentalização pelo governo.
Afinal, parece incontestável que um país continental, rico em recursos naturais e com a projeção internacional do Brasil precise de Forças Armadas. Estas, porém, devem ser modernas, profissionais, tecnologicamente avançadas, afastadas das disputas político-partidárias e verdadeiramente preparadas para sua missão primordial: defender a Pátria.
E devem ser capazes de fazer com que qualquer potência pense muitas vezes antes de agredir o Brasil e, sobretudo, de deixar claro que o portão não está aberto.
* O autor, Dagoberto Lima Godoy, é engenheiro civil.
Francisco Carneiro Junior
E Por Que Elas Caem, Uma a Uma, Diante dos Fatos
Há um vocabulário inteiro construído para que o brasileiro comum nunca precise olhar de frente para o tamanho real do problema que ocupa o seu país. Esse vocabulário não nasce do debate técnico, nasce do conforto retórico: frases curtas, repetidas em estúdio de televisão, em postagem de rede social, em nota de ONG e em parecer de comissão parlamentar, que dispensam quem as repete de qualquer obrigação de prova e que, ao mesmo tempo, blindam exatamente quem mais se beneficia da inércia do Estado brasileiro diante do território que o crime organizado já ocupa. Não é coincidência que essas frases sobrevivam por décadas sem nunca serem submetidas a um teste empírico sério. Elas não precisam ser verdadeiras. Precisam apenas ser repetíveis. E o que se segue é exatamente isso: o teste que essas doze frases nunca quiseram enfrentar, frase por frase, fato por fato, sem anestesia.
“O Brasil é soberano.”
É a frase mais confortável de todas, a que abre qualquer discurso oficial sobre segurança pública e fecha qualquer debate antes que ele comece. Pergunte isso a um morador de uma comunidade sob hegemonia de facção e a resposta virá em silêncio, no jeito como ele evita determinada rua porque sabe que ali existe pedágio armado, no jeito como a concessionária de energia precisa negociar acesso ao poste com quem nunca disputou eleição alguma, no jeito como o motorista de aplicativo memoriza, sem precisar de mapa nenhum, onde termina a jurisdição da Constituição e onde começa a jurisdição do fuzil. Soberania não é o título que se ostenta no preâmbulo de uma carta constitucional. É a capacidade concreta, mensurável, de o Estado fazer valer sua autoridade sem pedir licença a um terceiro armado. E o ano de 2026 trouxe a prova mais humilhante dessa fratura: foi um governo estrangeiro, e não o brasileiro, quem primeiro chamou a coisa pelo nome. Em 28 de maio, o Departamento de Estado dos Estados Unidos, sob assinatura do secretário Marco Rubio, classificou o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como Terroristas Globais Especialmente Designados, com efeito a partir de 5 de junho, e anunciou a intenção de também os enquadrar como Organizações Terroristas Estrangeiras. A decisão não nasceu no vácuo. Nasceu de articulação política conduzida pelo senador Flávio Bolsonaro, que dois dias antes havia se reunido com o próprio presidente Donald Trump e, na véspera do anúncio, com Rubio, pedindo explicitamente esse enquadramento. O governo Lula reagiu como reage todo poder que prefere administrar a vergonha a admitir a derrota: chamou a designação de risco à soberania nacional, de manipulação política promovida por “falsos patriotas” e insistiu que o terror praticado por essas organizações busca lucro, não ideologia, e que por isso não se equipara, tecnicamente, ao terrorismo internacional. A nota é juridicamente defensável e politicamente patética ao mesmo tempo, porque ela defende uma soberania de papel justamente no momento em que o papel já não vale nada nas ruas de três milhões e meio de moradores da região metropolitana do Rio de Janeiro que vivem, segundo o mapeamento mais recente do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, sob domínio territorial direto de milícias e facções, parcela que corresponde a quatorze por cento de toda a área urbanizada da região. Soberania que precisa ser defendida com nota oficial, mas não com presença armada contínua, é exatamente o tipo de soberania que um governo estrangeiro tem todo o direito de não respeitar.
“Pancadão é festa.”
A segunda mentira tenta vestir de cultura aquilo que é, na realidade, logística de poder. O argumento cultural é sedutor justamente porque mobiliza um sentimento legítimo, a defesa da expressão popular contra o preconceito de classe, mas esconde uma função econômica que raramente entra no debate. O evento de rua com fluxo intenso de dinheiro vivo, sem fiscalização fiscal de qualquer espécie, funciona também como mecanismo de lavagem e circulação de capital de origem difícil de rastrear, e essa não é uma acusação gratuita: é a mesma lógica que motivou Francisco a investigar, em trabalho anterior, como parte da indústria do funk no Brasil opera como canal de lavagem de dinheiro para organizações criminosas que financiam o próprio evento que depois se apresenta como manifestação espontânea de lazer popular. Cultura autêntica não depende de fechamento ilegal de via pública, não depende de presença armada discreta nas saídas para garantir que nenhum forasteiro circule sem ser notado, não depende de segurança que pergunta documento antes de o Estado perguntar qualquer coisa. Manifestação cultural não precisa de sentinela. Poder territorial precisa. E a distinção entre as duas coisas é exatamente o que a frase tenta apagar, porque uma vez apagada essa distinção, toda crítica técnica ao financiamento criminoso de eventos de massa passa a ser tratada como ataque à cultura popular, quando na verdade é o contrário: é defesa da cultura popular contra quem a sequestrou como fachada.
“A polícia é o problema.”
A terceira mentira é a mais perigosa de todas porque finge ser progressista enquanto entrega a rua a quem nunca mereceu recebê-la. Em qualquer território onde o Estado perde o monopólio legítimo da força, o vácuo nunca é ocupado por harmonia espontânea. É ocupado por quem já tinha capacidade de impor regra à força antes da polícia chegar e que continuará tendo essa capacidade depois que ela sair. Esse não é um argumento ideológico, é uma lei observável em qualquer território do planeta onde o Estado recuou: do Sahel à fronteira colombiana, do interior do México às próprias favelas brasileiras antes e depois da era das Unidades de Polícia Pacificadora. Retirar a polícia da equação não devolve a rua ao cidadão comum, devolve a rua a quem já estava armado. Críticas pontuais a abusos específicos, a excessos documentados, a operações mal planejadas, são legítimas e necessárias, e nenhum profissional de tropa de elite que já vestiu uniforme operacional discorda disso. Mas usar esses casos pontuais para deslegitimar a função policial como instituição é confundir o instrumento mal utilizado com a inexistência de qualquer instrumento. A alternativa real à presença policial, mesmo a presença policial imperfeita, nunca foi liberdade. Foi domínio de quem a polícia deveria conter.
“O crime nasce da fome.”
A quarta mentira tenta explicar com miséria aquilo que nasceu, documentadamente, dentro de cela. Se essa equação fosse verdadeira, bastaria erradicar a pobreza para erradicar o crime organizado, e a história recente de países que reduziram drasticamente a miséria sem reduzir na mesma proporção o crime corporativo mostra que a conta não fecha. O Primeiro Comando da Capital nasceu em 1993 dentro do sistema penitenciário paulista, fundado por presos comuns que perceberam, com frieza absolutamente empresarial, a vantagem econômica de estruturar hierarquia, disciplina e estatuto interno. O Comando Vermelho nasceu ainda antes, em 1979, na Ilha Grande, na convivência forçada entre presos comuns e presos políticos da ditadura, que ensinaram aos primeiros disciplina organizacional, célula, compartimentação. Fome explica furto isolado de sobrevivência. Não explica organização com estatuto escrito, comando reconhecido hierarquicamente e capacidade de tributar bairro inteiro como se fosse contribuinte regular de uma prefeitura paralela. Atribuir a existência da facção à fome é confundir o sintoma da desigualdade brasileira, que é real e que merece política pública séria, com a arquitetura deliberada de quem decidiu lucrar com ela.
“Desarmar a população reduz a violência.”
A quinta mentira inverte o risco e chama isso de proteção. O cálculo por trás da política de desarmamento civil parte de uma premissa que o comportamento cotidiano do criminoso desmente todos os dias: a de que quem já rompeu a lei mais grave do ordenamento jurídico, a que proíbe matar, vai se conter diante de uma lei muito mais branda, a que regula posse e porte de arma de fogo. O efeito prático do Estatuto do Desarmamento, sancionado em 2003 sob enorme entusiasmo do establishment político e midiático da época, não foi simetria de paz. Foi assimetria de risco. O cidadão ordeiro perdeu, em larga medida, a ferramenta de defesa imediata exatamente no momento em que o agressor manteve a sua intacta, porque facção criminosa não compra fuzil em loja registrada e não se submete a cadastro de posse responsável. Reduzir a circulação legal de armas entre quem nunca pretendeu usá-las contra ninguém, sem reduzir na mesma proporção o arsenal de quem já as usa todos os dias contra civis e contra policiais, não desarma a violência. Apenas escolhe, com uma assinatura de canetada legislativa, de que lado dela a desvantagem vai recair.
“Barricada é questão social.”
A sexta mentira desloca para o urbanismo aquilo que pertence à logística de guerra territorial. Toda estrutura física de controle de acesso, seja muro, seja cancela, seja barricada de madeira e fogo erguida às pressas, existe para regular quem entra e quem sai de um espaço, e quem regula esse fluxo exerce poder sobre quem depende dele para circular. A barricada erguida em via de comunidade dominada não nasce de carência de infraestrutura. Nasce de necessidade tática de quem precisa de tempo de reação contra a chegada da polícia e de instrumento de controle sobre o próprio morador, que perde a autonomia de ir e vir sem autorização de quem ergueu a estrutura. Isso não é especulação literária. É exatamente o que se viu, documentado por câmera de celular e por reportagem ao vivo, na manhã de 28 de outubro de 2025, quando organizações criminosas incendiaram barricadas, posicionaram setenta e um ônibus atravessados nas principais vias da Zona Norte do Rio de Janeiro e lançaram explosivos por meio de drones contra equipes de força especial durante a chamada Operação Contenção. Chamar isso de questão social é deslocar para o campo da assistência urbana aquilo que qualquer oficial de operações táticas reconhece, no primeiro segundo de leitura de cenário, como manual de guerra irregular.
“Bandido é vítima da sociedade.”
A sétima mentira rebaixa moralmente quem resistiu à tentação ao equiparar quem cedeu a ela. A mesma estrutura social que produz o traficante produz, na vasta maioria estatística dos casos, o trabalhador que nunca cometeu crime algum, criado na mesma rua, sob a mesma ausência de Estado, com a mesma falta de oportunidade. Se a circunstância bastasse como explicação causal completa, o resultado seria uniforme. Não é. O que distingue os dois destinos não é o ambiente compartilhado, é a decisão individual tomada dentro dele, e atribuir essa decisão inteiramente a fatores externos retira do criminoso a condição de agente moral responsável pelos próprios atos — condição que, paradoxalmente, é a mesma que permite reconhecer mérito e dignidade a quem, na mesma circunstância, escolheu o caminho honesto. Tratar o bandido como vítima não engrandece o pobre. Rebaixa ao mesmo patamar moral aquele que resistiu e aquele que cedeu, e isso é, sob qualquer ética que mereça o nome, uma injustiça contra o primeiro.
“Retomar território é impossível.”
A oitava mentira chama de impossibilidade técnica o que é, na verdade, falta de vontade política de pagar um custo. Toda afirmação sobre impossibilidade política, quando examinada de perto, revela-se afirmação sobre custo, não sobre limite técnico. A prova está documentada em números frios e em sangue real. Em 28 de outubro de 2025, aproximadamente dois mil e quinhentos agentes de segurança do estado do Rio de Janeiro, sob comando do governador Cláudio Castro, deflagraram a Operação Contenção nos Complexos da Penha e do Alemão, cumprindo cem mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho em vinte e seis comunidades. O resultado operacional foi a apreensão de mais de uma tonelada de droga e cento e dezoito armas, incluindo noventa e três fuzis de procedência identificada em fábricas clandestinas e em arsenais de origem venezuelana, argentina e peruana — prova material, e não retórica, de que o domínio armado daquele território estava lastreado em capacidade bélica equivalente a tropa regular. O custo humano foi monumental: cento e vinte e um mortos confirmados oficialmente, a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, superando até a Chacina do Carandiru. Cláudio Castro chamou a ação de sucesso. Parte da sociedade civil, defensoria pública e Ministério Público abriram apuração sobre possíveis execuções, sobre cadáveres encontrados amarrados, sobre indícios de fraude processual na cena do crime, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou em fevereiro de 2026 que o governo fluminense, o Ministério Público estadual e o Conselho Nacional de Justiça prestassem esclarecimentos formais sobre todas as fases da operação. A controvérsia é real e nenhuma análise séria a esconde. Mas o que a controvérsia jamais conseguiu desfazer foi o fato operacional bruto: o domínio do Comando Vermelho sobre aquele perímetro recuou, de forma mensurável, depois de décadas em que recuar parecia impossível. O preço foi imenso. A impossibilidade, não.
“Reduzir a maioridade penal vai aumentar o problema.”
A nona mentira inverte causa e efeito com uma elegância retórica que não resiste ao primeiro contato com a prática das próprias facções. O recrutamento sistemático de adolescentes para funções de risco máximo — vigilância armada, execução, transporte de carga ilícita — não acontece por afinidade etária. Acontece porque a estrutura penal vigente oferece a essas organizações um ativo extremamente valioso: o agente capaz de matar e morrer sem responder como adulto pelas consequências, protegido pelo limite de internação que o Estatuto da Criança e do Adolescente fixa em no máximo três anos, com ficha que se apaga depois da soltura. Em 10 de junho de 2026, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou, por quarenta e quatro votos a dezoito, a admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição que reduz de dezoito para dezesseis anos a idade mínima de responsabilização penal, sob relatoria do deputado Coronel Assis, do PL do Mato Grosso. A oposição, representada por nomes como o deputado Tadeu Veneri, do PT do Paraná, e a deputada Sâmia Bonfim, do PSOL de São Paulo, argumentou que a medida é eleitoreira, que vai parar no Supremo Tribunal Federal por violar cláusula pétrea e que vai apenas empurrar o recrutamento para idades ainda mais baixas. Esse último argumento merece resposta técnica, não dispensa retórica: ele assume que existe, hoje, algum piso de proteção real contra o recrutamento infantil pelas facções, quando na verdade o que existe é o oposto, um incentivo estrutural explícito ao uso de menores como instrumento descartável de violência, precisamente porque o sistema atual já garante impunidade prática a quem recruta e a quem é recrutado. Reduzir a maioridade penal não cria uma vulnerabilidade nova. Fecha a brecha jurídica que hoje funciona como vantagem competitiva de quem usa criança como escudo legal e operacional. O deputado Mendonça Filho, defensor da proposta, lembrou que o Brasil registra ao redor de quarenta e quatro mil homicídios por ano e descreveu a situação como padrão de guerra civil que o debate público insiste em fingir não existir. A comparação com El Salvador, onde o regime de exceção do presidente Nayib Bukele esvaziou bairros inteiros de domínio de maras ao custo de uma política prisional de dureza extrema, não é usada por acaso nesse debate: é usada porque, goste-se ou não do método, o resultado empírico de redução de homicídio está documentado, e isso pesa mais, para quem sofre a violência todos os dias, do que qualquer objeção de principiologia constitucional discutida a portas fechadas em Brasília.
“Milícia é o mal menor.”
A décima mentira trata como equivalentes duas estruturas que nascem de origens moralmente opostas. Comparar milícia e tráfico como se fossem apenas pontos diferentes de gravidade na mesma escala ignora exatamente a origem que separa as duas estruturas. O traficante nunca pertenceu ao aparato que deveria combatê-lo. O miliciano, na maioria documentada dos casos, sim, e usa o treinamento, o conhecimento operacional e por vezes o próprio distintivo recebido do Estado para construir domínio paralelo sobre gás, água, internet e transporte alternativo dentro do território que jurou proteger. O mapeamento mais recente do Geni-UFF em parceria com o Instituto Fogo Cruzado confirma que essa traição de origem não é figura de linguagem: milícias ainda respondem pela maior fatia histórica das áreas dominadas ou influenciadas por grupos armados na região metropolitana do Rio de Janeiro, mesmo após perderem espaço territorial para o Comando Vermelho nos últimos anos, em uma disputa que inclui inclusive a venda informal de território entre grupos rivais, como ocorreu em Bangu, na Zona Oeste fluminense, quando uma milícia local repassou parte de sua área de influência ao Terceiro Comando Puro. Essa traição de origem não torna a milícia mais branda. Torna-a mais corrosiva, porque corrompe por dentro exatamente a instituição que a sociedade deveria poder confiar como antídoto contra esse tipo de domínio.
“Operação policial não resolve.”
A décima primeira mentira confunde limite temporal de uma ação com prova de inutilidade estrutural. Quem sustenta essa frase raramente apresenta o que resolveria em seu lugar, e esse silêncio é o ponto mais revelador do argumento. Toda operação tem custo e limite temporal, isso é fato técnico inquestionável; tratar esse custo pontual como prova de inutilidade é erro de raciocínio, não conclusão de evidência. A pergunta correta nunca foi se uma operação isolada resolve o problema por completo. Foi se a presença sustentada do Estado, com continuidade e inteligência, reduz o domínio armado ao longo do tempo, e a própria disputa institucional em torno da Operação Contenção prova o ponto às avessas: o motivo pelo qual o Supremo Tribunal Federal, por meio do ministro Moraes, e o Ministério Público fluminense passaram a exigir relatórios contínuos sobre cada fase da ação não foi para provar que ela não funcionou taticamente, foi para garantir que o sucesso tático não vire pretexto para abandono da fiscalização institucional depois que as câmeras de televisão desligarem. Presença intermitente, qualquer que seja a desculpa para ela, sempre ensina ao território ocupado que a ausência do Estado vai voltar.
“Endurecer pena não resolve, o problema é a impunidade estrutural.”
A décima segunda mentira acerta o diagnóstico e erra a receita. A premissa está correta — a impunidade estrutural brasileira é fato documentado, grave e antigo. A conclusão que se extrai dela, porém, não decorre logicamente da premissa. Recursos protelatórios manipulados, prescrição usada como estratégia de defesa e sistema prisional incapaz de gerir sua própria capacidade não são argumento contra pena mais severa, são argumento a favor de corrigir a engrenagem que impede qualquer pena, leve ou severa, de se cumprir de fato. Essa é exatamente a disputa que paralisou o Congresso Nacional ao longo de 2025 e 2026 em torno do chamado Marco Legal de Combate ao Crime Organizado. O projeto original do governo Lula, enviado sob o número 5582/2025, criava o tipo penal de organização criminosa qualificada, com pena entre oito e quinze anos, voltado a grupos que controlam território por meio de violência sistemática. O deputado Guilherme Derrite, secretário de Segurança Pública de São Paulo sob o governo de Tarcísio de Freitas, relator do projeto na Câmara, apresentou substitutivo que eliminou essa figura e equiparou facções e milícias diretamente ao regime da Lei Antiterrorismo, elevando penas e reduzindo o papel de coordenação da União. O líder do PT na Câmara, deputado Lindbergh Farias, acusou Derrite de ter contaminado politicamente um projeto técnico para transformá-lo em instrumento de disputa eleitoral. Derrite respondeu, sem rodeios, que é hora de endurecer a lei, não de suavizá-la. Em paralelo, tramitava ainda o Projeto de Lei 1283/2025, de autoria do deputado Danilo Forte, que pretendia o mesmo enquadramento antiterrorista, sob relatoria sucessiva de Alexandre Ramagem e depois de Nikolas Ferreira. O ponto que une as duas frentes legislativas, apesar de toda a disputa partidária entre elas, é o reconhecimento, mesmo que tácito, de que o arcabouço penal de 2013 já não corresponde ao tamanho real da ameaça, e essa é a única conclusão coerente que se pode extrair da premissa da impunidade estrutural: corrigir a engrenagem processual e, ao mesmo tempo, endurecer a pena, porque pena dura sem certeza de cumprimento não inibe ninguém, e abandonar o endurecimento por causa da impunidade processual é resolver a metade errada do problema.
As doze mentiras compartilham um único mecanismo, e identificá-lo é mais importante do que desmontar cada frase isoladamente: deslocar a responsabilidade do agente que escolhe o crime, ou da estrutura que o sustenta, para qualquer abstração disponível — pobreza, cultura, corporação policial, idade penal ou o próprio conceito de soberania nacional. Mas há um risco em parar aqui, em tratar como doze problemas isolados aquilo que é, na verdade, um único fenômeno com doze sintomas. Chamar facção criminosa de problema social, chamar domínio territorial de tráfico comum, chamar extorsão sistemática de cultura de rua, é recusar-se a nomear o que de fato ocupa parte do mapa brasileiro. Quem domina território, impõe medo de forma sistemática sobre população civil inteira e ataca com violência letal quem ousa resistir não está cometendo crime no sentido tradicional do termo. Está exercendo controle armado com finalidade territorial e econômica, com estrutura de comando, logística de combate e capacidade de mobilização equivalente, em escala local, a um exército irregular. A diferença entre essa categoria e o crime comum não é semântica, é doutrinária: esse tipo de ameaça exige resposta de inteligência permanente, doutrina de guerra irregular e continuidade estratégica de décadas, enquanto crime comum se resolve com policiamento ostensivo de rotina. Foi exatamente essa percepção, amadurecida sob enorme pressão diplomática externa, que levou Washington a classificar Comando Vermelho e PCC como organizações terroristas globalmente designadas antes que Brasília o fizesse, e foi a mesma percepção que moveu deputados de diferentes bancadas a tentar, por caminhos legislativos distintos e às vezes rivais entre si, alcançar a mesma equiparação dentro da legislação brasileira. O governo Lula pode resistir ao rótulo internacional, e tem argumentos jurídicos técnicos respeitáveis para isso, mas não pode mais negar a substância sem que a negação pareça, ela mesma, parte do problema.
A prova de que se trata de governo paralelo, e não de criminalidade dispersa, está na lista exata de funções que hoje dependem de autorização armada em território dominado. Internet, gás de cozinha, transporte alternativo, abertura e funcionamento de comércio, circulação de pessoas pela própria rua: quando o acesso a cada uma dessas necessidades básicas de vida civil passa pelo crivo de quem porta fuzil, esse território já não é administrado pelo Estado brasileiro. É administrado por quem ali impôs sua própria estrutura de cobrança e permissão, com os mais de três milhões e quatrocentos mil moradores da região metropolitana do Rio de Janeiro vivendo sob esse domínio direto, segundo o levantamento mais recente do Geni-UFF, e com áreas urbanizadas inteiras — a Zona Oeste da capital fluminense é o exemplo mais extremo, com a maior parte de seu território sob controle ou influência armada — funcionando, na prática administrativa cotidiana, sob jurisdição paralela. Isso não é figura de linguagem. É descrição técnica de governo de fato, ainda que ilegítimo e nunca reconhecido como tal pelo discurso oficial. Negar essa realidade não a apaga. Apenas atrasa a hora em que o Estado vai precisar reconhecê-la para poder revertê-la.
E quem paga a conta dessa governança paralela nunca é quem a romantiza à distância, do conforto de um apartamento na Zona Sul ou de um estúdio de televisão. É o pequeno comerciante que abre a loja sabendo que parte do lucro do mês já está comprometida com taxa que não consta em nenhuma nota fiscal. É o motorista de aplicativo e o entregador que aceitam rota mais longa para não cruzar esquina onde sabem que existe cobrança informal de passagem. É o morador que paga duas vezes pelo mesmo serviço, uma à concessionária legal e outra a quem controla o acesso físico ao poste ou ao cano. Quem se nega a pagar não recebe advertência administrativa. Recebe ameaça direta, e o silêncio em torno dessa extorsão cotidiana é o combustível que permite à narrativa romântica sobre o crime sobreviver sem nunca precisar enfrentar quem de fato sustenta a conta no fim do mês. Trabalhador, mãe de família, aposentado e pequeno comerciante formam a lista invariável de quem sustenta, sem nunca ter sido consultado, o orçamento de uma estrutura armada que nenhum deles escolheu.
A resposta a isso não cabe em meio termo, e qualquer política pública desenhada como meio termo já nasce derrotada. Não existe negociação possível com quem já demonstrou, pela prática diária, que entende diálogo como sinal de fraqueza a ser explorado, não como gesto de boa-fé a ser retribuído. O Estado brasileiro precisa retomar rua por rua, comunidade por comunidade, bairro por bairro, com a mesma consistência e o mesmo tempo que o crime organizado levou para construir o domínio que hoje exerce, porque presença intermitente apenas ensina ao território ocupado que a ausência sempre volta. O novo ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, empossado em janeiro de 2026 em substituição a Ricardo Lewandowski, repetiu o diagnóstico correto ao afirmar que ações isoladas, ainda que eficientes, não bastam para enfrentar estruturas criminosas complexas e financeiramente organizadas, e defendeu a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição da Segurança Pública como instrumento de coordenação federativa permanente. O diagnóstico está certo. O que falta, depois de décadas de diagnósticos corretos sem execução correspondente, é a disposição de sustentar o custo da execução além do ciclo de manchete. Recuar diante da primeira baixa, da primeira pressão midiática ou da primeira negociação informal por trégua não é prudência. É confirmação pública de que o controle territorial paralelo pode esperar a próxima onda de cansaço institucional para se reconsolidar — e a história recente do Rio de Janeiro, com o Comando Vermelho retomando, entre 2022 e 2023, mais de duzentos e quarenta quilômetros quadrados que havia perdido para milícias um ano antes, mostra exatamente essa lógica de maré: o território vacante nunca fica vacante por muito tempo, ele apenas espera saber quem vai ocupá-lo de novo.
Cidades inteiras estão sendo tomadas em pedaços, rua após rua, enquanto parte significativa da opinião pública e de sua representação política trata o fenômeno como exagero retórico de quem quer alarmar sem motivo, ou pior, como pretexto eleitoral de quem busca capital político em cima do medo da população. Não é exagero. É descrição precisa de um processo em curso, mensurável pelo número de territórios onde o cidadão comum já não decide por conta própria quando sair de casa, o que vender, quanto cobrar ou para quem prestar contas. Fingir que não vê não interrompe o processo. Apenas garante que, quando a urgência for impossível de ignorar, o custo da reação será proporcionalmente maior ao tempo perdido em negação. O relógio dessa disputa territorial não para porque Brasília decidiu chamá-la de outra coisa, e não vai parar porque algum gabinete climatizado no centro do poder considera o tema desconfortável demais para a próxima campanha. Ele só para quando o Estado brasileiro decidir, de uma vez, pagar o preço que ele sempre soube que essa guerra custaria.
* Enviado ao site pelo autor em 7 de agosto de 2026