Percival Puggina
01/11/2026
Percival Puggina
Oh, mia patria sì bela e perduta!
Oh, membranza sì cara e fatal!
Giuseppe Verdi, na ópera Nabucco (informal hino italiano)
Levei dois dias inteiros sem conseguir escrever uma linha sequer sobre o que aconteceu no dia 25 de outubro. Repetidas vezes tentei reunir o Gabinete de Crise que me atende nessas encrencas, mas meus botões nem saíram de suas casas. Já não reconhecia o meu país – “Oh, lembrança tão querida e fatal!” ... Via-me exilado bíblico em terra estranha, Babilônia distópica, onde se consumira minha liberdade.
Nos primeiros minutos da proclamação do resultado, afirmei aos meus botões ainda bons ouvintes: será bem-feito que os crentes nas bravatas de Lula e os carentes que compraram, com voto, o escandaloso e multibilionário pacote das ilusões vendidas paguem pelo erro que cometeram! Quanta decepção os aguarda! Teriam sido também sete, os minutos dessa raivosa reflexão? Terão eles transcorrido simultaneamente com a expedição da ordem a Flávio Bolsonaro para entregar passaportes? Em seguida, porém, lembrei-me dos injustiçados, dos presos políticos, dos exilados, dos foragidos, dos heróis e das vítimas do arbítrio e dos abusos. E rezei por todos para que tenham força na longa travessia.
Enquanto as horas fluíam, eu ouvia insistentes questionamentos sobre o resultado das urnas. Onde se escondia a verdade? As sociedades convivem muito mal com a imprevisibilidade e, convenhamos, isso é meritório. A previsibilidade é fator de segurança e a insegurança tem preço. Pode custar muito caro, e o inesperado vem de todo lado. Um dia, a inesperada paradinha na contagem de votos, que alguns já aguardam olhando o relógio; no outro, a esticadinha. Um dia, decisão autorizando a censura em nome da verdade; no outro, decisão autorizando a mentira em nome da liberdade. Um dia, o STF se intromete em decisões de competência do TSE; no outro, o que vale para alguns não vale para todos. E vice-versa.
Em fins dos anos 80, quando coordenei a assessoria à bancada do PFL na Assembleia Legislativa do RS, procurei promover palestras sobre temas de democracia liberal. Com esse intuito, precisava agendar o uso de uma das salas de comissão existentes no prédio do parlamento gaúcho. Sabe o leitor qual era a dificuldade? Conseguir qualquer uma que a bancada do PT já não tivesse, antecipadamente, agendado para seu uso. O partido reunia constantemente a militância segundo suas várias correntes internas ou em grupos com interesses e pautas específicas.
Nos anos seguintes, esse ativismo produziu sucessos eleitorais surpreendentes para uns, mas previsíveis por outros. Após quatro vitórias consecutivas em eleições à prefeitura de Porto Alegre, entre 1998 e 2004, o partido foi derrotado. Lembro que logo após, em declaração à imprensa, um dirigente recomendou a seus companheiros e camaradas que voltassem a ler a obra de Antonio Gramsci. Essa leitura leva ao que já tinha acontecido e ao que veio depois: tomar o ambiente cultural, mobilizar multidões, disseminar narrativas, destruir reputações e instrumentalizar a máquina pública. Refiro-me, em especial, às carreiras de Estado, ao imenso aparelho educacional do país, ao movimento sindical, aos movimentos sociais, à ampla parcela de minha amada Igreja Católica cativada pela Teologia da Libertação. Não há movimento conservador ou liberal capaz de algo minimamente próximo a isso.
O que acabei de descrever basta para justificar a radical reversão de previsões, cientificamente elaboradas pelos institutos de pesquisa? De onde saíram tantos milhões de lulistas em apenas três semanas? É uma pergunta séria, com respostas difíceis de sustentar ou contestar. A máquina é ruidosa ou silenciosa segundo a própria conveniência. Assim como não há previsibilidade, não há credibilidade, pois esta última se autodestruiu ao inutilizar os meios que poderiam ser usados para esclarecer, com autoridade, quaisquer dúvidas supervenientes.
A esquerda releu Gramsci e foi para a eleição. Usou, uníssona, todos os coelhos de sua cartola de anomalias. A direita ouviu falar dele e só aprendeu a culpá-lo, em vez de aproveitar do que, de realmente importante, ele ensinou sobre construção da hegemonia! Quantos dos nossos líderes partidários leram Olavo de Carvalho? Quantos levaram a sério o dever de casa? Quantos olharam além da primeira cerca? Agora, a direita parece dividir-se mais um pouco e põe em risco a futura presidência do Senado.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
29/10/2026
Percival Puggina
“Estou vendendo um realejo.
Quem vai levar? Quem vai levar? Quem vai levar?
Já vendi tanta alegria, vendi sonhos a varejo.
Ninguém mais quer hoje em dia acreditar no realejo (...)”.
Chico Buarque, em Realejo
Quem diria, não é mesmo? Em 1967, ano dessa composição, os realejos ainda rodavam nas praças. Hoje, vender sonhos e ilusões é tarefa para um certo jornalismo militante que também entrega, de cambulhada, narrativas, utopias, mentiras e mistificações. Ora ele ganha requintes acadêmicos nas redações onde os fatos, recebidos “in natura”, são reciclados em conteúdo e forma; ora é singela construção artesanal para posterior distribuição através dos assim chamados exércitos de ativistas, como a gigantesca infantaria comandada pelo general Janones.
Os tocadores de nossos realejos quotidianos desenvolveram uma semântica astuciosa em que adjetivos como negacionistas, genocidas, fascistas, terraplanistas são usados para significados aquém e além daqueles para os quais existem e nunca com o intuito de serem entendidos no sentido original. Delírios de linguística orwelliana! Veneno em poção verbal e visual. O mercado de veneno atrai ilustrados e apedeutas.
Uns e outros, para combater a divergência que merecem, recriaram um “antifascismo” sempre pronto a causar dano. Visto de perto, porém, não passa do velho fascismo com estrela vermelha. A Segunda Guerra Mundial ainda não acabara e as nações tomadas da Alemanha pelo Exército Vermelho já amargavam a tirania soviética que dizia combater o fascismo supostamente nelas infiltrado.
O realejo que hoje toca o dia inteiro no Brasil tem como público cativo o cidadão do sofá, previamente descerebrado e anatomicamente formado por corpo, membros e almofadas. Pode haver certa má vontade minha, mas sempre achei mais fácil acreditar em Terra plana do que na Globo, por exemplo. Ademais, querer convencer pela repetição, como acontece no Brasil, desrespeita o público. É assim no adestramento usado por humanos para controlar animais – e nunca ao contrário. Pelo amor de Deus, nunca ao contrário, nunca por animais para controlar seres humanos!
* Imagem ChatGPT
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
24/10/2026
Percival Puggina
Domingo, 25 de outubro de 2026. Para o bem ou para o mal, um dia que jamais esqueceremos. Converge para ele mobilização intensa dos cidadãos. Enquanto se nacionalizam disputas locais, antagonismos nacionais chegam aos bairros. É a política em teses e antíteses tão rudimentares quanto essenciais. A realidade mostra os dentes. Utopias sacodem as nuvens onde habitam e, entre raios e trovões, regam fantasias. Há uma incerteza no ar: a história projeta a perenidade do passado ou um futuro que estende os braços para resgatar a nação dos sofrimentos do tempo presente?
Domingo tem eleição. Enquanto as horas passam em direção a ela, presenciamos o dispersivo vendaval das mentiras e a atividade febril na usina de narrativas. Uma e outra, mentiras em estado bruto e narrativas produzidas com engenhosa mistificação, nos arrastam ao inevitável dilaceramento de laços de confiança preciosos ao convívio social.
A história, contudo, tem vértices. As linhas que a orientam têm pontos de encontro além dos quais não existe continuidade sem mudança. Após esta eleição, a tirania ou tira a roupa e se assume de modo escrachado e despudorado ou cai, para que a soberania popular se afirme, a liberdade abra as asas sobre nós e a democracia seja reconstruída.
Observe a realidade destes dias. Os mesmos que tudo fazem para desacreditar a atividade política e provocar hostilidade entre as pessoas de bem e o processo eleitoral, voltam às ruas após longo e envergonhado retiro para estimular seus próprios eleitores. Tudo fizeram para impor silêncio às ruas, censurar a divergência e restringir nossas liberdades. Transformaram a rede de ensino do país em fabriquetas de militantes, emburreceram o ambiente cultural, saquearam a população por meios diretos e indiretos.
Domingo tem eleição. Não fique em casa. Quem governou o país em cinco das seis eleições deste século nos trouxe ao fundo do poço das possibilidades e a este miserável ponto de ruptura. Dê seu voto à mudança. Aposte na esperança.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
23/10/2026
Percival Puggina
Ocorreu-me reler os textos que escrevi no período entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial de 2022. Eram, quase todos, artigos críticos à atuação do combo STF/TSE, claramente antagônica ao candidato Bolsonaro, que concorria à reeleição. Dias depois, na cerimônia de diplomação de Lula, ante uma plateia repleta de companheiros em festa, o presidente do TSE, ministro Alexandre de Moraes, foi aplaudido tão insistente e prolongadamente quanto Lula. Mas com ainda maior entusiasmo. Jamais se viu coisa igual.
Nenhum desses textos (foram 25 entre os dias 2 e 30 de outubro!) mencionava a necessidade de que todos fossem às urnas. Em nenhum me ocorreu advertir que não se abstivessem. Parecia-me que a vida pregressa de Lula, embora proibida qualquer menção a ela, era algo real, tão real quanto suas péssimas companhias na política nacional e internacional. A abstenção/omissão se manteve nos 21% habituais e Lula foi eleito.
Não tenho qualquer interesse que não seja cívico. Sou apenas um pai e avô, consciente de que estou na fila de espera da eternidade. Por isso, do mesmo modo como irei votar apesar de legalmente dispensado, apelo a todos os eleitores para que não sejam cúmplices dos males que possam advir de sua omissão. A destruição da ordem, a barafunda institucional e a corrupção, lavada e deslavada, exigem uma contestação democrática, mesmo que em urnas ainda sem impressoras.
A simples ideia de Lula indicando quatro novos ministros para o STF faz pensar, imediatamente, nos próximos 30 anos! No dia 25, vote Flávio 22 e reze por ele e pelo Brasil.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
* Imagem ChatCPT
Percival Puggina
18/10/2026
Percival Puggina
O muro de que vou falar não é o habitado pela mistura nada homogênea dos omissos e dos oportunistas, nem é um dos tantos em que a moçada acadêmica descarrega seu chorume ideológico. Tampouco é o trecho berlinense da velha Cortina de Ferro, atrás da qual, a partir de 1946, a Rússia capturou um pacote de desafortunadas nações outrora livres. Para quem nunca ouviu falar, vai a explicação: após duas décadas, ficou tão intenso o êxodo do lado oriental, dominado pelos comunistas e apavorado pela Stasi, que o regime soviético precisou reforçar a Cortina de Ferro com um muro dentro da cidade de Berlim. A simples mudança de CEP para o outro lado da Ebertstrasse significava a liberdade.
Tanto a cortina quanto o muro são bons temas, mas não, não é deles que vou tratar. O muro de que falo me foi sugerido por um leitor à espera da definição brasileira no próximo dia 25. Ele viu a história se redesenhar enquanto a mancha azul se veio derramando sobre o mapa da Ibero-América (até recentemente um continente vermelho). Para esse seguidor, a derrota do petismo debilitará o esquerdismo, de péssima influência na formação cultural, política, econômica e social da região. Será como proclamar a queda de um outro muro, construído pela perniciosa atuação dos partidos que se foram agregando ao grupo constituinte original do Foro de São Paulo. No pico das adesões, segundo o Google, teriam sido 128 partidos de 28 países. Em 22 deles, legendas do grupo exerceram o poder.
Gostei do tema. Logo após os jovens da Alemanha Oriental dançarem sobre o Portão de Brandemburgo festejando a queda do Muro, Fidel, Lula e outros que tais criaram o Foro de São Paulo. Em diversas ocasiões, no início deste século, tive oportunidade de conversar com o saudoso Olavo de Carvalho sobre esse assunto, a respeito do qual dizia ter herdado do amigo Graça Wagner “um colossal patrimônio de pesquisa”. Estávamos, então, nos anos 2002 ou 2003 e Olavo era acusado, pela mídia, de “teoria da conspiração” por se referir, com insistência, em seus textos e locuções, à atuação dessa federação de organismos partidários de esquerda.
Quem buscar informações sobre o movimento revolucionário nesta porção do Ocidente precisa ler o Olavo e os livros de Graça Salgueiro, Heitor de Paola e Paulo Henrique Araújo. Indo somente pelas fontes usuais, abastecidas por conteúdos da mídia, os leitores serão levados a crer que qualquer referência à organização e às suas relações com crime organizado, narcotráfico e terrorismo é mera “teoria da conspiração”, etiqueta sempre presente nas análises militantes e no marketing revolucionário.
Os piores reflexos dessas mistificações se fazem sentir no descrédito das instituições e na insegurança pública. O “camarada malfeitor” é apresentado como vítima do capitalismo e agente da política feita por outros modos; é alguém a meter o pé na porta para o ambiente revolucionário. Ele é parceiro de todos os construtores de narrativas alheias aos fatos. É companheiro, também, dos servidores públicos ativistas nas carreiras de Estado a desacreditar as instituições. Que o plim-plim das máquinas de votação nos mantenha atentos para as responsabilidades desta hora.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
11/10/2026
Percival Puggina
O que as urnas de outubro tornaram conhecido, na operosidade das máquinas, não é diferente do que vimos nos longos corredores e filas de votação, Brasil afora. Era o povo, consciente de que seu voto deveria proclamar um basta! Era necessário e só o povo poderia efetivá-lo, jogando a água fria das urnas nas quatro patas de barro do poderoso belzebu: sigilos, silêncios, censura e sanções.
“Supremo é o povo”, proclamavam algumas faixas em recentes manifestações. Naquilo que chamei de “supremo tribunal do cidadão e sua consciência” era impossível não sentir – em cada zona eleitoral, seção de votação ou cabine – as teclas sendo digitadas para expressar a convicção de um eleitor proferindo, democraticamente, seu veredicto. Do lado oposto, sentavam-se pessoas de carne e osso, indivíduos reais, sendo julgados pelos próprios excessos cometidos no manuseio do tabuleiro político. Nunca antes presenciei algo assim.
Aquela eleição, a já histórica eleição de 2026, apenas num viés secundário julgou políticos, parlamentares e governantes. Em sua essência, julgou julgadores! Julgou juízes. Julgou votos monocráticos. Julgou precedentes e jurisprudências. Julgou casos reais, injustiças reais, abusos reais. Julgou blindagens e casuísmos, julgou inquéritos sem fim neste mundo. Para salvar o futuro, julgou o passado.
Tantas fizeram os autoproclamados “supremos”, que agora tanto faz: de livre vontade, ocuparam o epicentro de um imenso universo de decisões e consequências. No dia 4, todo voto popular arrastava consigo uma convicção sobre – digamos assim – os excessos de autoestima e as estratégias políticas majoritárias no Supremo Tribunal Federal destes últimos anos.
O poder, seja qual for seu tipo ou fonte, quando escapa dos controles usuais, se torna uma droga a exigir overdoses crescentes. Uma vez construída a narrativa era preciso seguir em frente. Quanto mais instáveis se revelassem seus fundamentos, mais recorrentes eram a coerção, a imposição do medo e as violações de direitos humanos. Infelizmente, vimos isso acontecer e, assim, qual patas do cavalo de Átila, a brutalidade foi deixando vítimas pelo caminho. Os autores, calorosamente aplaudidos em ambientes fechados, mal podiam sair às ruas. Daí os jatinhos, como cobiçados meios de transporte. Daí o conforto da hotelaria internacional, como aprazível lugar de estar. Daí as derrotas políticas que o dia 4 de outubro, simetricamente, impôs aos controladores dos ambientes controlados.
Os meios de Inteligência Artificial disponíveis ao usuário brasileiro não têm registro histórico de anomalia semelhante à que aconteceu no Brasil. Ministros de uma Suprema Corte ou Tribunal Constitucional assumindo o protagonismo do jogo político, atropelando preceitos, códigos, regimentos e legislação consolidada no país? Impondo obediência aos poderes políticos do Estado com o intuito de preservar o próprio poder de mando, se auto proteger e se blindar? Não, isso só no Brasil.
Eis aí outra exclusividade nacional, punhado de jabuticabas, colhidas na safra de 2026, para Lula levar a Trump em próxima visita.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
06/10/2026
Percival Puggina
* Para publicação nos dias anteriores à eleição de 4 de outubro, o jornal Poder 360 pediu a alguns autores que respondessem à pergunta sobre em quem votariam para presidente e por que o fariam. Meu artigo foi publicado na edição do dia 30 setembro, sob o título “Por que votarei em Flávio Bolsonaro”. O texto abaixo, sem o primeiro parágrafo ambientado em dias anteriores à eleição, reproduz, na íntegra, o restante do artigo e é inteiramente aplicável ao atual momento político.
Flávio Bolsonaro tem o mais vulnerável adversário que um candidato a presidente gostaria de enfrentar. Qualquer cidadão que preze a Liberdade, a Justiça, a Ordem, o Progresso e a Segurança percebe que Lula, ao longo de sua extensa carreira, nada fez para preservar esses bens pelos quais todo indivíduo sensato tem apreço.
Num curto lapso de 27 anos, o partido que comanda busca a sexta vitória em sete eleições presidenciais havidas neste século. Isto não é produto do acaso. Sem jamais ter lido Nietzsche ou Heidegger, Lula intuiu ou alguém o ensinou que a destruição das estruturas de sustentação de uma sociedade é o melhor meio de dominá-la. Ele nunca escondeu seu sonho de obter e preservar o poder mediante tais instrumentos. São evidências disso:
- A asfixia da Liberdade: A autonomia do indivíduo é constrangida pelo cerceamento da expressão e pelo controle cirúrgico da informação;
- A instrumentalização da Justiça: Os tribunais são convertidos em extensões políticas do Estado, gerando ativismo ideológico e o colapso da segurança jurídica;
- A sabotagem da Ordem: A convivência pacífica e a estabilidade social são tratadas como inimigas estratégicas a serem combatidas;
- O desinteresse pelo Progresso: A prosperidade econômica e o bem-estar são travados para manter os cidadãos dependentes de assistencialismo e reféns do voto de cabresto;
- O colapso da Segurança: O anseio por paz pública não pode ser viabilizado por um corpo político revolucionário que precisa do caos para justificar sua própria existência.
A receita que abastecerá o poder no futuro é a mesma que define o poder no presente. Quanto piores forem as condições de vida numa sociedade, maior será o espaço que ela franqueia a discursos messiânicos e práticas revolucionárias que criam a fome para prometer pratos de comida.
A flacidez da democracia brasileira é produto semipronto da destruição planejada. O voto na oposição não é uma escolha partidária, mas uma barreira democrática, política e moral. Por isso, darei meu voto na candidatura que se revela capaz de antagonizá-la para que se promovam, aqui, as recomendações do Promotor de Justiça Robert H. Jackson no Tribunal de Nuremberg: “O bom senso da humanidade exige que a lei não se limite a punir crimes menores cometidos por pessoas comuns. Ela deve alcançar também aqueles que detêm grande poder e dele fazem uso deliberado e concertado para desencadear males que não poupam nenhum lar no mundo”.
Isso, Lula nunca fez nem fará. Nem ele, nem Hugo Motta, nem Davi Alcolumbre, nem metade do STF, nem a PGR, nem a Faria Lima, nem a falsa intelectualidade brasileira. Só o eleitor o fará, votando no candidato que pode derrubar o castelo de cartas marcadas.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
02/10/2026
Percival Puggina
A democracia brasileira emerge ou naufraga nas urnas de outubro. Se naufragar, eu sei que não verei o fim dos obscuros tempos de corrupção, injustiça, blindagens e doses ainda maiores das quatro patas das tiranias: silêncio, sigilos, censuras e sanções. Você já observou que, nas tiranias, só o aparelho da tirania prospera? Se esse pior acontecer, prepare-se para tempos em que a indigência produzida será o argumento para manutenção do regime. Servirá ao nosso cotidiano, em doses crescentes, o uivo-riso das hienas.
É, portanto, cumprindo dever cívico, que encaminho estas linhas a meus queridos leitores, mais numerosos do que mereço, e aos quais, carinhosamente, chamo de “gente boa”. Por isso, começo colocando-os no topo da lista dos indispensáveis aos quais se refere este artigo. Os bons representantes políticos, tão necessários à nação, estão na razão direta dos bons brasileiros que a eles, com justo discernimento, confiam seus votos.
Este não é um momento para a omissão. Unanimemente queremos esse governo batendo em retirada para maior asseio da política nacional, preservação do interesse público e dos recursos públicos, da liberdade e do regime democrático. Por isso, o maior desejo do marqueteiro de Luiz Inácio é que os eleitores descontentes com ele fiquem em casa, movidos por nojo da política e ... preservando a nojeira no seu estado mais impuro. Já o fizeram em 2022. Quantas vezes naquele ano ouvi de autonomeados intelectuais que não podiam votar no Jair porque um intelectual não poderia pedir votos a alguém tosco como ele! A estes, eu dizia: “Entendo-te. Só votas em alguém tão bom quanto tu, sem perceber quanta vaidade e egoísmo se refletem em tua atitude”. Quanto pesou sobre a nação, nos últimos quatro anos, esse desastroso narcisismo! No viés oposto, o eleitor da esquerda amanheceu na fila porque ele vota. A cabresto, mas vota. E ali estará de novo no dia 4.
Eleitores conscientes, realistas, precisam saber que devem estar atentos e não cometer o grave pecado da omissão, nem a incompetência de jogar bom trigo fora, junto com o joio subserviente e inútil. Muitos dos atuais congressistas, combativos, corajosos, essenciais à oposição brasileira, estão sendo atacados, nestes dias, de modo vil e rasteiro, por uma base multiforme de proteção do governo e de quem quer permanecer sob o benefício da inaceitável blindagem. Por isso, exatamente por isso, são imprescindíveis para o ano que vem e para compor a base parlamentar de um provável futuro governo de Flávio Bolsonaro.
Recomendo, então, consulta ao site “Placar do Congresso” (aqui), que monitora os votos dados pelos deputados federais e pelos senadores. Assim, por exemplo, na lista que contém os nomes de todos os deputados federais, procure pelos de seu Estado e descarte a imensa maioria dos que têm menos de 90% de votos dados à oposição. Em relação ao Senado, onde há muitos e bons candidatos novos, aconselho consultar os que são formalmente apoiados por Flávio Bolsonaro (aqui). São dois votos para eleger dois senadores por Estado. Nova chance para uma ampla renovação só em 2034...
Relaciono, por fim, como sugestão pessoal, os candidatos nos quais votarei aqui no Rio Grande do Sul e acrescento outros que conheço pessoalmente e nos quais também poderia votar se mais votos tivesse a dar):
Presidente – votarei em Flávio Bolsonaro (22)
Governador do RS – votarei em Luciano Zucco (22)
Senado Federal – votarei em Marcel Van Hattem (300) e Ubiratan Sanderson (222)
Deputado Federal – votarei em Felipe Camozzato (3030) e também poderia votar em Fernanda Barth (2210), Osmar Terra (2215), Maurício Marcon (2277), Felipe Pedrí (2228), Jesse Sangalli (2230), Tiago Albrecht (3026), entre outros.
Deputado Estadual – votarei em Ramiro Rosário (30000) e também poderia votar, entre outros, em Giuseppe Riesgo (30500), Guilherme Pasin (11333), Marcus Vinícius (11211), Samila Monteiro (30222), Comandante Nádia (22190), Professor Claudio Branchieri (22777), Rodrigo Cassol Lima (22321), e Matheus Ayres (11500).
Percival Puggina
29/09/2026
Percival Puggina
Para mim é difícil – sabem? – abrir o jornal e ler a recentíssima pesquisa sobre a eleição presidencial. Com 95% de certeza, a instituição que a elaborou reforça constatações anteriores: cerca de metade do eleitorado brasileiro permanece desatenta à necessidade ingente, urgente, intransigente e diligente de resgatar o Brasil do bordel institucional por onde se perdeu na licenciosa noite dos tempos.
Algumas dessas pessoas eu as conheço bem. Debati com elas e sei que, com raríssimas exceções, acordam diariamente para a mistificação. Antes mesmo das redes sociais e dos “influenciadores digitais”, sua fonte era a “cartilha”, expressão aplicada no século passado a boletins partidários contendo orientação para o debate sobre os temas do momento político. Outras, urram e zurram no meio acadêmico quando alguém de seu desagrado vai usar a palavra. São zeladoras incondicionais do sistema parceiro que opera o poder de Estado. Há dezenas de milhões de cidadãos brasileiros vítimas dessa malícia. São ovelhas pastoreadas por lobos a que sequer reconhecem como lobos e aos quais seguem com a docilidade dos realmente inocentes.
Por fim, também votando pela continuidade do que temos aí, há outros muitos milhões, que já entenderam tudo. Sabem chamar o lobo de lobo e o pastor de pastor. Mas entregaram aos lobos sua liberdade e seus votos, sua dignidade e sua honra. Eles sabem dos presos políticos, eles ouviram minúcias sobre o buffet de interesses em torno dos quais são trocadas unhadas retóricas e puxões de cabelo dialéticos. Eles sabem de precedentes criados com os cotovelos, de inquéritos abertos sobre o quadríceps femoral (aquele conjunto de músculos da parte frontal da perna) e de preceitos constitucionais lidos com o tradutor digital das conveniências volúveis.
Mesmo cientes de tudo, eles não se importam! Não se importam com o calvário de Filipe Martins, com Alcides Hahn, doador de um Pix de 500 reais à caixinha de um ônibus que foi a Brasília no 8 de janeiro e virou “mega financiador” do episódio, condenado por cinco crimes a 14 anos de cadeia e multa milionária... Esses eleitores não se sentem ofendidos com o caso de Clezão, que morreu desatendido porque pessoas morrem nas cadeias – certo? Sabem da Débora do Batom, sabem dos refugiados que padecem em algum cativeiro menos indigno, pelo qual optaram por prezar a própria liberdade. E sabem que todos eles – todos eles! – são injustiçados, maltratados, ovos quebrados para que o poder se alimente de uma narrativa sem pé nem cabeça.
E querem manter isso aí? Optam pela mão do Estado, transformado em carrasco, não importa quantos sejam desumanizados para que isso aconteça? Votarei pelas vítimas, pelos ovos quebrados.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.