• Maria Lucia Victor Barbosa
  • 18 Março 2020

 

Em 17/03/2020.

O 15 de março ficará na história como símbolo da coragem de um povo. Coragem, porque a pandemia do coronavírus não impediu que milhares de brasileiros fossem às ruas para exercer sua cidadania.

Tudo começou há anos com uma manifestação difusa, mas que já demonstrava insatisfação popular com seus governantes. Tais atos se sucederam e culminaram com a grande manifestação que desencadeou o impeachment de Dilma Rousseff, a pior presidente de toda história brasileira, aquela que conduziu o Brasil a uma profunda e nefasta recessão. Como disse Ulysses Guimarães: "político só tem medo de povo na rua" e, foi assim, que o Congresso ouviu a vontade popular e a obedeceu.

Outras manifestações aconteceram. Todas pacíficas, ordeiras, organizadas não artificialmente com teor ideológico por partidos ou sindicatos, mas pelo que chamei de Quinto Poder, aquele que acontece através das redes sociais e que ainda não foi bem compreendido por grupos de chamados intelectuais ou da mídia.

Estes grupos disseram que a megamanifestação de 15 de março era inconstitucional. Creditaram ao presidente da República a convocação de tal movimento espontâneo e popular, como se o povo continuasse a mercê de um líder político. Depois, como de hábito criticaram o presidente.

É verdade que as imensas multidões se mostraram fiéis ao seu voto, depositado por quase 58 milhões de eleitores em Jair Bolsonaro. Mas, as manifestações teriam ocorrido de qualquer maneira, pois, inclusive, foi feito ouvidos moucos quando o presidente pediu que tais atos públicos fossem adiados. Não me lembro onde os defensores da Constituição estavam quando Lula da Silva convocou o "exército de Stédile", para defendê-lo.

Tampouco vi reclamação quando magistrados, entre eles o ministro Sergio Moro, foi e continua sendo ameaçado pelas hostes petistas ou quando José Dirceu, cujo lugar é na prisão junto com seu chefe, fez vídeos concitando a população a uma insurreição, como se o PT ainda tivesse capacidade de levar alguém às ruas, nem mesmo pagando a incautos participantes chamados jocosamente de "mortadelas".

Lula foi ingrato com a mídia que sempre o glorificou, na medida em que clamava diuturnamente contra os meios de comunicação e, inclusive, vinha há anos pedindo sua censura. Diante disso, silêncio total.

A estupenda manifestação de 15 de março não foi mostrada em jornais e TVs. Inútil omissão. Pelas redes sociais vídeos desfilaram a impressionante afluência de pessoas que lotaram as ruas de várias capitais, especialmente, em São Paulo, quando a Av. Paulista se tornou um mar de gente vestida de verde e amarelo a exercer sua liberdade de reunião, de expressão e de pensamento.

Certamente, não foi um bando gigantesco de fascistas a clamar de modo inconstitucional contra o STF e o Congresso, que desafiaram o coronavírus e se reuniu em espaços públicos.

Na verdade, não eram os Poderes constituídos em si o objeto do clamor popular, mas o que deles fazem seus componentes. O povo se cansou das traições à Constituição, da morosidade dos julgamentos, dos favorecimentos por interesses de amizade e outros mais, dos vaivéns do STF.

Quanto ao Congresso Nacional tem solapado necessidades e direitos sociais com suas pautas bomba, que retiram do Executivo a possibilidade de usar o orçamento em favor da nação. E ganância parece não ter fim quando suas excelências destinaram bilhões para o Fundo Eleitoral, a ser pago com o dinheiro do povo.

A reforma da Previdência, que nenhum governo fez, foi retalhada e longamente adiada em discussões estéreis, mas agora suas excelências pedem urgência no envio das reformas Tributária e Administrativa, como se tivessem pressa ou interesse em votá-las.

O projeto anticrime do ministro Sergio Moro foi deixado de lado, porém, foi criada a Lei do Abuso de Autoridade (leia-se é proibido prender) e, nesse caso é compreensível, porque vários parlamentares precisam se defender já que estão sendo processados por crimes como: falsificação de documentos, lavagem de dinheiro, peculato, corrupção ativa e passiva, concussão. Por tudo isso e muito mais, congressistas tem ido contra os interesses de quem os elegeu.

Desse modo, quando os presidentes do Senado e da Câmara aparecem com discurso de bom-moço, atribuindo ao presidente da República culpa pela falta de entendimento entre os Poderes, depois de sabotar as iniciativas governamentais e os interesses do povo, este entende e repudia.

Os mais exaltados pedem o fechamento do Congresso e do STF. Mas não foi isso que realmente levou milhares às ruas. Como escreveu o notável jornalista J.R. Guzzo: "Os congressistas brasileiros são, eles mesmos, uma dificuldade quase insuperável para quem, honestamente, quer defender o Poder Legislativo".

Portanto, o recado das ruas foi dado em 15 de março: comportem-se senhores legisladores, estamos cansados de sermos passados para trás e lembrem-se: eleições vão acontecer.

*  Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
 

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 16 Março 2020


CAIU A FICHA
Se até poucos dias atrás o grau de probabilidade do CORONAVÍRUS se constituir numa ameaça grave não passava de uma doença fictícia, criada e desenvolvida pelos chineses com o propósito de -tirar proveito econômico-, depois das decisões tomadas por governantes do mundo todo, ao longo do final de semana, tudo leva a crer que a FICHA, ENFIM, CAIU.

BOLSAS DE VALORES E MERCADORIAS
Vejam que as Bolsas de Valores, através dos ativos financeiros, minerais e vegetais, por mais que estampem muito nervosismo de seus agentes, o fato é que nunca deixam de cumprir com o velho papel de -antecipar os acontecimentos futuros -de curto, médio ou longo prazo. E neste particular, diga-se de passagem, os alertas foram iniciados com boa antecedência, prevendo que o mundo passará por grandes dificuldades.

A RECESSÃO JÁ ESTÁ GARANTIDA
Esta conscientização nos leva a compreender e admitir, sem o mínimo medo de errar, que a RECESSÃO ECONÔMICA -MUNDIAL- já está garantida. Isto impõe que os países que não adotarem medidas -urgentes, corretas e necessárias-, estão contratando, de forma inapelável e inevitável, com data de entrega prometida, uma furiosa DEPRESSÃO ECONÔMICA, com consequências pra lá de desastrosas.

MANDRAQUE
Considerando que o caso do nosso empobrecido Brasil, copiando a inciativa de inúmeros países, também entrou em -MODO PARALISANTE- ou efeito -MANDRAQUE- (personagem de revistas em quadrinhos que possuía poderes paralisantes), esta providência, gostem ou não, reprovem ou não, já dá uma ideia clara do tamanho da encrenca econômica que um INVISÍVEL AGENTE INFECCIOSO produz, com efeitos inimagináveis.

IRRACIONAL
O que mais me deprime, mas não espanta, é que enquanto a equipe econômica se preocupa em adotar medidas que têm por objetivo tornar mais palatável o problema, o Poder Legislativo segue fazendo o JOGO DO CONTRA. Vejam que, ontem, na estreia da CNN Brasil (canal 577), o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, afirmou que as REDES SOCIAIS são formadas por IRRACIONAIS. Ou seja, o povo brasileiro, na sua totalidade, segundo Maia, é IRRACIONAL.

USO DA RAZÃO
Pensando bem, ainda que alguém não tenha gostado do que ouviu, o fato é que MAIA tem razão. Se o povo usasse minimamente a RAZÃO, os vermes - Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre e vários ministros do STF já estariam no olho da rua. Mais: se o povo brasileiro fosse RACIONAL, uma NOVA CONSTITUIÇÃO já teria sido escrita, tratando os brasileiros de forma igual. 

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  • Alex Pipkin, PhD
  • 16 Março 2020

 

Não adianta... Sou resiliente e, apesar dos 5.4, ainda tenho o tônus vital!

Creio ser pertinente esclarecer que quando aludo a questão das “instituições nacionais adoecidas”, não me refiro, exclusivamente, ao campo político, especialmente ao relacionado às decisões no Executivo, no Legislativo e no Judiciário.

O furo é bem mais em baixo, na base e na formação do tecido social e do pensamento nacional; passado, presente e futuro do nosso país.

Muito enfermos estão, nosso ensino, Universidades e mídia brasileiras!

Ressalto que outro aspecto frequentemente ignorado, é que a mudança não necessariamente conduz a uma melhor situação, e/ou contempla um desejado escopo ampliado. Falo aqui especificamente das Escolas de Administração e Negócios e da mídia verde-amarela.

Que tal darmos uma passadinha pelas Escolas de Negócios? No Brasil, visivelmente, tais escolas estão francamente desalinhadas com as verdadeiras aspirações e necessidades requeridas pela arena real - e global - das complexas operações empresariais. Basta realizar pequena amostragem junto aos executivos, para verificar in loco o nível de aderência e de utilidade efetiva de pesquisas acadêmicas na realidade empresarial.

Desculpem-me colegas professores, mas seguramente o respectivo uso é bem mais próximo do zero. Também coexistem problemas relacionados à atratividade do empresariado às referidas pesquisas acadêmicas.
Inquestionavelmente, a estrutura institucional e o conteúdo do que é “ensinado” por tais escolas, merecem passar pelo juízo de análise e, após, atentar-se para às abissais oportunidades de melhoria expostas a olhos nus.
Algumas até adotaram um processo de “mapeamento”, mas aquilo que consideram avanço, apesar do característico ritmo mais lento frente às mudanças no mercado, particularmente considero retrocesso e pirotecnia.
A tentativa “inclusiva” de reinventar a roda , ou mesmo de centrar na preocupação com todas as “partes interessadas”, é tão “inovadora e transformadora” como o trivial andar para frente!

Considerações relativas à “partes interessadas”, existem desde que o mundo é mundo.

No mercado real, aliás, indivíduos consumidores ainda são obrigados a comprar de determinados ofertantes, pois em não havendo situação de competição, inexistem alternativas que melhor resolvam suas necessidades funcionais, emocionais ou de autorrealização.

Na presença de genuína competição, os produtores, compulsoriamente, precisam inovar em todos seus processos, com a ambição de que o crivo democrático dos consumidores, reflita na livre escolha da “melhor opção”. O estabelecimento popular do sistema de preços - pela oferta e demanda real - assim, é fixado, exercendo pressão sobre os players no mercado, e sobre as forças competitivas que determinarão a entrada de novos ofertantes e/ou a saída de um determinado negócio.

“Grandes mestres dos livros” ainda não perceberam que nenhuma empresa vive ou sobrevive no mercado livre, sem o compulsório estabelecimento de relações colaborativas e integradoras com todos - todos! - os membros de uma determinada cadeia de criação de valor.

Tais acadêmicos inexperientes desconhecem que o mercado é, na verdade, um conjunto de redes, ecossistemas empresariais que colaboram e competem simultaneamente. Factualmente, colaboração e competição se efetivam nas cadeias globais de valor.

O capitalismo - economia de mercado -, agora eufemisticamente chamado de “capitalismo das partes interessadas”, é desde o glorioso Adam Smith (1776), um sistema econômico que permite que os indivíduos se especializem, colaborem e troquem mutuamente, por meio de relações cooperativas, de simpatia (artifício da empatia própria nos seres humanos!) e de solidariedade, acordadas com o consentimento de todas as partes envolvidas.

Em Teoria dos Sentimentos Morais (1759), Smith advoga por transações comerciais baseadas no interesse das comunidades, pactuadas através da confiança e do respeito mútuo.

É a pouca leitura! Smith, já naquela época, falava da fundamental importância da reputação do homem para o sucesso ou fracasso no sistema comercial. Preto no branco: no livre mercado, não pode haver competição sadia e produtiva (competição faz bem à saúde econômica e social), e determinadas empresas que vencem pelo “inovismo”, sem que exista - pragmaticamente - colaboração! Nunca ninguém, nenhuma organização, foi capaz de ser e/ou atuar em tudo competitivamente - projeto/inovação, suprimento, manufatura, distribuição, entrega, pós-venda, serviços e “retornos (reversos)” - isenta de interrelações comerciais com certos sócios e outros parceiros de negócios. Ninguém pode ser tudo para todos! Exemplo mais transparente refere-se ao desenvolvimento de novas tecnologias úteis e capazes de atender e fornecer preços adequados nos mercados.

No que diz respeito aos objetivos empresariais não econômicos (em tese!) envolvidos - ambientais e comunitários - as empresas que focam exclusivamente no retorno dos acionistas - como preferem alguns incautos - “despreocupadas” com o que o consumidor realmente deseja (ah, são mesmo distintos e diversos benefícios, inclusive para alguns, iniciativas empresariais filantrópicas) não logram criar, aos olhos, nas mentes e nos corações dos clientes, valor útil e percebido, sendo desse modo suplantadas por aquelas que conseguem fazê-lo.

Por isso, evidente que existem Conselhos de Administração sábios e profissionais, direcionando as organizações para uma estratégia competitiva criadora de valor percebido, esse sim habilitador do alcance de lucratividade para todos!

Pois bem, parece-me totalmente contraproducente que Escolas de Negócios, enxertem seus currículos com disciplinas, tais como economia inclusiva, empreendedorismo social, economia verde, etc., etc. e tal, como maneira de se endireitarem ao mercado.

Além dessa inquietação já existir, é preciso ter bem presente e convicção, de que qualquer objetivo ambiental e/ou social, obrigatoriamente, terá que ser gerador de lucratividade! No frigir dos ovos, conta mesmo o lucro! De nada adianta uma fidalga missão empresarial, se não houver o dinheirinho para mantê-la e pereniza-la!

Nenhuma empresa boa samaritana, sem saúde financeira e rentabilidade, por mais nobre que seja sua causa, consegue se manter no mercado, e continuar “fazendo o bem”, sem ganhar dinheiro! A forma de ganhar dinheiro é aquilo que pode ser distinta, pois clientes diferentes valorizam e compram distintas espécies de valor!

Ganhar dinheiro é, então, um compromisso moralmente benéfico e um imperativo para a construção de uma sociedade pujante.

Por favor, modismos e supostas reinvenções, mesmo com a intenção de mudança e/ou adição qualitativa nas Escolas de Negócios, não só não transformarão positivamente, como podem também deslocar o centro nas prioridades básicas, atrapalhando a permanente, a incessante e a crucial busca e o alcance da imperativa e - tradicional - destruição criativa, a fim de que as empresas ganhem mesmo dinheiro para suportarem o sistemático processo de reinvestimentos.

Que formosos neologismos para que jovens acadêmicos pós-modernos, com seus trajes hipsters, aura douta e palavras bondosas e “inovadoras”, doutrinem sobre empreendedorismo, ambientalismo, objetivos sociais, mascarando e desfocando, tristemente, daquilo que qualquer pessoa fazedora e com alguma experiência no mundo empresarial sabe: fora dos livros, no mundo real, ganhar dinheiro é aquilo que importa e que pode fazer a diferença em uma real economia de mercado!

Mas distintamente do que algumas Escolas de Negócios "bondosas" estão realizando, tentando idealisticamente tirar o foco do "acionista explorador que só quer lucrar", elas se esquecem que o lucro é o indutor das inovações de valor e, portanto, a motivação central para que os investidores continuem investindo, e as respectivas empresas, descobrindo novas e melhores soluções para a vida em sociedade.

Quanto a mídia e ao jornalismo, a visão crítica resistente e comprometida com “nobres”, mas falaciosas causas, distintas daquelas verdadeiras e benéficas para o crescimento econômico, possibilitador de melhoria social genuína, têm reforçado de fato, aquilo que em tese quer combater: o protagonismo dos poderosos, com seus enganadores, embora sedutores discursos de redução das desigualdades sociais, desejando a manutenção do pão e circo, ou tentando por todos os caminhos - tortuosos - retornar ao quente e acolhedor ninho do poder! Por essa razão, deixam de lado o anúncio e a visibilidade dos fatos como eles realmente acontecem e são!

Fundamental seria um jornalismo independente, comprometido com o noticiário dos fatos, e oportunizando diferentes perspectivas para que as pessoas tenham acesso a “verdade” dos acontecimentos e, portanto, possam elas próprias formarem seu juízo de valor.

Infelizmente, não tenho nenhuma dúvida de que a notícia transformou-se, nas mãos de jornalistas em grande parte interesseiros e partidários, numa “mercadoria vermelha”, ao invés da essencial informação de caráter público, indeclinável para a democracia! Mais pirotecnia e sensacionalismos baratos.

Bem, sem a cura do ensino e da imprensa, majoritariamente, marrom e rubra, mesmo com iniciativas governamentais na direção de maiores liberdades econômica e individual, essas não conseguirão ter capacidades resilientes.

Para a educação empresarial, que fique claro, a despeito de modismos, não existe cooperação empresarial que objetivamente não sirva e resulte em aumento de capacidades para a inevitável competição nos diferentes mercados.

Para a mídia tupiniquim, sem o apoio às reformas liberalizastes na economia, não só os capitalistas (sem coração!) sofrerão, padecerão toda “comunidade” brasileira pela extrema falta de empregos, de maiores oportunidades e da escassez do vital crescimento econômico.

Quem sabe não se passa dos puros desejos para a dura realidade da vida real?
 

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  • Fernando Fabbrini
  • 12 Março 2020

 

Tal qual um assassino profissional, o marketing do entretenimento não perdoa: aponta para a cabeça do espectador e atira em rajadas

Quem nunca torceu pelo bandido num filme? Bons cineastas sabem transformar a plateia de inocentes comedores de pipoca em cúmplices fanáticos do sujeito que engana a Justiça, se dá bem e escapa no final. O clássico vilão não é novidade; desde Georges Méliès, os roteiristas usam e abusam dele. Porém, há algo de novo no ar.

Uma das séries recentes, o premiadíssimo “Breaking Bad”, conta a saga de um professor de química e de seu aluno que se enchem de dólares ao fabricarem metanfetamina e mergulharem no submundo das drogas. Aposto que ninguém torceu pelos agentes da DEA – Drug Enforcement Administration – no encalço dos dois. Outra série, “La Casa de Papel”, tornou-se febre mundial endeusando uma quadrilha que agia à Robin Hood – roubando dos ricos para dar aos pobres e denunciar “o sistema”. (Animados com o sucesso da “Casa”, os produtores investiram em novas temporadas – estrondoso fracasso de audiência. Quem explica?).

É fácil criar personagens criminosos e ganhar a simpatia do espectador. Basta dar ênfase aos seus traços humanos, problemas íntimos, afetos, dramas de consciência – e pronto: construímos mais um herói. Essa linha criativa está virando tendência. O cinema, os canais de streaming e a televisão brasileira adotaram a marginalidade como matéria-prima preferencial de novelas, filmes, documentários. Vivemos o momento de glória do crime.

Tal qual um assassino profissional, o marketing do entretenimento não perdoa: aponta para a cabeça do espectador e atira em rajadas. “Narcos”, “O Sucessor”, “Narcos México”, “El Chapo”, “Suburra”, “Impuros”, “Orange Is the New Black”, “A Rainha do Sul”, “Escobar” são algumas produções impregnadas de cocaína, heroína, marijuana e chefões do tráfico. As narrativas privilegiam o ponto de vista dos bandidos. A lei, a ordem, a justiça, os direitos do cidadão honesto aparecem como meras chateações que perturbam a vida dos narcotraficantes, essas pobres vítimas da sociedade.

Se é um fenômeno mundial, parece que no Brasil encontrou repercussão ainda mais ampla. Compreensível: historicamente, desde o velho malandro carioca até os políticos corruptos que esculhambaram o país, somos mestres do perigoso flerte com as safadezas. Burlar o radar da rodovia, estacionar em vaga de pessoas com deficiência, levar vantagem no descuido alheio – pequenos delitos ocultam a vocação para tretas maiores.

Nesta semana o noticiário do coronavírus quase foi eclipsado pelo abraço do dr. Drauzio a um presidiário. No centro da briga, a questão delicada: estaria o médico (do qual tenho boa imagem) apenas exercendo caridosamente sua profissão, como ele se defendeu? Ou participava do show business midiático e tendencioso no qual se transformou parte do jornalismo nacional?

Na reportagem (ou no drama novelístico) os editores omitiram o bárbaro crime que levou o protagonista Rafael Tadeu de Oliveira dos Santos à prisão – estupro e estrangulamento de uma criança de 9 anos. Mencionaram, de passagem, apenas outra condenação por furto. Surpreendente é que o crime mais grave só foi revelado depois e pelas redes sociais, enquanto a mídia tradicional se calava, talvez pelo fato de o condenado ser transexual. Atitude semelhante foi percebida quando um casal homossexual executou o menino Rhuan com horripilante selvageria, em Goiás. Indignação seletiva pega mal. No cinema, na ficção, vá lá. Entretanto, um jornalista honesto não pode contar só uma parte da vida real.

O crime, o vício, a bandidagem, os marginais e a violência estão em pauta e na moda; paciência. Difícil é aturar que cada narrador use-os como suporte de causas próprias, transformando os conceitos universais de “bem”, “mal” e “justiça” em coisas frágeis e passíveis de discussão. Aí não tem plateia que engula a trama.

*Publicado originalmente em O Tempo: https://www.otempo.com.br/opiniao/fernando-fabbrini/o-fantastico-show-do-crime-1.2309473
 

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  • Camila Acosta
  • 12 Março 2020

 

Havana, Cuba ( 11/03/2020). Usurpação de funções públicas, violação do Decreto-Lei 370, permanência ilegal em Havana, deportação para a Ilha da Juventude, acompanhamento por nove meses por "não trabalhar" e ser uma pessoa de interesse policial; o repressor Alejandro listou os "crimes" nos quais eu supostamente havia incorrido. Segundo ele, a lei estava sendo aplicada a mim.

“Você precisará ir mensalmente para se registrar no setor policial e, se nesses nove meses, continuares a te comportar como até agora, aplicaremos a você a periculosidade pré-criminal; Mas você não irá para a cadeia, porque queremos limpar as prisões; o que você precisará fazer é trabalho social sem internação, no que é mais necessário: limpar pisos ou áreas comuns”, acrescentou.

Ao ouvi-lo, pensei que ele estava certo: eles fizeram a lei em Cuba de tal maneira que aqueles que detêm o poder podem esmagar os cidadãos sempre que quiserem e com a maior impunidade.

Eu havia sido presa no mesmo dia, segunda-feira, 9 de março, quando estava cobrindo um protesto cívico pela liberdade do artista Luis Manuel Otero Alcántara, no cruzamento das ruas 23 e 12 do Vedado de Havana. Mal pode iniciar a apresentação porque os agentes das Brigadas de Segurança do Estado (SE) e de resposta rápida estavam estacionados no local, talvez já alertados para a iniciativa, e tentaram nos silenciar. Alguns se tornaram violentos, enquanto a maioria da população assistia e filmava, com certa prudência e medo, mas ao mesmo tempo consciente e admirada da bravura daqueles poucos conterrâneos. Vários até perguntaram quem era Luis Manuel Otero Alcántara.

Éramos apenas quatro pessoas, pois o resto não podia contornar as operações policiais para chegar ao compromisso: quatro pessoas armadas com pôsteres, nossas vozes pacíficas e nossos telefones: como capturar as evidências.

Pouco depois, quando nos retiramos do local, às 21 e 10, várias patrulhas policiais nos pararam. Abu Duyanah Tamayo, Omara Ruíz Urquiola e eu fomos presos. Iliana Hernández seria presa logo depois.

Uma vez na delegacia de Zapata e C, o de sempre: a busca, a masmorra e os interrogatórios. Embora seja necessário reconhecer que a polícia nos tratou com respeito e com óbvio desconforto; Eles sabiam que não éramos criminosos e que estavam negligenciando suas reais funções.

Conheci o major Alejandro por referência, pois, nos últimos meses, ele esteve na vanguarda da repressão às mulheres ativistas, principalmente em Havana. Uma vez na sala de interrogatório, ele reconheceu que. Há longo tempo queria me encontrar e que conseguiria o que os outros agentes não haviam conseguido anteriormente porque ninguém suportaria o assédio que estava disposto a aplicar.

“Não vou oferecer-te para colaborar conosco. Comigo você tem apenas duas opções: ou você se manda ou sai - ele retrucou. Subitamente, ofereceu-me um emprego no ICRT (Instituto Cubano de Rádio e Televisão); e "ah, quem mexe com Camila Acosta", nem mesmo o presidente do ICRT se atreverá a fazê-lo, disse ele. Caso contrário, "vou me tornar seu pior pesadelo".

O major Alejandro passou vários dias me localizando em Havana. Desde que fui expulsa da casa em que morava - devido às pressões do SE para os proprietários - em 20 de fevereiro, meu paradeiro era desconhecido. Nesta segunda-feira, começando pela manhã, eles até montaram uma grande operação policial para me prender. Eles queriam impedir-me de atender a um convite de Mara Tekach, encarregada de negócios dos Estados Unidos em Cuba, para comemorar o Dia Internacional da Mulher em sua residência.

Emtre Línea e 12, exatamente no ponto em que eu deveria encontrar Ángel Santiesteban, ele foi detido, mas deu-lhe tempo para me alertar para que me desviasse. Eles nem sequer o questionaram: "Até Camila não aparecer, não vamos deixar você ir." Horas depois, para surpresa do repressor, me detiveram.

Alejandro mostrou aborrecimento evidente durante seu interrogatório, embora fosse um monólogo, já que eu mal respondi ou até o atendi. Ele se alegrava com suas ameaças, com um cinismo arrepiante: "Tudo isso que vou aplicar a você a partir de agora é porque você está fazendo seu trabalho não apenas bem, mas muito bem seu trabalho" e "Estou louco para ver sobre o que você escreverá sobre isto ”.

Contraditório, ele esclareceu que eu estava cometendo o crime de "usurpação de funções públicas" porque o jornalismo independente não é reconhecido por nenhuma lei ou mesmo na Constituição. "E eu vou deportá-la para a Ilha da Juventude, porque você é ilegal em Havana", ele ameaçou constantemente. Eu tenho um endereço em Havana, moro aqui há mais de dez anos, mas isso não importava para ele: "você não mora no endereço que seu cartão de identidade diz e seu registro civil diz que você é da ilha". Claro, eu nasci lá. "Além disso, por qualquer motivo, eu vou deportar você, essa é a medida que você irá levar", disse ele, como se eu não fosse fazer jornalismo em lugar algum.

O capanga nem sequer hesitou em ameaçar minha família e que, é claro, tudo o que acontecesse seria minha culpa. Nas duas horas e meia que fiquei trancada na sala de interrogatório, senti medo, reconheço, mas, acima de tudo, senti raiva, desamparo.

Obviamente, eles farão qualquer coisa para me impedir de praticar jornalismo independente. Se uma coisa o repressor deixou claro, foi isso; eles também me temem, temem meu trabalho e os danos que jornalistas independentes estão causando à ditadura. Claro, para ele, só fazemos isso por dinheiro. Não conheço os outros, mas o faria de graça, apenas pela satisfação de me sentir realmente útil, orgulhosa da minha profissão, pelo prazer de exercer liberdade de expressão e opinião. Mas isso é algo que sua mediocridade impede de entender.

No final da noite, fui libertada, mas não antes de confiscarem meu telefone celular. Eles me deixaram em um corredor onde um oficial me disse que eu não podia estar, que eles já haviam terminado comigo e que eu poderia sair; Dito isto, me acompanhou até a saída.

Eu sabia que eles me seguiriam para saber onde eu estava hospedada, sabia que a melhor maneira de enganá-los era desaparecer de seus radares novamente. Tão rapidamente desapareci que eles me perderam de vista. Isso deve ter deixado Alexander muito desconfortável e talvez tenha merecido uma grande repreensão de seus superiores. Desde então, talvez tentando "salvar" sua posição e demonstrar sua "eficiência", ele liga para familiares e amigos, ameaçando "me explodir" e me condenar a um a três anos de prisão por "evasão". Segundo ele, fugi da delegacia. Como é possível escapar sozinho e desarmado de um quartel cheio de policiais? Deixar esse é algo que deve ser feito com uma permissão ou em companhia der um oficial.

Hoje, quarta-feira, 11 de março, irei à unidade policial para que possam ser cruéis comigo novamente, para enfrentar o "pesadelo".

Recuso-me a deixar de fazer jornalismo independente ou a deixar meu país; Mas se a comunidade internacional e o exílio cubano continuarem permitindo que a ditadura nos esmague com total impunidade, se não houver maior apoio à oposição interna cubana, em breve as vozes dissidentes dentro da ilha perecerão.

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* Camila Acosta é uma jornalista independente . Atua em Havana.

** Publicado originalmente em https://www.cubanet.org/destacados/cuba-quitas-te-vas-del-pais-o-me-convierto-en-tu-peor-pesadilla/

*** Traduzido para o português por Percival Puggina.

 

COMENTÁRIO DO EDITOR DO BLOG

Todo dissidente cubano, como descrevi em A tragédia da Utopia, está exposto a esse tipo de perseguição por vezes branda, por vezes verdadeiros pesadelos incidindo sobre a pessoa e seus familiares. Há muita gente no Brasil que considera tudo isso muito comum desde que seja para autoproteção de bandos comunistas no poder. 
 

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  • Gilberto Simões Pires em Ponto Crítico
  • 11 Março 2020

ALEGAÇÃO INFUNDADA

Dias atrás, os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, sentindo-se pressionados pela megamanifestação programada para o dia 15 de março, tentaram sair pela tangente alegando que o responsável pelo atraso na análise e tramitação das REFORMAS - TRIBUTÁRIA, ADMINISTRATIVA E PEC EMERGENCIAL é o presidente da República, Jair Bolsonaro, que até agora não encaminhou as referidas PECs ao Congresso Nacional.

MEDIDAS INFRACONSTITUCIONAIS

Contando com o imenso e nojento apoio da mídia, que de forma frontal, constante e declarada se manifesta contra tudo que o governo Bolsonaro propõe para melhorar a economia e, por consequência, a vida do povo brasileiro, Maia e Alcolumbre deram a entender, com total clareza, que o Congresso não tem compromisso nem interesse em analisar as várias medidas INFRACONSTITUCIONAIS que estão mofando no Legislativo. Isto sem falar nas importantes MPs que já caducaram, de forma odiosa, prejudicando ainda mais os pagadores de impostos.

SINTOMAS

Diante deste quadro dantesco, enquanto o SINTOMA da infecciosa doença respiratória -CORONAVÍRUS- se apresenta, nos seres humanos infectados, através da FEBRE, TOSSE E FALTA DE AR, no ambiente ECONÔMICO, através da paralisação e/ou redução de muitas atividades, o SINTOMA da doença se apresenta em forma de RECESSÃO.

TEMPO

Pois, pelo que foi contabilizado até o presente momento, quem está levando a pior, de forma inquestionável, é a ECONOMIA MUNDIAL, que já garantiu que a RECESSÃO é inevitável. O que ninguém sabe, por ora, é o TEMPO que levará até a superação do grave e sério problema. Isto, por pressuposto, inclui o nosso empobrecido Brasil no rol dos países que vão experimentar esta conhecida encrenca.  

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