(Publicado originalmente em O Globo)
O que é o “militante imaginário?” O filósofo José Arthur Giannotti criou essa expressão e eu a achei perfeita. O “militante imaginário” é o sujeito que se acha revolucionário, mas nunca fez nada pelo povo. Chamemo-lo de MI. É-se militante imaginário como se é Flamengo ou Corinthians. Agora, nesta grande crise de mutação que vivemos, pululam militantes imaginários.
O MI se julga em ação, só que não se mexe. Ele é a favor de um Bem que não conhece bem. O que é o “Bem” para ele, o nosso militante imaginário?
Para o MI de hoje o “Bem” é uma mistura de crenças ideológicas que nos levariam a um futuro de felicidade. A mente de um MI é um sarapatel de leninismo vulgar, socialismo populista, subperonismo, vagos ecos getulistas e um desenvolvimentismo tosco.
Eles gostam de ser militantes porque é bonito ser de uma vaga esquerda enobrecedora; ela abriga, como uma igreja, muitos tipos de oportunismo ideológico. São professores universitários, intelectuais sem assunto, jovens sem cultura política e até mesmo os black blocs que já são tolerados e viraram uma espécie de “guarda revolucionária” dos militantes.
Existem vários tipos de militantes imaginários.
Há o militante de cervejaria, de estrebaria e de enfermaria. Bêbados, burros e loucos.
O MI é um revolucionário que não gosta de acordar cedo. É muito chato ir para porta de fábrica panfletar.
O militante verdadeiro, puro, escocês, só gosta de teorias. A chamada “realidade” atrapalha muito com suas vielas e becos sem saída. Os MIs odeiam a complexidade da realidade brasileira, porque eles aspiram a um absoluto social num mundo relativo; eles querem um Brasil decifrado por três ou quatro slogans.
A grande paixão do MI é a certeza. “Dúvida” é coisa de burguês reacionário, frescura social-democrata ou neoliberal. O MI só pensa no futuro; odeia o presente com suas complicações, idas e vindas. O militante odeia meios; só tem fins.
Para o MI, o presente é chato. O futuro é melhor porque justifica qualquer fracasso: “falhamos hoje, mas isso é apenas uma contradição passageira na marcha para a grande harmonia que virá!” E, quanto mais fracassos, mais fé. O MI perde o poder, mas não perde a pose e a fé. A cada uma de suas frequentes derrotas, mais brilha sua solidão de “vítima” do capitalismo. Aliás, ser “contra” o capitalismo justifica tudo e garante uma respeitabilidade reflexiva. E hoje, como o comunismo está inviável, os MIs lutam pela avacalhação do que já existe, pois não têm nada para botar no lugar.
O MI é uma espécie de herói masoquista, pois tem o charme invencível do derrotado que não desiste.
Os MIs são em geral românticos, são até bons sujeitos, mas são meio burros.
Há até MIs cultíssimos, eruditos; porém, burros. Eles não veem o óbvio, porque o óbvio é muito óbvio. Acham que a verdade só existe escondida nas nervuras do real.
Depois de 13 anos de erros sucessivos, quando o PT abriu as portas para o presidencialismo de corrupção, houve o impeachment. Foram longos meses de cuidados constitucionais até a conclusão. O STF, o Congresso, a OAB, a PGR, todos consagraram rituais institucionais corretos.
Mas não adianta; depois de pixulecos e panelaços, começou a gritaria de “golpe, golpe” e refloriu a primavera dos militantes imaginários que estavam meio arredios, acuados. A desgraça é que eles insistem nas dualidades ideológicas, quando o problema do Brasil é contábil. É a economia, estúpidos! — como disse Carville.
Hoje eles estão pululando e gritando “Fora Temer”; até sem saber por quê.
Não importa se dilmistas e petistas tenham arrasado o país, jogando-o na maior depressão da história; o que importa para os MIs é que, mesmo arrebentando tudo, eles portavam a bandeira mágica da revolução imaginária que tudo justifica. Espanta-me a frivolidade desses protestos abstratos. Os MIs não se permitem nem alguns meses da esperança de que se consertem as contas públicas; destruíram-nas e não deixam consertá-las.
O militante imaginário se considera superior a todos nós, reacionários e caretas.
O MI é uma alegoria de si mesmo; ele não é apenas um indivíduo — ele é mais do que isso, ele é o autodeclarado embaixador do povo. O militante imaginário se considera o sujeito da História, o cara que vai mudar o rumo do erro; enquanto isso, a direita sabe que a História não tem sujeito; só objeto (no caso o lucro).
Eles lutam pelo passado. São regressistas com toques sebastianistas de paz no futuro e glória no passado. Eles têm uma espécie de saudade de um mundo que já foi bom. Quando foi bom? Durante as duas guerras, no stalinismo, quando?
Ou seja, eles têm saudade de um tempo em que se achava que o mundo poderia vir a ser bom... É a saudade de uma saudade.
O MI acha que o mundo se divide em esquerda e direita — em opressores e oprimidos. Qualquer outra categoria é instrumento dos reacionários. O MI detesta contas, safras de grãos, estatísticas, tudo aquilo que interessa à velha direita. Por isso, ela ganha sempre.
O militante imaginário não pode ser confundido com o patrulheiro ideológico. Esse vigia os desvios dos outros. O MI brilha como um exemplo a ser seguido. O MI só ama o todo.
Enquanto a direita só ama a “parte” (sua, claro), o MI nunca leu “O Capital”; a direita também não, mas conhece o enredo. O MI vive falando em “democracia”, mas não acredita nela. Como sempre, os MIs só defendem a democracia como estratégia (“a gente apoia e depois esquece...”) .
Ultimamente, os MIs andam eufóricos — não precisam mais governar e outras chateações administrativas. Agora, estão na doce condição de vítimas. E por aí vão, se enganando, se sentindo maravilhosos guerreiros com “boa consciência”, enquanto contribuem para a paralisia brasileira. É isso aí...
O MI me lembra uma frase de Woody Allen que adoro:
“A realidade não tem sentido, mas ainda é o único lugar onde ainda se pode comer um bom bife”.
O MI não quer bife.
(Publicado originalmente em https://www.institutoliberal.org.br)
Lá vai ele: o pai afetivo da “nova matriz macroeconômica”, a “Mãe Dinah” do crescimento do PIB, aquele que ajudava a escolher quem ficaria rico (quem ficaria pobre era desnecessário escolher: o povo brasileiro), braço direito de Lula e Dilma, aquele que fez o Cristo Redentor decolar e, em seguida, espatifar-se, rumando para o cárcere!
Guido Mantega sempre representou, desde a vitória do PT na corrida ao Planalto em 2002, um elo entre o Estado brasileiro (seus cofres, no caso) e empresários que não curtem muito o sistema de concorrência. Livre mercado no dos outros é refresco. Melhor conversar de perto com o responsável por tornar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social o carro-chefe do modelo de desenvolvimento nacional, eleito pelo governo populista dos “companheiros” como ferramenta para superar a crise financeira de 2008 – a qual foi gerada, justamente, por intervenção estatal indevida do FED no sistema de preços do mercado (juros, no caso).
O Ex-ministro da Fazenda, durante um longo período, transformou o banco de fomento em uma perversa máquina de distribuição de renda às avessas, especialmente após 2009, quando a União passou a ser autorizada, por lei, a conceder empréstimos ao BNDES, até o modesto limite de R$378 bilhões. Ou seja, o dinheiro que irrigou as empresas de Eike Batista e demais “campeões nacionais” (como BRF, Oi e JBS) era oriundo do Tesouro Nacional – ou, pior ainda, era advindo da emissão de títulos da dívida, medida que aumenta as taxas de juros praticadas e dificulta a vida dos demais empreendedores do país, gera inflação e deteriora a situação fiscal do governo federal.
Mas é claro que quem quer rir, tem que fazer rir. Empréstimos subsidiados (concedidos a juros de 2,5% ao ano, sob uma inflação de 10%) com recursos extraídos de todos os demais pagadores de impostos não são para qualquer um. E agora vêm à tona os bastidores destes acordos espúrios, quando o “senhor X”, por exemplo, declara em depoimento à PF que Mantega pediu repasse de cinco milhões de reais ao PT em 2012. Nada mais “justo”, levando-se em conta a contrapartida obtida. Segundo nota da Polícia Federal, “utilizando-se de expedientes já revelados no bojo da Operação Lava Jato, fraude do processo licitatório, corrupção de agentes públicos e repasses de recursos a agentes e partidos políticos responsáveis pelas indicações de cargos importantes da estatal, empresas se associaram na forma de consórcio para obter os contratos de construção das duas plataformas muito embora não possuíssem experiência, estrutura ou preparo para tanto”. E estes eram expedientes corriqueiros.
Mantega sempre se manteve alinhado com a teoria econômica keynesiana, que defende uma maior intervenção estatal na economia, especialmente em tempos de recessão. Ora, para que justificativa melhor do que essa para endividar o Estado no intuito de agradar os camaradas que costumeiramente fazem doações às campanhas eleitorais do partido? Políticos corruptos e empresários corruptores agradecem, Lord Keynes. A cartilha desenvolvimentista serviu como uma luva nos planos do PT de colocar o mercado financeiro a seus pés, e assim eternizar-se no poder. Só que não estava no script a operação Lava-jato, esta pedra no sapato do esquema que pretendia debulhar todas as estatais brasileiras, sendo a Petrobrás apenas a mais visível delas neste momento.
Guido Mantega terá bastante tempo para ler Hayek (o antagonista de Keynes) na prisão, e, quem sabe, mudar sua visão sobre a condução dos mercados – na verdade, ele vai aprender que os agentes econômicos devem operar livremente, em benefício dos próprios consumidores e cidadãos. Pinçar privilegiados é coisa do passado (e de corrupto).
* * Editado: Guido Mantega acaba de ter sua prisão provisória revogada por Sérgio Moro, sob o argumento de que o estado de saúde de sua esposa gera certeza razoável de que ele não irá evadir-se da Justiça. É indiferente: os envolvidos no esquema serão punidos ao final do processo.”
Sobre o autor: Atua como Auditor-Fiscal do Trabalho, e no exercício da profissão constatou que, ao contrário do que poderia imaginar o senso comum, os verdadeiros exploradores da população humilde NÃO são os empreendedores. Também publica artigos em seu site: https://bordinburke.wordpress.com/
Publicado originalmente em polibiobraga.blogspot.com.br
Os 13 anos de governo Lula-Dilma estão mais para uma longa noite de horror do que para uma breve jornada de sol. Onde os petistas botaram a mão, sujou. As coisas se degradaram. Combate à corrupção? A impressão penosa que teima em permanecer é a de que nunca se roubou tanto na história deste País.
Na oposição, o PT botava a boca no trombone e batia o bumbo, ao menor sinal, à menor suspeita de que alguém tenha lesado os cofres públicos. Cada petista era um implacável Sérgio Moro – que tanto detestam - no rigor com que eles denunciavam os desmandos, as malversações, o roubo. Os corruptos tremiam de medo. O PT era o partido da tolerância zero com as maracutaias, a palavra mágica que Lula cunhou e a companheirada adorava pronunciar – antes de se tornarem especialistas na matéria.
No governo, como se tivessem chegado com a sede de quem atravessou o deserto, foram ao pote. E que sede, companheiro, que sede! Em meses, já estava organizado o mensalão, que acabou levando à cadeia a alta cúpula partidária, ícones e heróis como José Dirceu e José Genoíno. Começou então a saga dos tesoureiros do PT, cargo de alta periculosidade. Depois de Delúbio Soares, agora é a vez de João Vaccari Neto e Paulo Ferreira curtirem uma cana.
A prisão dos tesoureiros do PT mostra que a teoria da organização criminosa não é nenhum preciosismo legal ou exagero. Parece que no caso dos outros partidos, como o PP e o PMDB, os malfeitos eram no âmbito individual. No caso do PT, acontecia na pessoa jurídica, com CNPJ e tudo.
Por muito pouco, o primeiro governo Lula não terminou logo na primeira aventura no ramo dos assaltos aos cofres públicos. Mas era apenas o começo. Já estava em curso a organização de uma rede criminosa ainda mais sofisticada, o Petrolão.
Que ninguém afirme que o PT foi incompetente em tudo, porque o partido era (e ainda é) imbatível em “construir a narrativa”, essa vigarice de carimbar uma versão de sua conveniência como verdadeira e definitiva. Assim o PT, na mesma hora em que acusava os adversários de privatizar a Petrobras, cuidava de transformar a estatal num covil de ladrões, de modo a servir unicamente os seus próprios interesses, e dos aliados como o PMDB e o PP. No rolo compressor, não faltou quem tenha embolsado por fora o pró-labore particular, pelos serviços prestados ao partido.
Na escalada da bandalheira, não há balaio que abram de onde não saiam, grudados, caranguejos, moluscos, cobras, lagartos, e toda a fauna que de algum modo simbolize a linha de montagem da corrupção, o ataque sistemático, de mão leve e de mão pesada, ao ervanário público.
E não passa dia que não se abra um novo baú, como agora dos fundos de pensão das estatais brasileiras. Faz tempo que a turma mama na Petrus, Previ, Funcef e Postalis. Vem chumbo grosso por aí. Desde o governo FHC que o PT deita e rola no pedaço.
No ínterim, não me convidem para qualquer ato de “Fora Temer”. As oposições de agora, no seu papel, gritam nas ruas, usam camisetas e até sandálias com a inscrição “Fora Temer”. Mas “Fora Temer” para quê? Para a volta da ladroagem? Me incluam fora dessa.
Na política brasileira, os fatos chocam menos que sua enunciação. Quem acompanha de perto os desdobramentos da Lava Jato, em curso há dois anos, já conhecia cada um dos fatos narrados pelos procuradores na quarta-feira passada, em Curitiba.
Não houve, pois, espanto quanto ao conteúdo. A surpresa foi a ousadia, rara, de dar nome (e patente) ao boi, Lula, brindando-o com os títulos de "chefe", "maestro" e "general", que, se não eram inéditos (e não eram), ganharam agora o selo institucional.
O próprio procurador-geral Rodrigo Janot, em junho, já o havia denunciado ao STF, ao lado de Dilma, Aloizio Mercadante e José Eduardo Cardoso, por tentativa de obstrução da Justiça, em decorrência da delação do ex-senador Delcídio do Amaral.
Ora, inocentes não obstruem a Justiça; anseiam por ela. Há dias, o ministro Teori Zavaski, incumbido da Lava Jato no âmbito do STF, rejeitou recurso da defesa de Lula, que queria evitar Sérgio Moro. Não apenas rejeitou, como a acusou de estar querendo embaraçar as investigações. A diferença é que o fez sem estardalhaço. Mas fez.
Desde o Mensalão, a responsabilidade central de Lula nos acontecimentos criminosos da República era óbvia - e até mesmo a blindagem política que recebia (e ainda recebe) o evidenciava.
O temor de afrontar a popularidade que então tinha fez com que mesmo o denunciante-mor, o então deputado Roberto Jefferson, o poupasse. Somente quando o processo já estava em curso, e era tarde para incluí-lo, acusou-o. Na ocasião, chegou a ser publicado um livro sobre o Mensalão, com densa documentação, tendo Lula na capa e o título: "O Chefe", de autoria do jornalista Ivo Patarra.
Como Lula não estava nos autos – já que o então procurador geral Antonio Fernando de Souza não ousou acusá-lo -, sentiu-se à vontade até para afirmar que o Mensalão não existira.
O que excita e surpreende na entrevista desta semana dos procuradores não é o que revelaram, mas o que ainda ocultam. Pela ousadia e segurança de suas afirmações, ficou claro que dispõem de lastro para sustentá-las. O que a defesa de Lula considerou "verborragia", é apenas manifestação de pânico, algo assim como "o que mais eles já têm?" Santo André, talvez.
Os advogados sabem que a entrevista não se confunde com a denúncia e suas 149 páginas, de que constam provas as mais variadas: testemunhal, documental, pericial, indiciária.
É o relatório, não a sequência de slides, exibida aos jornalistas, que irá fundamentar a decisão de Sérgio Moro. A entrevista apenas resume a peça acusatória, que irá se somar às delações de empresários – as já feitas e as por fazer.
E há gente graúda por depor - Emílio Odebrecht, por exemplo, e outros, do mesmo naipe, que já o fizeram. E Lula está em todas essas confissões, em que o enredo é um só. Lula sabe que há muito mais por vir. O que o aflige é não saber ainda o que dele já se sabe.
O tríplex e o sítio, por exemplo, são café pequeno, mas mesmo assim evidências concretas de um vasto esquema de pagamento de propinas com dinheiro roubado da Petrobras.
Leo Pinheiro, da OAS – de todos os empreiteiros, o mais intimamente ligado a Lula -, já confessou que sítio, tríplex, reformas em ambos e mobiliário eram doações a Lula, a serem "descontadas" do montante de propinas que a empreiteira devia ao PT do botim da Petrobras. O que foi revelado, pois, é apenas o que se chama de fio da meada de um imenso novelo, que abarca todos os segmentos da administração pública, ao longo de quatro governos petistas.
E é esse vasto esquema que já está mapeado, tendo no comando e como beneficiário principal o ex-presidente Lula.
Lula e seus advogados sabem disso. O PT sabe disso. Daí o empenho, já demonstrado na fala inicial de Lula, de transformar denúncia de caráter penal em perseguição política.
Os desdobramentos desse entrechoque entre acusação e defesa, que em circunstâncias normais se daria nas barras do tribunal, preocupam. O ambiente está radicalizado. O PT irá às últimas consequências para se firmar no papel de vítima. Resta saber se haverá povo para segui-lo. Até aqui, os sinais são escassos.
O que está em pauta é apenas a primeira parte do processo, que é saber quem fez o quê. A seguinte é saber para onde foi tanto dinheiro – os bilhões da Petrobras não esgotam a rapina.
Há ainda os cofres da Caixa Econômica, do BNDES, do Dnit, dos fundos de pensão. Tanto dinheiro – até aqui, mais de R$ 100 bilhões – não cabe no bolso de ninguém. Parte dele foi para governos bolivarianos e ditaduras africanas. Com que propósito? Esse é o capítulo seguinte, que se inicia na sequência.
* Jornalista
(Publicado originalmente em www.nivaldocordeiro.org)
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em tudo que escreve não se esquece de sua veia de ideólogo socialista, razão porque elegeu como inimigo de verdade o grupo conservador, não apenas na sua representação política, mas na sua condição existencial. FHC nunca faz esse combate com idêntica energia quando se refere aos liberais doutrinários, pois sabe ele que o berço de ambas as ideologias, socialista e lieral, é o mesmo. FHC aceita o liberalismo, sobretudo na sua versão norte-americana, mas também na clássica. Descobriu governando, ao implantar o Plano Cruzado, que a ciência econômica digna do nome é a liberal. Seu "neoliberalismo" consiste na conciliação do Estado grande com as ideias centrais do liberalismo clássico, ao menos no que se refere à busca do equilíbrio econômico e na boa administração da moeda.
No artigo publicado hoje (Triste Fim, comentando o ocaso político de Dilma Rousseff), lamentou pelo PT e proclamou:
"O atual amálgama dos ultraconservadores em matéria comportamental com os oportunistas, clientelistas etc., forma o que eu denomino de "o atraso"".
O que FHC chama de ultraconservadores são os cristãos e os que são contra o socialismo. Aqueles que lutam contra a prática do aborto enquanto instituição do Estado, os que lutam contra o gaysismo como facção política que quer moldar a moralidade coletiva, os que lutam contra o patrocínio estatal ao uso cotidiano de estupefacientes, com destaque para a maconha. É toda a agenda globalista que ele empunha. FHC se esquece que, antes que os gramscianos grassassem por aqui, os conservadores já estavam e que a população brasileira é majoritariamente conservadora. Na verdade, finge esquecer, pois sabe que o campo de batalha é contra essa gente, intrinsecamente reconhecendo a sua importância política.
Vejam que FHC não está preocupado com as eleições do dia (ou do ano), mas com a ocupação do aparelho do Estado de forma a patrocinar sua política socialista e revolucionária no longo prazo. Não é uma luta meramente eleitoral, a dele, é uma luta transformadora. No discurso de FHC não há lugar para reconhecer a legitimidade da existência do conservadorismo, que equipara aos oportunistas e clientelistas, o atraso (expressão cunhada por Sérgio Buarque de Holanda). Desde que se tornou um h0mem adulto FHC fez-se um agente revolucionário eficaz nos termos gramscianos, tão eficaz que ele próprio se tornou presidente da República e fez o seu próprio sucessor, Lula e o PT, obra máxima de sua engenharia política.
[A ironia política é que FHC e o PSDB tiveram que apoiar a destituição do PT dentro da ordem, abrindo espaço para a emergência das forças conservadoras. O socialismo radicalizado do PT mostrou-se incompatível com a realidade, levando o país à mais grave crise econômica de sua história. Talvez contra a vontade íntima de FHC o PSDB teve que apoiar o levante parlamentar bem sucedido, que colocou nos ombros do PT a responsabilidade do resgate histórico daqueles que praticamente estavam excluídos do debate político nacional. O próprio FHC e o PT governando é que deram força e se aliaram aos oportunistas e clientelistas.]
FHC sabe que a derrota do PT foi um passo atrás no rumo da revolução que ele tanto acalantou e pela qual tanto lutou. Pena que o PT colocou os burros n'água e impôs a sua ejeção do poder, sob pena de destruir a economia nacional. Seu lamento é ostensivo: "o atraso passou a comandar as ações políticas, tendo Eduardo Cunha como figura exponencial". Lembremos que Eduardo Cunha arquivou a agenda da revolução dos costumes, tão cara a FHC, tento chegado lá por pura inabilidade de Dilma Rousseff na eleição para a presidência da Câmara de Deputados. Desde que Eduardo Cunha assumiu, a agenda abortista, gaysista e de liberação da maconha foi esquecida, para desespero de FHC.
FHC sabe bem o tamanho do retrocesso que é a derrota do PT no âmbito do processo revolucionário, mas as besteiras do Partido dos Trabalhadores foram tantas que não houve outro jeito que não assistir ao ressurgir fortalecido das forças conservadoras, tão detestadas por ele próprio.
A contrarrevolução está em marcha e as eleições deste ano poderão fazer surgir novas lideranças conservadoras.
Nihil novi sub sole, já diziam os romanos, reverentes à condição humana que deixou de ser essencial desde que ela foi sequestrada por ideologias que submeteram o homem às circunstâncias que o renovariam num ser modelado pelo intelecto à imagem e semelhança sabe-se lá de quem ou do quê, não importa. Importa que venha a ser tutti novi sub sole. O homem seria a soberano absoluto do seu reino e senhor incontrastável de seu destino.
Que promessa poderia ser mais sedutora do que essa utopia? Avante, mísero pó que ao pó voltará. Deixe de rastejar sobre a terra, humilde e submisso, e erga sua cabeça, imponente, para reconstruir a Torre de Babel. Reconquiste o paraíso que perdeu e tome posse do seu trono por toda a eternidade.
Esses dois parágrafos são introdutórios ao tema enunciado pelo título deste artigo porque vivemos num capítulo da história que nos desafia a enfrentar o que faz das circunstâncias uma contradição a sua essência.
Fiat justitia pereat mundus – justiça seja feita, mesmo que o mundo pereça – Fiat justitia ne pereat mundus – justiça seja feita, mas que o mundo não pereça.
Como o palmilhar do homem em sua história não costuma “dar um passo à frente dos bois”, tudo de novo que ele experimenta reflete a essência de seus antepassados aos desafios das novas circunstâncias. Assim procedendo, o homem sempre foi um vencedor, o promotor de uma civilização superior à que herdou de seus antepassados. A arte da política e a ciência do direito foram duas culminâncias de sua sabedoria e criatividade legada à posteridade.
Ambas, política e justiça, conquanto elas sejam parâmetros fundamentais de uma sociedade civilizada, uma sendo arte e, a outra, ciência, distinguem-se entre si pela raiz. E quando acontece, circunstancialmente, que seus ramos divirjam um do outro, o ponto de convergência só poderá alcançado numa interseção abstrata acima de suas recíprocas e subjetivas estranhezas. “Quando nós nos elevamos, nós nos encontramos.” (Teilhard de Chardin)
Esta é a razão pela qual o tribunal constitucional – o STF – pode e deve recepcionar membros de “notório saber jurídico e reputação ilibada”, na dicção do legislador constituinte, o que implica que não serão, necessariamente, advogados, promotores de justiça ou juízes. Basta que sejam juristas de idônea conduta pessoal.
Esse tribunal, guardião dos princípios formadores do estado como substrato jurídico da consciência de uma nação, vale dizer, como a mais alta instância da cidadania, tem preservado sua dignidade mais pelas togas que vestem seus pares do que pelas decisões que eles exaram, seja para se examinarem na legislação vigente, seja para conciliarem a política com o direito, “para que não pereça o mundo”.
O STF tem aplicado a lei para que pereça o mundo, sem nenhum constrangimento ou contingência de fazer justiça custe a quem custar. Ao invés de ser o guardião da Constituição, ele tem se esmerado em ser o principal protagonista da insegurança jurídica e de nossa perplexidade política.
Neste contexto custa crer, custa muito mesmo crer que dessa deusa mitológica de espada em riste, vendada para não sucumbir às fraquezas que lhe retirariam a isenção, e a equilibrar os pratos de sua balança transcenda as esferas da política e da justiça a visar ao bem comum.
Aliás, não pode ter sido por mera excentricidade que a nova presidente daquele excelso sodalício convidou para a cerimônia de sua posse o pior tipo de facínora que existe – o criminoso social. Concedo-lhe, no entanto, o benefício da ignorância política.
Mas é assustador que o nosso país, passando por esse torvelinho que carece de uma equação moral para debelar sua pior e mais aguda crise econômica e social, cultural e institucional não possa contar com lideranças à altura de seus desafios em nenhum dos poderes constituídos com o fim de proteger nossa integridade física, nossa consciência cívica, nossos valores morais e credos religiosos, numa palavra, nossas vidas.
O que descortino nas fímbrias das montanhas que adivinham um novo dia na eterna aurora de nossa democracia não é uma ruptura dramática que esgarce de vez nosso tecido social. O que vislumbro é um esquartejamento da lei, servido à guisa de se preservar o livre convencimento dos julgadores e o devido processo legal, pela edição de uma norma que venha a vetar qualquer execução penal antes de uma condenação definitiva dos tribunais em última instância. Aí sim, a emenda ficaria pior do que o conserto.
Por isso eu rezo para que Lula seja recebido em Cuba como perseguido político e herói do povo brasileiro. Com honras de estadista: passarela de tapete vermelho, salva de canhões, desfile militar e foguetório. Rezo todos os dias para que ele seja feliz para sempre na ilha do paraíso socialista caribenho. Que sua casa seja um destino místico de peregrinação rival de Jerusalém e Meca. Fiéis que ele será obrigado a saudar todos os domingos da sacada de seus aposentos. Noblesse oblige. Mas rezo, mais devotamente e piamente, para que o Brasil aprenda a fazer da política uma aliada da justiça. Que essas duas ilustres e vetustas senhoras, malgrado suas diferenças, fiem nosso tecido social como se fossem duas avozinhas, cada uma com suas agulhas de tricô, confeccionando os agasalhos de lã dos netinhos que ainda haverão de nascer.