Percival Puggina

07/08/2025

Percival Puggina

        

         Quando Peter Kellemen lançou o livro “Brasil para Principiantes”, em 1959, ele vivia há seis anos em nosso país. JK presidia a república e a construção de Brasília ainda não havia iniciado. A obra do húngaro naturalizado brasileiro é uma análise bem-humorada sobre o modo como as coisas aqui funcionam ou não funcionam. Era uma época em que muitos europeus imigravam para o Brasil e se o livro, divertido e sincero, tivesse sido mais bem aproveitado, talvez o fluxo não se houvesse invertido com tão grande prejuízo nosso.

Hoje, o Brasil de onde os brasileiros querem ir embora é para “profissionais”. Quem não for, nem tente. Nem tente compreender o país porque eles não lhe darão a menor chance. Entender e explicar o Brasil requer acesso a jantares sigilosos, a eventos além-mar, a acordos entre “famiglie” que, em entrevero, operam pelos canais dos poderes de Estado e dos negócios.

Se você conclui, com razão, que isso nada tem a ver com democracia, então você está experimentando seus primeiros e inseguros passos no sentido da profissionalização. Há, de fato, algo de mafioso na realidade brasileira. A palavra máfia, por exemplo, provém do adjetivo siciliano mafiusu, significando arrogante ou audacioso. Já esse tipo de organização, também conhecido pela expressão Cosa nostra, sob autoridade pessoal de um Capo, surgiu com um sentido de soberania, inclusive territorial. Regia-se por leis próprias, como a “omertá” (lei do silêncio), que visavam ao interesse e à perpetuidade do poder como objetivos absolutos. Ou seja, um não soltava a mão do outro como se diz aqui em relação a certos casos bem sinistros.

Há coisa de uns quinze dias, na minha difícil condição de mero cidadão (vejam só que posto vulgar!), tentando entender o trabalho dos “profissionais”, me lembrei do bom e velho Dostoievski em “Os demônios”.  Nesse livro, simplesmente precioso, há um personagem, encarnação da lucidez sem alma – o revolucionário Stavróguin – em torno do qual se forma uma célula de seguidores fanatizados e levados à destruição. As semelhanças com o noticiário brasileiro me desanimaram, então, sobre as possibilidades de que fosse rompido o círculo de ferro que submetia a nação.

Acontece que como foi dito no início deste pequeno texto, eu não sou profissional. Sou um velho principiante, aprendiz dedicado ao escrutínio das malas artes do poder nacional. Trump é pós-graduado, profissional como foram quantos deram aos Estados Unidos os meios de operacionalizar uma norma como a Lei Magnitsky. Profissionais, também, são jornalistas como Michael Schellenberg e Eli Vieira, que jogaram fora a tampa da Caixa de Pandora montada nas audiências de custódia dos presos do 8 de janeiro e – perdoem o já surrado trocadilho – magnificaram, com lente documental, irregularidades que chocaram a nação e o mundo.

Do nosso Estado democrático de direito, extinta a democracia e o direito, só restou para uso e abuso a força bruta do Estado. No entanto, a boa política também tem seus profissionais naquele punhado de bravos que se agregam hoje, enquanto escrevo, para restabelecer sobre escombros, a justiça, a liberdade, o direito e a democracia em nosso país. Num Congresso que manteve luzes apagadas, na escuridão destes tempos de vergonha nacional, quando os covardes se escondem, eles enfrentam adversários que parecem extraídos do livro de Dostoiévski que mencionei acima. Que o Senhor os proteja de todo mal.

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

02/08/2025

 

Percival Puggina 

         Não estaríamos atravessando este período se, durante a campanha eleitoral presidencial de 2022 não tivessem sido proibidas quaisquer referências às péssimas relações e amizades de Lula e seu partido no plano nacional e internacional. A pandemia desse autoritarismo maldito que nos sufoca era pra já; o resto ficava pra depois.

Nas democracias de verdade, as campanhas eleitorais existem, também, para advertir os eleitores sobre riscos inerentes a escolhas feitas sem a necessária informação. Entre outros alertas, também esse, sobre as más amizades de Lula, foi proibido naquele pleito e ele, tão logo empossado, correu para se aliar aos inimigos do Ocidente. Resultado: os setores mais carentes e menos esclarecidos da sociedade, os que mais necessitariam da importante advertência, serão os que, proporcionalmente, absorverão o maior dano socioeconômico das medidas tarifárias já impostas por Trump.

Enquanto, no Brasil, o regime se esmera em controlar a divergência e a “polarização” é reprimida como se fosse uma invenção maligna da direita, nos Estados Unidos, em 2024, durante a campanha transcorrida lá, Donald Trump conseguiu deixar bem claras suas intenções e seu princípio fundante: Make America great again. Prometeu mais tarifas e barreiras comerciais para conter a influência chinesa. Reforçou o apoio total a Israel. Defendeu medidas duras na fronteira com o México. Garantiu que providenciaria a imediata saída dos imigrantes irregulares, etc., etc., etc. Tudo foi reiterado no discurso de posse.

No outro polo, Biden e Kamala Harris atacaram-no livremente, na vida privada e na vida pública. Combateram-no, também, pelo que não disse sobre direitos humanos, sem que nenhuma autoridade judicial os impedisse de pisar nesse calo ou bater nessa tecla. Quanto mais amordaçado ou esterilizado for o entrechoque de posições, quanto maior a contenção da natural polarização do debate político do presidencialismo com dois turnos, quanto maiores forem as censuras e as interdições, mais aberto fica o espaço para a mentira, para a falsidade, para a omissão e para os desastres subsequentes.

Aqui, em 2022, Lula fez campanha como se não tivesse passado, só futuro. E o futuro era a volta de um amor que só se viu na publicidade. Reapareceu até o belíssimo vídeo das mulheres grávidas que, na campanha dele em 2002, desceram uma coxilha verdejante ao som do Bolero de Ravel. Embora os bebês do vídeo já contassem 20 anos ou mais, o prontuário de Lula foi apresentado, naquele pleito, flamante e intocado como manual de carro zero. Agora está ele aí, fazendo estragos com as mesmas velhas e perigosas amizades que não podiam ser mencionadas.

Os novos problemas que passaremos a enfrentar a partir do dia 6 de agosto poderiam ter sido evitados com uma receita eficaz e saudável: mais liberdade. Mas essa liberdade foi rotulada como danosa para os interesses do grupo político que, sem ela, chegou ao poder. O preço dos efeitos da falta de liberdade não será pago, infelizmente, por aqueles que, desde a bolha onde vivem vida à forra, nos enclausuram prometendo, vida afora, o que não têm para entregar.

Por essas razões, e por tantas outras, no dia 3, domingo, nos veremos nas ruas e praças deste chão abençoado. Respeitem a Constituição, que a democracia e a liberdade vêm junto. Basta-me isso e um cafezinho. E desse eu mesmo me sirvo.

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

Percival Puggina

30/07/2025

 

Percival Puggina

         A pessoa investida de um poder de Estado não se funde nem se confunde com a instituição da qual seu poder deriva. Há em nosso país uma deliberada tentativa de ignorar esse preceito. No entanto, crer que a pessoa seja a instituição é descer muitos degraus na escada da civilização. É retornar ao obscurantismo. É desconsiderar a lenta e laboriosa construção dessa separação num processo histórico que já conta pelo menos oito séculos. Durante todo esse tempo, a duras penas, povos lutaram e ainda lutam para que pessoa ou pessoas investidas de poder de Estado estejam submetidas às mesmas leis que valem para todos. Contra isso, tiranos de quaisquer feitios se rebelam, aspirando ser poder em modo sintético: “O Estado sou eu!”, teria dito Luís XIV ao parlamento francês em 1655.

Exemplificando: quando louvo o trabalho de Marcel Van Hattem, deputado federal em quem votei, não estou exaltando a Câmara dos Deputados; quando critico o deputado Lindbergh Faria, não estou querendo acabar com o Poder Legislativo. E vale o mesmo para quem, sendo de esquerda, louva Lindbergh e deprecia Marcel. Pedir o impeachment de um congressista, de um presidente da República ou de um ministro do STF, com forma e fundamento legal e regimental, não é crime nem “ato antidemocrático”, devendo ser visto com naturalidade. Não naturais são os meios drásticos que vejo adotados para impor convicção no sentido oposto.

É claro que os instituidores do regime em vigor conhecem Teoria Geral do Estado e, muito além do óbvio, sabem isso de que estou falando. No entanto, a natureza humana é muito sensível a certas tentações, entre elas a de agir segundo leis próprias ao legislar nos parlamentos, ao interpretar leis no judiciário ou emitir decretos e MPs no governo. Por isso, movida pela melhor das intenções, a Constituição instituiu o sistema conhecido como de “freios e contrapesos”, concedendo poderes de controle recíproco entre Legislativo e Judiciário. Tão judicioso controle, porém, esbarra noutra tentação, que parece sair bem atendida de certas reuniões em petit comité: um arranjo de convivência desativa os freios e trava os contrapesos. A competência e os meios pensados para o bem público acabam usados para estratégias políticas e corporativas.     

Os bens e os meios disponibilizados a quem detém poder de Estado – a casa, o carro, os cargos de confiança e os recursos orçamentários – existem para uso em benefício do interesse público e devem ser aplicados com exemplar parcimônia. Do mesmo modo, tudo que é inerente ao serviço prestado pelo poder, como o decreto, o voto em plenário, o parecer, a intimação, a liminar e a sentença não podem ser manipulados em benefício próprio, com viés de autoproteção ou atendendo a alguma estratégia política. Quando isso acontece, surge o anseio por limitar, mediante um catálogo bem conhecido providências (controles, sigilos, silêncios e censuras), a liberdade de opinião que pode expor a incorreção de tais atos.

Em outras palavras, com um discurso iluminista, o Brasil está imprimindo marcha a ré de muitos séculos e voltando ao obscurantismo em que se fundiam o Estado e o indivíduo no poder.

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

*       Imagem criada por IA (ChatGPT) e alterada em Ps, em 30/07/2025.

 

Percival Puggina

24/07/2025

 

 

Percival Puggina 

         Em nosso país, do Estado Democrático de Direito só resta o Estado em forma bruta e brutal. A democracia foi extinta por sucessivas omissões da representação parlamentar e o Direito está relativizado às conveniências dos donos do poder.

Ocorreu-me, então, identificar quem sustenta esse poder tão ativo, tão repressivo à direita e tão pertinaz no combate à liberdade de expressão.

Numa conta redonda, cheguei aos seguintes dez esteios do novo regime político brasileiro:

  1. A legião dos omissos e dos isentões;
  2. A multidão dos ignorantes dos quatro costados, passivos e sem voz porque sequer têm o que dizer;
  3. Os capturados pelo esquerdismo radical, moedor de neurônios, cujo senso moral foi vítima de sinistro sem cobertura de seguro;
  4. Os muitos que se aconchegam à lareira do poder, de cujas regalias usufruem;
  5. Os totalmente dependentes do Estado, aos quais se acrescentam, todo ano, novas vítimas de um tipo de miséria que só o Estado é capaz de produzir em tais proporções;
  6. Os covardes, que levam flores ao próprio silêncio no cemitério da Política;
  7. Os raramente frustrados corruptores, corruptos e criminosos, organizados ou não, hábeis em lidar com nossas piores tradições;
  8. Os submissos a toda sorte de pressões por terem o rabo preso em mãos de quem não se importa de abusar dos instrumentos institucionais;
  9. O Consórcio Goebbels, seus membros, seus dependentes e a multidão que seus veículos manejam manejam a massa no curral das opiniões;
  10. Os mercenários da guerra cultural, bem pagos para atuar na cadeia produtiva da gandaia brasileira, adversários do Bem, da Beleza, da Justiça e da Verdade.

 Vamos combinar que é uma assombrosa parceria, cujo produto só pode ser essa obra prima das malas-artes políticas sob as quais vivemos. Esqueci algum ou alguém?

Percival Puggina

23/07/2025

 

Percival Puggina 

                     Em Quincas Borba, obra de Machado de Assis, duas tribos disputavam um campo de batatas. “Ao vencedor, as batatas!”, exclama, então, Quincas Borba.

             Estamos em vias de pagar preço pesadíssimo, imposto pela irresponsabilidade do presidente da República ao desconsiderar as consequências do que faz por conta própria. No caso da hecatombe à vista, parece mais adequado a Lula dizer – “Ao perdedor, as jaboticabas!”, que ele saboreia como se estivesse no pomar do Éden.

Quem não se engana com o Lula e vota no Lula é porque espera dele o que está fazendo. Quem vota no Lula enganado por ele, depois de quatro mandatos petistas e da longa folha corrida do partido, quando melhorar muito se tornará apenas um tolo certificado. Os ministros do STF não são tolos e sabem o que fazem. Sabem que estão manipulando e que encontraram a fórmula de usar seu poder para se garantir no poder. E têm consciência de que grande parcela de brasileiros sabe o que eles fizeram nos últimos verões, outonos, invernos e primaveras.

A quem exerce o poder político com protagonismo, a democracia pressupõe voto e convívio com o necessário contraponto entre direita e esquerda, entre oposição e governo. No regime atual, porém, quem faz política de modo mais efetivo (os membros do Supremo) se consideram, monocraticamente ou em colegiado, como uma “instituição”. Entendem a crítica como ataque à instituição. A quem cai em desagrado, impõem proibições, censuras, silêncio absoluto e pesada distribuição de investigações e punições. Por isso, assim como Janja, ministros do STF se agradam do modelo chinês de controle social, tornando-se pró China nessa perspectiva.

Coisa diversa, mas simultânea, são as burradas que Lula vem produzindo em série a partir de quando, garantido internamente pela maioria do Supremo, resolveu insultar os EUA e seu presidente. Tem feito isso cada vez que abre a boca em foro internacional ou se une com inimigos da grande potência do Norte. Ele pensou que cresceria batendo de longe em cachorro grande, mas o que produziu foi uma dispersão de cuscos e arrastou o Brasil para a soleira de uma crise nunca antes vista.

Quem escolhe lado, escolhe, também, o adversário. Escolhe o inimigo. Foi o que Lula fez desde a campanha eleitoral americana e a guerra que abriu representou, a meu ver, a gota d'água para Trump. Instado pelos exilados brasileiros a livrar o Brasil da venezuelização, decidiu pegar pesado contra nosso país.

Trump pode desarmar o Brasil, pode quebrar nossa economia, causar um dano social de consequências incontroláveis e deixar seus alvos no Supremo politicamente expostos no plano nacional e internacional. Se a volta do Brasil aos trilhos do Estado de Direito e ao regime democrático não acontecer antes e por menor custo, acontecerá depois – com imenso preço econômico, financeiro, social e de vidas – pela súbita miserabilização, frente a um setor público que pode estar quebrado em poucas semanas. “Todas as cartas estão sobre a mesa”.

Falemos, então sobre soberania. A guerra entre o Brasil de Lula e os Estados Unidos de Trump foi insistentemente declarada por Lula, mediante palavras e ações. Então, pergunto: foi você, leitor, ou o Congresso Nacional, quem autorizou Lula a iniciá-la? Você está incomodado pela intromissão estrangeira em temas inerentes à nossa soberania? Nesse caso, tenho três outras perguntas:

- Qual a regra que autoriza o Brasil a interferir e dar pitaco na soberania de outros países como vem fazendo em Israel, no Peru e na Argentina?

- Você considera legítima a interferência de um poder nacional na soberania do povo, intimidando a representação popular no Congresso, cancelando direitos constitucionalmente assegurados, nossa liberdade e nossa democracia?

- Foi a direita que deixou o Brasil se converter num narcoestado e perder para o crime organizado a soberania sobre expressivas porções de seu território e população?

Assim como o poder dos ministros do STF se impõe pelo medo que suscitam, só algo simetricamente oposto pode desestabilizar a segurança de que hoje usufruem sob agasalho da mídia companheira e camarada. Se isso não acontecer, restam-nos as jaboticabas.

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

 

 

 

Percival Puggina

19/07/2025

 

Percival Puggina

         Em seminário na Universidade de Coimbra, o ministro Alexandre de Moraes professorou que o século XIX foi o século do Parlamento, o século XX foi do Executivo e o século XXI é ... do Judiciário.

Por um lado, sorte de Sua Excelência que, segundo essa História do Futuro, ganhou um século para chamar de seu. Sorte nossa, também, que já ficamos sabendo quando terminará o sufoco em curso. Três vivas ao Barão de Montesquieu por ter pensado em apenas três poderes, permitindo-nos supor que aí adiante, no final deste século (o tempo passa ligeirinho) haverá um período para nós, os cidadãos, de quem emana todo poder, titulares de direitos e deveres.

Realmente, não tinha como ser do Senado o século XXI. Não com as presidências, às vezes reincidentes, de José Sarney, Renan Calheiros, Garibaldi Alves Filho, Eunício Oliveira, Davi Alcolumbre e Rodrigo Pacheco. Nem tinha como ser da Câmara, presidida por Michel Temer, Severino Cavalcanti, Arlindo Chinaglia, Marco Maia, Henrique Eduardo Alves, Eduardo Cunha, Rodrigo Maia, Arthur Lira e pelo intrépido Hugo Motta. Tampouco podia ser dos governos, este século, com o petismo eleito para cumprir mandato presidencial em 20 dos 26 anos que se completam no final do ano que vem.

Então, estamos ultrapassando o primeiro quarto do “século do Judiciário” com as mensagens de Trump fazendo prodígios. Recobrou das trevas multidão de nacionalistas exacerbados que invadiram os espaços digitais como zumbis egressos vocês sabem de onde. Desajeitados pelos longos anos de terceirização da política – vejam só! – aparecem, de súbito, interessados em cidadania brasileira sem passar pela imigração... Depois de vários anos, também o Consórcio Goebbels, como um motorzinho de dois tempos ou em simplificado raciocínio binário entre tico e teco, volta a contar hashtags, eles e nós, eles e nós, eles e nós. Lindo de ver, não é mesmo?

Não vai bem o “século do Judiciário”. O IDH brasileiro cresce abaixo da média mundial, perde posições. Democracia e liberdade somem. Ao longo dos últimos anos, nosso tempo de atenção cívica é tomado por estravagantes manifestações judiciais, nosso direito positivo é afetado por inusitadas “ordenações” alexandrinas, jurisprudências oscilantes, etc. A História em curso não é mais feita pelo labor social, nem pela política dos com voto, mas pelo que dizem as sentenças e pelo que seus redatores do século chamam de cenário mais amplo, “sem recortes que descontextualizem os eventos do dia 8 de janeiro”.

Curiosamente, porém, os principais protagonistas da história vivida, membros da cúpula do Judiciário, em pleno “século do Judiciário”, recortam-se do cenário onde desempenharam e continuam desempenhando intensa atividade. Vale dizer, descontextualizam, como se escrutinassem a realidade desde seu lugar constitucional de estar (de onde não deveriam ter saído) e como se fossem observadores imparciais de acontecimentos protagonizados exclusivamente pelos seus jurisdicionados. Não tem sido nem é assim.

Os maus humores do século XXI, “século do Judiciário”, trouxeram imenso desconforto político, ativaram a censura, as prisões políticas e as palavras passaram a morrer na garganta. Não mais de um punhado de bravos se expõe à fúria dos censores enquanto a nação empobrece e emburrece num mundo que prospera.

Porque têm cabine reservada na Arca de Noé do dilúvio que já se vê no horizonte, os novos donos do poder se agitam com as próprias bravatas ante a plebe que aplaude a tragédia. Afinal, todos são iguais perante a lei.

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

 

Percival Puggina

18/07/2025

Percival Puggina

             Em nosso país, do Estado Democrático de Direito só resta o Estado em forma bruta. A democracia foi extinta por sucessivas omissões da representação parlamentar e o Direito está relativizado às conveniências dos novos donos do poder.

Ocorreu-me, então, identificar quem sustenta esse poder tão ativo, tão repressivo à direita e tão pertinaz no combate à liberdade de expressão. Numa conta redonda, cheguei aos seguintes dez esteios do atual poder político brasileiro:

  1. A legião dos omissos e dos isentões;
  2. A multidão dos ignorantes dos quatro costados, passivos e sem voz porque sequer têm o que dizer;
  3. Os capturados pelo esquerdismo radical, moedor de neurônios, cujo senso moral foi vítima de sinistro sem cobertura de seguro;
  4. Os muitos que se aconchegam à lareira do poder, de cujas regalias usufruem;
  5. Os totalmente dependentes do Estado, aos quais se acrescentam, todo ano, novas vítimas de um tipo de miséria que só o Estado é capaz de produzir em tais proporções;
  6. Os covardes, que levam flores ao próprio silêncio o próprio silêncio no cemitério da Política;
  7. Os raramente frustrados corruptores, corruptos e criminosos, organizados ou não, hábeis em lidar com nossas piores tradições;
  8. Os submissos a toda sorte de pressões por terem o rabo preso em mãos de quem não se importa de corromper os instrumentos institucionais;
  9. O Consórcio Goebbels, seus membros, seus dependentes e a multidão que seus veículos apartam e manejam no curral das opiniões;
  10. Os mercenários da guerra cultural, bem pagos para atuar na cadeia produtiva da gandaia brasileira, adversários do Bem, da Beleza, da Justiça e da Verdade. 

Vamos combinar que é uma assombrosa parceria, cujo produto só pode ser essa obra prima das malas-artes políticas sob as quais vivemos. Esqueci algum ou alguém?

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

12/07/2025

 

Percival Puggina

         E jogou fora a chave. Há dois ano e meio, Lula e seus companheiros têm um único assunto. É um pacote, que inclui os supostos crimes de tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado, associação criminosa e deterioração de patrimônio público atribuídos às pessoas envolvidas nas ocorrências do dia 8 de janeiro de 2023.

Ali, o novo governo estacionou e envelheceu com as próprias artimanhas. Toda a energia de que dispusesse foi lançada na difusão de uma narrativa para combater seus fantasmas: o bolsonarismo, a direita e o suposto golpismo. Nada mais relevante do que usar o episódio para destruir os adversários.

Governar resumiu-se a espremer ainda mais um limão já ressequido. Refiro-me à empobrecida nação brasileira, que hoje ocupa o 87º lugar no ranking mundial do PIB per capita. Em 1984, nossa posição era a 40ª. Tal decadência, porém, não importa. Aliás, nada mais importa se a base do governo no Congresso Nacional puder sobreviver mediante emendas parlamentares, se a turma de rabo preso se sentir resguardada por seu “bom comportamento”, se o dito “Poder Executivo” preservar seu apoio no STF, se o business não for prejudicado e se a população miserável, cultivada como base do poder político, puder ser demograficamente ampliada com vista ao pleito de 2026.

Fosse o Brasil um paciente, seu boletim médico falaria em vida vegetativa instalada no dia 8 de janeiro de 2023. Mais de 200 milhões de brasileiros querem encerrar esse ciclo vicioso e viciante, mas a organização que segura o leme precisa do assunto para que sua inércia perante os males nacionais e os novos escândalos não transpareçam à opinião pública. Precisa desse funeral da Política e do Direito, da Constituição e de suas instituições, que nos é proporcionado todo santo dia.

Vivemos horas decisivas. Ficou perfeitamente audível que a base do governo acelerou o ritmo da vitrola. Apareceu algo seriíssimo no horizonte. É positivo? Não, é muito negativo, mas acrescenta um inimigo externo a enfrentar e – maravilha! – o petismo percebe que, com apoio do Consórcio Goebbels, dá para pôr na conta de suas vítimas cotidianas.

Apesar de ser tratado por Lula como um inimigo gratuito, por palavras e ações, a carta de Trump deixa bem claras suas motivações e seu interesse em ouvir o que o governo brasileiro tem a dizer. Nosso destino, porém, reservou este momento à presidência de um parlapatão, bravateiro, profissional da mistificação e dos péssimos conselheiros, limo que cresce à sua sombra. Trump chamou Lula para negociar, colocou uma cervejinha sobre a mesa e Lula, que se vê como player de sei lá que jogo, xinga de longe, fazendo cenas grosseiras para faniquitos do que resta de sua torcida.  

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

10/07/2025

 

Percival Puggina

 

“E qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d'água”.

Chico Buarque

         Pôr a culpa nos outros é e sempre foi a grande perícia do grupo político que hoje governa o Brasil. A nação inteira vê o que está em curso desde a vitória alcançada pela direita em 2018. Veem os que vaiam e veem os que aplaudem, ou seja, ver, todos veem. É inútil, portanto, fazer de conta que está tudo normal porque ninguém vaia ou aplaude a normalidade, como tentam os veículos do Consórcio Goebbels, cuja tarefa consiste em colar narrativas e versões com cuspe e saliva.

Quando o Brasil fez o L (ou o L foi feito), o poder político foi assumido por um grupo que reúne o velho antiamericanismo da UNE, o revolucionarismo latino-americano que teve espelho e alma em Havana e um ativismo extremista que faz estragos ortodoxos e heterodoxos na educação, na cultura, na economia e na política brasileira desde os anos 60.

No 6º Congresso do PT em 2017, Lula advertiu: “Portanto, gente, eu não fiquei mais radical, apenas fiquei mais maduro, mais maduro”, numa alusão à sua admiração pela ditadura venezuelana. Esse, aliás, foi um dos muitos temas a que a arbitragem da eleição de 2022 proibiu qualquer menção, impedindo a necessária antevisão do que aconteceu ontem, 9 de julho de 2025.

Há dois anos e meio, Lula recebeu o diploma presidencial numa solenidade em que a plateia, de modo inusitado, serviu ao presidente do TSE aplausos tão longos e mais entusiasmados do que ao presidente diplomado. Seguiu este, desde então, o caminho de todos os revolucionários e ditadores esquerdistas que sempre reverenciou. Cheio desse tipo de “amor” para dar e levando o Brasil de arrasto, deu pitacos na eleição norte-americana e proferiu desaforos a Donald Trump. Aproximou-se dos adversários do Ocidente, do Irã (a cujas pretensões nucleares dá apoio) e dos terroristas que o Irã subsidia. Busca transformar o BRICS – e a reunião desta semana foi a gota d’água – num polo esquerdista para fazer frente aos Estados Unidos e à União Europeia.

“Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia deixa lá sua asa” diz o conhecido provérbio. É o que está acontecendo. Tantas fez o presidente brasileiro, tantas fizeram e seguem fazendo seus apoiadores dentro dessa “casa Brasil” onde todos estamos, que um dia a casa caiu. Ontem foi esse dia. A casa caiu sobre a cabeça de todos nós.

O que faz o petismo desde ontem? Repensa sua conduta? Certifica-se de que Lula está em seu perfeito juízo? Dá uma calibrada no desastroso senso de justiça da esquerda brasileira? Pondera a correção moral de seus atos? Avalia a causa das perdas de apoio que teve? Percebe que se estreitam as paredes do cárcere onde foi enfiada a liberdade de opinião, oxigênio da democracia? Tem um olhar para os pisoteados pelo cavalo de Átila? Escrutinou a natureza de seus parceiros?

Não! Passa a fazer o que mais caprichosamente fazem todos os irresponsáveis: põe a culpa nos outros! Os supostos culpados, então, são buscados no elenco das vítimas, ou seja, o coitado do Bolsonaro, a discriminada direita e os Estados Unidos, frontalmente ameaçados pela ira esquerdista brasileira.  

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.