• Alex Pipkin, PhD
  • 22 Abril 2022

Alex Pipkin, PHD

As instituições e as leis deveriam servir para restringir à violência e assegurar os direitos e as liberdades individuais.

Até mesmo nas sociedades primitivas, os conflitos eram muitas vezes resolvidos de forma moralmente considerada justa, por exemplo, por meio de duelos.
A verdadeira guerra travada pelos togados da Suprema Corte brasileira, refere-se sistematicamente a defesa da democracia e do Estado de Direito, que de maneira genuína dependem umbilicalmente de retidão moral.
O que aparenta, em razão das inúmeras decisões recentes do colegiado da Corte, é que o país vive um período de autoritarismo e de ditadura, justamente a ditadura do judiciário.
Decisões legais impostas pelo STF têm sido arbitrárias, contraditórias e desiguais, indo abertamente contra aquilo que assegura à Constituição nacional.
Evidente que muitas das afirmações do deputado Daniel Silveira são esdrúxulas e ofensivas, porém, estão muito longe de qualquer coisa que vá além da retórica para uma ação objetiva. Neste sentido, a decisão do colegiado de punição, e a dosimetria da pena, parecem desproporcionais e equivocadas, haja visto outros casos de “supostos ataques ao Estado de Direito e a democracia” já julgados distintamente, e/ou ignorados pelo mesmo STF.
O partido da mídia, transparentemente ferrenho defensor da saída do atual presidente do Planalto, em coro tem apoiado às ações inconstitucionais do STF, alegando “atos antidemocráticos” por parte de todos aqueles que discordam dos posicionamentos mais alinhados à ala “progressista”.
Quase sempre os seguidores esperam benefícios tangíveis e/ou simbólicos para empurrar movimentos que os beneficiem, sem a preocupação de que as consequências possam atingi-los.
Não sou jurista, mas prendo-me ao Artigo 53 da Constituição Federal, que diz: “Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos”. Notoriamente, vê-se que há em jogo dois pesos e duas medidas!
A votação desse caso externou, mais uma vez, o franco corporativismo e o lado escolhido pela ampla maioria dos semideuses togados.
O que mais se viu e ouviu ontem na sessão de julgamento, foi o afável viés de confirmação, cegando a referida turma das inegáveis contra-evidências e contra-argumentos, inclusive aqueles grafados na Constituição. Aqui eles não admitem quaisquer pontos de vista conflitantes.
O conflito expresso pelo “nós” STF, e “eles”, põe para debaixo do tapete “vermelho” quaisquer desavenças celestiais, e une o grupo togado com lealdade máxima.
No esfera judicial, assim, chegou-se ao clímax, em que há casos como o do parlamentar referido, sem o devido processo legal, há similarmente distorções e interesses próprios, como na anulação dos casos do ex-presidiário,  além de muitas outras decisões do STF em que se rasga à Constituição e se escolhe um lado para se favorecer e lutar.
Essa turma do STF briga pela sua autopreservação e age de forma imoral, a fim de que o resultado das políticas governamentais continue soprando para as suas bandas.
É irônico e trágico o que está se passando, a olhos nus, na Corte tupiniquim.
Os onze ministros do STF podem até ter interesses distintos, porém, nessa guerra imoral encadeada contra um lado, em defesa da suposta democracia, a grande maioria deles, está unida pela identidade vinculada aos interesses de autopreservação e de seus compadres, portanto, atos ditatoriais são apenas meros instrumentos.
Na retórica, continuam ludibriando com a cena e a palavra “democracia”. Na prática, o STF representa uma ameaça à democracia, e a mais conflitos e violência.

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  • Valterlucio Bessa Campelo
  • 22 Abril 2022

Valterlucio Bessa Campelo

 

 

Em um momento de genialidade dilmesca o ministro do STF, Alexandre Morais, hoje mais conhecido como “xandão”, disse ao universo da Academia Paulista de Letras Jurídicas: “O mundo não muda, o mundo gira. As pessoas não giram, as pessoas mudam”. O problema é quando as pessoas mudam pelo avesso.

Nesta quarta-feira, 20/04, segundo muitos juristas, contra o bom senso, a lógica e a Lei, os que descondenaram um ladrão condenado em TRÊS instâncias para que concorra à eleição, prenderam e retiraram os direitos políticos de um deputado por “crime de opinião” numa sessão inominável. A liberdade parece uma ficção neste país submetido à sanha togada, instrumentalizada pela esquerda sedenta de poder. O alvo principal do ajuntamento é o presidente Bolsonaro que, aliás, precisa chegar hígido às eleições e ganhar com tal diferença de votos que outro resultado seja inverossímil. Entendeu, não é?

Vejo na TV e em sites esquerdistas um esforço gigantesco de guetização da candidatura do Presidente num troço que eles chamam de extrema-direita. Embora não consigam dizer do que se trata efetivamente o epíteto, os objetivos são claros - jogar o PR na extrema-direita significa aplicar-lhe um selo de portador de interesses danosas à sociedade. É a técnica conhecida como falácia do espantalho, em que se cria um monstro fantasioso para que sirva de alvo da narrativa. Difícil é indicar UM movimento, programa, projeto, lei, decreto, seja lá o que for, com origem no governo federal no sentido da tal extrema-direita que ninguém consegue decifrar. Como mentir faz parte da natureza mesma do socialismo, não creio que seja difícil desmascará-lo.

Enquanto isso, a mesma mídia passa pano para a extrema-esquerda, muitíssimo bem representada por grupos travestidos de “organizações populares”, que investem radicalmente contra princípios liberais. Entre elas, o MTST, MST, LCP etc., etc. O próprio Lula da Silva disse recentemente que tais grupos terão forte protagonismo em um eventual governo petista. Com base em suas declarações, pode-se deduzir que, em caso de vitória, a partir de janeiro de 2023 estará aberta a temporada de roubo e invasões de patrimônio alheio. Isto sim é extremismo, é agressão frontal a um princípio básico da Constituição Federal – a propriedade privada.

Quando reflito sobre a liberdade, recorro quase sempre a um economista do século 19, inspirador de ícones como Ludwig Von Mises, Friedrich Hayek, Murray N. Rothbard e muitos outros. Refiro-me a Fréderic Bastiat que em “A Lei”, de 1850, afirma os direitos naturais como princípios de matiz filosófica. Diz ele: “Não é porque os homens aprovaram leis que a personalidade, a liberdade e a propriedade existem, pelo contrário, é porque a personalidade, a liberdade e a propriedade existem que os homens fazem leis… Cada um de nós certamente recebe da Natureza, de Deus, o direito de defender sua pessoa, sua liberdade, e sua propriedade.”. Não poderia ser mais claro.

Hipócritas da espécie lulopetista vão seguidamente aos meios de comunicação se dizer democratas enquanto ameaçam cada um desses direitos. A defesa do aborto confronta a vida, a pretensão de controle da mídia solapa a liberdade, o estímulo às invasões ameaça a propriedade privada. Infelizmente, incautos atraídos “pelo politicamente correto” cedem em fatias (como dizia Hayek) cada um desses direitos, fazendo com que avance a perspectiva de transformação do Brasil em um Estado Socialista que o mesmo Bastiat, já denunciava autoritário e opressor.

É claro que este debate virá à tona durante o processo eleitoral. Apesar da “justiça” atuar a favor da agenda socialista, com fachinices, xandices e barrosidades, antecipando o autoritarismo do tipo restritivo da liberdade de expressão e de acesso às mídias sociais, e dando declarações de alcance internacional tão levianas quanto fora da liturgia de seus cargos, há aqui na planície, um vigoroso movimento de defesa dos direitos naturais. Seu principal líder na atualidade, Jair Bolsonaro, precisa pouco mais do que espelhar Bastiat para agrupar a maioria esmagadora da população que, segundo pesquisas recentes, se declara conservadora.

Sim, apesar de toda a roubalheira que patrocinaram, da desmoralização pública de seus líderes e do atraso a que nos relegaram, eles têm aliados poderosos. Aqui mesmo, neste recanto do Brasil, vi outro dia um desses representantes de “movimentos populares” de invasão de propriedade alheia ser tratado a pão de ló em uma entrevista. Enquanto o sujeito de mãos sedosas derramava seu falatório tão clichê quanto falso em ataque ao direito de propriedade, o entrevistador demonstrava um encantamento digno de uma criança em frente ao picadeiro.

Não restam dúvidas de que depois de quatro anos fora das tetas governamentais, esses grupos farão qualquer coisa para readquirir visibilidade e enganar a população com seu velho canto da sereia igualitário, por mais fracassado que tenha sido em todas as experiências realizadas, incluindo as atuais.

Não por acaso, desavergonhadamente, a eminência parda do lulopetismo, Zé Dirceu, em seguidas declarações vêm alertando para a necessidade de articulação com setores “ao centro”. Percebe o outro descondenado e tutti quanti que de cara lisa, sem máscara nem biombo, falando as suas verdades que escapam aqui e acolá, seu projeto de ditadura socialista naufragará. Nem seus amigos supremos e superiores o salvarão  da avalanche que virá dos “autoritários” que clamam pelo direito à vida, liberdade e propriedade, do “ditador” que grita pelo cumprimento da Constituição Federal.

Para concluir, volto a Bastiat, que xandão certamente leu, mas esqueceu: “...quando um homem é atingido pelo efeito do que se vê e ainda não aprendeu a discernir os efeitos que não se vêem, ele se entrega a hábitos maus, não somente por inclinação, mas por uma atitude deliberada”. Prestem atenção, o jogo não acabou.

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  • Adriano Marreiros
  • 21 Abril 2022

Adriano Marreiros

Dizem que eu odeio Les Non-Magiques. Os Trouxas. Os Não-Magi. Os Sem-Feitiços. Eu não os odeio. Não odeio. Pois eu não luto por ódio. Digo que os Trouxas não são inferiores, mas diferentes. Não são inúteis, mas de distinto valor. Não são descartáveis, mas têm uma disposição diferente.

Grindenwald

(Filme 2: Os Crimes de Grindenwald)

Assisti ao terceiro filme da saga Animais Fantásticos e Onde Habitam.  Ainda bem que nada era realidade.  Seria um mundo de trevas... 

Em todos os filmes, Gellert Grindenwald era sedutor, parecia legal, falava macio, com um tom aveludado... 

Quando uma militante de sua causa tentou atacar um Auror (policial bruxo que atuava contra os bruxos das trevas): aproveitou a legítima defesa dele para inverter as coisas e acusar os Aurores  de serem violentos... 

Dizia que defendia “The Greater Good”, “O Bem-Maior”, que queria evitar uma nova guerras: mas agia como quem viria a provocá-la...  Dizia querer uma “Democracia” bruxa: uma em que a minoria subjugaria a maioria de Trouxas ou Não-Magi, ainda que a maior parte da própria minoria não quisesse isso, apenas os militantes de sua ideologia.  E quem não queria isso: não queria o bem, não queria o bem maior!!!  E quem não queria o bem maior? Só poderiam ser pessoas odientas, que o difamavam, inventavam coisas sobre ele e seus seguidores, que usavam o discurso de ódio contra ele, um iluminado que lutava por uma nova era, pelo bem: e isso é um fato!  E a Liberdade não é para isso, não é para impedir o Bem-Maior, então deveriam ser perseguidos e presos...  Porque ele só queria um “Bem-Maior”...

Chegou a tentar fraudar a eleição bruxa, enfeitiçando a criatura mágica que fazia a escolha, para que ela fizesse o que ele queria: matou-a e transformou-a num zumbi a seu serviço, um inferius[1] animal.  Aliás, ele só concorreu porque seus crimes foram estranhamente anulados por um Ministro: o Ministro da Magia da Alemanha.  Precisava de muita magia mesmo pra anular aqueles crimes. 

Mesmo com tudo isso, até pessoas cultas, algumas até por amor, por ingenuidade, acreditaram quando ele se colocava como um ser de luz, um líder que só queria o bem maior para todos, que lhes daria liberdades.  Outros acharam que poderiam conseguir uma superioridade com tal apoio. Outros queriam lucrar politicamente.  Outros só queriam dar vazão a seus instintos das trevas, integrando uma milícia do ódio – um ódio do bem, claro, com censura, calúnias e perseguição... do bem...  Mas a maioria dos seus seguidores era só tola mesmo...

Voldemort, décadas mais tarde, foi até mais poderoso, até governava no lugar do Ministro da Magia, que era impedido de decidir por meio de feitiços feitos a mando do Lorde das Trevas, por meio de uma Maldição Imperdoável, a Imperius: mas nunca se fez de bonzinho e só conseguiu voltar ao poder porque a imprensa oficial, em conluio com o Ministério, chamava de mentira – fake news – as verdades ditas por Harry e Dumbledore e atacava, censurava e punia quem ousasse repetir essas verdades.  E criaram verdades oficiais...

Mas Voldemort nunca invocou o monopólio da luz: sempre se disse o Lorde das Trevas.  Nunca se preocupou com o bem, nunca negou que para ele só o poder importava.  Nunca se disse democrata: sempre se mostrou ditatorial e com ódio dos opositores. 

Dois lobos violentos e sem escrúpulos: mas só um deles em pele de cordeiro...

       ROSIER: Quando vencermos, eles fugirão das cidades aos milhões. Eles tiveram seu tempo.

       RINDELWALD: Não digamos tais coisas em voz alta. Queremos apenas liberdade. Liberdade para sermos nós mesmos.

       ROSIER: Para aniquilar os não-bruxos.

       GRINDELWALD: Nem todos eles. Nem todos. Não somos impiedosos. O animal de carga sempre será necessário...

       (Também do Filme 2: Os Crimes de Grindenwald)

 *     Compre aqui o livro de crônicas do autor.

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  • Fernão Lara Mesquita, em O Vespeiro.
  • 18 Abril 2022

Fernão Lara Mesquita, em O Vespeiro.

 

Tema recorrente tanto entre os estudiosos do assunto quanto entre os diletantes é o dos ingredientes necessários para uma sociedade migrar para a democracia.

No Capitulo IX de A Democracia na América (1830), a apenas 42 anos de distância da fundação e às voltas com as primeiras tentativas fracassadas de importação do novo sistema para a Europa e outros cantos da própria América, Tocqueville trata das “Principais causas que contribuem para manter a republica democrática nos Estados Unidos”.

Destaco esse manter porque em diversos trechos anteriores do livro ele já tinha tratado dos excepcionalismos que permitiram instalar um governo do povo, pelo povo e para o povo na América, cujas instituições têm por base, não mais a propriedade de tudo pelo Estado que se confunde com o monarca (como continua sendo nas ditaduras e quase ditaduras de hoje), mas a garantia pelo Estado da propriedade privada conquistada com trabalho por cada indivíduo. Foram eles, entre outros menores: a ausência de uma privilegiatura a ser derrubada instalada ha séculos no poder e o sistema de colonização inglês entregue a empresas privadas que, ao oferecer glebas de terra aos plebeus que se dispusessem a povoar os novos territórios criou, pela primeira vez na história da humanidade, uma nação de proprietários.

Neste capítulo Tocqueville já trata de outra etapa do processo e examina os três elementos que o debate de seu tempo apontava como decisivos para a consolidação da democracia americana: as condições físicas dos Estados Unidos que garantem acesso fácil à riqueza, a engenhosidade das suas leis e “os costumes dos anglo-americanos” (hoje dir-se-ia sua “cultura”). 

É para desclassificar os dois primeiros que ele cita a América do Sul cujos povos “estão em territórios com as mesmas condições físicas de prosperidade mas não têm as mesmas leis nem os mesmos costumes e por isso são miseráveis”. E também o México, que “embora situado em território tão rico quanto o da união anglo-americana e tendo-lhe copiado as mesmas leis, não conseguiu adaptar-se ao governo da democracia”. E conclui: “se fosse preciso classificá-las eu diria que (ainda que cada uma tenha seu peso no processo) as causas físicas contribuem menos que as leis, e as leis menos que os costumes”.

É nestes que ele se concentra, então:

“Os povos europeus partiram das trevas da barbárie para avançar para a civilização e as luzes e seu progresso foi desigual. Alguns progrediram correndo; outros avançaram andando; muitos ficaram parados e dormem ainda hoje à beira do caminho. Os anglo-americanos já chegaram civilizados ao solo que sua posteridade ocupa hoje; tinham pouco a aprender, bastava para eles não esquecer (…) São muito poucos os sábios mas não ha nenhum ignorante. A população inteira está entre esses dois extremos (…) O pioneiro da marcha para o Oeste é um homem civilizado que resolveu viver por um tempo na floresta. Avança pelos desertos do Novo Mundo com a Bíblia, um machado e seus jornais debaixo do braço”.

“Não queira fazer um americano falar sobre a Europa. Vai ficar limitado às idéias gerais e indefinidas (…) Mas se você o interrogar sobre o seu próprio país, verá dissipar-se rapidamente essa nuvem. Ele explicará quais são os seus direitos e quais os meios para exercê-los; mostrará que sabe bem por quais regras se pauta o mundo político e que ele está perfeitamente familiarizado com a mecânica das leis”. 

Quem se interroga sobre as condições para a democracia na babel meticulosamente cultivada com deseducação e censura institucionalizadas do Brasil a 192 anos de distância do momento em que Tocqueville o fez e mais de um século depois dos estudos de Max Weber (1905) sobre a relação que há entre a ética protestante, fruto de uma revolução que, mais que religiosa, foi educacional, e o espírito do capitalismo, filho da democracia, sabe bem da importância que essa quase perfeita distribuição do conhecimento entre os colonizadores da América do Norte teve para a fundação do novo regime.

Mas o que Tocqueville quer destacar neste capítulo é, de novo, sua admiração pelo papel formativo que as instituições autenticamente democráticas (inglesas) têm. Um papel tão grande ou maior, acrescentaria eu como brasileiro, que o papel deformativo que têm as instituições anti-democráticas…

Em capítulo anterior já discutido aqui (NESTE LINK) ele dizia, da instituição do júri, sobretudo a do júri para causas cíveis da Inglaterra, que “ele serve para dotar todo e qualquer cidadão da experiência de ser juiz, e essa experiência é a que melhor o prepara para ser livre. Ela reafirma, em todas as classes sociais, o respeito pela coisa julgada e pela idéia do Direito. É a maneira mais eficaz de, ao mesmo tempo, fazer o povo exercer o seu poder e aprender a exercer o seu poder numa democracia”. 

Neste capítulo em que exalta “os costumes dos anglo-americanos”, ele constata que “É participando da confecção das leis que os americanos aprendem a entende-las; é governando que eles aprendem sobre as formas de governo” . Tudo acontece, portanto, de uma maneira orgânica que se auto-alimenta. E então aponta o fator que diferencia “os costumes” dos anglo-americanos dos do resto dos europeus para fazê-los indispostos para a democracia. “Nos Estados Unidos todo o sistema de educação está voltado para a educação política; na Europa o objetivo principal é preparar para a vida privada”. Ou seja, cada qual respondendo à sua própria história, uns aprendem a ser o poder, os outros a defender-se contra o poder.

Democracia, enfim, é sobretudo uma questão de treino. Como tudo o mais nesta vida, só se aprende de verdade fazendo.

Esse é o aspecto oculto que põe em causa a tese da “decadência da democracia americana” muito em voga num mundo quase todo ele jejuno em democracia, onde a imprensa só cobre, dos Estados Unidos, as ações do governo federal, o único espaço que ela compreende porque é aquele em que a democracia quase não entra. O “treino” do cidadão americano que, todos os dias e cada vez mais, decide diretamente, no voto, cada minúcia de tudo que afeta sua vida nos estados e nos municípios onde de fato vive, explica a resistência exasperada que, por falta de lideranças que traduzam e dêem consequência mais prática a essa forma tão rara de força, esse cidadão pleno, desconhecido de quase todo o resto do planeta e menosprezado pela sua própria mídia de massa, expressa de modo inarticulado vociferando na praça pública da internet e “votando contra” muito mais do que a favor do que se lhes apresenta nas eleições majoritárias.

É a censura dessa válvula de escape das praças públicas eletrônicas privadas que é hoje objeto da luta decisiva para a democracia nos Estados Unidos e no mundo que Elon Musk parece ter comprado. Mas isso é tema para próximos artigos.

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  • Jorge Hernández Fonseca
  • 18 Abril 2022

Jorge Hernández Fonseca

 

Com a derrota do marxismo comunista, o atual campo político internacional passa a configurar duas áreas antagônicas: os nacionalistas e os globalistas. Os primeiros priorizam os valores nacionais sobre os laços externos, a exemplo do Reino Unido, que acaba de se separar da União Europeia, consciente de que seus valores nacionais não deveriam estar subordinados aos poderes centralizados por uma representação da "União", muitas vezes contrária aos seus interesses como Nação. Os globalistas (nada a ver com globalização) defendem a "unidade política" de vários países, buscando em última análise um "Governo Mundial".

Claro, existem nuances nesta classificação. A globalização comercial, por exemplo, é um fenômeno defendido e aceito por ambos os lados. A chave é a subordinação política implícita dos globalistas, que os nacionalistas rejeitam. Dito isto, vamos à guerra que Putin declarou contra a Ucrânia sob pretextos duvidosos, senão confusos.

Putin fez da Rússia um país nacionalista que preservou suas raízes históricas, culturais e religiosas e que proclama cultivar seus valores mais tradicionais, mas se posicionando como o centro político de toda a Eurásia, dentro de uma filosofia messiânica russa. Por esta razão, e apesar de ser reconhecido como um país nacionalista, acaba de declarar guerra a um vizinho por nenhum motivo maior do que a preservação de sua “segurança nacional” – entendida como garantia de que seu vizinho atacado não a colocasse em perigo – escondendo seu verdadeiro objetivo: conquistar para a Rússia o país vizinho. Nada a ver com o nacionalismo do século XXI e sim com uma perspectiva "imperialista" de despojar de seu território um país independente, por várias razões falaciosas.

Vejamos. A Rússia de Putin argumenta que grande parte do território da Ucrânia "sempre pertenceu" à Rússia czarista, mostrando sua pretensão imperialista hegemônica, que nada tem a ver com o nacionalismo do século 21 de que falamos antes. Se a Ucrânia existe como país independente, é porque a antiga União Soviética, num primeiro momento, exibiu ao mundo como novas “repúblicas”, partes da antiga União das Repúblicas Soviéticas; mais tarde, quando as diferentes repúblicas antes unidas na URSS se separaram, a Rússia teve participação ativa nas definições então feitas

Se a península da Crimeia era russa e não ucraniana, por que a própria Rússia a tornou parte da Ucrânia quando todas as repúblicas se separaram desde o início? O Mundo sabe de uma Ucrânia independente, com territórios que a Rússia nunca reivindicou: é a Ucrânia que foi membro da antiga URSS e a Ucrânia que se separou da URSS quando esta se desmantelou, que incluiu sempre a região de Donbas (agora reivindicada pela Rússia ) e a península da Criméia, anexada em uma guerra predatória há alguns anos. A Ucrânia é o que a Rússia decidiu que era quando a URSS foi desmantelada e agora, como país nacionalista, não pode reivindicar o que não é seu.

Putin, com esta guerra imperialista, coloca um obstáculo gigante para o nacionalismo como ideologia aceitável do século XXI. A única salvação para os nacionalistas do nosso século é acrescentar uma categorização adicional para impor à Rússia: "país imperialista", independentemente de ter ideias nacionalistas ou globalistas. Impõe guerra a seus vizinhos por objetivos territoriais ou de "segurança nacional" para esconder intenções hegemônicas. Se um Governo Mundial é questionável, pior é um Governo Mundial comandado pela Rússia, assim como proclamam os ideólogos russos que Putin segue.

*         Os artigos deste autor podem ser consultados em http://www.cubalibredigital.com

**        O autor é cubano, engenheiro mecânico, professor em várias instituições universitárias em Cuba e no Brasil, onde vive há 23 anos.

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  • Valdemar Munaro
  • 17 Abril 2022

Valdemar Munaro


Fatos e personagens que credenciam milhões de pessoas à fé e à tradição cristãs são celebrados e revividos particularmente nestes dias, os mais santos do ano. Decorridos dois mil anos, continuam a irradiar verdades e ensinamentos que não encontramos em outro tempo e lugar. Vívidos e densos, demarcam o antes e o depois da história, extrapolam veias teológicas e revelam conteúdos que transcendem o muro das igrejas. Roger Garaudy, intelectual marxista francês, lamentava esquisitamente o 'sequestro' do Galileu pelos cristãos e reivindicava sua devolução à inteira humanidade: "Homens de igreja, devolvei-nos o Cristo!'

Quem, com efeito, de coração simples e honesto, atender aos relatos da paixão do Nazareno não permanece indiferente. 'Divisor de águas', 'pedra de tropeço' no caminho das sabedorias humanas, Jesus de Nazaré é espinha dorsal do destino e sentido do mundo. Gente de toda estirpe, intelectual ou inculta, nobre ou plebeia, rica ou pobre se sente interpelada por aqueles acontecimentos bíblicos. Discorrer sobre 'Deus', segundo Dostoievski, tornou-se assunto manso e contornável se comparado ao 'fato' Cristo que, desde então, engarrafa e complica o emaranhado fluxo de argumentos e discursos que formulamos. Diante do crucificado, 'sábios' se tornam estultos, desprezados e humildes se erguem e são exaltados. Sem Cristo, as coisas teriam outra ordem e viveríamos marasmos existenciais infindáveis como num eterno retorno.

As narrativas relacionadas ao Servo de Javé levam-nos a uma cristologia repleta de abismos físicos, morais e espirituais. Ali se encontram realidades humanas e divinas amalgamadas a acontecimentos e palavras que dão novo significado ao que vivenciamos e fazemos. A cruz de Cristo não é só revelação do Divino antes desconhecido, mas é também revelação dos recônditos e sombrios mistérios que medram as subjetividades. O crucificado misturou-se à nossa condição de criaturas, retratou nossa miséria e/ou grandeza, quebrou o absurdo de nossos sofrimentos, orientou nossa parca e agudizada liberdade, purificou nossa porca, infeliz e anêmica justiça, iluminou nossa carunchada convivência cívica, corrigiu o sentido pálido e obscuro que dávamos à vida.

Embora fosse a encarnação do amor, da justiça e da vida, ele foi crucificado. "Fizemos pouco caso dele", diz Isaías (53). Foi tratado como um idiota e tresloucado quando, na verdade, "tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos; e nós o reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado. Ele foi castigado por nossos crimes e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas" (Is 53).

O conhecido F. Nietzsche (1900), irreverente e alucinado, abriu as portas do século XX, supondo ser porta voz de uma sociedade em decomposição e pôs nos lábios de um louco a notícia do desaparecimento de Deus na alma contemporânea. Exaltando a morte de Deus, concluiu efeitos trágicos como se fossem vitoriosos no seu livro 'Assim Falou Zarathustra': "Como vamos confortar a nós mesmos, os assassinos de todos os assassinos? Aquilo que era mais sagrado e poderoso de tudo o que o mundo ainda possuíra sangrou até a morte sob nossas facas: quem vai enxugar esse sangue de nós? Que água existe para que nos limpemos? Que festivais de expiação, que jogos sagrados teremos de inventar? Será que a grandeza desse ato não é grande demais para nós? Será que nós mesmos não temos que nos tornar deuses apenas para parecer dignos dele? Nunca houve ato maior; e quem quer que nasça depois de nós – por causa desse ato pertencerá a uma história superior a toda história até então".

A 'morte de Deus' não tem lógica, nem é científica (se morrer, não é Deus e se for Deus, não morre), mas se, porventura, alguém conseguir extirpar Deus de sua vida, arcará com as consequências de um crime inexpiável. A mensagem nietzschiana pretende tirar consolação do ato deicida crendo atingir uma superioridade histórica.

É-nos permitido imaginar o esforço de muitos (que vieram antes de Cristo) para encontrar a sabedoria. O matemático Pitágoras (sec. VI a. C.), o 'iluminado' Buda (483 a. C.), o sábio Sócrates (399 a. C.), o filósofo Platão (347 a. c), o grande Aristóteles (322 a. C.), o poderoso Júlio César (44 a. C.) ou o célebre orador Cícero (43 a. C.) são alguns exemplos. Se tivessem encontrado O ressuscitado, provavelmente, descobririam Nele a convergência e a foz de suas buscas sapienciais. A história, porém, diferentemente de Nietzsche, não seria superior em razão do ato criminoso e assassino impetrado pelos homens, mas pelo poder do Crucificado que venceu a morte e o pecado.

Agnósticos e ateus, como podemos ver, sobremaneira entre modernos e contemporâneos, entre eles Kant, Nietzsche, Voltaire, Rousseau, David Hume, Schopenhauer, Hegel, K. Marx, L. Feuerbach, A. Comte, A. Gramsci, Sigmund Freud, Sartre, Marcuse, Camus e outros tantos, incomodaram-se com Cristo (sem conseguir ignorá-Lo ou destruí-Lo) e desprezaram sua herança. Suas posições racionais não os desobrigaram, porém, da insana tarefa de escavar, alhures, motivos que pudessem justificar o empenho humano pela construção das utopias e dos paraísos terrestres.

O que sobrou daquele esforço titânico em achar sentido para um mundo niilista e sem Deus, foi investir e esperar pelo futuro feito não por mãos divinas, mas por homens dotados de ciência e razão. O que esses profetas e cientistas sociais nos propuseram foi, no fim das contas, esperar a conquista ou a chegada de uma humanidade apocalíptica e trágica que se expressará no advento, pelas vias da seiva evolucionista darwinista, de uma raça super humana (na linguagem de Nietzche), espécie de gente potente, delirante e genial, situada acima do bem e do mal, ou, esperar dos mecanismos e segredos da psicanálise por uma civilização desneurotizada e sem traumas, ou, enfim, esperar da força revolucionária, lavada e lavrada na cartilha marxista, por um mundo comunista, sem classes e sem injustiças.
Contudo, paradoxalmente, tais catequeses transformadoras, com sua práxis secular, prometeica e anti-evangélica, ensinam que devemos aguardar os super humanos construídos e moldados por artífices, eles mesmos, quebradiços e doidos (como o próprio Nietzsche que morreu sifilítico e enlouquecido) ou o mundo libertado das neuroses por mãos neuróticas e charlatãs (como as de Freud e seu discípulo behaviorista, J. Watson) ou o mundo livre de injustiças por feitores e arquitetos sociais, injustíssimos, hipócritas e podres (como Marx, Engels, Lenin, Stalin, Che Guevara, Fidel e tutti quanti).

Se, por um lado, há os que rejeitam a 'pedra angular', por outro, há uma gama infindável de pessoas que, ao longo da história, bebeu das fontes cristãs encontrando ali não os fardos pesados, mas a senda do caminho, o bálsamo para suas feridas e tribulações. Não há, para quem quer ser cristão, diminuição alguma de sofrimentos ou dificuldades pelo fato de crer, mas o discípulo que peregrinar este mundo na fé, tem em sua alma a lâmpada que ilumina seus passos. Àquele que caminha na fé, não lhe será tirada, tampouco, qualquer porção de inteligência e liberdade.

F. Dostoievski (1881), romancista russo, concluiu que as tribulações de Cristo são também as tribulações dos cristãos. Não estamos sós, nem somos primogênitos no que fazemos e vivemos. No texto 'O Grande Inquisidor' (extraído de Os Irmãos Karamazov), o autor indica, com rara beleza e profundidade (não visto na teologia oficial) quão próximas são as tribulações de Cristo com as dos homens. Exemplo, são as tentações do deserto (Mt 4).

Com efeito, Cristo, muito antes de ser pregado ao madeiro na Sexta-Feira Santa, anteviu os sinais de sua paixão nas adversidades do deserto. O deserto, como sabemos, está, física e paradigmaticamente, situado em terra virgem ou prostituída. O início de tudo, ninho do big bang, devia ser alucinantemente árido e sem vida, mas, se imaginarmos um futuro totalmente contaminado e destruído, a mesma fisionomia encontraremos lá.
Entretanto, apesar da aridez e da secura, os desertos guardam sementes de vida. Neles moram demônios, mas também raízes de fé e liberdade. Abraão, 'pai dos crentes' peregrinou no deserto, Israel, sua descendência, aprendeu a obediência às Leis e o 'caminho' pascal em desertos. No deserto, bodes expiatórios eram sacrificados, João Batista, à semelhança dos profetas, anunciou a era messiânica e Judas, o traidor, serviu-se dele para expiar seu remorso e se suicidar.

Os evangelistas Mateus, Marcos e Lucas narram que Jesus, conduzido pelo Espírito, foi ao deserto. Lá, depois de jejuar e orar durante os dias que lembram a quaresma, sentiu fome. Do mesmo modo como odores de putrefação atiçam e instigam hienas e cães selvagens saírem de suas sombras para disputar carnes vivas ou em decomposição, a fome desperta e atrai demônios. O homem faminto (de pão e de Deus) se torna presa de satânicos à espreita. Os famintos constituem matéria incandescente à manipulação, à instrumentalização, ao servilismo. A fome e a miséria, postas aos pés de perversos sedentos de poder, tornam-se escabelo no qual quaisquer formas de escravidão se assentam.

Ao sentir fome, Jesus recebeu a visita do demônio que o incitou a fugir da cruz. Do grego diá+bolos, o termo significa 'aquele que divide ou separa'. Se, de um lado, o sym+bolos reúne, ilumina, congrega e une, de outro, o diá+bolos divide, desagrega, confunde. O espírito diabólico é a fonte de conflitos e divisões entre humanos. Onde reina o espírito simbólico tende-se à comunhão, à harmonia, à claridade, à paz. O diabo, ao invés, promotor de conflitos e desvios, não visita Cristo em seu estado confortável; visita-o oportunisticamente em situação 'desértica', de fome e desamparo. Revestido de sorrateira intenção só visa dividir o Filho do Pai e o Pai do Filho.
É em situação de 'deserto' que somos tentados, não inversamente. Sob vicissitudes de fraqueza o diabo tentou Jesus propondo-lhe o milagre, o espetáculo, a autoridade como doces soluções para sua amarga missão.

Propôs-lhe enganosas e fáceis vias de enfrentamento das inevitáveis dificuldades e sofrimentos que a vida contém. Proposta diabólica é vender com 'baixo custo' as plenitudes, as liberdades, a salvação. Todo ser humano, de qualquer época, lugar e condição, nesse quesito, é e será tentado tanto quanto o foi Jesus.

A tentação do milagre pretende que se transformem magicamente pedras em pão. No anseio de riqueza o homem a quer sem o concurso do trabalho. Almeja a colheita do trigo sem o seu plantio, deseja percorrer caminhos permanecendo sentado. É a tentação de ganhar grátis o que muito custa, ter vida cômoda com modos malandros, ter progresso econômico gangrenado com astúcias de corrupção e desonestidade, obter prêmios sem mérito, bônus sem ônus, benefícios sem sacrifícios, pão sem grãos esmagados, prazer sem consciência, amor sem renúncia, nem sofrimento.

O espetáculo, por sua vez, é tentação que pretende transformar o virtual em real, substituindo realismos de acontecimentos e pessoas com ideais desconectados e imaginários. O espetáculo tornou-se a excitante, atualíssima tentação que nos leva para fora do modesto mundo verdadeiro que vivemos, a fim de nos lançar na ilusória fascinação do que ocorre nos filmes, teatros e virtualidades. O tentáculo das realidades virtuais seduz do mesmo modo como Satanás tentou Jesus e os homens do seu tempo. Transformar realidades em sonhos e sonhos em realidades é especialidade do 'diábolos'. O historiador Paul Jonhson nos assegura: os que fustigam para que fujamos do mundo real para irmos ao mundo da imaginação, assemelham-se aos demônios do deserto, nossos inimigos.

A mais terrível e sedutora tentação, enfim, é a da autoridade. Nela se aninha a adaga que atinge o cerne de nossa dignidade. O diabo, levando Jesus para uma colina, lhe disse: "Tudo isso que vês pode ser teu se, prostrado, me adorares". Moral da história: a mais terrível, sutil e perigosa das tentações está aqui, no enxerto sorrateiro de astúcias que conduzem os homens à servidão. A liberdade negociada é o início escravagista. Escravizarmos ou sermos escravizados é ladeira fácil, muito fácil, basta pouco, muito pouco; é suficiente uma dose de beleza, riqueza, poder ou força, uma pitada de fraqueza física ou moral, alguma porção de pobreza, carência, dívida, fome, sede, desejo ou enfermidade. Num toque de magia e sedução nos tornamos sutilmente dominadores ou dominados, escravizadores ou escravizados. A escravidão, quase sempre vista sob óticas exteriores, na verdade, não é um problema apenas histórico, social e político. É também e, sobretudo, drama das interioridades em ação. Sutil e perversamente, o enredo das relações humanas pode nos submeter fácil e flacidissimamente ao domínio dos outros em razão de nossas fraquezas. Mas também, inversamente, podemos nos transformar em astutos manipuladores das vidas alheias em razão de suas fragilidades.


No picadeiro da vida política e social sempre albergamos a companhia de partidos políticos, universidades, escolas, agentes sociais, igrejas, organismos e indivíduos dispostos, com suas ideologias e estratégias, prontos à manipulação. Tais demônios à espreita rondam nossas frágeis e vulneráveis liberdades. Forças diabólicas continuamente regem a vida dos outros sob a alegação de, pela prostração, obter ou dar dignidades. Jesus ensina que rastejamentos não se ajustam à dignidade dos filhos de Deus.

Se a tentação da autoridade engole e cerceia o dom e a graça de nossa liberdade, aprendemos que a prostituição da alma se iguala à morte. A fé autêntica não estrangula liberdades, mas, como diz Dostoievski, dilata. E, no entender de Tomás de Aquino, a fé não nasce do medo, nem da escravidão, mas da confiança, do amor e da liberdade. Não há amor sem liberdade, não há liberdade sem amor. Por essa via, compreendemos que, nenhum outro mestre respeita e promove a dignidade humana quanto Jesus. Nada Ele fez para nos assustar ou seduzir, obrigando-nos a aceitá-lo.
O preço da liberdade, entretanto, se chama responsabilidade. Na vitrine dos tempos hodiernos estão expostos sintomas de uma geração que ama ser livre, mas detesta ser responsável. Naqueles sintomas se escondem as sombras diabólicas, promotoras e difusoras de síndromes como de Peter Pan: a criança que não quer crescer. Alimentada e corroborada por covardias educacionais e ideológicas a síndrome de Peter Pana advoga o direito de não ser adulto e faz crer ser possível a felicidade sem responsabilidade. Todas as reinvindicações em voga estão encharcadas da consciência pelos direitos, mas sofrem anemias quando se trata de deveres. Sovados por doutrinas esquerdopáticas essa síndrome nos persegue dia e noite.

"De todas as tiranias, escreveu o escritor C. S. Lewis, uma tirania exercida pelo bem de suas vítimas pode ser a mais opressiva. Pode ser melhor viver governado por milionários ladrões que por moralistas onipotentes. A crueldade dos milionários ladrões pode às vezes dormir, a cupidez deles pode em algum momento ser saciada; porém aqueles que nos atormentam para nosso próprio bem nos atormentarão indefinidamente, pois fazem isso com a aprovação de suas consciências".

O 'diábolos' nos atormenta a fim de esvaziarmos a consciência das exigências morais. Na esfera política o caso é mais grave. O autor inglês, Kenneth Francis diz: "Não há nada pior que um Estado com uma consciência hiperativa. Como um agricultor excessivamente cioso, que deseja o melhor para seu gado antes que ele seja morto no matadouro. (...)

O marxista italiano Antônio Gramsci (1891 – 1937) disse que a transformação da cultura era de suma importância para a obtenção do poder político. É por isso que países comunistas têm Ministérios da Cultura. E não há melhor jeito de transformar a cultura que com livros, mídia, música, TV, filmes e outros tipos de entretenimento".

Abalroados pelas sutilezas da malícia, somos tentados pelo demônio a buscar não a 'porta estreita', mas a 'larga' que nos levará ao inferno. Na frase dita por um brasileiro bem corroído e corrompido, segundo a qual 'Deus é petista', esconde-se o musgo blasfematório no qual estamos metidos e que nos conduzirá para o brejo. Socialistas como ele, selam esquizofrenias espirituais e morais quando propõem uma cruz sem Cristo e um Cristo sem cruz. É uma ignomínia romântica fazer de Cristo um revolucionário descrucificado, como Barrabás ou Che Guevara. É outra ignomínia abjeta descristificar a cruz pela qual desesperados e miseráveis se desesperam e se miserabilizam ainda mais.

Nos marxismos enrustidos ou proclamados habitam inimigos do Crucificado que, sendo inocente e justo, nenhuma facilitação encontrou (até fel bebeu quando suplicou água) no suplício da cruz. Porcos também comem ou engolem pérolas porque não sabem ou não reconhecem seu valor e seu custo. Ingratidão e orgulho são, portanto, asas morais que guiam essa gente. Em tudo se contrapõem ao crucificado, por isso, o Homem de Nazaré não se ajusta ao petismo e seus asseclas. Destes, livre-nos Deus. E antes que voltem, urge, como Jesus, afastá-los do nosso caminho.
Santa Maria, 14/04/2022

*      O autor é professor de Filosofia na UNIFRA

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