• C. S. Mourão.
  • 05 Agosto 2025

 

C. S. Mourão 

         Não é novidade: o “politicamente correto”, para o bem e para o mal, se consolidou como um dos pilares da retórica pública contemporânea, especialmente em ambientes institucionais, afetos ou não ao direito. No entanto, sua aplicação indiscriminada levanta questões relevantes sobre a autenticidade, a liberdade de expressão e, também, sobre a integridade argumentativa no campo jurídico.

Uma constatação autoevidente, embora simples, é profundamente reveladora: se algo precisa de um advérbio para ser considerado correto, é porque correto – correto mesmo! – não é. Essa percepção, que pode até soar obtusa à primeira vista, desnuda uma contundente contradição essencial — a de que a correção política, muitas vezes, não passa de um mero verniz linguístico aplicado unicamente para evitar desconfortos, angariar simpatias ou sustentar narrativas, e não para afirmar verdades. O modo político, o politicamente, é exata[mente] e magicamente esse verniz, atuando como uma prestidigitação dolosa.

A linguagem jurídica deve ser, antes de tudo, clara, precisa e honesta. O jurista – real ou politicamente falando – não pode se dar ao luxo da ambiguidade calculada, tampouco da dissimulação travestida de gentileza. Quando o discurso jurídico se curva ao politicamente correto, corre-se o risco de sacrificar a verdade em nome da aceitação – e, então, eis aí um farsante.

O papel do operador do direito não é agradar, mas esclarecer. Não é contornar conflitos, mas dirimi-los, enfrentando-os com rigor técnico e coragem argumentativa. A linguagem jurídica não pode ser um campo de evasivas, mas um instrumento de revelação – e revelação sempre pressupõe a verdade!

A própria expressão “politicamente correto” carrega em si uma confissão: a de que a correção, nela, não é natural, mas meramente construída. Não é ética, mas estratégica. O advérbio “politicamente” altera o significado de “correção”, ampliando o seu conceito para alcançar situações não necessariamente corretas; o que nada mais é do que uma mentira funcionando como uma espécie de álibi linguístico, como se a verdade fosse um crime a ser ocultado.

Se há necessidade de um advérbio para qualificar a correção, é porque a correção, por si só, não deve ser tão reta assim. O que é realmente correto não precisa de adjetivos nem de qualificações. É. E basta! (Entre o correto e o incorreto, há muito mais formas de errar do que acertar, porque o acerto e o correto, assim como a verdade, tendem ao Uno, ao passo que o erro, a incorreção e a mentira tendem ao vazio do infinito – e, eventualmente, ao calor do inferno...)

O politicamente correto, enquanto balizador das expressões humanas, serve como mecanismo de autocensura. O medo de desagradar, de ser mal interpretado ou de contrariar expectativas sociais – incluindo aí “expectativas hierárquicas” – passa a ditar o conteúdo das manifestações jurídicas. E isso é muito perigoso.

O silêncio forçado, ainda que polido, é sempre um empobrecimento do debate. A dissimulação, ainda que elegante, é sempre uma forma de omissão. E o direito não pode ser pobre ou omisso. O direito precisa ser abundante e ser dito — com todas as letras, com todos os riscos – e precisa ser preciso, acima de qualquer ênfase, por mais pleonástica que possa parecer.

É possível — e desejável — que o discurso jurídico seja respeitoso. Mas isso não exige a adoção de um vocabulário artificial, nem a renúncia à clareza. A consideração pelo outro não se confunde com a omissão da verdade. O tato não é sinônimo de neutralização do conteúdo. E a elegância argumentativa pode — e deve — coexistir com a firmeza jurídica.

O desafio ao operador jurídico está em dizer o necessário com precisão, consideração e responsabilidade, sem se curvar ao medo de desagradar. A verdade, quando bem dita, nunca é ofensiva, pois é tão somente a verdade – e, se ela dói em você, é porque talvez você não esteja tão certo assim.

Moral da história: Para ser político e correto não é preciso ser politicamente correto (até porque honestidade intelectual é um valor que não transige com eufemismos).

Em Caxias do Sul, 29/07/2025.

 

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  • Francisco Carneiro Júnior
  • 05 Agosto 2025

 

Francisco Carneiro Júnior 

            Ao tentar aniquilar Jair Bolsonaro, o regime brasileiro acendeu um alarme no coração do trumpismo: o de que nenhuma liderança conservadora estaria segura caso o precedente brasileiro triunfasse. A resposta americana, portanto, não é diplomática — é doutrinária. Não protege apenas um aliado: protege um paradigma.

Agora, Brasília encontra-se diante de um dilema insolúvel. A perseguição a Bolsonaro, tratada internamente como jogo de poder, transformou-se em pauta de segurança internacional. Trump, diferentemente dos burocratas do Departamento de Estado, não age com distanciamento tecnocrático: ele age com a força de um imperador pós-moderno, decidido a vingar um aliado que vê como reflexo.

Recuar é admitir fraude narrativa. Avançar é desafiar sanções que podem implodir a economia nacional. A elite brasileira, em seu delírio tecnocrático, criou uma armadilha perfeita: qualquer saída agora significa perder tudo.

Este não é apenas um embate entre um regime e um ex-presidente. É um capítulo da nova guerra civilizacional que divide o Ocidente: de um lado, o globalismo institucional, burocrático, moralmente relativista; do outro, o populismo nacional-conservador, com raízes populares e apelo emocional.

Bolsonaro tornou-se, por força das circunstâncias, um símbolo continental — não apenas do Brasil, mas de toda uma corrente de pensamento em ascensão no mundo. A tentativa de destruí-lo criou, paradoxalmente, sua maior blindagem: a da transcendência política.

O mais devastador nesse episódio é a constatação de que tudo poderia ter sido evitado. Bastava sensibilidade estratégica, leitura geopolítica mínima, compreensão dos vetores do poder em 2025. Mas a elite brasileira, viciada em sua bolha midiática e seduzida por sua autopercepção iluminista, riu de Eduardo Bolsonaro e ignorou os sinais gritantes que vinham do norte. As visitas a Mar-a-Lago. Os acenos de Trump. As falas inflamadas de congressistas republicanos. A cobertura intensa da mídia conservadora americana. Tudo foi tratado como ruído. Agora, é tarde.

O terremoto político reverbera para além das fronteiras. Governos latino-americanos observam com atenção: se os EUA intervêm — política e economicamente — para proteger um ex-presidente em outro país, qual será o novo limite do jogo hemisférico? A lição é clara: o preço da repressão política interna pode ser cobrado em escala internacional.

E, num paradoxo cruel, o regime que buscava apagar Bolsonaro do mapa político acabou por elevá-lo à condição de ícone continental.

Quando a história se vira contra os arquitetos do poder

Não há mais zona cinzenta. Ou se rende completamente — com anulação de processos, restauração de direitos políticos e reconhecimento de abusos — ou se enfrenta o colapso: econômico, diplomático e moral.

O regime criou uma armadilha da qual não consegue sair, porque a própria sobrevivência passou a depender da destruição de um homem — e, agora, desse homem depende a estabilidade do país.

Os historiadores do futuro serão implacáveis. Identificarão 2025 como o ano em que o Brasil selou seu destino como peão no tabuleiro de uma nova guerra ideológica global. Não foi a desigualdade. Não foi a polarização. Não foi a corrupção. Foi a cegueira estratégica.

Tentaram destruir um homem. Destruíram a si mesmos.

E o homem de quem riam, por “fritar hambúrgueres” em Missouri, agora observa — sereno, estratégico, firme — enquanto seus adversários marcham em direção ao colapso que eles próprios arquitetaram.

A História, afinal, não perdoa arrogância acompanhada de ignorância. E jamais subestima os homens que, em silêncio, constroem o futuro.

*             Francisco Carneiro Júnior é autor da tetralogia "O Silêncio das Noites Escuras — Guerra, terrorismo e operações especiais".

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  • Rubem Sabino Machado
  • 01 Agosto 2025

 

Rubem Sabino Machado 

          Magnífico reitor! Já que não sou cronista de verdade, eu queria ser magnífico em alguma coisa... Hoje meu sonho é ser reitor pois, brilhante ou medíocre, bom ou ruim, de faculdade relevante ou fraca, eu seria magnífico.  E ser magnífico é tudo de bom, como aguardei por essa notícia, em vão: nunca consegui porque não sou sequer acadêmico, nem do Salgueiro...

Falando de samba, será que presidente de escola de samba também é magnífico?  Acho que o presidente de honra sim, e ai de quem não o chamar assim... Ai até de quem pensar diferente disso e de quem pensa diferente dele: estaria sujeito a sanções magníficas e que chegam a dar um frio na espinha.  Melhor nem pensar nas consequências...

Já que não consigo aqui nesta terra, será que consigo algo de magnífico fora dela?  Sim, consigo, os astros de nossa galáxia não magníficos e, com eles eu poderia me consolar por não sê-lo: e por ser mera poeira de estrela...  Fui pesquisar no Google para comprar um telescópio e até nisso me sinto um fracasso.  Não entendo nada do que dizem.   Tem, por exemplo, um cara reclamando que: “tenho usado uma barlow 2x para alcançar o foco com a câmera.  Depois de alguma pesquisa e matemática, descobri que a razão  é que a  câmera, em adição à Barlow está muito magnificada para capturar luz suficiente para objetos do espaço profundo”. 

Minha cabeça se encheu de dúvidas realmente magníficas – será esse tal “espaço profundo” aquela galáxia muito distante onde coisas aconteceram há muito tempo?  Haverá nela, realmente a magnífica Ordem Jedi?  Conseguirei ver a Estrela da Morte se a magnificação não estiver excessiva?  E que raio de magnificação com barlow é essa? – desisti de comprar o telescópio...  Minha ignorância é magnífica e iria jogar dinheiro fora.  Aliás, os preços de telescópio estão magníficos de tão altos, para dizer o mínimo.  E há quem diga que serão ainda magnificados.  Mas sempre haverá Miami para tentar comprar mais barato.  Preciso tirar o visto...

Ligo o rádio e Júlio Fürst, que todos referem como o mestre de todos – e realmente é um locutor magnífico – está no ar com seu programa As Magníficas:  finalmente posso curtir algo magnífico, músicas fantásticas, e sem precisar sair daqui, porque não estou podendo no momento: estou devendo muito...

Escrita a crônica e consciente da minha pequenez, encontro ao menos consolo na Magnificat, oração de Nossa Senhora que bem fala no poder do Senhor sobre os soberbos e poderosos e que ele exalta os humildes.  Não preciso, mesmo ser magnífico. Amém.

*O autor é cronista fictício e um magnífico medíocre, mas tem Fé no Senhor...

In God we trust!

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  • Dartagnan da Silva Zanela
  • 31 Julho 2025


Dartagnan da Silva Zanela 

         Já faz algum tempo que, em nosso triste país, adota-se a prática daquilo que se convencionou chamar de "progressão continuada" que, em resumidas contas, é o exercício da aprovação pela aprovação.

Podemos dizer que tal prática, há décadas envenenando o sistema educacional, seria similar à atitude de um médico que, levianamente, daria alta ao seu paciente, não porque ele está com sua saúde restabelecida, mas sim porque o prazo estabelecido para o fim do tratamento findou.

Falando nisso, lembro-me de uma reportagem de 2006, se não me falha a memória, que apresentava um pai que foi até as autoridades competentes questionar a razão pela qual o seu filho havia sido aprovado (por conselho de classe), sendo que o "abençoadinho" tinha reprovado com notas baixíssimas em cinco disciplinas.

O pai, com a simplicidade daqueles que veem o óbvio ululante, perguntava: "Mas se ele não aprendeu, por que ele está sendo aprovado?"

O ponto em questão, na reportagem, era a pressão que os professores sofriam – e sofrem – para aprovar os alunos e, assim, gerar números bem vistosos, com toda aquela purpurina publicitária que, hoje, mais do que nunca, é utilizada aos borbotões, sem a menor cerimônia, pelos Estados que se gabam de ter "a melhor educação da Via Láctea".

Ora, qualquer um com um mínimo de juízo e bom senso percebe, mais do que depressa, que um cenário desse naipe não é apenas ridículo, mas perigoso.

Quando as escolas e colégios são pressionados a manter índices de aprovação elevados que não condizem com a realidade – para poder obter números bonitinhos, mas ordinários –, as autoridades responsáveis pelo ordenamento do sistema de ensino, sem querer querendo, estão mandando o seguinte recado para toda a sociedade: não é necessário esforço individual para aprender – o que, como todos nós sabemos, é uma grande mentira e, como toda mentira tomada como princípio, acaba fomentando uma série de outros problemas e equívocos que terminam por desvirtuar totalmente o ambiente escolar, inviabilizando o trabalho docente.

Tão desvirtuado que, atualmente, acha-se aceitável que crianças e adolescentes se recusem a aprender. Dito de outro modo: acha-se aceitável que alguém, com atos indolentes e de forma displicente, prefira abraçar a ignorância presunçosa em vez do humilde caminho da procura pelo saber.

*         O autor, Dartagnan da  Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO", entre outros livros.

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 30 Julho 2025

 

SELO -CUMPRA-SE-

A rigor, praticamente tudo que estava ao meu alcance com o propósito de explicar e/ou tentar convencer que as MANOBRAS E DECISÕES que vem sendo tomadas pelo governo LULA, a maioria delas -senão todas- devidamente VALIDADAS pela SUPREMA CORTE -com o irremovível LACRE onde se lê a palavra -CUMPRA-SE-, não são simples OBRAS DO ACASO. Todas, repito, são FRUTOS DE EXPERIÊNCIAS contidas na CARTILHA elaborada pelo FORO DE SÃO PAULO -ORGANIZAÇÃO COMUNISTA DA AMÉRICA LATINA E CARIBE - que reúne governantes de CUBA, VENEZUELA, NICARÁGUA e BRASIL, entre outros...

 SOBERANIA DE LULA

No nosso cada dia mais empobrecido Brasil, o presidente LULA achou por bem que era hora de -MANDAR ÀS FAVAS OS ESTADOS UNIDOS -PAÍS CONSIDERADO NO MUNDO TODO COMO -SÍMBOLO DA LIBERDADE-. Mais: a cada pronunciamento, sendo contrariado ou não, LULA se defende com o escudo da FALSA -SOBERANIA-, que no entender do COMUNISTA significa que apenas ele tem o DIREITO DE FALAR, TOMAR DECISÕES e EXERCER CONTROLE SOBRE O QUE ACONTECE -TANTO NO BRASIL COMO FORA DELE-. 

 AFIRMAÇÕES E AS RESPECTIVAS FONTES

Pois, a título de informação e esclarecimento, vejam aí algumas de tantas afirmações feitas pelo COMUNISTA -SOBERANO-: 

1- LULA SUGERIU -ABERTAMENTE- QUE A VITÓRIA DE TRUMP SERIA O NAZISMO COM OUTRA CARA. Fonte: OP NEWS.

2- LULA DIZ QUE ISRAEL COMETE GENOCÍDIO E FAZ ALUSÃO À MATANÇA DE JUDEUS POR HITLER. Fonte: CNN.

3- CRISE LULA X ISRAEL SE ACIRRA E GERA IMPASSE DIPLOMÁTICO. Fonte: Boletim Metrópole.

4- TRUMP GOVERNA OS EUA, NÃO O MUNDO, CRITICA LULA. Fonte: Radio Tupy.

5- LULA CRITICA AÇÕES DE TRUMP: - "NÃO FOI ELEITO PARA SER XERIFE DO MUNDO-" Fonte: Boletim Metrópole.

6- LULA DEFENDE CRIAÇÃO DE MOEDA PARA NEGOCIAÇÃO ENTRE PAÍSES DO BRICS. Fonte: CNN.

7- POLÍTICA ECONÔMICA: LULA CRITICA DÓLAR COMO MOEDA DOMINANTE NO MUNDO. Fonte: CNN.

 PLACA NADA SOBERANA

Vale lembrar, com a mesma ênfase, o papel NADA SOBERANO do presidente LULA , ao fazer questão de ser fotografado segurando uma PLACA NADA SOBERANA, com a frase -CRISTINA LIBRE-, em referência e apoio à ex-presidente da Argentina -Cristina Kirchner-, que cumpre prisão domiciliar em Buenos Aires. DETALHE SOBERANO: Cristina Kirchner foi condenada a SEIS ANOS DE PRISÃO E INELEGIBILIDADE PERPÉTUA POR ENVOLVIMENTO EM UM ESQUEMA DE CORRUPÇÃO COM OBRAS PÚBLICAS DURANTE SEUS GOVERNOS.

  

 

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  • Alex Pipkin, PhD
  • 30 Julho 2025


Alex Pipkin, PhD 

            Acabando de prestar uma consultoria online, olhei meu feed e, casualmente, me apareceu uma daquelas falas simples, diretas, que deveriam ser recebidas com um aceno de cabeça e um “é isso aí”. Um executivo de sucesso defendendo aquilo que qualquer ser humano minimamente desperto já deveria saber. Sim, é preciso estudar, ler, trabalhar duro e, vejam só, aparecer fisicamente no trabalho. A receita é antiga e, talvez por isso mesmo, eficaz. Há sabedoria nos costumes, nas tradições que resistem ao tempo. Como dizia Chesterton, tradição não é o culto às cinzas, mas a preservação do fogo. Mas o espírito da época, com sua obsessão pela reinvenção constante, despreza o que foi testado pela realidade.

O que me espanta não é a fala em si, mas a reação. A gritaria e a indignação automática. Não vieram apenas dos comentaristas profissionais, mas também de jovens, de trabalhadores, de estudantes comuns, já condicionados a enxergar em todo sucesso alheio uma estrutura de opressão. E o argumento-padrão, previsível como uma senha fraca, logo apareceu: “fácil falar quando se nasceu privilegiado”. Como se o fato de alguém ter vencido o tornasse automaticamente indigno de dizer a verdade. Como se o mérito, o esforço e a dedicação fossem privilégios exclusivos, inatingíveis para a maioria que, na visão deles, estaria condenada à eterna opressão e à exclusão.

Para essa geração que almoça ressentimento e janta inveja, qualquer menção ao esforço pessoal é violência simbólica. O mérito virou farsa. O talento então, um privilégio estrutural. Claro que a ambição é vista como um crime. O esforço se tornou um conceito datado, uma ideia ultrapassada, inadequada a um mundo que preferiria premiar a reclamação incessante e a vitimização crônica, em vez da superação e da responsabilidade.

Evidente que nem todos partem do mesmo ponto. A desigualdade existe, e é uma realidade inegável. Mas será que, por isso, o esforço deixou de ser necessário? Será que o caminho para a realização pessoal e profissional foi definitivamente trancado por barreiras intransponíveis? A quem serve esse discurso que infantiliza indivíduos e os liberta da responsabilidade sobre a própria vida? A quem interessa essa cultura do mimimi que transforma todo fracasso pessoal em uma culpa coletiva?

Conheço gente que trabalha o dia todo e, à noite, estuda. Que acorda mais cedo para ler, que dedica o fim de semana a construir um futuro que não virá por decreto nem por militância. Gente que prefere a solidão crítica da leitura ao conforto da aprovação fácil. Eu, por exemplo, sou um leitor contumaz. Adoro conversar com aquele amigo que não fala. O livro. Ele me escuta em silêncio, e quando fala, é com uma lucidez que raros humanos alcançam. É um diálogo silencioso, mas profundamente transformador, exigindo paciência, dedicação e um grau de autocrítica que a maioria não quer cultivar.

A crítica ao trabalho presencial vem da mesma lógica. Recusa-se o convívio, a troca, o acaso produtivo das conversas de corredor. Querem reduzir a experiência humana ao conforto do isolamento, como se a distância e a frieza virtual fossem suficientes para gerar crescimento, aprendizado e oportunidades reais. Esquecem que o mundo real — e as oportunidades — não chegam por e-mail.

No fundo, parece-me que o que incomoda não é a fala. É o espelho. Aquele que reflete o que eles mais temem ver, ou seja, sua própria irrelevância diante da realidade.

 

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